



H cinco anos, a vida de Laura Townsend ficou quase destruda devido a uma leso cerebral que lhe afectou enormemente a fala e a forou a abandonar uma brilhante
carreira. No entanto, apesar das dificuldades, ela nunca perdeu o seu esprito luminoso. Agora tem um bom emprego numa clnica veterinria - e um lindssimo patro
que enche o seu corao de sonhos. Mas o veterinrio Isaiah Coulter merece uma mulher que consiga estar  sua altura. E Laura conclui que, por vezes, amar um homem
significa deix-lo seguir o seu caminho...
Quando Isaiah contratou Laura no estava  espera de uma to grande lufada de ar fresco. Impressionado pela sua sensibilidade - e assombrado pela sua desconcertante
beleza - Isaiah apaixona-se. E agora est disposto a mover o cu e a terra para lhe demonstrar que ela  a mulher que ele precisa - a nica que conseguir trazer
o sol para a sua vida.



arcdia
 uma chancela
                                               babel



O SOLDA MINHA VIDA
Catherine Anderson

Ttulo original
My Sunshine

Edio (c) BABEL, 2011
Copyright (c) Adeline Catherine Anderson, 2005

TRADUO
Carlos Silva

REVISO
Mrio Azevedo

Este livro foi composto com
o tipo Minion Pro e impresso na Multitipo
 para a Arcdia em Setembro de 2011

ISBN
978-989-28-0058-5

DEPSITO LEGAL
332 693/11

BABEL
AVENIDA ANTNIO AUGUSTO AGUIAR 148, 6.
1069-019 LISBOA Portugal 
tel.: +351 213 801 100 
fax: +351 213 865 396 
e-mail: babel@babel.pt

www.babel.pt



O Sol da Minha Vida
Catherine Anderson
Traduo de Carlos Silva

































































arcdia
























Este livro  dedicado ao reverendo James Radloff, conhecido pelos
seus paroquianos como padre Jim, um sacerdote que tocou inmeras
vidas, incluindo as nossas. Como escritora, encontro-me muitas
vezes com falta de palavras, mas por vezes os sentimentos so
demasiado profundos para poderem ser expressos com simplicidade.
Portanto, eu recuo na simplicidade e digo simplesmente "Obrigada".
Obrigada por ser um sacerdote to maravilhoso e dedicado.
Obrigada pela sua amizade e orientao. Obrigada por estar sempre
presente. E, por fim, mas no menos importante, obrigada por todos
os maravilhosos seres de segunda-feira.



   Prlogo










    Os relmpagos faiscavam no cu plmbeo, cada descarga brilhante logo seguida de um ensurdecedor ribombar de trovo. A chuva metralhava o veculo como se fosse
gravilha grossa a bater em chapa metlica. Espreitando pelo pra-brisas, Isaiah Coulter mal conseguia descortinar as casas que se alinhavam ao longo da rua bordejada
de rvores. Assustava-o a ideia de atravessar a correr os quinze metros que o separavam do alpendre de entrada da residncia suburbana dos seus pais. No era a primeira
vez que pensava, desde que aquela tempestade comeara, que deveria ter-se lembrado de pegar num casaco quando saiu de casa nessa manh.
    Quando abriu a porta do Hummer, a manga da sua camisa ficou imediatamente encharcada e gelada, graas ao vento glido vindo das altas montanhas que descia sempre
sobre Crystal Falls, no estado de Oregon, quando a luz do sol de Outono ficava obscurecida por nuvens. Isaiah cerrou os dentes, saltou do veculo e desatou a correr
atirando com a porta atrs de si.
    A gua escorria-lhe pela cara quando chegou ao alpendre, e farripas gotejantes de cabelo castanho-escuro colavam-se-lhe  testa. Praguejando entre dentes, penteou
o cabelo para trs com dedos encharcados e sacudiu inutilmente a camisa ensopada.
    - Me? - gritou ele, ao abrir a porta da frente. - Sou eu, Isaiah!
    Enquanto limpava os ps no tapete da entrada, Isaiah passou o olhar pela arrumada zona de estar, mal registando quaisquer pormenores por a moblia e a decorao 
lhe serem to familiares. Na parede mais comprida, as caras dos seus irmos, para alm da sua, olhavam para ele de inmeras fotografias emolduradas, um registo pictrico 
das suas vidas desde a infncia  idade adulta. Os aromas deliciosos de tarte de ma quente e de caf acabado de fazer acolheram-no quando ele avanou um pouco 
mais pelo aposento.
 -Na cozinha, filhinho! - gritou Mary Coulter.
    Seguindo o cheiro e o som da voz dela, Isaiah passou pela porta em arco. De p junto ao balco da cozinha, a me lanou-lhe um sorriso de boas-vindas. Com as 
suas faces rechonchudas e rosadas, o seu cabelo escuro a tombar-lhe em caracis soltos em volta do rosto, ela era, aos olhos de Isaiah, to bela aos quase sessenta 
anos quanto o fora vinte anos antes.
    - Como est a minha rapariga predilecta? -perguntou-lhe ele.
    - Humpf - respondeu ela, com um abanar da cabea. - E no  isto um desperdcio? s o mais bonito de todos os meus filhos e ainda ests solteiro!
    Isaiah sabia muito bem que no era a cria mais bonita da ninhada. Na verdade, tanto ele como os seus irmos eram cpias a papel qumico do pai e pareciam-se
bastante uns com os outros. Quanto a ser solteiro, ele preferia assim. A medicina veterinria era um campo exigente, deixando-lhe pouco tempo livre para relacionamentos
pessoais. Um dia, quando a sua vida se tornasse menos agitada, ele poderia pensar em assentar, mas por agora precisava de se manter concentrado na carreira.
    - Ora, me...- respondeu ele num tom de bartono lamentoso, a sua resposta habitual quando Mary o espicaava para que se casasse.
    - No me venhas com o "ora, me". Olha para ti, Isaiah Joel, encharcado at aos ossos e com os lbios roxos de frio! Precisas de algum com bom senso para cuidar 
de ti -disse-lhe ela, atirando-lhe uma toalha. - Enxuga-te o melhor que puderes antes que comeces a largar poas no meu cho. - Olhou-lhe para as botas. 
    - Se andaste a pisar bosta de cavalo, dou cabo de ti!
    Apanhando a toalha no ar comuma mo, Isaiah enxugou a cara e a nuca.
    As minhas botas sofreram uma lavagem  presso quando atravessei <> relvado, e esfreguei-as no tapete. Quanto aos meus lbios estarem roxos,  porque est um 
frio de rachar l fora.
    - Os teus lbios esto roxos porque  Outubro e ests sem um casaco vestido. Um homem com o teu quociente de inteligncia devia saber isso.
    - Eu sei. S que me esqueci.
    - Esquecer-te-ias da cabea se no a tivesses presa aos ombros. Sempre nas nuvens, este rapaz, sempre embrenhado em altos pensamentos e esquecido de tudo o resto.
    - Estava sol quando sa de casa esta manh.
    - Pega na camisola do teu pai que est a pendurada nas costas dessa cadeira e veste-a. Ainda apanhas uma pneumonia se continuares a andar por a com essa roupa 
encharcada no corpo.
    Isaiah sentia mesmo frio. Despiu rapidamente a camisa molhada, tirou um saco de plstico do porta-sacos de pano pendurado num gancho da porta da cozinha, e enfiou 
nele a camisa. Pouco depois, quando enfiava a camisola do pai pela cabea, ouviu a me a estalar a lngua e a dizer:
    - Tens as costelas  mostra, Isaiah Joel. Garanto-te, um vendaval levava-te como a uma folha.
    Isaiah sabia muito bem que no era assim to magro.
    - Ora, me!
    Habituado s repreenses da me, Isaiah curvou-se para a beijar na cara antes de se sentar numa cadeira  mesa redonda de carvalho que estava a um canto da cozinha.
    - Bolas, como essa tarte de ma cheira mesmo bem!
    - Fi-la especialmente para ti - disse Mary, tirando dois pratos de tarte do armrio e dedicando-se  tarefa de cortar as fatias da sobremesa.
    J no so poucas as vezes em que eu pressinto de antemo quando tu vens.
    - Se a tarte de ma  a minha recompensa, vou comear a telefonar- te antes de vir.  a minha favorita.
            Mary sorriu.
    - Sim, eu sei. Sou tua me, lembra-te.
    - Obrigado por me teres feito uma tarte, me. Foi muito querido da tua parte. - Isaiah recostou-se na cadeira. - Onde est o pai?
    Mary largou um suspirozinho agudo, dando a entender com um leve encolher de ombros que as suas chatices como esposa de Harv Coulter eram mais do que muitas.
    - Ele saiu de manh cedo para ir ter com o Zeke ao bar da Natalie. Houve qualquer coisa que se avariou no sistema de refrigerao, creio eu. Depois disso, ele 
ia ao Lazy J para ajudar o Hank a reparar a vedao. As costas dele tm-lhe estado a dar problemas toda a semana, mas achas que isso o refreia?
    - Ele gosta de ajudar no rancho, me. L por estar reformado no quer dizer que tenha de parar de viver.
    - Eu sei - retorquiu Mary, com outro suspiro. - E o Jake e o Hank precisam agora mesmo de ajuda. Com a Molly outra vez de beb, e a Carly a tentar cuidar de 
um beb to pouco tempo depois da operao  vista, ambos os teus irmos esto bastante atrapalhados.
    Isaiah estivera to ocupado que quase se esquecera da operao  crnea da cunhada.
    - Como  que est a Carly?
    - Est bem - Mary mostrou um sorriso de agrado enquanto lambia do dedo um pedao de recheio da tarte. - Ela consegue ver, pelo menos. O maior problema nesta 
altura  reeducar aquela coisa...
    - O crtex visual dela - sugeriu Isaiah.
    -  isso - concordou a me, acenando com a cabea. - Todos esses termos mdicos entram-me por um ouvido e saem-me pelo outro. O Hank telefonou ontem  noite. 
Comprou fita isoladora vermelha e marcou com ela o rebordo de todos os degraus, de modo a que a Carly possa ver onde acaba um e comea outro. Ontem, ela quase que 
caiu no alpendre de entrada, quando levava o Hank Jnior ao colo.
    Isaiah piscou os olhos.
    - No admira que o Hank esteja a colar fita isoladora nos degraus.
    - Ele acha que isso ajuda disse Mary, abrindo outro armrio e tirando dele duas canecas de caf. - Sem percepo de profundidade, ela no consegue ver bem os 
degraus.
    Apreciando o calor que ainda irradiava do forno, Isaiah suspirou e flexionou os msculos dos ombros. Era estranha, pensou, a rapidez com que conseguia sempre 
relaxar na cozinha da sua me. Presumiu que fosse por o aposento ser um reflexo da prpria mulher: pequena, viva, atarefada e cheia de amor.
    O amor de Mary Coulter pelos seus filhos era notrio para onde quer que ele olhasse. Todas as superfcies disponveis estavam repletas de marcas de mos em gesso, 
retratos da escola, projectos artsticos amarelecidos pela idade e coisas patetas que ele ou os irmos tinham dado  me ao longo dos anos, incluindo uma prateleira 
de bric--brac atulhada com uma srie de obsoletos isoladores cermicos de um poste de mdia tenso, que Isaiah e o seu irmo gmeo, Tucker, trouxeram para casa 
num dia longnquo. Mas actualmente parecia que Mary comeara a coleccionar lembranas dos netos. As botinhas de beb do filho do Jake encontravam-se pregadas s 
cortinas brancas frisadas da janela, e toda a frente do frigorfico desaparecia debaixo das criaes a pastel da criana, sendo que todas elas no passavam de garatujas.
    Normalmente, Isaiah no gostava de confuso, mas de algum modo a sua me conseguia que aquilo resultasse. As paredes cheias de coisas e as manchas de cor no 
eram somente agradveis  vista como tambm estranhamente relaxantes. A tenso que lhe criara ns nos ombros durante todo o dia dissipava-se ao recostar-se na cadeira. 
Observava a me com um leve sorriso. At o avental dela o fazia recuar nos anos, uma coisa branca e pregueada, com bordados sobre os bolsos, que ela usava desde 
que ele se conseguia lembrar.
    Como sempre, ela tagarelava sem parar enquanto trabalhava, lanando-se numa histria acerca da neta de uma vizinha enquanto tirava meio galo de gelado de baunilha 
do congelador e vasculhava uma gaveta  procura da concha. Isaiah ouvia sem prestar grande ateno, com a mente numa vaca que tratara nessa manh.
    - De qualquer modo - disse Mary, enquanto avanava para a mesa -pedi-te para passares por c porque tenho uma ideia que quero partilhar contigo.
    Isaiah aceitou o prato que a me fez deslizar sobre a mesa na sua direco.
    - Uma ideia acerca de qu? - perguntou ele, enquanto metia  boca uma garfada de fruta sumarenta e folhado estaladio que escorria gelado a derreter.
    - No  de qu, mas de quem - corrigiu Mary. Depois de encher duas canecas com caf a escaldar, ela voltou para a mesa e sentou-se do outro lado, de frente para 
ele. -  acerca da Laura, a rapariga de quem te tenho estado a falar.
    Isaiah no se recordava de a me dizer o que quer que fosse acerca de uma pessoa chamada Laura. Lanou-lhe um olhar desconcertado.
    Mary bufou, exasperada.
    - Tens estado a ouvir?
    Isaiah engoliu e assentiu com a cabea.
    - A maior parte.
    - A maior parte?
    Ele pousou o garfo no prato.
    - Desculpa, me. Tenho andado um pouco distrado.
    - O que , desta vez? -perguntou-lhe Mary, com resignao. - Espero que no seja a morte de outro rato.
    Isaiah estremeceu com a lembrana. H dois meses, uma nova tcnica preparara o rato de estimao de uma senhora para cirurgia abdominal. Depois de ter depilado 
o ventre do roedor, ela tentou aspirar o plo cortado e por azar tambm aspirou o rato. Coube a Isaiah explicar o falecimento inesperado do rato  respectiva dona. 
No foi um dos seus melhores momentos como veterinrio.
    - No, no  um rato, graas a Deus. Desta vez  uma vaca. Infeco uterina. Fiz-lhe trs lavagens e injectei-lhe todos os antibiticos conhecidos. Se esta ltima 
dose no resultar, vou ter de a abater. O fazendeiro  um tipo novo com uma famlia a aumentar. No pode dar-se ao luxo de a perder.
    Mary debruou-se por cima da mesa para afastar uma madeixa de cabelo dos olhos de Isaiah.
    - Oh, meu querido, estou to preocupada contigo!
    Isaiah agarrou-lhe o pulso para lhe beijar a ponta dos dedos.
    -Eu estou bem, me. Apenas muito atarefado; e  tudo.
    -No ests nada bem - insistiu ela. - Olha para ti. Isaiah olhou para baixo.
    - O que  que se passa comigo?
    - Para comear, perdeste peso. E o teu cabelo est to comprido que quase te chega ao colarinho. E onde  que foste desencantar aquela camisa que trazias vestida? 
Parece que dormiste com ela.
    Isaiah encolheu os ombros.
    - Ela parecia amarrotada porque estava molhada.
    - Molhada uma ova... estava toda enrugada.
    - Esqueci-me de a tirar da mquina de secar,  tudo. Sacudi-a e vesti-a. Mary revirou os seus olhos azuis para o tecto.
    - E o teu peso? De certeza que no ests a comer bem. O que foi o teu pequeno-almoo?
    Isaiah tentou recordar-se, mas no conseguiu.
    -Iogurte, provavelmente. 
    -Provavelmente? 
    -Houve um co que foi atropelado, me. Estive a operar desde as seis e quarenta e cinco.
    -Portanto no tomaste o pequeno-almoo - concluiu Mary, acenando judiciosamente com a cabea. - E o almoo? Diz-me por favor que comeste alguma coisa.
    Isaiah engolira uma embalagem de bolos Twinkies e um pacote de bolachas de queijo Cheese Nips entre visitas domicilirias a ranchos.
    -Comi enquanto conduzia - confessou, olhando culpadamente para as mos, esperando que os seus dedos no estivessem amarelados. - Eu estou bem, fica descansada.
    -Ah! Se h um homem que precisa de uma mulher para cuidar dele, s tu.
   - Voltamos a isso agora? - casquinou Isaiah. - No te esforces tanto comigo, me. Como se o meu casamento fosse resolver tudo, no?  uma nova gerao. As raparigas 
de hoje no ficam em casa a cuidar dos maridos. Tm carreiras exigentes, e  assim que deve ser.
   - Ainda deve haver por a algumas raparigas  moda antiga.
   Se assim era, Isaiah no encontrara nenhuma. E no era por no ter procurado.
   - Talvez - acabou por dizer, olhando depois para o relgio. - E essa ideia de que me querias falar? Se ma queres transmitir,  melhor comeares j, pois tenho 
de estar de volta  clnica pelas trs.
   Mary bebeu um pequeno golo de caf.
   - Lembras-te da minha vizinha, Etta Parks?
   - A velhota que mora duas casas abaixo? - uma imagem fugaz de uma mulher bonita, de cabelo branco, passou pela mente de Isaiah. - Sim, lembro-me.
   Mary sorriu.
   - A Laura  a neta dela. E uma rapariga adorvel. Ela vem quase todos os dias ver a Etta, quando sai para passear os ces.
   - Ces? Quantos  que ela tem?
   - Oh, eles no so propriamente dela - os olhos azuis de Mary humedeceram-se. - Essa  uma das formas de a Laura compensar a sua magra penso de invalidez, passear 
os ces das outras pessoas ou tratar deles enquanto os donos esto de frias. Creio que ela tambm faz outras coisas, trabalha a dias, passa a ferro e essas coisas. 
Mas foi o seu jeito para os animais que me fez pensar em ti.
   Isaiah pressentiu que a me estava a preparar caminho para alguma coisa. Olhou de novo para o relgio.
   - Desculpa, no estou a perceber. Uma penso de invalidez, diz a me?
   Mary forneceu os detalhes, contando-lhe que a neta de Etta fora nadarcom amigos alguns anos antes e batera com a cabea numa rocha ao mergulhar no rio.
   - Ficou com uma leso cerebral qualquer - explicou ela.
   Isaiah recordava-se vagamente de ter ouvido falar disso. A rapariga estivera algum (empo em coma, sem esperanas de sobrevivncia, se bem se recordava.
   - Quando a Laura acordou depois do acidente - continuou a me - toda a sua vida fora destruda. No me consigo lembrar de qual era a profisso dela - era cientista, 
ou algo parecido, creio eu. Muito bom ordenado, muitas viagens. Depois, num abrir e fechar de olhos, foi-lhe tudo tirado. Ela agora vive num apartamento por cima 
da garagem de algum e passeia ces para ganhar dinheiro.
   -  uma pena - disse Isaiah. E disse-o do fundo do corao. - S no sei bem o que  que tudo isto tem a ver comigo.
   Mary franziu os cantos da boca.
   - A Laura  uma rapariga to bonita e to doce! A vida dela seria muito mais gratificante se ela tivesse um emprego regular e pudesse conviver com pessoas da 
idade dela.
   Isaiah mexeu-se na cadeira, incomodado.
   - Suponho que isso seja verdade, me, mas em termos prticos que tipo de trabalho  que uma mulher com leses cerebrais pode fazer?
   - Bem, v l que  precisamente isso - disse Mary, inclinando-se ligeiramente para a frente, tornando-se subitamente sria. - Ela  absolutamente maravilhosa 
com ces, Isaiah. Ocorreu-me no outro dia que ela daria uma excelente zeladora de um canil.
   - Eh l! - exclamou Isaiah, levantando uma mo. - No ests a sugerir o que eu estou a pensar, pois no? Uma zeladora de canil na nossa clnica? - Abanou a cabea 
expressivamente. -O Tucker e eu gerimos um hospital veterinrio, me, no uma organizao de caridade! No podemos contratar uma pessoa com leses cerebrais.
   - Mas, meu querido, as leses cerebrais da Laura no so assim to graves. Nem sequer notei que havia algo de errado at a Etta o ter mencionado.
   - No, de forma alguma. Desculpa, me, tenho muita pena, a srio. Gostaria de a ajudar, mas no h hiptese. Lembras-te do rato? Foi uma mulher perfeitamente 
normal que deu aquela bronca. Tanto eu como o Tucker esformo-nos muito para chegarmos onde chegmos. Est em jogo a nossa reputao como veterinrios. Somos responsveis 
pelo bem-estar de animais de estimao e de quinta. No podemos ter uma mulher deficiente mental a trabalhar na nossa clnica.
   Mary franziu os lbios. Isaiah conhecia-lhe aquela expresso. Ela usara-a contra ele milhares de vezes quando ele era mido.
   - Se bem te recordas, fui eu e o teu pai quem vos emprestou o capital necessrio para arrancarem com essa clnica.
   Isaiah apertou a cana do nariz. Aquilo era verdade. A dvida fora totalmente reembolsada, mas isso no interessava para o caso.
   - Sei que vos devo muito, me.
   Mary assentiu com a cabea.
   - E no  todos os dias que eu te peo um favor.
   Por que razo, pensou Isaiah, lhe era to difcil dizer no  me? Tinha trinta e trs anos e no vivera em casa desde que entrara para a universidade. Achava 
que isso se devia ao facto de os seus pais sempre terem vindo, infalivelmente, em seu auxlio quando ele precisava deles, e assim ele sentia-se na obrigao de fazer 
o mesmo por eles.
   -  verdade. A me raramente me pede o que quer que seja.
   - Bom, estou a pedir-te agora - disse ela com suavidade. - Acredito sinceramente que a Laura pode fazer o trabalho, Isaiah, e sei de fonte segura que vocs tm 
tido dificuldade em encontrar bons zeladores para o vosso canil.
   Isaiah no podia contestar esse facto. Lavar  mangueira coc de co do cho do canil no era decerto um trabalho atractivo.
   - Parece-me que o mnimo que podes fazer - continuou Mary -  entrevist-la para o cargo. - Ela abriu as mos em gesto de splica. - Se achares que ela no  
capaz de fazer o trabalho, tudo bem. Sei que tens bom corao e confio no teu discernimento. Mas no achas que lhe deves ao menos dar uma hiptese?
   Isaiah sabia quando lhe estavam a dar graxa.
   - Vou ter de falar primeiro com o Tucker. Somos scios, lembra-te. No tomamos decises dessas unilateralmente.
   Mary arqueou uma sobrancelha.
   - Diz ao Tucker para me telefonar se ele tiver alguma objeco. Eu tratarei dele.
   Isaiah no tinha quaisquer dvidas de que a sua me faria precisamenteisso.


Captulo Um










   O suor cobria as palmas das mos de Laura Townsend quando ela estacionou o seu velho Mazda vermelho em frente  Clnica Veterinria de Crystal Falls. Um trabalho 
a srio. Desde que falara ao telefone com Mary Coulter na noite anterior, essas quatro palavras danavam repetidamente na sua cabea. Estava entusiasmada com a perspectiva 
de trabalhar de novo numa posio oficial, mas sentia-se tambm aterrorizada. E se Isaiah Coulter a contratasse e depois ela cometesse um qualquer erro tremendo?
   Depois de meter as chaves do carro na carteira, Laura ficou por um momento sentada, a olhar a clnica veterinria atravs do pra-brisas riscado, a qual dava 
para uma avenida movimentada no extremo norte da localidade. Era uma extensa estrutura de tijolo, com uma ala em cada extremo, dividida frontalmente por um grande 
e alto vo, com janelas do cho ao tecto de vidro fumado a darem para um separador ajardinado com passeio de ambos os lados e lugares de estacionamento. Da cor rosada 
da areia do deserto, o edifcio era notvel, com um telhado de vrias guas que se erguiam e desciam numa cadncia harmoniosa.
   Nas traseiras da clnica, uma grande rea de estacionamento no pavimentada pontoada por estruturas semelhantes a celeiros, recintos vedados e pinheiros ponderosa 
criava um pano de fundo rural que se adequava aos arredores esparsamente povoados. O maior desses "celeiros" ostentava uma placa com a silhueta de um cavalo e as 
palavras CENTRO EQUINO. Laura precisou apenas de um breve segundo para ler as palavras em voz alta e lembrar-se do que elas significavam. Aquilo no era uma mera 
clnica veterinria, mas sim um hospital completo, tanto para animais grandes como pequenos.
   Quereria ela realmente trabalhar num lugar destes? Mais importante ainda, seria ela capaz de lidar com a responsabilidade? Laura sentia-se razoavelmente satisfeita 
com as coisas como elas estavam. Um pouco sozinha, talvez - ok, muito sozinha -, mas conseguia manter-se ocupada com os seus passatempos e trabalhos eventuais, e 
no geral a sua vida era agora bem melhor do que a que os mdicos e terapeutas previram h cinco anos. Desde que se mantivesse calma, conseguia falar razoavelmente 
bem, e j era capaz de ver televiso e filmes, de que gostava muito. Recentemente, tinha at melhorado o suficiente para ouvir livros em cassetes udio e conseguia 
perceber praticamente todas as palavras. Porqu ento virar o seu mundo de pernas para o ar ao aceitar um trabalho que a poderia esmagar? E, se provasse algo mais, 
continuaria satisfeita com a sua vida como ela era agora?
   Muito tentada a arrancar e ir-se embora, Laura continuou a olhar fixamente para a clnica. E se os tratadores do canil tivessem de administrar medicamentos aos 
animais e ela se enganasse a ler uma etiqueta? Ou se tivesse de medir a temperatura aos animais doentes? No fazia ideia se conseguiria ler um termmetro. No te 
predisponhas ao fracasso. Essa mxima, incutida nela durante a reabilitao, salvara-a de muita dor nos ltimos cinco anos.
   Mas ela queria este emprego. Seria to bom poder trabalhar de novo com outras pessoas - provavelmente at fazer amigos prximos da sua faixa etria. Estava carente 
de mais contacto humano - de uma oportunidade de falar e rir com outras pessoas, talvez at de desfrutar de uma noitada com outras colegas. Ela nunca teria esses 
prazeres na vida se continuasse a jogar sempre pelo seguro. A mudana envolvia sempre uma certa dose de risco, e era preciso coragem para arriscar. Tudo isto se 
resumia a uma questo: seria ela uma pessoa cobarde?
   Laura abriu violentamente a porta do condutor e obrigou-se a sair do veculo. Um passode cada vez. Porqu preocupar-se com os piores cenrios possveis se ainda 
nem sequer tinha o emprego? Estava decidida a ser completamente franca a respeito da sua deficincia na entrevista com Isaiah Coulter. Se ele ainda a quisesse contratar, 
ficaria encantada. Seno, ela compreenderia, iria para casa e tentaria ser feliz com as coisas tais como elas estavam.
   Ao aproximar-se da clnica, Laura tentou respirar pausadamente e expulsar a tenso do seu corpo. Ao entrar, quis faz-lo com o p direito, e no comear a balbuciar 
como uma atrasada mental e fazer uma triste figura. A afasia, o tipo de leso cerebral de que sofria, no se dava bem com a agitao. O ltimo terapeuta que a tratou 
explicara bem o problema, comparando o crebro dela a um complicado painel elctrico, e a agitao a uma chave de porcas que caa sobre ele e rebentava com todos 
os circuitos. Para uma pessoa como ela, manter-se calma era to vital quanto respirar.
   Com isso em mente, Laura tentou acalmar-se, redizendo palavras de apaziguamento,como fizera repetidamente desde que falara ao telefone com Mary Coulter na noite 
anterior. No passa de um trabalho estpido, de uma posio de fundo de escala que a maior parte das pessoas no pensaria sequer em aceitar. Contudo, as palavras 
no a conseguiram confortar quando ela agarrou o puxador da porta e o empurrou para a abrir. Ela j no era como a maioria das pessoas, e esta poderia ser a sua 
nica oportunidade de se voltar a juntar  fora de trabalho e de levar uma vida minimamente normal.
   Laura estacou mal passou a porta principal. O espaoso trio de entrada estava repleto de clientes, com vrios a esperar numa fila junto ao balco de recepo, 
em forma de U, outros sentados numa rea de espera separada,  sua direita, com uma seco para pessoas com ces, e outra para pessoas com gatos. A zoada das vozes 
humanas era entremeada com os latidos agudos de candeos nervosos e os "miaus" aterrorizados de felinos aprisionados em gaiolas de transporte.
   Havia quatro recepcionistas aflitas a atenderem ao balco, enquanto outras duas se afadigavam por detrs delas, procurando ficheiros, tirando documentos das impressoras 
e atendendo telefones. Laura ficou com uma impresso confusa de paredes imaculadamente brancas, com atraentes frisos de cedro, um tecto em caixoto de madeira e 
o tnue e agradvel aroma a desinfectante de limo.
   Ela nunca imaginara que uma clnica veterinria poderia ser to movimentada - ou to interessante. Observou um dachshund com uma capa impermevel amarela berrante, 
depois voltou a ateno para um pequeno co castanho e branco, num carrinho de passeio vermelho-vivo. Vira recentemente uma pea noticiosa acerca dos milhares de 
milhes de dlares que os americanos gastam anualmente com os seus animais de estimao, mas at agora nunca imaginara quo frvolos eram alguns desses gastos. Mal 
podia acreditar nos seus olhos quando viu um chihuahua com umponcho de l multicolorido e um sombrero miniatura na cabea. Espantoso. E as pessoas ainda achavam 
que ela  que era estranha?
   Preocupada com as horas, olhou para o relgio, que tinha um mostrador antiquado, com pontos em vez de nmeros. Os nmeros tendiam a confundi-la, por ela os ver 
por vezes invertidos ou numa sequncia errada. Faltavam dois pontos para as quatro e meia. Normalmente, dez minutos dar-lhe-iam uma boa margem de segurana, mas 
as filas ao balco eram enormes e no pareciam estar-se a mover depressa. Detestava esperar pela sua vez e arriscar-se a chegar atrasada  entrevista mas, a no 
ser que furasse a fila, no via alternativa.
   A boa educao venceu, e ela colocou-se na fila atrs de um homem de calas de ganga empoeiradas, colete vermelho e um bon amarelo engordurado.
   Com os ombros doridos por ter estado longas horas a operar, Isaiah agachou-se em frente de uma jaula para observar um paciente que acordava de uma anestesia geral, 
um labrador cor de chocolate, com seis meses de idade, que ficara com a perna traseira direita presa em arame farpado. Quando o dono encontrou o co, a perna j 
tinha sido danificada ao ponto de no ser tratvel, e Isaiah no teve outra opo seno amput-la. A operao correu bem, mas o cachorrinho perdera muito sangue 
e estava fraco, apesar da transfuso que recebera do seu genitor.
   - Ol, Hershey - disse Isaiah, abrindo a porta da jaula para analisar a cor das gengivas do co. Ah, sim, ests a ir muito bem. Antes de te dares conta, ests 
de pe a sentires-te ptimo.
   Olabrador ganiu e tocou o pulso de Isaiah com um focinho seco. Acreditando firmemente que um pouco de carinho era to importante depois de uma cirurgia quanto 
o eram os analgsicos e os bons cuidados mdicos, Isaiah ficou por um momento a coar as orelhas do animal.
   Era triste ver um co to novo perder uma perna, mas Isaiah sabia por experincia que os candeos tinham uma espantosa capacidade de recuperao. Se este cachorrinho 
recuperasse - e tudo indicava que sim - o membro amputado no o iria provavelmente afectar.
   - Tens muitos anos formidveis  tua frente, Hershey -sussurrou-lhe Isaiah. A constatao ajudou-o a suportar melhor a dor nos ombros.
Outro sucesso. Com o tempo, Isaiah aprendera a apreciar os sucessos, porque, tal como qualquer mdico, tambm tivera os seus fracassos. - Muitos, muitos anos formidveis.
   Nesse preciso momento, Isaiah ouviu algum entrar na sala, por detrs dele. Devido  hora, presumiu sem olhar que fosse Belinda, a tcnica que o auxiliara na 
sala de operaes durante toda a tarde. Ela abriu o frigorfico. Um "pfft" suave indicou-lhe que ela acabava de abrir uma lata de refrigerante.
   - Tens sede? - perguntou ela. - S temos laranjadalight, mas ao menos est fresca.
   - No, obrigado. -O que Isaiah precisava era de uma boa refeio. (comera um bagel1 ao pequeno-almoo, de manh cedo, e no tivera oportunidade de comer outra 
coisa desde ento. Agora eram seis e meia da tarde. - Creio que vou arrumar as coisas e sair daqui. - Ps-se de p e mostrou- lhe um sorriso cansado. - Devias fazer 
o mesmo. Deste o litro hoje.
   Morena, com feies correctas, bonitos olhos castanhos e um corpo esbelto, Belinda riu-se baixinho.
   - Nos seis meses que estou aqui, qual foi o dia em que no demos o litro?
   - Ponto assente - disse Isaiah, esfregando a nuca. - Eu e o Tucker precisamos de arranjar para c um par de scios.
   - Boa ideia. Infelizmente, isso no nos vai ajudar esta noite - respondeu-lhe ela, lanando-lhe um sorriso atrevido. - Tens planos para o jantar? Eu fao um molho 
para esparguete fenomenal, e tenho um vinho Merlot fabuloso que estou a guardar para uma ocasio especial...
   No era a primeira vez que Belinda convidava Isaiah para um jantar ntimo, e ele estava a ficar com falta de desculpas educadas. Correspondendo ao olhar esperanoso 
dela, ele decidiu que estava na altura de ser franco com a rapariga. - s uma mulher muito atraente, Belinda.
   - Ainda bem que reparas...
   - Oh, claro que reparei - disse Isaiah. No querendo ferir-lhe os sentimentos, ele injectou mais entusiasmo na resposta do que aquele que na verdade sentia. A 
verdade era que ele estava a trabalhar em demasia e a dormir muito pouco para sentir grande interesse pelo sexo oposto. - Mas, por razes puramente egostas, no 
vou ceder a isso. s um membro valioso da minha equipa, aqui na clnica. No me posso dar ao luxo de te perder por causa de um romance entre colegas que d para 
o torto.
   Ela pousou a lata de refrigerante sobre o balco e despiu a sua bata azul. Por baixo, vestia uma camisola justa de malha verde que evidenciava os seus grandes 
seios.
   - Temos tanto em comum: um interesse genuno pela medicina veterinria, o amor pelos animais e um desejo mtuo por nos excedermos naquilo que fazemos. Quem  
que diz que vai dar para o torto?
   Isaiah deu uma risadinha.
   - As Leis de Murphy. - Atravessou a sala, pousou-lhe a mo no ombro e mostrou-lhe um sorriso que esperava ser de pesar. - Vamos manter isto a um nvel profissional, 
est bem? s uma tcnica fabulosa, a melhor que tivemos.
   - Tomo isso como um elogio, embora no tenhas a clnica h tanto tempo como isso.
   - Vai para trs anos... o tempo suficiente para reconhecer uma boa tcnica quando vejo uma. No podemos dar-nos ao luxo de te perder.
   Os olhos dela humedeceram-se. Os cantos da boca tremeram-lhe ao dizer:
   - Ento ficamos pelo esparguete e pela conversa profissional. Temos ambos de comer.
   - Estou estoirado -respondeu-lhe ele. - Talvez noutra altura. Esta noite, o esparguete ter de vir directamente da lata... se eu conseguir reunir a energia necessria 
para procurar o abre-latas.
   - No sabes o que perdes...-atirou-lhe ela, ao sair da sala.
   Isaiah no se incomodou a responder. Fora educado, falara-lhe com franqueza. No havia mais nada a dizer. Talvez Belinda fosse uma dessas mulheres que tm dificuldade 
em aceitar um "no" como resposta - ou talvez ele lhe estivesse a dar sinais contraditrios. Era possvel, pensou. Admirava as aptides profissionais dela, e gostava 
das suas respostas prontas e do seu sentido de humor cido. Infelizmente, gostar de uma mulher e querer travar uma relao ntima com ela eram duas coisas diferentes.
   Belinda era atraente, mas ele no sentia a centelha, o toque que o despertasse. No que isso o surpreendesse. A clnica assoberbava-os tanto que,at o Tucker, 
que tomara o lugar do irmo Hank como o Don Juan da famlia Coulter, desistira recentemente de namorar. Nem ele nem Isaiah tinham tempo ou energia para grande vida
social.
   Isaiah abriu a porta do seu gabinete, entrou e estacou. Uma mulher loura estava a endireitar os diplomas emoldurados que pendiam da parede por detrs da secretria
dele. Ele percorreu-lhe lentamente com o olhar o corpo esbelto. Ela vestia uma camisola solta, larga, que mesmo assim conseguia acentuar a estreiteza dos seus ombros 
e a sua cintura de vespa. medida que o seu olhar descia, a sua recente convico de estar demasiadamente preocupado e exausto para sentir atraco fsica saiu pela 
proverbial janela fora. Calas de ganga justas moldavam as ndegas bem formadas da rapariga e punham em evidncia um par de pernas esculturais, que exigiam um olhar 
mais prolongado.
   Por ser to tarde, Isaiah presumiu que ela trabalhasse para o servio de limpezas que vinha todas as tardes depois do fecho da clnica.
   - Ol!
   Ela sobressaltou-se como se ele a tivesse tocado com um basto elctrico e rodou sobre si mesma para o encarar.
   - Oh! - disse ela, levando uma mo esbelta, de dedos longos e finos,  base do pescoo. -Desculpe-me...por mexer nas suas coisas. Elas estavam... tortas.
   Ela falava de uma forma lenta e hesitante, que Isaiah atribuiu a nervos.
   - Espero que lhes limpe o p, j que est a tratar delas. Esquecem-se disso a maior parte das vezes, e a Val, a nossa gestora de recursos, vai aos arames quando
encontra teias de aranha.
   Uma expresso aflita aflorou ao rosto da rapariga. E que rosto bem bonito que era, uma oval quase perfeita com grandes olhos cor de avel delineados com pestanas
longas e espessas, feies delicadas e uma linda boca de lbios carnudos. O cabelo dela era da cor de conhaque caro, raiado com madeixas de um louro mais claro,
e estava cortado num estilo algo revolto,  altura do pescoo.
   Isaiah estava certo de nunca ter visto a mulher antes. Ter-se-ia decerto lembrado dela. No era surpreendente. A companhia de limpeza estava constantemente a
treinar novo pessoal, na sua maioria estudantes universitrias muito necessitadas de dinheiro extra. Esta mulher parecia ser mais velha do que isso, mas no muito 
mais; andaria talvez pelos vinte e tantos anos. Ele perguntou a si mesmo se ela no estaria a estudar para um mestrado.
   - No  preciso parar com o que est a fazer -disse-lhe ele. - No estou aqui para trabalhar. S tenho de pegar numa ou outra coisa. - Quando se inclinou para 
agarrar no casaco que estava pendurado atrs da porta, acrescentou: - No se esquea de me despejar o lixo... Elas tm-se esquecido de o fazer algumas vezes.
   - O seu lixo?
   A confuso evidente na voz dela fez parar Isaiah no momento em que comeava a tirar o casaco do gancho. Com a mo a pairar sobre o couro, ele voltou a estud-la 
longamente com o olhar.
   - Voc  uma das empregadas da limpeza, certo? - Quando ela se limitou a ficar de boca aberta,  que ele baixou o brao. - No, no me parece. - Arriscou um sorriso 
inquisidor. - Ento, quem ?
   - O meu nome ...- comeou ela a dizer, antes de se interromper, passar a ponta da lngua sobre o lbio inferior, e depois ficar a olhar para ele com o que s 
podia ser um ar de desnimo crescente. -O meu nome ...- Lanou uma mo ao cabelo e inspirou fundo trs vezes. - Oh, meu Deus, d-me um segundo...
   - No h problema. - Apoiando o seu peso contra a porta para a fechar, Isaiah cruzou os braos e ofereceu-lhe outro sorriso. - Talvez devssemos avanar para 
aquilo que posso fazer por si e deixarmos a questo do nome para mais tarde...
   O corpo dela perdeu parte da rigidez. Pressionou a ponta de um dedo contra uma tmpora, fechou os olhos e expirou lentamente.
   - Eu sou L... Laura Townsend...
   Isaiah sentiu o estmago a contrair-se.Laura Townsend, a entrevista das quatro e meia. A lembrana atingiu-lhe a conscincia como um punho c errado. Estava a 
efectuar uma cirurgia exploratria num pastor-alemo com os intestinos dilacerados quando Gloria, uma das secretrias, o avisou pelo intercomunicador. "Diga  Gloria 
para mandar a menina Townsend esperar no meu gabinete", disse ele a uma das tcnicas, e depois entrou o labrador cor-de-chocolate com uma perna desfeita, e ele esqueceu-se 
por completo do assunto.
   Toda a rigidez abandonou a coluna vertebral de Isaiah. Deixou a cabea descair contra a porta e quase que roncou:
   - Peo-lhe imensa desculpa...
   Endireitou-se e olhou para o relgio. Duas horas - ela estivera  espera durante mais de duas horas. Se fosse ele, estaria a subir pelas paredes.
   - Isto  indesculpvel - disse ele, explicando apressadamente as emergncias que tinham aparecido. - As coisas tornaram-se de tal forma loucas que me esqueci 
totalmente que a menina estava aqui.
   - No faz mal - disse ela, e os seus lindos olhos escureceram de preocupao. - Os ces sobreviveram?
   Isaiah reparou de novo na forma lenta e deliberada como ela formava as frases. Leso cerebral. Agora tudo fazia sentido - a reaco perturbada dela quando ele 
a sobressaltou, depois a confuso com o prprio nome.
    * O pastor-alemo engoliu um pedao de vidro - respondeu ele. - Felizmente, os donos suspeitaram que ele o tinha feito e, logo que ele deu sinais de no estar 
bem, trouxeram-no c. O estrago no foi to grande quanto poderia ter sido. Creio que se vai safar.
   Ela pareceu aliviada por ouvir aquilo, revelando-se mais do que poderiaadivinhar.
    - E o labrador? - perguntou ela. - Tambm vai sobreviver?
    - Vai arribar, mas no teve tanta sorte. No lhe consegui salvar a perna.
    - Oh, no! - exclamou ela, com uma expresso distante a vir-lhe aos olhos. - Coitadinho! Como  que vai conseguir andar?
    - Os ces so criaturas espantosas. Andam muito bem apenas com trs pernas. Dentro de algumas semanas, voltar a correr atrs dos ratos do campo e dos esquilos. 
- Isaiah endireitou-se. - Mas chega de falar disso. No posso acreditar que a deixei  espera todo este tempo. Deve pensar que sou a pessoa mais mal-educada  face 
da Terra.
    Ela colocou as mos na cintura e abanou a cabea.
    - Salvar dois ces era muito mais im-portante do que a minha entrevista.
    Ela pronunciou importante como se fossem duas palavras separadas.
    - O mnimo que eu deveria ter feito era mandar algum avis-la de que eu estava retido numa cirurgia.
    - Foi melhor eu ter esperado. - A boca dela curvou docemente os cantos. O sorriso dela iluminou-lhe o lindo semblante de tal forma que o fez sentir como se o 
sol tivesse acabado de irromper por entre as nuvens de um dia encoberto. -Deu-me uma oportunidade de ouvir todas as coisas que se passam ali fora - continuou ela, 
inclinando a cabea na direco da porta. -Isto aqui fica muito agitado... ani-mais feridos e gente transtornada. No creio que eu seja a pessoa certa para o trabalho, 
afinal.
    Isaiah ainda estava a debater-se com o facto de esta pessoa ser a Laura Townsend. Certo, a sua me dissera-lhe que ela era bonita, mas ele aprendera por amarga 
experincia que os gostos de Mary Coulter, no que dizia respeito s mulheres, raramente se coadunavam com os seus. Tambm havia aquilo das leses cerebrais. Talvez 
tivesse sido maldade dele - okay, sem talvez algum; fora realmente muita maldade dele - mas imaginara uma pessoa atarracada e desajeitada, com uma expresso vazia 
e um lbio inferior pendente, perpetuamente reluzente de baba. No fora preparado para os olhos cor de avel brilhantes de inteligncia, um corpo de fazer parar 
o trnsito ou uma cara capaz de partir o corao de um homem.
   Quando ela passou por ele para ir buscar o casaco, Isaiah despertou subitamente para a realidade presente.
   - Vai-se embora?
   Com um sorriso, ela tirou o casaco rosa de um gancho. Enquanto o vestia, acrescentou:
   - Penso que  melhor - disse ela, tirando a carteira de onde ela estava pendurada, por baixo do casaco. -O senhor precisa de algum que seja activo, no de uma 
pessoa como eu, que se atrapalha e se esquece do prprio nome.
   Ao ver que ela se dirigia para a porta, Isaiah tomou uma deciso rpida.
   - Preciso de algum que goste de animais - atalhou ele, perguntando a si mesmo o que estava a fazer. - A trabalhar na retaguarda, raramente se tem de lidar com 
emergncias.
   - No?
   - Quando um co ou um gato  colocado no canil, geralmente o pior j passou. O trabalho envolve principalmente lavar jaulas, mudar as enxergas e voltar a encher 
as malgas da comida e da gua. A confuso nos canis  geralmente provocada pelos prprios animais. Os ces tendem a ladrar muito, para tentar chamar a ateno. O 
barulho  to ensurdecedor que mal nos ouvimos a pensar. Os gatos miam quase tanto como os ces ladram, provavelmente pela mesma razo.
   Ela lanou-lhe um olhar interrogativo.
   - E isso  tudo? - perguntou ela, ajeitando o cabelo. As madeixas douradas flutuaram de volta ao seu lugar, como fitas de seda. - No vou ter de darmeds ou tirar 
temps?2
   Isaiah reparou que ela encurtou ambas as palavras compridas naquela frase. Ela tinha claras dificuldades em pronunciar palavras com mais de duas slabas.
- Nada de medicamentos, nada de tirar temperaturas -assegurou- lhe ele. - A minha me diz que  absolutamente fabulosa com ces. verdade?
   Ainda a sorrir, ela franziu o nariz, um gesto que, ele estava seguro, desejava exprimir humildade, mas que em vez disso apenas a fez parecer to mimosa quanto 
um boto de rosa.
   - Gosto imenso deles - disse ela, encolhendo ligeiramente os estreitos ombros. - Eles no se importam que eu no consiga falar bem, mas s como a minha voz lhes
soa.
   Isaiah tambm no se importava que ela no conseguisse falar bem. Ela conseguia comunicar, e isso era tudo o que interessava.
   - Gosta de gatos?
   - Sim. No tanto como de ces, mas gosto deles.
   Isaiah cruzou os braos. Antes de poder oferecer um emprego  rapariga, havia muito mais coisas que ele precisava de saber, mas estava cada vez mais convencido 
de que a sua me tinha razo: Laura Townsend talvez tivesse tudo o que era necessrio para ser uma excelente tratadora de ces.
   - Peo-lhe imensa desculpa por a ter feito esperar e por aquela minha confuso de h bocado; peo-lhe encarecidamente: pode ficar e permitir que eu a entreviste 
para o emprego? A minha me mata-me se eu a deixar ir embora sem sequer ter falado consigo.
   Apareceu-lhe uma covinha na face.
   - A sua me  uma senhora muito querida. No vai ficar furiosa consigo. Basta que lhe diga que eu no sou a pessoa certa para o cargo.
   - Isso no  inteiramente verdade. Eu acho que  a pessoa perfeita para o cargo.
   - Acha?
   Ele fez um gesto a indicar a cadeira giratria em frente da sua secretria.
   - Laura, sente-se, por favor. Talvez tenha razo, e no se adeqe ao trabalho. Nenhum de ns o ficar a saber se no se sentar e no discutir os pormenores comigo.
   Ela olhou hesitantemente para a cadeira. Isaiah apercebeu-se de que ela estava tremendamente tentada, o que lhe revelou que ela queria aquele trabalho muito mais 
do que estava a mostrar.
    * S para falarmos um bocado -assegurou-lhe ele, e depois arrumou o assunto pegando-lhe no ombro para a conduzir em direco  secretria. Depois de a fazer 
sentar na cadeira, deu a volta  secretria para se sentar  frente dela. Laura aconchegou o casaco como se estivesse com frio.
   Isaiah recostou-se na cadeira e apoiou um p calado de botas de cowboy no joelho oposto.
   - O trabalho no canil exige trs coisas: amor pelos animais, um bom corao e um estmago forte. Numa escala de encanto de um a dez, deve estar algures no negativo.
   Isaiah viu uma pequena prega enrugar a fronte da rapariga e pensou que se calhar estava a falar depressa demais. Recostando-se mais no estofo de couro, fez um 
esforo consciente para abrandar.
- A pior parte do trabalho  ter de limpar muita porcaria fedorenta - continuou ele. - Acolhemos ocasionalmente animais saudveis, mas a maior parte das vezes eles 
esto doentes ou a recuperar de uma cirurgia.
   Ela apertou as mos sobre o regao, estreitando os dedos com tanta fora que os ns empalideceram.
   - A sua me disse-lhe que eu tenho leses cerebrais, Dr. Coulter?
   - Isaiah - emendou ele -, e, sim, ela falou nisso. Creio que ela disse que foi um acidente na praia.
   Ela aquiesceu acenando com a cabea.
   - Foi h cinco anos. Deixou-me com afasia. - A face dela encovou-se num sorriso fugaz. - J posso finalmente diz-lo. Durante muito tempo no o consegui.
   Isaiah assinava algumas revistas de medicina para se manter a par dos avanos conseguidos em tratamentos para seres humanos. Os candeos tinham muitas das mesmas 
enfermidades, e as mesmas medicaes ajudavam- nos muitas vezes. Por isso, lera recentemente um artigo acerca da afasia, que afectava aproximadamente um milho de 
americanos em diversos graus, nmero esse que aumentava  taxa alarmante de cerca de oitenta mil por ano. Algumas pessoas ficavam afectadas na sequncia de um enfarte, 
outras devido a traumatismos cranianos que lhes afectavam o hemisfrio esquerdo do crebro.
   - Ah, pois - disse ele. - A afasia afecta a fala, no ?
   Isaiah tambm sabia o que a afasia no afectava: a inteligncia da pessoa. As vtimas da doena ficavam essencialmente aprisionadas nos seus corpos, dado que 
as leses no hemisfrio esquerdo interferiam com os impulsos cerebrais normais. Muitas dessas pessoas apresentavam fraqueza no lado direito do corpo. Nos casos graves, 
os doentes no conseguiam falar e percebiam muito pouco ou mesmo nada do que as outras pessoas lhes diziam. Laura Townsend tivera sorte nesse aspecto.
   - A Laura parece falar muito bem...
   - No conseguia, de incio -disse-lhe ela, olhando-o nos olhos. - E ainda tenho problemas.
   Agora que sabia de que tipo de leso cerebral ela sofria, Isaiah compreendeu melhor a razo.
   - Mesmo quando estou a pensar na palavra certa - continuou ela - posso dizer uma outra errada; e por vezes, quando fico nervosa, at as palavras que deveriam 
ser fceis, como o meu nome, no me vm  fala.
   No era de admirar que o corao da sua me se tenha enternecido com esta rapariga. Ela era linda e claramente muito inteligente. Bastava olhar para os olhos 
dela para se constatar isso. Contudo, estava reduzida a isto - a candidatar-se a um trabalho subalterno que a maior parte das pessoas no quereria. Mais triste ainda 
era o facto inegvel de nem ele nem qualquer outro veterinrio, em condies normais, pensarem sequer em a contratar.
   Esta constatao f-lo sentir muito pequeno. Quantas pessoas como Laura viveriam em Crystal Falls ou nos arredores, pessoas que o mundo ignorava e deixava para 
trs? As suas leses cerebrais no eram claramente to graves que ela no pudesse contribuir para a sociedade. Tudo o que ela precisava era de algum que lhe desse 
uma oportunidade.
   Isaiah detestava embara-la com perguntas pessoais. Quando tentou imaginar como se sentiria se estivesse no lugar dela, quase que se dobrou sobre si mesmo. Mas 
havia algumas coisas que ele teria de saber antes de lhe oferecer um emprego.
   - Consegue ler, Laura?
   - Num bom dia - respondeu ela, encolhendo os ombros, dando a entender com esse gesto que haviam coisas piores. - Ao nvel de um terceiro ano, da ltima vez que 
me testaram.
   Ele puxou distraidamente o lobo da orelha.
    - E num dia mau?
    - As letras saltam - respondeu ela, ajeitando de novo o cabelo, num gesto que ele comeava a suspeitar ser um hbito nervoso. - A minha viso per-perif...
    Ela deixou a frase inacabada e ergueu as mos, em sinal de derrota.
    - A sua viso perifrica? - sugeriu ele.
    Ela aquiesceu.
    - Est toda baralhada, pior nuns dias do que noutros. Ainda consigo ler algumas palavras a meio, se forem curtas.
    Isaiah rabiscou uma nota num bloco de post-its, arrancou a folha de cima e entregou-lha.
    - Consegue ler isto?
    Ela ficou a olhar para a escrita durante uns bons dois segundos.
    - Este no  um bom dia - disse ela, com uma risadinha ligeiramente trmula. - Quando me enervo,  sempre pior.
    Uma sensao estranha e dolorosa assomou  garganta de Isaiah. Era bvio que ser testada na sua capacidade de leitura a enervava.
    - Isto no  uma daquelas coisas em que se passa ou se reprova. Leve o tempo que quiser. D-lhe o seu melhor palpite...
    Os seus sobrolhos delicados enrugaram-se um contra o outro sobre a ponte do nariz.
    - Voc escreveu os nmeros por extenso...
    - Fazemos isso aqui para evitar erros. J me aconteceu trocar um por um sete. Felizmente, o resultado no foi desastroso. Agora  nossa poltica escrever os 
valores em algarismos e tambm por extenso.
    Ela pareceu aliviada.
   -Isso  bom. Escrev-los por extenso, quero dizer. Os nmeros so traioeiros para mim. Por vezes vejo-os de cabea para baixo, ou ao contrrio. - Ela debruou-se 
sobre a nota, franziu de novo o sobrolho e, com pausas, leu as palavras em voz alta. - Trs... medidas... comida... seca..., duas...- Ela parou e ergueu os olhos 
do papel. - H aqui um X sozinho...
      uma abreviatura para "vezes", neste caso, duas vezes ao dia. Usamo-la imenso em mapas de instrues.
   - Oh - disse ela, acenando com a cabea. - Duas vezes ao dia. Estou a ver.
   Colocou o papel sobre a secretria e alisou a borda autocolante com as pontas dos dedos que tremiam. Ao observ-la, Isaiah deu por si com vontade de lhe afagar 
a mo.
   - Conseguiu fazer isso muito bem. Consegue lembrar-se a partir de agora o que  que significa o X?
   - Creio que sim.
   - Tem dificuldade em contar?
   - Perco-me sem os meus feijes...
   Ele j estava quase convencido de que ela era capaz de fazer o trabalho; mas agora ela mandava-lhe uma bola curva.
   - Sem os seus qu?
   - Feijes - respondeu ela, metendo a mo num dos bolsos do casaco e estendendo-a depois para Isaiah. Vrios feijes vermelhos secos assentavam sobre a palma da 
mo dela. - um... truque... da reabi-lita-o. Trago vinte comigo. Desta forma, quando tenho de contar, no me perco.
   - E se tiver de contar para cima de vinte?
   Ela voltou a colocar os feijes no bolso.
   - Fico atascada num grande sarilho...
   Ele deu uma gargalhada surpreendida, feliz por um lado por ela conseguir brincar com a situao, mas triste por ela estar precisamente nessa situao.
   - O que  que fazia antes de sofrer esse acidente, Laura? A minha me no se conseguia lembrar.
   Ela bufou, corando.
   - Porque  que isso interessa? No o posso fazer agora.
   Isaiah acusou o toque e aquiesceu acenando com a cabea.
   -  verdade, e realmente no interessa. S tinha curiosidade em saber.
   - Eu, hum, fazia... estudos... antes de eles cons-trurem estradas. - Cerrou os lbios e engoliu em seco. - Para ver se o trfego iria preju-dicar as plantas 
e os ani-mais. - Fez de novo um gesto de impotncia. Os olhos dela escureceram de frustrao. - Eu era uma enge... enge...
   Voltou a apertar as mos uma na outra, e os tendes do pescoo distenderam-se com o esforo que ela fazia para falar. Por fim, exalou profundamente, fechou os 
olhos com fora e abanou a cabea.
   Isaiah apercebeu-se de que estava inclinado para a frente na cadeira, com os msculos tensos, os dentes cerrados. Meu Deus. Ele queria ajud-la adeitar as palavras 
para fora, s que no o podia fazer.
   - Engenheira do ambiente? - sugeriu ele por fim.
   As longas pestanas negras dela vibraram quando os seus olhos se abriram.
   - Sim. Eu tra-trabalhava por todo o no-noroeste.
   Ela fizera estudos de impacto ambiental e agora tinha de trazer feijes na algibeira para conseguir contar? Isaiah frequentara inmeros cursos de biologia enquanto 
estudava medicina veterinria e fazia uma ideia razovel do esforo necessrio para algum se tornar engenheiro do ambiente. Que coragem ter sido precisa para que 
pegasse nos destroos da sua vida e construsse uma nova! Num sentido muito real, ela era uma fnix que se reerguera das cinzas.
   Olhando para ela, Isaiah chegou a uma deciso que decerto iria agradar  sua me.
   - Ser uma zeladora de canil no ser de certeza to excitante quanto fazer estudos de impacto ambiental...
   - No me inte-ressa a excita-o. S quero ter de novo um trabalho normal. Tenho saudades de trabalhar com outras pessoas e de ter amigos.
   Estudando a expresso dela, Isaiah quase que conseguia saborear a nsia dela.
   - Se tudo o que quer  um trabalho, est com sorte. Pelo que me apercebi at agora, no vejo qualquer razo pela qual no possa desempenhar este na perfeio.
   - No v?
   Ela pareceu to incrdula que Isaiah riu-se.
   - No, no vejo. Pode precisar de um pouco de treino adicional antes de a deixarmos fazer um turno sozinha, mas isso  uma coisa muito simples de arranjar.
   Por um momento, ela ficou a olhar para ele como se ele lhe tivesse acabado de oferecer a Lua. Depois, a sua expresso ensombrou-se.
   - E se eu come-ter um erro grave?
   - Vai ser acompanhada de perto durante o perodo de treino. Se cometer um erro, e eu sublinho o "se", a pessoa que lhe estar a dar a formao decerto dar por 
ele. Ao fim de quinze dias, faremos uma avaliao de desempenho. Se vai ter problemas a executar o trabalho, isso j dever ser patente por essa altura. - Isaiah 
pousou o p no cho e rodou a cadeira para ficar de frente para a secretria. - S pagamos dez dlares por hora, para comear, e no lhe podemos oferecer o emprego 
a tempo inteiro. As clnicas veterinrias precisam de um nmero irregular de empregados de modo a cobrir todos os turnos e dar a toda a gente tempo livre suficiente.
   Laura nunca havia pensado verdadeiramente acerca do funcionamento de bastidores de uma clnica veterinria, mas presumia que fosse semelhante ao de um hospital, 
com pacientes internados a requerem cuidados e observao constantes.
   - Os animais so deixados aqui sozinhos desde cerca das dezoito, s vezes mais tarde, dependendo da hora em que eu ou o Tucker sairmos, at s vinte e uma, quando 
chega o pessoal do turno da noite - continuou ele a explicar. - Depois, so deixados sozinhos desde as duas da manh at s seis. Mas, com a excepo desses breves 
perodos, temos de ter aqui algum sete dias por semana. Por isso, temos os empregados a tempo inteiro habituais, que trabalham nos mesmos dias da semana (pessoal 
de escritrio, tcnicos e tcnicos assistentes), mais um certo nmero de pessoas a trabalhar em part-time, em turnos rotativos. Os zeladores de canil cabem nesse 
grupo.
   Ela aquiesceu com um movimento de cabea, indicando a Isaiah que o estava a compreender.
   - Para um zelador de canil, creio que isso dar umas vinte horas por semana.
   - Prefiro o part-time-assegurou-lhe ela. - No consigo trabalhar muito tempo sem perder parte da minha assis-tncia.
   - Est a ver? Este pode mesmo vir a ser o trabalho perfeito para si.
As faces dela coraram de prazer, e um brilho de excitao aflorou-lhe nos olhos.
    - Talvez seja - concordou ela.
    - Para alm de o cargo ser apenas em part-time, vai ter tambm dois patres, eu e o meu irmo Tucker- disse Isaiah, fazendo um gesto na direco da porta. -O 
nosso edifcio est disposto numa planta em forma de sinal de adio. Temos a recepo e os escritrios e gabinetes  frente e um canil nas traseiras, os quais servem 
tanto a ala norte como a sul. O Tucker exerce na seco norte; eu fao-o na seco sul, e partilhamos os escritrios da frente e os canis. Tenho tcnicos e assistentes 
que trabalham principalmente comigo. O Tucker tambm tem. Mas as pessoas do escritrio e do canil trabalham para ns os dois.
    - Estou a perceber.
    - Incomoda-a ter dois patres?
    Ela pensou no assunto durante um momento e depois abanou a cabea.
    - Creio que no.
    - Quer dizer que aceita o trabalho? 
    Ela lanou-lhe um olhar interrogativo.
    - Se o seu irmo tambm vai ser meu patro, no querer tambm entrevistar-me?
    Isaiah esteve quase a dizer-lhe que a me deles desancaria o Tucker se eleestragasse aquilo, mas limitou-se a dar uma resposta mais diplomtica:
    * Aqui no somos assim to formais. Eu e o Tucker confiamos no critrio um do outro. Se eu pensar que a Laura  a pessoa indicada para trabalho, ele no vai 
contornar a minha deciso. E eu penso que sim. Quero dizer, penso que a Laura  a pessoa indicada para o trabalho.
Ela sorriu de novo, mostrando uma fiada de dentes pequenos e perfeitos.
* Bem, nesse caso, sim, gostaria de tentar
     Isaiah teve a impresso de que tentar fora o refro dela durante os ltimos cinco anos. S uma atitude positiva de tudo-ou-nada a fez chegar onde estava agora. 
Ele abriu uma gaveta e tirou dela um formulrio de inscrio.
    * O que  que acha? Vamos dar-lhe formao e ver como se desembaraa durante duas semanas. Se tiver problemas a fazer o trabalho, deixarei que se v embora, 
sem ressentimentos. Se tudo correr bem, damos-lhe mais duas semanas, s para nos certificarmos, e depois contratamo-la para trabalho permanente.
   - Parece-me bem.
   Isaiah fez-lhe as perguntas habituais, pedindo-lhe o nome completo, a data de nascimento e o ltimo emprego que tivera. Devido  deficincia de Laura, as respostas 
demoraram um pouco mais do que o habitual. Quando chegou  seco dos impostos e das retenes, o estmago de Isaiah roncava de fome e as mos tremiam-lhe. Assentou 
apressadamente o nmero de segurana social dela e devolveu-lhe o carto.
   - E  praticamente tudo - disse ele, recostando-se de novo na cadeira. - Quando  que pode comear a formao?
   - Por agora posso vir de manh. A horas mais tardias, ser-me- difcil. Fao trabalhos isolados. No quero deixar nenhum deles at saber se este trabalho  para 
ficar. Preciso do dinheiro.
   Isaiah atirou a caneta para cima do mata-borro da secretria.
   - Por enquanto, a formao durante a manh no deve apresentar quaisquer problemas. Se tudo correr bem, ajustaremos o seu horrio quando tiverem passado os trinta 
dias. Uma vez que se torne membro permanente da equipa, ser-lhe- pedido que faa o turno da noite durante cerca de uma semana por ms.  das nove s duas da manh. 
Fazemos a rotao do nosso pessoal do canil. Deste modo, ningum fica preso no turno da noite para sempre. Acha que isso  um problema para si?
   Ela abanou a cabea.
   - As noites no tm problema.
   O estmago dele voltou a protestar, desta vez to alto que o olhar dela desceu at  seco mdia do seu corpo. Atrapalhado, pousou uma mo sobre o diafragma.
   - Desculpe-me. No como desde as seis da manh.
   As sobrancelhas dela soergueram-se.
   - Isso no  bom para si.
   -  o que a minha me me est sempre a dizer - disse ele, sorrindo envergonhado. - Tenho de admitir que me esqueo das horas quando me embrenho no trabalho.
   Os olhos dela bailaram, divertidos.
   - J tinha reparado.
   Ele teve de se rir.
   - Peo-lhe mesmo imensa desculpa pelo atraso - disse ele, batendo na tmpora com a base da mo. - No posso crer que me esqueci de que a Laura estava aqui  espera.
   - Eu sou a rainha do esque-cimento. No se sinta mal por isso - respondeu ela, mordiscando o lbio inferior. - Como  que ele se chama?
   Isaiah mostrou-lhe um olhar vazio.
   - Desculpe?
   - Olabrador castanho que perdeu a perna.
   - Ah, chama-se Hershey, por causa das barras de chocolate com o mesmo nome.
   - Hershey - repetiu ela com suavidade. - Talvez eu ainda o venha a conhecer.
   Isaiah ter-se-ia oferecido para mostrar o co de imediato, mas estava esfomeado e precisava de meter depressa alguma coisa no estmago.
   - Isso depende de quando possa comear a formao - respondeu cie, colocando o formulrio preenchido na gaveta do meio. - Ele s vai ficar c mais uns dois dias.
   - Desde que tenha as tardes livres para os meus outros trabalhos, posso comear j.
   - Amanh?
   Ela pensou um momento e depois assentiu. Com a necessidade de comer a pression-lo, Isaiah levantou-se e deu a volta  secretria para pegar no casaco.
   - Pode c estar s seis? Eles comeam bastante cedo nos canis...
   - s seis est ptimo.
   - Vou deixar ento uma nota  Susan Strong, a rapariga que abre a clnica logo de manh - disse Isaiah, enquanto vestia o casaco. - Se eu no estiver aqui, ela 
encaminha-a.
   Laura apanhou a carteira do cho e passou a ala sobre o ombro quando se ergueu.
   - Muito obrigada. Estou muito feliz por esta oportu-nidade. No lhe posso prometer no fazer asneiras, mas vou dar o meu melhor.
   - O seu melhor  tudo o que esperamos de si.
   Ela aquiesceu e voltou-se para a porta. No ltimo instante, hesitou e voltou a olhar para ele.
   - S uma coisa...
   - O que ?
   Laura engoliu em seco e ficou parada um momento, girando a maaneta da porta para a direita e para a esquerda. Os olhos dela brilhavam de orgulho quando ele a 
encarou.
   - Preciso de saber se o senhor me vai dizer se no estiver a fazer bem o meu trabalho. No quero o trabalho se no for verdadei-ramente boa nele.
   - Eu digo-lhe.
   Ela acenou com a cabea, despediu-se e saiu. Isaiah ficou a olhar sombriamente para a porta fechada depois de ela ter sado, perguntando a si prprio se seria 
capaz de cumprir essa promessa. Laura Townsend tocara-o de uma forma que poucas pessoas haviam feito. Se ela no fosse capaz de fazer o trabalho e ele a tivesse 
de despedir, seria uma das coisas mais difceis que alguma vez fizera na sua carreira profissional.


   
Captulo Dois










    Quando Laura se dirigia de carro para a clnica na manh seguinte, uma sinistra obscuridade de antemanh envolvia a estrada de circunvalao que seguia para 
norte. Quando chegou aos subrbios da cidade, viu que uma plida lua em crescente ainda brilhava no cu cinzento-azulado, com a ponta inferior to baixa que parecia 
tocar no topo dos muitos pinheiros ponderosa que bordejavam ambos os lados da estrada.
    Conduzindo com a mo esquerda no volante, Laura bebia cuidadosos golos de uma caneca  prova de derrame que ela enchera de caf antes de sair do seu apartamento 
sobre a garagem. Sempre que a infuso amarga lhe passava sobre a sua lngua, ela fazia uma careta. Atrasara-se e no se dera ao trabalho de usar os seus feijes 
para contar as colheres de caf que pusera no filtro da mquina. O resultado era o equivalente a lama do Mississipi. Sempre optimista, ela consolava-se pensando 
para si prpria que assim uma nica chvena lhe chegaria para aquela manh. De modo a conseguir despertar, ela precisava de pelo menos duas.
    No preciso momento em que Laura pousou a caneca e levou a mo ao rdio para o ligar, o seu telemvel tocou. Tacteou dentro da carteira, encontrou o aparelho 
e abriu-o.
    * Boas, av.
    * Como  que sabias que era eu? -perguntou Etta Parks.
   Laura certificou-se de que a enorme caneca no tombara no porta-copos.
   - A av disse que me ligava hoje de manh para ter a certeza de que me levantava a horas.
   - E levantaste-te! - observou alegremente Etta. - bom saber que conseguiste finalmente dominar aquele maldito despertador.
   - No foi bem assim...
   O despertador a que Etta se referia fora um dos presentes que Laura recebera de sua me no Natal anterior, uma engenhoca digital demasiado complicada para ela 
a poder regular ou ver as horas.
   - Mal a me e o pai se mudaram, meti-o numa gaveta. Estou a usar outra vez o meu velhinho desper-tador de corda.
   Etta deu uma gargalhada roufenha, fruto de quarenta anos de fumadora.
   - Oh-ho! Ser que estou a ouvir um toque de rebeldia na tua voz?
   - No. Creio que a me tem razo. Eu nunca melhorarei se no me esforar para isso. Mas preciso de escolher as minhas batalhas.
   - E de seres prtica. No  saberes regular um despertador digital, com todas as campainhas e apitos, que vai melhorar a tua qualidade de vida.
   - Bem visto.
   Etta suspirou.
   - No te sintas muito culpada por causa do despertador. Logo que a tua me deixou a cidade, livrei-me daquela horrvel colcha que ela me deu.
   - Aquela verde?
   - Eu chamava-lhe a colcha do Rambo. Pretendia ser um motivo floral, mas parecia mais uma camuflagem.
   - O que  que vais dizer  me quando ela te for visitar?
   - Que lhe fiz um buraco tendo sexo ardente com todos os meus amantes.
   Laura deu uma gargalhada horrorizada.
   - s to m...
   - Nem de perto quanto a Marsha pensa que sou - suspirou Etta.
   - Se ao menos me tivesse divertido como ela pensa! E to bom t-los l em baixo, na Florida. Ela telefona-me uma vez por semana, e conversamos um pouco. Ela faz-me 
perguntas, eu digo-lhe o que ela quer ouvir, e assim nunca se enerva.
   Por muito que Laura gostasse da me, percebia exactamente o que a sua av queria dizer. Marsha Townsend era uma mulher maravilhosa, mas tinha uma tendncia para 
controlar a vida das outras pessoas ao pormenor. Todo aquele adejar no passou despercebido a Laura, e se ela nunca mais teve de tomar outro suplemento natural para 
o crebro, no era sem tempo. A sua me ainda lhe enviava frascos de comprimidos - todos os antigos medicamentos habituais e mais qualquer novidade que prometia 
fazer milagres - mas agora Laura podia simplesmente deit-los no lixo.
   O estalido do isqueiro de Etta ouviu-se pelo telemvel.
   - Ento, como  que ests esta manh? Ainda nervosa com o emprego?
   - Muito - confessou Laura. - Tenho medo de estragar tudo.
   - Querida, tu s to boa com os animais! Vais ser a melhor zeladora de i anil que eles alguma vez tiveram. Confia em mim! As avozinhas velhinhas c queridas sabem 
destas coisas.
   A avozinha querida de Laura dormia em curtas camisas de renda, uma delas num rosa-choque estonteante. Tambm cortejara quatro homens diferentes nos ltimos seis 
meses, qualquer deles mais novo uma dcada do que ela.
   - Vou ter de aprender muita coisa, av -lembrou-lhe Laura.
   - Vais conseguir.
   - Espero bem que sim - disse Laura, entalando o telefone debaixo cio queixo para poder beber outro trago de caf. O sol erguera-se j no cu e a luz, filtrando-se 
em ngulo atravs das ramadas das rvores, matizava o cinza-azulado da estrada com manchas de ouro e sombra. - Vai ser giro ter outra vez um trabalho a srio.
   - Estou to feliz por ti, querida!
   - Eu tambm estou. S espero  que tudo corra bem.
   - Vai correr. No h filho da Mary Coulter que no seja maravilhoso. Lia  to boa pessoa. A propsito, o que  que achas do Isaiah? Estvamos to entretidas 
a falar do emprego ontem  noite que no contaste muita coisa dele.
   Uma imagem das feies morenas e bem cinzeladas de Isaiah lampejou na mente de Laura. Numa escala de beleza de um a dez, ele estava claramente fora da escala; 
era um dos homens mais atraentes que ela alguma vez vira.
   - Bom, consigo dizer o nome dele. E j  uma grande coisa. "Afasia" e "Isaiah" soam quase ao mesmo.
   - E  tudo? - perguntou Etta, incrdula. - Consegues dizer o nome dele?
   - Ele  simptico- esclareceu Laura.
   - Simptico? Oh, deixa-te de coisas... Eu j vi esse rapaz. S  distncia, repara, mas mesmo assim via-se j que era um borracho. Fez-me desejar ser cinquenta 
anos mais nova.
   - Ele  o meupatro, av.
   - E, depois, o que queres dizer com isso?
   - No nos podemos babar...
   - Portanto achas que ele  giro...
   Giro no seria bem a palavra que Laura escolheria para descrever Isaiah Coulter. Cabelo castanho-escuro desalinhado, um sorriso devastador a que era impossvel 
resistir e uns escaldantes olhos azuis-celeste que lhe faziam a pele vibrar sempre que ele olhava para ela. Passara j muito tempo desde que se sentira minimamente 
atrada por um membro do sexo oposto - mais de cinco anos, de facto - e nem mesmo ento o corao dela batera contra as costelas como uma bola de borracha slida 
a saltar pelos degraus de uma escada.
   - Ele  um vete-ri-nrio, av. Ganha provavelmente mais num ms do que eu num ano.
   - Pro-va-vel-mente-corrigiu-a Etta. - E o que  que o rendimento anual dele tem a ver com o que quer que seja?
   - Ele est muito fora do meu...- Laura hesitou, incapaz de se lembrar da palavra que queria usar.
   - Alcance - ajudou Etta. - E isso  um disparate pegado. s uma rapariga inteligente e linda. Tens imenso para oferecer a qualquer homem, incluindo a Isaiah Coulter.
   - Pois - respondeu Laura.
   Ela j nem sequer conseguia dizer inteligente sem a lngua se lhe emaranhar em ns. Os homens como Isaiah queriam companheiras que os desafiassem intelectualmente, 
mulheres que fossem inteligentes, lindas e bem-sucedidas nas suas carreiras profissionais. E qual era agora a carreira dela - limpar retretes?
   - Tira isso da cabea, av. No vai acontecer.
   No momento em que Laura pronunciou aquelas palavras, sentiu o cabelo na nuca a eriar-se. Lembrou-se de como ficou surpreendida duas noites atrs, quando Mary 
Coulter lhe telefonara para lhe falar na possibilidade de um emprego na clnica do filho. Depois, recordou-se das palavras que Isaiah lhe dirigira no dia anterior: 
A minha me mata-me se eu a deixar ir-se embora sem sequer ter falado consigo. Era bvio que ele fora pressionado a fazer-lhe uma entrevista.
   - Oh, av...- murmurou Laura, com a voz a tremer.
   - O que foi? - perguntou inocentemente Etta; com demasiada inocncia para a paz de esprito de Laura.
   - A av e a Mary esto ambas  espera que o Isaiah e eu possamos...- Laura interrompeu se, com a lngua subitamente to seca quanto algodo.
   Fazendo jus  sua reputao, Etta no se perdeu em rodeios.
   - E porque no? Ele  bonito, bem-sucedido, solteiro e precisa de uma mulher. S que ainda no encontrou a pessoa certa. Quem sabe se no s exactamente o tipo 
de rapariga de que ele anda  procura?
   - Oh, av! Eu estava to satis-feita por ter esta opor-oportu-nidade e agora des-descu-bro que  um es-esquema que tu e a Mary a-arran-jaram!
   - Laura, querida, acalma-te. Ests a gaguejar.
   - Como  que me puderam fazer uma coisa destas?
   - Fazer o qu? Laura, ouve-me. Esta  uma grande oportunidade para ti, e tambm ir beneficiar o Isaiah. Tanto ele como o Tucker tm andado aflitos para manterem 
uma boa assistncia aos canis, e tu s maravilhosa com os animais. Eu e a Mary s esperamos que algo mais nasa da. E  tudo.
   Laura perguntou a si prpria se Isaiah se apercebeu que a me dele e a sua av estavam a fazer de casamenteiras. Oh, meu Deus.  claro que se apercebeu. Ele no 
era parvo. E ela fora a nica a levar uma eternidade a l chegar. Como  que o poderia voltar a encarar?
   - Te-tenho de ir...- disse Laura, tensa.
   - Queridinha, no sejas assim. Queres o emprego.  isso que importa realmente. O resto ... bem, uma coisa do gnero "esperar-para-ver". Talvez ele no volte 
a olhar para ti. Se assim for, tu ainda tens o emprego.
   Laura tinha um mau pressentimento de que Isaiah j tinha mesmo olhado para ela com olhos de ver e pensado que ela era pattica. Ter-se- provavelmente apercebido 
desde o incio do que a me dele estava a preparar e alinhado com aquela pantomina s para agradar  mulher. Nada de problemtico, do ponto de vista dele. Se Laura 
fosse suficientemente insensata para acalentar qualquer esperana de que ele estivesse interessado nela, podia desengan-la rapidamente ignorando-a. Entretanto, 
estaria a praticar uma boa aco, ao dar a uma pessoa deficiente uma oportunidade de ter um emprego remunerado.
   Laura sentiu as faces a arder com a vergonha e com uma boa dose de fria. No queria desligar o telefone  av, mas estava demasiado perturbada para continuar 
a conversa. Sentia como se um lao se tivesse apertado em redor do seu pescoo.
   - O Isaiah no sabe de nada disto - continuou Etta. - Essa parte  s entre mim e a Mary, e agora tu,  claro. No tens nenhuma razo para ficares...
   Laura terminou a chamada. Depois encostou  berma da estrada, desligou o motor e ficou a olhar cegamente atravs do pra-brisas. L se ia o seu maravilhoso novo 
emprego. Fechou os olhos, sentindo uma desiluso to esmagadora que lhe era difcil respirar. Depois da entrevista com Isaiah, deixara a clnica a andar nas nuvens, 
acreditando que ele a contratara por mrito prprio. Doa - oh, se doa - perceber que no fora assim.
   Agora no podia, em circunstncia alguma, aceitar o cargo. No se arrastara dolorosamente, centmetro a centmetro, at uma recuperao parcial para aceitar a
caridade de Isaiah Coulter. Precisava de trilhar o seu caminho no mundo sem concesses especiais. De outra forma, a sua luta teria sido em vo.
   Trs horas depois, Isaiah estava a entrar numa estrada de terra esburacada para fazer a sua visita semanal a uma quinta de produo de leite quando o seu telemvel 
tocou. Arrancado bruscamente  contemplao distrada dos picos nevados das Cascades que se perfilavam no horizonte, ele suspirou e tirou o telefone prateado do 
cinto.
   - Fala Isaiah...
   - Ol, querido.
   - Viva, me - respondeu Isaiah. Esperava ser algum da clnica. A sua me raramente lhe telefonava durante o dia, porque ele estava sempre demasiado ocupado para 
falar. - Como  que ests hoje? Est tudo bem contigo e com o pai?
   - Oh, Isaiah, estou to preocupada. Fiz uma asneira tremenda e agora no sei o que fazer.
   Isaiah franziu o sobrolho, apreensivo. Os estbulos da quinta estavam j a seguir  curva, e por isso ele parou o jipe sobre a berma coberta de erva, meteu a 
caixa automtica na posio de estacionamento e desligou o motor.
   - H alguma coisa em que te possa ajudar?
   - Oh, querido, espero bem que sim.
   Boomer, o pastor australiano3 tricolor, apareceu nesse momento a correr, todo adernado na curva, deu um latido de satisfao e depois endireitou-se numa corrida 
para alcanar o Hummer. Preso ao telefone, Isaiah no pde saudar o aussie como fazia habitualmente, e por isso pegou num biscoito de co que trazia no assento do 
passageiro e atirou-o pela janela do condutor. A estratgia resultou. Em vez de saltar para a porta e lhe riscar a pintura, o Boomer deu um salto em corrida para
abocanhar a guloseima lanada da mo de Isaiah. Para garantir o sossego, Isaiah atirou mais dois biscoitos pela janela de modo a manter o co ocupado.
   - A me sabe que eu a ajudo naquilo que puder. Qual  o problema?
   Mary emitiu um som queixoso.
   -  acerca da Laura Townsend...
   A ateno de Isaiah aguou-se.
   - Sim, o que  que se passa com ela?
   - Oh, Isaiah, vais-te zangar comigo por causa disto. Em primeiro lugar, deixa-me dizer-te que eu acreditava mesmo, mesmo, que ela iria ser uma zeladora de canil
fabulosa. Sabes que eu nunca a recomendaria se no fosse assim.
   Isaiah ergueu uma sobrancelha.
   - Claro que no o farias. Nem  preciso dizer. A clnica  a minha vida e a do Tucker.
   - Exactamente, e estou certa de que a Laura iria ser uma aquisio fabulosa para vocs os dois.
   - Iria ser? No estou a perceber - disse ele, olhando para o relgio.
- Ela est na clnica neste preciso momento. Este  o primeiro dia da formao dela.
   - No - disse Mary quase num sussurro. - Receio bem que ela no esteja l. Oh, Isaiah, estou to perturbada que s me apetece chorar. Ela  uma rapariga to querida! 
Eu nunca por nunca queria que ela viesse a saber...
   - Saber o qu?
   Mary gemeu. Isaiah comeou a ter um mau pressentimento, que s se veio a agravar quando a me acrescentou:
   - Oh, como eu queria no te ter de dizer isto! s sempre to imoderado quando toca a estas coisas!
   Isaiah semicerrou os olhos. As nicas vezes que ele se recordava de ter sido vagamente "imoderado" com a sua me fora quando ela lhe tentara arranjar namoradas.
   - Me, no me digas que tu...
   - Foi com boa inteno...
   - No posso crer! Com a Laura, me? - Isaiah visualizou a cara oval de Laura e os seus grandes olhos expressivos. Ela estivera to hesitante durante a entrevista 
na tarde anterior, e depois to grata por ter o emprego.
- Mas em que raio estavas tu a pensar?
   - Pronto, pronto... No te censuro por estares furioso, Isaiah, mas no ralhes comigo.
   Os olhos dele semicerraram-se ainda mais.
   - No me venhas com essa da me ofendida. Sabes muito bem que no estava a ralhar contigo. Ponto final. E porque  que a Laura no est na clnica a ter formao?
   - Porque ela descobriu...- choramingou Mary.
   Isaiah apertou a cana do nariz.
   - Descobriu o qu, precisamente? - perguntou ele, embora receasse j saber a resposta.
   - Que era um esquema casamenteiro. Oh, Isaiah, ns no queramos prejudicar ningum. Tens de te compenetrar disso. Ela iria ser uma excelente zeladora de canil. 
Estou plenamente convencida. E se alguma coisa mais despontasse entre vocs os dois, no estvamos a ver mal algum nisso.
   - "Ns"? No me digas que o pai tambm est metido nisso!
   - No. No! Sabes como  o teu pai. Se decidires continuar para sempre solteiro, ele acha que ningum tem nada a ver com isso.
   Isaiah atirou outro biscoito ao Boomer.
   - Talvez devesses aprender com ele. O que queres dizer com "Ns"? A Bethany est envolvida?
   - Meu Deus, no. A tua irm est to ocupada com o pequeno Sly, a casta Ann e a academia de equitao que eu mal falo com ela agora.
   - E a Molly? - Isaiah imaginou a mulher do seu irmo Jake, de cabelos cor de mbar, a conspirar com a sua me enquanto tomavam caf.
   - A Molly tem enjoos matinais. Tambm j no consigo falar muito com ela.
   Isaiah no conseguia acreditar que a mulher de Hank, a Carly, estivesse metida no assunto. Ela fora recentemente submetida a uma operao  vista. Isso deixava 
apenas a Natalie, a mulher do Zeke, e ela no era do tipo intriguista.
   - Quem , ento?
   - A Etta, a minha vizinha, e av da Laura.
   Isaiah deixou a cabea tombar contra o assento e fechou os olhos.
   - J estou atrasado para uma visita a uma quinta, me. Despeja o resto.
   - A Etta esteve a falar com a Laura hoje de manh cedo. A Etta descaiu-se e a Laura ficou a saber que ns tnhamos arranjado este plano para vos juntar aos dois. 
A Laura ficou muito perturbada, desligou o telefone  av e no apareceu na clnica.
   - Tens a certeza de que ela no est l?
   - Telefonei a confirmar. A Val disse-me que ela no entrou.
   Isaiah soltou um suspiro de cansao.
   - Muito bem, vamos ver se percebi. A Laura veio ontem  entrevista ignorando completamente que a sua av metedia e a minha me intrometida estavam a planear 
cas-la com o seu novo patro. Agora que sabe, j no quer o emprego e no apareceu para a formao. Acertei at aqui?
   - Sim.  mais ou menos isso.
   - E ests  espera que eu consiga limpar a porcaria que vocs fizeram?
   - Ela  to querida, Isaiah, e estava to entusiasmada com o trabalho! Parte-se-me o corao pensar que agora est tudo arruinado para ela.
   - E como raio queres que eu corrija agora isso? - perguntou Isaiah, dando um murro no volante. - Se ela no quer o emprego, acabou-se, ponto final!
   - Eu estava s a pensar que talvez ela possa vir a mudar de opinio se tu... bem, sabes... se tu fosses l a casa falar com ela.
   - E dizer-lhe o qu, me? Que ela no se devia sentir transtornada ou humilhada? Que tu e a av dela so umas intrometidas inofensivas, e que no vos devamos 
prestar qualquer ateno? J sei: porque  que eu no lhe digo que nunca estarei interessado nela nesta vida, de modo a que a coisa deixe de ser problemtica?
   - No te censuro por estares irritado.
   -  bom que no o faas, porque estou, e com toda a razo. - Isaiah visualizou de novo a cara de Laura e cerrou os dentes. - A Laura queria mesmo este emprego, 
me. Era importante para ela. E sabes que mais?
   - No, o qu? - perguntou Mary, sumidamente.
   - Penso que tens toda a razo. Ela seria uma zeladora de canil excepcional. Agora, por vossa causa, ela decidiu deixar passar a oportunidade. E triste. No  
qualquer veterinrio que a ir contratar, sabes bem.
   - Oh, Isaiah, sinto-me to mal!
   - Ainda bem. Deves sentir-te. Da prxima vez que tiveres a tentao de interferires com a minha vida, recorda-te de como te sentes mal neste momento. Os arranjinhos 
de casamento nunca resultam e so sempre, sempre, uma pssima ideia.
   - Queres com isso dizer que no vais falar com a Laura?
   - D-me uma boa razo para que eu o faa...
   Longo silncio. Por fim, Mary respondeu:
   - Porque ela  uma rapariga querida e maravilhosa, e porque tu s um homem bom.
   Isaiah afastou o telemvel do ouvido, ficou a olhar para ele durante longos segundos e depois desligou-o.Raios. Ser que a sua me nunca aprendia? Da ltima vez 
que ela lhe fizera uma daquelas, ele viu-se sentado a uma mesa de restaurante, a jantar diante de uma mulher com triplo queixo e um olhar esperanoso.
   No precisava da ajuda da sua me para encontrar uma esposa - nem queria. Boletim noticioso: Ele nem sequer queria uma esposa. Mais importante ainda, quando e
se ele alguma vez decidisse procurar uma, queria faz-lo por si prprio. Porque  que a sua me no conseguia meter isso na cabea?
   Um crepsculo cinzento-escuro anunciava o fim de mais um dia sobrecarregado quando Isaiah subiu as escadas exteriores que levavam  casa de Laura Townsend, no 
piso de cima de uma garagem de dois andares que fora convertido em apartamento. Do exterior, no parecia grande coisa, um paraleleppedo com paredes de ripas de 
madeira pintadas de branco comremates a azul e um pequeno alpendre. Mas, para quem vivia de um magro rendimento fixo como ela, no conseguiria provavelmente arranjar 
melhor.
   Isaiah sabia por experincia prpria como a habitao estava cara nos dias que corriam. Arrendar um apartamento T1 banal custava entre setecentosa oitocentos 
dlares por ms. Ele e o seu irmo Tucker pagaram duas vezes isso pela casa na cidade que partilharam durante mais de dois anos.
Agora, graas a Deus, ambos tinham casa prpria. Isaiah encontrara um talho de terreno fora da cidade, junto da Old MillRoad perto da casa do Zeke, e construiu 
nele uma casa de troncos de madeira. Tucker comprara uma antiga casa de quinta num grande terreno do outro lado da cidade. Os dias de pagamento de renda tinham acabado 
para eles.
   Quando Isaiah chegou ao patamar, parou por um momento para admirar a decorao do alpendre. Floreiras rectangulares com trepadeiras verdejantes adornavam a balaustrada 
do patamar. Dentro da esfera de luz lanada pelo candeeiro do alpendre, dois grandes vasos de barro cheios de hera flanqueavam uma porta azul a ostentar um elaborado 
batente de lato. Sob o beiral, um antigo bero albergava um trio de bonecos de peluche - um urso com um casaco de cetim e uma faixa  cintura, uma boneca com cabelos 
de fios de l e um avental de criana que ele sups ser uma boneca de trapos e um porco num fato-macaco de ganga remendada. O efeito era agradvel e acolhedor.
   Isaiah endireitou os ombros e respirou fundo antes de bater  porta com os ns dos dedos. Do interior, ouviu o tinir de metal, seguido do som de passos rpidos. 
Deu um passo atrs no momento em que Laura abriu a porta. Ela no parecia embaraada e estava encantadoramente despenteada, com o cabelo em atraente desalinho em 
redor do seu lindo rosto. Os olhos dela abriram-se muito quando o reconheceu.
   - Isaiah! - exclamou ela. E depois as suas faces enrubesceram.
   Ele beliscou o lobo da orelha e transferiu o seu peso de um p para o outro.
   - Viva, Laura. Podemos falar um pouco?
   Com as costas do pulso, ela limpou do rosto uma risca do que parecia ser farinha. Depois, recuou um passo para o deixar entrar. No momento em que passou a soleira, 
os sentidos de Isaiah foram bombardeados, primeiro com cor - tapetes, sofs e toalhas de cores vivas, almofadas dispostas com gosto - e depois com aromas deliciosos 
- abbora e canela, carne assada e caf acabado de fazer.
   O seu estmago roncou. S esperava que Laura no tivesse ouvido o rudo, pois naquele momento ele no sabia o que lhe deliciava mais os sentidos: se os cheiros, 
se a mulher. Ela trazia um avental com peitilho em axadrezado vermelho, posto sobre uma camisola de malha vermelhaejeans justas. Ao dirigir o olhar para baixo, ele 
verificou que ela estava descala. Isaiah no era propriamente um apreciador de ps, mas os dela eram pequenos, de estrutura delicada, e curiosamente engraados, 
com as pontas dos dedos to rosadas quanto ptalas de rosa.
   Fechando a porta atrs de si, Isaiah viu-se sem palavras. Ficou-se por uma frase tmida:
   - Parece que a minha me e a sua av andaram a fazer mexericos...
   O rosto de Laura enrubesceu ainda mais. Esfregou nervosamente aspalmas das mos no avental axadrezado.
   - Desculpe-me. Eu no sabia. Juro, no sabia mesmo.
   Isaiah respirou fundo e lanou-se de cabea.
   - No  a Laura que deve pedir desculpa - disse ele, metendo as mos sob a bainha do seu velho casaco de cabedal para as apoiar sobre as ancas. - Foi sem dvida 
a minha me quem veio com a ideia. Ela  useira e vezeira nisso...
   - Oh - disse ela suavemente.
   Isaiah esfregou o queixo.
   - Normalmente, eu no ligo. Ela convida-me para jantar ou para uma lesta, e quando eu chego h sempre alguma rapariga que ela me quer apresentar.  desagradvel, 
mas no vem verdadeiramente nenhum mal da. Esta  a primeira vez que ela foi to longe. Estou to envergonhado quanto um jaguar escorraado por um esquilo minsculo.
   Os lindos olhos cor de avel de Laura encheram-se de incredulidade.
   - O Isaiah? - disse baixinho.
   - No estaria envergonhada no meu lugar? No  que seja a primeira vez que ela faz uma destas. Ela  contumaz, est sempre a tentar arranjar-me nina mulher - 
retorquiu ele, olhando para baixo, para si prprio. - Haver algo de to errado comigo para que ela pense que eu no consigo arranjar algum por mim prprio?
   Ela deu uma gargalhada sbita. Depois, prendeu o lbio inferior entre osdentes, observou-o por um bocado e abanou a cabea.
   - No h nada de errado consigo, que eu consiga ver.
   Isaiah tambm no conseguia ver nada de errado nela. No tinha acne, no tinha duplo queixo, no tinha tiques de personalidade irritantes. Pela primeira vez, 
a me dele escolhera algum realmente atraente. E no era mesmo azar seu? O que se aplicava  Belinda valia para todo o pessoal do sexo feminino que trabalhava na 
clnica: estavam proibidos os namoros de local de trabalho. Era uma regra rgida, instituda antes de ele e o Tucker terem iniciado a sua prtica de medicina veterinria. 
Se a Laura viesse trabalhar para ele - e ele esperava sinceramente que sim - ela seria rigorosamente terreno proibido.
   Laura fez um gesto na direco da cozinha.
   - Eu ia comear a comer, e fao sempre comida a mais. Quer continuar a conversa ao jantar?
   Isaiah estava morto de fome, e os aromas que lhe chegavam ao nariz eram demasiado tentadores para que lhes pudesse resistir.
   - Oh, no, eu no posso. A Laura no estava  espera de uma visita, e provavelmente j tem planos para as sobras.
   - No - disse ela, abanando a cabea e sorrindo. - No posso alterar as quanti-dades do livro de receitas para fazer uma poro menor. Contar  uma coisa, matemtica 
 outra. Tenho pro-blemas com dividir e subtrair.
   A maior parte das pessoas teria dito diviso e subtraco. Ocorreu a Isaiah que ela tinha constantemente de escolher as palavras para evitar gaguejar.
   Ela ergueu as mos numa splica fingida.
   - Por favor,salve-me de ter de comer a mesma coisa toda a semana!
   - Nenhum homem consegue resistir a um convite desses - disse ele com um sorriso. - Adoraria conversar ao jantar.
   Ela apontou para um cabide de p ao lado da porta.
   - Dispa o casaco e entre. S me falta acabar uma coisinha...
   Quando ela se voltou para se dirigir  cozinha adjacente, Isaiah percorreu com o olhar a pequena sala de estar. Mobilirio atravancado coberto de capas competiam 
pelo espao com mesas de apoio desirmanadas, um velho ba maltratado que servia de mesinha de ch e uma miscelnea de bugigangas, quadros e coisas amontoadas no 
cho por todos os cantos. Para onde quer que olhasse, deparava com qualquer coisa - uma grinalda feita do que parecia ser feno, carregada de fitas e de flores, pequenas 
placas pin- ladas  mo, tapetes bordados, jarras de todas as formas e cores e fotografias de famlia, as quais lhe despertaram particularmente a curiosidade. Estariam 
os pais dela ainda juntos? Teria ela irmos ou irms, e, se sim, quantos?
   Ele despiu o casaco, pendurou-o e seguiu-a lentamente, reparando com agrado que o esquema decorativo dela inclua animais, uma pintura de um co numa moldura 
dourada, uma estampa de um trio de gatinhos a brincar e todo o gnero de pequenas estatuetas de bicharocos. O amor pelos animais era claramente genuno, uma caracterstica 
que lhe seria muito til numa clnica veterinria.
   A cozinha, aberta para a sala de estar, continuava a atmosfera rstica e acolhedora. Uma arca e um louceiro de nogueira expunham uma coleco desirmanada de pratos 
azuis e brancos. Uma escrivaninha, colocada contra a parede, encontrava-se rodeada de coisas teis e contudo decorativas - uma prateleira suspensa cheia de livros 
de receitas, um suporte para chvenas, um calendrio com uma cena campestre e um relgio com um galo pintado no mostrador.
   Sem ser convidado, Isaiah sentou-se a uma mesa de aspecto estranho, pequena, rectangular e com gavetas por baixo do extremo do tampo. Nenhuma das quatro cadeiras 
condizia.
   - Vendas de garagem - explicou ela, enquanto enchia dois clices com vinho tinto escuro. - S passei a viver por conta prpria h seis meses. Os meus pais deram-me 
algumas coisas. O resto consegui aqui e ali. Essa  uma antiga mesa de pasteleiro. As gavetas eram para guardar os rolos da massa.
   - Ah - comentou Isaiah. O seu olhar dirigiu-se para a parede adjacente, coberta at meia altura com imitao sinttica de pedra e encimada por uma grossa prateleira 
com cestos e mais bugigangas. - Eu devia-a contratar para decorar a minha casa. Est to vazia quanto o bolso de um mendigo.
   - Eu no poderia aceitar pagamento. No sou assim to boa.
   Isaiah achava que ela era. Gostava do ambiente acolhedor e confortvel que ela criara. Conseguira transformar um pequeno espao rectangular num lar agradvel 
e com personalidade.
   Ao pousar o clice de vinho, ela inclinou a cabea na direco de um cesto de fruta no centro da mesa.
   - Se est com fome, sirva-se. So s mais uns minutos.
   Enquanto ela voltava para o fogo, Isaiah aceitava a oferta e escolhia uma grande ma vermelha, esfregando-a na camisa e dando-lhe uma grande e sonora dentada. 
Laura calou luvas, abriu o forno e tirou dele uma assadeira com pintas azuis. Quando retirou a tampa abobada, os aromas que vogaram pelo aposento quase que o fizeram 
gemer.
   - Espero que goste de assado.
   - Adoro assado!
   Ela sorriu, tirou a carne da assadeira para a colocar numa travessa e depois comeou a tirar batatas e cenouras  colher para uma saladeira. Enquanto se afadigava 
a fazer molho dos lquidos que escorreram da carne, Laura olhou-o por cima do ombro.
   - E tartes de abbora, gosta?
   - Gosto de tartes de abbora.
   - ptimo. Estas so tartezinhas de abbora. Fiz montes delas, e nunca ficam boas depois de congeladas.
   Isaiah recostou-se para mastigar a ma, bebericar o vinho e apreciar o trabalho de Laura. Ela fazia tudo com economia de movimento, revelando no s que se sentia 
 vontade na cozinha como tambm tinha gosto em cozinhar.
   Quando acabou de pr a mesa e servir a comida, ele ficou a olhar incrdulo para os acompanhamentos, os quais incluam fofas bolachas caseiras.
   - Meu Deus, isto  um festim!
   Formou-se-lhe uma covinha na face quando ela desdobrou um guardanapo azul-escuro e o colocou no regao.
   - Uma loucura, no ? Andei a alimentar-me de comida congelada durante uns tempos, mas fiquei farta. Agora cozinho-a eu e congelo o que no consigo comer. A minha 
conta da mercearia  grande e o meu congelador est cheio. Levo comida para a av e para pessoas da minha rua, mas no posso dar mais.
   Isaiah comeou a atacar. Foi ento que reparou que ela tinha juntado as mos delicadas e inclinado a cabea. Imitou-a rapidamente, sentindo-se um imbecil. Em 
casa, a sua famlia tinha o hbito de abenoar sempre a comida no incio de cada refeio, mas ele perdera esse hbito.
   - Meu Deus - rezou ela baixinho - dou-Vos graas por este bom dia, e por nos terdes abenoado com abundncia. men.
   - men - murmurou ele atabalhoadamente.
   Ela ergueu o olhar.
   - Vou-o deixar trinchar a carne.
   Boa. Era o pai dele quem fazia sempre isso. Lembrando-se de que era um cirurgio e de que saberia seguramente trinchar carne assada, Isaiah puxou a travessa para 
perto de si. Enquanto ele se aplicava na tarefa, ela colocou alguma comida no prato e barrou uma bolacha com manteiga.
   Quando ambos se serviram, ela disse:
   - Desculpe-me no ter aparecido na clnica hoje de manh. Depois de ter falado com a minha av, no consegui.
   Isaiah olhou-a nos lindos olhos.
   - No percebo bem porqu, Laura. A minha me e a sua av estavam a tentar juntar-nos, e descobrimos-lhes a tramia. Admito que poderia ser uma situao desagradvel 
se ns deixssemos que o fosse, mas por que razo o faramos? Vamo-nos  rir disso e continuar como planeado.
   - Eu s queria o trabalho se o Isaiah achasse que eu era boa nele - disse ela. - Para uma pessoa como eu, isso  muito im-portante.
   - Acho sinceramente que a Laura vai ser excelente nesse trabalho.
   Ela lanou-lhe um olhar de dvida.
   - O Isaiah  um homem in-teligente. Diz que a sua me j fez isto antes. Creio que sempre soube e estava s a ser simptico. Repare que no h mal nenhum nisso. 
Mas no posso aceitar um emprego que no obtenha por mrito prprio.
   Ento era isso. Isaiah pousou o garfo na beira do prato e recostou-se na cadeira, a qual rangeu em protesto pela mudana de peso.
   - Sou um homem ocupado, Laura. Inteligente, talvez, mas tambm tremendamente distrado. Tenho demasiadas coisas na cabea para conseguir dar-me conta dos esquemas 
casamenteiros da minha me. Talvez eu devesse ter sabido, mas garanto-lhe que no sabia.
   Ela ainda parecia pouco convencida.
   - Muito bem - disse ele. - Quer mesmo saber a verdade?
   Ela anuiu.
   - Eu nunca suspeitei de um esquema casamenteiro porque a minha me me contou que a Laura tinha leses cerebrais. Imaginei uma senhora de passo arrastado, muito 
gorda, com o olhar vazio, a boca descada e baba a escorrer-lhe pelo queixo. - Isaiah fez uma pausa para que ela interiorizasse. - A minha me tentou lanar-me o 
lao por diversas vezes, mas nunca com uma pessoa desse gnero.
   Com um n no estmago e as mos apertadas uma na outra por baixo da mesa, Isaiah esperou pela reaco dela, um pouco receoso de que ela pudesse ter ficado magoada 
e desatasse a chorar. Em vez disso, a boca dela franziu-se nos cantos e depois ela deu uma risadinha.
   - Baba?
   Aliviado, Isaiah sorriu.
   - Fui mauzinho, no  verdade? No devia estereotipar as pessoas, mas foi precisamente disso que eu estava  espera. Quando a vi no meu gabinete e me apercebi 
de quem a Laura era, fiquei to surpreendido, agradavelmente, devo acrescentar, que nem sequer pensei nas motivaes da minha me.
   - A escorrer-me pelo queixo?
   Ele no conseguiu conter uma risadinha.
   - Perdoe-me.
- Nem todas as pessoas com leses cerebrais so assim - esclareceu ela.
   - Intelectualmente, eu sabia isso - confessou Isaiah - mas no estava a usar o meu "chapu pensador" ou a tentar evocar imagens clnicas na tarde em que ela me 
falou de si. Estava preocupado com uma vaca doente.
   Ela inclinou a cabea interrogativamente.
   - Se pensava que as minhas leses cerebrais eram assim to graves, porque  que concordou em falar comigo?
   Isaiah pegou no seu copo de vinho.
   - Porque a minha me tem o hbito de me pedir favores. Para a contentar, disse-lhe que faria uma entrevista. Sinceramente no acreditei que a Laura conseguisse 
fazer o trabalho. Mas, quando a conheci, mudei de opinio.
   Ela limpou os cantos da boca com o guardanapo.
   - Depois do meu acidente, no ser capaz de falar foi s parte do problema. Tanto a minha perna direita como o meu brao direito estavam quase inu-tili-zados, 
e tinha problemas motores. - Um olhar ausente perpassou-lhe no rosto. - Quando no estava na reab... reabi-li-tao, os meus pais tinham de cuidar de mim. Quando 
comecei a melhorar e a conseguir lazer algumas coisas por mim prpria, jurei ficar boa e nunca mais precisar de ajuda.
   Isaiah assentiu.
   - Por outras palavras, no lhe foi fcil tornar-se auto-suficiente.
   - No. -O olhar dela saltou para o dele e fixou-se nele. - Tive de enfrentar um dia de cada vez. Agora estou to bem como alguma vez estarei. - Ela fez um gesto 
indicando o que a rodeava. - Para que isto funcione, tenho de o fazer por mim prpria. Sem favores especiais, dos meus pais, de si ou de qualquer outra pessoa. No 
valer de nada, se assim no for. S me estarei a enganar a mim mesma. Est a com-preender?
   Isaiah compreendia melhor do que ela poderia pensar. A sua irm, Bethany, expressara preocupaes semelhantes aps o acidente de equitao que a paralisara da
cintura para baixo. Tenho de conseguir fazer isto sozinha, gritava ela sempre que algum a tentava ajudar. Fora frustrante para todos na famlia. Mas, no final, 
a teimosia pagou dividendos. Ela tornara-se auto-suficiente, e agora estava casada com um homem maravilhoso e levava uma vida praticamente normal.
   - Eu compreendo-a - respondeu Isaiah. - No se trata de qualquer favor especial, Laura. Se eu no acreditasse sinceramente que a Laura pudesse fazer o trabalho, 
no estaria aqui. Precisamos desesperadamente de pessoal competente para o canil. Eles despedem-se quase to rapidamente quanto ns os conseguimos formar. Creio 
que a Laura far um excelente trabalho, e estou convencido de que ir ficar connosco, no por no lhe aparecerem entretanto outras oportunidades, mas porque vai 
mesmo gostar dos animais.
   Ela perscrutou o rosto dele por um longo momento.
   - Muito bem, ento - disse ela por fim. - Se essa  realmente a razo pela qual me deu o trabalho, eu l estarei amanh de manh.
   -  mesmo essa a razo.
   Ela no lhe pediu mais garantias. Acreditando na palavra dele, Laura recomeou simplesmente a comer a sua refeio. Isaiah soltou um suspiro fundo, bebeu um golo 
demerlot e voltou a pegar no garfo.
   Depois de meter  boca algumas garfadas, Isaiah teve de lhe dar os parabns pela comida.
   - As nicas ocasies em que consigo comer assim to bem  quando vou jantar a casa dos meus pais.
   - E o que  que come nas outras ocasies?
   - Comida de restaurante, congelados - respondeu ele, encolhendo os ombros. - Por vezes nem sequer como nada. Quando chego tarde a casa, estou geralmente demasiado 
cansado para tirar o que quer que seja do congelador e met-lo no microondas. Prefiro ir para a cama com fome.
   Ela abanou a cabea.
   - Devia ter coisas  mo; queijo, fruta, coisas dessas. Pelo menos assim podia pegar em qualquer coisa para comer sem esforo.
   Isaiah encolheu os ombros.
   -  verdade, mas a maior parte das vezes esqueo-me de ir s compras.
   Ela empurrou a travessa de carne na direco dele.
   - Tire mais assado e 'tatas. Est muito magro.
   Tatas. L estava ela de novo a evitar palavras com mais de duas slabas. No admirava que ela falasse devagar. J era suficientemente difcil ter de voltar a 
aprender a falar sem ter de estar constantemente a escolher as palavras fceis de pronunciar.
   Quando a refeio terminou, Isaiah tinha devorado trs grandes doses de carne e vegetais, quatro bolachas com manteiga, uma dose generosa de salada e cinco tartezinhas 
de abbora coroadas de natas batidas. Estava to cheio que gemeu ao erguer-se da mesa.
   - No me tem de ajudar a levantar a mesa - protestou ela ao v-lo comear a empilhar os pratos.
   -  claro que tenho - disse ele, erguendo os olhos e pestanejando. - Depois de uma refeio destas, o mnimo que posso fazer  ajud-la com a loua.
   Caram num silncio confortvel enquanto trabalhavam. Depois, o telefone tocou. Isaiah continuou a carregar a mquina de lavar loua enquanto Laura atendia a 
chamada. Quando voltou para a cozinha, ela disse:
   - Era a minha av.
   - O qu, a cmplice da minha me no crime?
   Ela revirou os olhos e confirmou.
   - Gosta-ria de ficar irritada com ela por uns tempos, mas com ela  di-fcil...
   - Deve ser mesmo impossvel, se ela for como a minha me - disse Isaiah, passando um prato por gua antes de o colocar na mquina. - "Desculpa-me, Isaiah" - imitou 
ele numa voz aguda. - "Desculpa, desculpa, desculpa.No volto a fazer isto!" Depois de uma meia dzia de telefonemas, eu acabava sempre por ceder.
   - Acha que ela vai cumprir a promessa?
   - A de nunca voltar a fazer isto? - perguntou Isaiah, pensando na questo. - Claro que no - exclamou ele com um rpido sorriso. - Mas pelo menos o gosto dela 
melhorou.
   Laura inclinou-se para meter na mquina a assadeira.
   - Pois. No tenho baba a escorrer pelo queixo...
    muito mais do que isso, pensou Isaiah, enquanto observava as atraentes ancas dela, mas absteve-se de o dizer. Conseguira o que se propusera a fazer. Laura aceitara 
ir trabalhar para a clnica. Estabeleceram uma espcie de amizade. Ele no queria estragar isso dizendo-lhe que ela era a mulher mais atraente que ele conhecera 
em muitos anos. No era correcto um empregador dizer uma coisa dessas. Bolas, nem sequer era correcto um empregador pensar nisso.


   
Captulo Trs










   Na manh seguinte, enquanto estacionava o seu velho Mazda nas traseiras da clnica, Laura repetia palestras de admoestao para si prpria:
   - No passas de uma zeladora de canil, uma mulher que vai lavar  mangueira coc de co. Vais-te arrepender se deres cabo desta oportunidadee fores despedida 
por causa de uma estpida paixoneta pelo teu patro.
   E era mesmo uma paixoneta estpida. Isaiah Coulter era um homem bonito,perfeito e muito bem-sucedido na vida, que podia ter as mulheres que quisesse. Nunca iria 
olhar duas vezes para uma pessoa como ela.
   Disciplinando a sua expresso, Laura entrou no edifcio e encontrou-se numa diviso apinhada do cho ao tecto com caixas de material cirrgico. Aliavessou o corredor 
at uma porta cinzenta e foi prontamente saudada por uma cacofonia de queixumes e gemidos quando a abriu. Estava nos canise, daquele momento em diante, esqueceu 
tudo acerca de Isaiah Coulter. Ces. Olhando pela coxia central, ela viu-os de todos os tipos, desde os deraa pura aos rafeiros, grandes e pequenos. As nicas coisas 
que todos eles pareciam ter em comum era a alegria ilimitada em v-la e as tentativas frenticas em lhe chamar a ateno.
-Oh, meu pobrezinho...- sussurrou Laura, ajoelhando-se em frente da jaula de um rottweiler. Havia um tubo a sair de uma larga ligadura atada em redor do ventre do 
candeo e um cateter intravenoso preso por adesivoa uma das patas da frente. -O que  que te aconteceu? - perguntou ela suavemente, metendo os dedos pela rede de 
arame para lhe tocar no grande focinho. O co roou-o pelos dedos dela e gemeu. - Ah, sim, eu sei.  horrvel. Ests aqui, doente e dorido, e os teus donos deixaram-te 
sozinho.
   Laura conhecia exactamente aquela sensao. Depois do acidente, ela fora hospitalizada e depois finalmente levada para um centro de reabilitao. Os amigos dela 
vinham visit-la a princpio, mas depois comearam a aparecer cada vez menos, incomodados na sua presena, dado que ela j no conseguia falar. A sua famlia viera 
visit-la tanto quanto podia,  claro, mas, passadas vrias semanas, os afazeres do dia-a-dia mantiveram-na afastada a maior parte do tempo. Mesmo agora, passados 
tantos anos, Laura conseguia recordar-se da sua sensao de abandono. Incapaz de comunicar, de andar, de ler ou mesmo de ver televiso, ela estivera isolada no seu 
sofrimento, com as horas de cada dia a estenderem-se numa procisso sem fim diante dela. Sesses de dolorosos tratamentos fsicos constituram o seu nico alvio 
para o tdio e a solido.
   Olhando para os olhos castanhos transtornados do rottweiler, ela recordou-se do seu prprio desnorteamento durante aqueles meses e a raiva impotente que muitas 
vezes a assolava em repetidas vagas. Imobilizada e esquecida, era assim que ela se sentira, exactamente como este co.
   Naquele momento, invadiu-a uma sensao de propsito.  aqui que eu perteno, pensou ela. Eu posso ajudar estes pobres animais, ajud-los de verdade, porque compreendo 
como eles se sentem, de uma forma que mais ningum consegue. Foi uma sensao maravilhosa, um afluxo enorme, inebriante. Ela estivera  procura do seu lugar durante 
cinco longos anos, num mundo que ficara de pernas para o ar. Encontrara agora uma coisa importante que conseguia fazer. Estes animais precisavam verdadeiramente 
dela.
   Laura avanou pela coxia, parando para acarinhar um cocker spaniel com gesso numa perna da frente, um caniche com um rabo pelado mas que parecia estar bem e um 
labrador negro com uma pata ligada e o que parecia ser uma abat-jour de plstico preso em volta do pescoo. Ela teria visitado todos os animais que estavam nas jaulas 
se no fosse o sbito aparecimento de uma mulher loura e robusta no extremo da coxia. Ao pr-se de p, Laura observou o cabelo da outra mulher cortado pelos ombros, 
os amveis olhos azuis e os traos masculinos impressos numa cara rgida.
   -  a Laura? - perguntou a mulher, num tom rspido e pouco simptico.
   - Sim. Estava s a cumprimentar os ces.
   - No devia meter as mos atravs da rede antes de receber formao. Est  procura de ser mordida?
   Laura escondeu a mo transgressora no bolso lateral das suasjeans.
   - No, eu estava s a...
   - Alguns desses ces so traioeiros. Para limpar as jaulas deles, ter de usar o lao.
   Laura no fazia ideia do que seria um lao. Olhou para os olhos tristes de um setter irlands. Nunca tivera medo de ces desconhecidos, muito menos de criaturas 
patticas como estas.  medida que avanava pela coxia, desejava poder parar em cada uma das jaulas. Amanh, prometeu ela, viria trinta minutos mais cedo para poder 
dar pessoalmente a cada animal um pouco de carinho.
   - No estou atrasada, pois no? - perguntou ela.
   - No - respondeu a loura enquanto abria uma jaula. Tirou uma seringa do bolso da frente da sua bata azul, fez uma festa ao collie que estava na jaula e depois 
debruou-se para agarrar o animal pelo cachao. Enquanto dava a injeco, disse: - Veio at um pouco cedo. Sou Susan Strong. Sou eu que lhe vou dar formao.
   Laura estendeu a mo quando a outra mulher se endireitou.
   - Prazer em conhec-la, Susan.
   Em vez de sorrir, Susan limitou-se a cerrar a boca. No canto direito apareceu uma minscula covinha, to em baixo que parecia estar-lhe quase sobre o queixo.
   - Gosta de ces?
   - Oh, sim, muito!
   - Isso  bom - disse ela, apertando finalmente a mo de Laura e depois apontando para as jaulas. - Temo-los aos montes. Vm e vo-se - acrescentou ela, lanando 
um olhar severo a Laura. - Falo dos zeladores de canil. Andar a chafurdar na merda e no vomitado satura depressa. Se voc no tem estmago para isso, poupe-me a 
maada e desista agora mesmo. D muito trabalho formar uma pessoa nisto.
   Laura endireitou os ombros. No podia dizer com honestidade que gostava do cheiro das fezes dos animais, mas tinha um estmago forte. Tambm estava convencida 
de que encontrara finalmente o seu lugar.
   - Se eu puder fazer o trabalho aqui, nunca vou desistir - respondeuela.
   Susan resfolgou, um resfolgar fundo, de desdm, que no deixava dvidas quanto ao seu significado.
   - J ouvi isso antes. E, para que conste, qualquer imbecil pode fazer este trabalho.
   Laura no tinha por hbito falar da sua deficincia com estranhos, mas neste caso parecia apropriado por duas razes. Susan precisava de saber do problema de 
Laura. E tambm tinha uma "pulga atrs da orelha" que precisava de ser tirada.
   - Isso  uma boa notcia. Sou uma im-be-cil.
   Susan deitou-lhe um olhar penetrante.
   Laura humedeceu os lbios.
   - Leses cerebrais. Mergulhei no rio perto das quedas de gua. A maior parte das vezes  seguro, mas houve uma seca nesse ano e bati com a cabea numa rocha.
   - Cruz credo! - Exclamou Susan. Um ar pensativo aflorou-lhe ao rosto. -Recordo-me disso. Aconteceu j h alguns anos, no foi?
   - Cinco - confirmou Laura.
   Susan anuiu.
   - Durante um tempo, pensaram que voc fosse morrer. Esteve em coma, no esteve?
   - Sim, durante cerca de trs semanas. Acordei com afasia, leses no hemis-frio esquerdo do meu cre-bro.
   - Bolas!
   - Tive de aprender de novo a falar - continuou Laura. - Ir notar que eu falo de-vagar. Tambm tenho dificuldade em seguir uma con-versa se as pessoas falarem 
muito de-pressa ou se usarem palavras longas. - Fez um gesto indicando as jaulas em redor. - Quanto a este trabalho, tenho muita sorte em o conseguir. - Olhou Susan 
directamente nos olhos. - Se conseguir fazer o trabalho, no desistirei.
   Susan sorriu por fim, e esse sorriso transformou-lhe a fisionomia, fazendo-a parecer mais um anjo papudo do que um sargento do Corpo de fuzileiros.
   - Vai ser capaz de dar conta do trabalho - disse ela, por fim.
   Isaiah inclinou a cabea para um dos lados para que a tcnica anestesista pudesse limpar-lhe o suor da testa. No meio de uma cirurgia abdominal, ele tinha sangue 
at ao topo das luvas cirrgicas, e Belinda, a sua assistente, estava freneticamente  procura de um grampo. Nesse preciso momento, abriu-se uma porta na parte de 
trs da sala de operaes. Isaiah ergueu o olhar para ver Susan Strong a entrar na sala. Lanou  loura entroncada um olhar que dizia "fica quieta" e depois voltou 
a ateno para o seu paciente.
   Quando a artria ficou laqueada, ele ergueu os olhos ao encontro do olhar interrogativo de Susan.
   - Como  que a Laura Townsend se est a sair? - perguntou ele.
   - At aqui, tudo bem - respondeu Susan. -Lembra-se do boxer com aqueles problemas comportamentais? Quando ela abriu a porta do canil dele eu ia tendo um ataque 
cardaco; mas o animal limitou-se a lamb-la at mais no...
   Isaiah deu uma risadinha.
   - Ela tem jeito para os ces, no tem?
   - E muito. At aquele pequeno e insuportvel lulu-da-pomernia gosta dela.
   - Precisamos de algum bom com os animais l atrs no canil...- observou Isaiah.
   - men. O maior problema dela vai ser preocupar-se demais - previu Susan. - No sei como  que ela vai reagir quando receber ordem para abater um co.
   Isaiah detestava ter de abater um animal pelas suas prprias mos, mas h muito que aceitara isso como um mal necessrio. Quando no se podia fazer mais nada 
para aliviar o sofrimento de um animal, a eutansia era a nica opo misericordiosa.
   - Achas que ela  capaz de dar conta do recado?
   Susan assentou as mos nas ancas largas. Por baixo da agressiva capa exterior, ela era uma doura, uma das pessoas mais bondosas e carinhosas que Isaiah conhecia.
   - Aposto que ela se vai sair muito bem - respondeu Susan. - Foi uma manh horrorosa, com vmito e merda at ao pescoo e uma hemorragia para coroar a porcaria.
   - Uma hemorragia?
   - A cadelita cocker ruiva abortou.
   - Aquela cadela muito velha? - perguntou a anestesista.
   - Essa mesma - confirmou Susan. -  uma pena ter perdido as crias, mas fica melhor assim. O Tucker teve de lhe extrair os ovrios. As pessoas que continuam a 
querer que os animais tenham crias com aquela idade so doidas. No consigo compreender.
   - No so doidas - atalhou Belinda. - So apenas mercenrias. Se a cadela tivesse parido sete cachorrinhos, estes seriam vendidos a quatrocentos dlares cada, 
talvez mesmo mais.
   - Mais - retorquiu James Masterson, um rapaz alto e encorpado de vinte anos, com cabelo castanho e olhos azuis-beb, que comeara a formao como tcnico assistente 
um ano atrs; enquanto tirava um cobertor do aquecedor, acrescentou: - A minha me pagou seiscentos por um cocker no ms passado. Faz as contas a isso e logo vs. 
- Sorriu e piscou o olho a Belinda. - Duas ninhadas por ano dariam um valente impulso aos meus rendimentos.
   - Aos meus tambm - comentou Belinda, franzindo os lbios. - Sete cachorrinhos. Meu Deus, isso dava quatro mil e duzentos dlares! Se calhar eu deveria mudar-me 
para onde pudesse ter um co e tornar-me criadora.
   - Eu nunca faria criao de uma cadela velha - disse James. - Mas no vejo problema em faz-lo com uma cadela jovem e saudvel. Por mais que no seja, daria para 
cobrir a conta do veterinrio.
   - Estou mesmo satisfeita por terem acabado os tempos de parideira desta cadelita - disse Susan. - Se os donos quiserem continuar a fazer dinheiro-extra a vender 
cachorrinhos, tero de comprar outra cadela.
   - Como  que a Laura reagiu a todo aquele sangue?
   Susan encolheu os ombros.
   - Creio que de incio ela entrou um bocadinho em pnico.
   - E isso no acontece com todos ns? - atalhou Angela. - Como  que ela se comportou quando se acalmou?
   - Melhor do que a maior parte dos formandos. Quando precisei de ajuda, ela acorreu de imediato e fez o que eu lhe disse.
   Isaiah ficou satisfeito por ouvir aquilo.
   - Eu tenho-a por uma mulher de coragem. Ningum conseguia passar por aquilo que ela passou sem ter muita fibra.
   - Quem  essa pessoa de quem esto a falar? - perguntou Belinda quando entregou o suturador mecnico a Isaiah.
   - Laura Townsend - respondeu Isaiah, suturando rapidamente o animal. - A Susan est a dar-lhe formao para os canis.
   - Oh, no sabia que a Val tinha contratado uma pessoa - comentou Belinda, fechando os instrumentos cirrgicos contaminados no invlucro de papel. - Isso so boas 
notcias. Nunca temos pessoal que chegue para os canis.
   - Na verdade, no foi a Val quem a contratou - corrigiu Isaiah. - Fui eu.
   Belinda ergueu as sobrancelhas.
   - Tui Pensei que era a Val quem tratava disso.
   - Normalmente  ela que trata - respondeu Isaiah, tirando as luvas cirrgicas e deitando-as no balde de lixo. - A Laura  uma amiga da famlia. A minha me recomendou-a.
   - Ah - comentou Belinda, pensativa, enquanto se dirigia ao lavatrio para lavar os instrumentos antes de os colocar no esterilizador. - J a conheces h muito 
tempo?
   - No. Acabei de a conhecer - respondeu Isaiah, recordando os olhos expressivos de Laura e esboando um ligeiro sorriso. - Vocs vo todos gostar dela. E uma 
querida. No  verdade, Susan?
   Susan encolheu os ombros.
   - At agora, gosto dela.  um pouco lenta a falar, e de quando em quando olha para mim como se eu estivesse a falar grego. Mas de contrrio mal consigo notar 
que h algo de errado nela.
   Belinda voltou-se, interrompendo o que estava a fazer no lavatrio.
   - Ela tem o qu?
   - Afasia - respondeu Isaiah, decidindo nesse momento que seria mais fcil para Laura se todos os seus colegas de trabalho soubessem  partida da sua deficincia. 
-  um tipo de leso cerebral que afecta a fala e as capacidades matemticas.
   Belinda lanou-lhe um olhar interrogativo.
   - Contrataste uma pessoa que no consegue falar nem fazer contas?
   - No  assim to mau - contraps Isaiah. - Ela fala devagar, tal como a Susan diz, e fica confusa se lhe atiram com palavras compridas. Mas de resto ela est 
perfeitamente bem. Ficar-vos-ia agradecido se todos vocs fizessem um esforozinho especial para a ajudarem a integrar-se.
   Belinda ergueu os ombros com indiferena.
   - Tudo bem. Vou ajud-la em tudo o que puder.
   Terminara a sua primeira manh de formao, e Laura sentia-se como se os seus ossos se tivessem liquefeito. Nunca se assustara com o trabalho, mas este emprego 
exauria-a tanto mentalmente como fisicamente. Havia tanta coisa a fixar. Conhecera pelo menos meia-dzia de pessoas, incluindo Tucker, o seu outro patro. Oh, como 
aquilo fora desconcertante. Ela sabia que ele se pareceria com Isaiah. Afinal, eram gmeos. Mas no esperava que fossem to idnticos  primeira vista, ambos altos, 
morenos, musculados e demasiado bonitos para ela ter palavras para os descrever.
   Ela estava a limpar uma jaula, e ele apareceu de repente para anotar qualquer coisa na ficha do co.
   - Bons dias! - disse ela. - Como est hoje, Isaiah?
   Ele olhou-a longamente e depois sorriu.
   - Eu no sou o Isaiah; sou o Tucker. E voc deve ser a Laura.
   Ela sentiu de imediato a cara a escaldar. Eles eram ligeiramente diferentes quando se olhava bem para eles. Tucker era apenas ligeiramente mais encorpado, e havia 
uma agudeza no seu olhar que no existia em Isaiah, um gume que dizia estou aqui, estou atento e nada me passa ao lado.
   - Sim, Laura, eu sou a Laura - respondeu ela.
   Ele estendeu-lhe uma grande mo bronzeada.
   - Gosto em conhec-la, e bem-vinda  clnica. A nossa me s diz boas coisas a seu respeito.
Por entre as linhas, Laura ouviu: ainda te vou observar atentamente. No penses que no vou. Quanto a mim, ainda no est decidido se ficas ou no.
   Por mais enervante que aquilo tenha sido, Laura respeitou a situao. Um empregador que no exigisse excelncia no a obtinha. Tucker Coulter iria ser justo. 
Ela sentia isso nele. Mas tambm a pusera de sobreaviso de que no iria deixar passar nada.
   - Darei o meu melhor para fazer um bom trabalho - disse ela.
   Ele lanou-lhe outro longo olhar, de olhos nos olhos. Depois, a sua expresso suavizou-se.
   - Estou certo que sim, Laura. Se tiver alguma dvida, no hesite em perguntar a algum. Temos aqui na clnica uma excelente equipa. Toda a gente est sempre pronta 
a ajudar quem precisa.
   Todaa gente foram as palavras-chave naquela frase. Havia ali tantas pessoas, todas as da equipa do Tucker mais as do Isaiah. S recordar os nomes deles seria 
um desafio. Para alm disso, ela tinha de aprender a disposio da clnica e onde estava tudo guardado. Os olhos de Laura ardiam-lhe de olhar para instrues de 
grficos, e a cabea doa-lhe de sobrecarga de informao.
   Mas, oh, aquela era uma espcie maravilhosa de fadiga. Depois de se deixar cair para se sentar no cho de cimento da baia de um canil, Laura fechou os olhos, 
encostou a cabea contra a parede de blocos de beto por detrs dela e comeou a fazer festas a Marcus, um boxer que convencera toda a gente de que era um feroz 
assassino. Sabia bem ficar sentada por um momento sobre o cimento frio e ligeiramente hmido, a acariciar o plo spero do animal.
   Ia ser boa neste trabalho, pensou Laura com um arrepio de satisfao. Tivera alguns maus momentos nessa manh, mas no geral o dia correra bem. Conseguira compreender 
os mapas e seguir todas as instrues. Mais importante ainda, conseguira manter a cabea fria e fora capaz de ajudar a salvar a vida de uma velha cadela cocker spaniel. 
Isso fora to recompensador que era quase como trabalhar nos servios de urgncia.
   Laura abriu os olhos para olhar para a sua bata azul. Estava manchada de sangue e outras coisas que ela preferiu no identificar, mas ela ainda detestava ter 
de a despir. Uma farda. Ainda no tinha um distintivo com o nome, mas Susan disse-lhe que lhe iria arranjar um no dia seguinte. Ento, ela parecer-se-ia com toda 
a gente. Achava isso um disparate, mas parecer-se com toda a gente era importante para ela.
   - Santo Deus, o que  que est a fazer?
   Sobressaltada, Laura levantou os olhos para ver uma bonita morena do lado de fora da cancela de rede da jaula.
   - S estou aqui a descansar um pouco com o Marcus.
   A mulher encostou o ombro contra a rede e sorriu.
   - A Susan disse que voc fez amizade com ele. Isso  incrvel. A propsito, chamo-me Belinda.
   - Gosto em conhec-la...
   Quando Laura comeou a levantar-se para a cumprimentar, a tcnica fez-lhe sinal para se sentar.
   - No se incomode - disse ela, agachando-se para ficar ao nvel de Laura. - No ligamos aqui a essas formalidades.
   Laura recomeou a afagar a cabea de Marcus, que descansava no seu regao.
   - Est a trabalhar aqui h muito tempo? - perguntou.
   - S h cerca de seis meses. Mas por aqui isso faz de mim uma veterana. S dois tcnicos esto aqui h mais tempo do que eu, e trabalham na ala do Tucker.
   Laura imobilizou a mo sobre a cabea do boxer.
   - Tenho problemas com as palavras compridas. O seu nome vai-me ser difcil de fixar.
   - Acha que Lindy lhe  mais fcil?
   Laura anuiu.
   - Muito mais fcil.
   - Ento trate-me s por Lindy. No me importo.  uma alcunha de famlia, e estou habituada a ela - disse Belinda, metendo um dedo pela rede e abanando-o, recebendo 
logo uma rosnadela de Marcus. - Meu Deus, ele  mesmo mau. Estou espantada por ele ainda no lhe ter arrancado um brao.
   A tenso desvaneceu-se do corpo de Laura. Olhando para o co, ela disse:
   - Ele no  to mau quanto parece. Ladra mas no morde. Creio que est s com medo.
   - Pensa que j o percebeu, no ? - disse Belinda, abanando a cabea.
- Mas, com aqueles dentes, de que  que ele tem de ter medo?
   Laura poderia ter enumerado vrias coisas. Marcus tinha uma infeco, a requerer injeces de antibiticos duas vezes ao dia, e, por ele parecer mau, todos os 
tcnicos iam a extremos para se protegerem dele. Um lao, sabia agora Laura, era um dispositivo de n corredio montado na extremidade de uma longa vara. O utilizador 
podia apanhar com ele a cabea de um co, apertar o lao e manter imvel mesmo um animal grande como o Marcus enquanto outra pessoa se aproximava dele para o tratar. 
Era natural que Marcus tivesse medo. Ningum aqui lhe fazia festas. Em vez disso, atiravam-se a ele, com uma pessoa a estrangul-lo enquanto outra o espetava com 
agulhas.
   - E difcil para os ces compreen-derem a razo de estarem aqui - disse Laura com suavidade, a mente dela a nadar em memrias desagradveis.
- Os donos deixam-nos sozinhos, e vm estranhos fazer-lhes maldades.
   Belinda olhou pensativa para Marcus.
   - Sim, penso que provavelmente voc tem razo. Quando trato ces, penso que os estou a ajudar, mas da perspectiva deles creio bem que o que lhes estou a fazer 
lhes possa por vezes parecer uma maldade. - A boca dela curvou-se num sorriso. - Muito bem observado, Laura. No admira que o Isaiah esteja convencido de que a Laura 
 uma excelente tratadora.
   - Espero que ele tenha razo.
   Belinda ps-se de p.
   - Vai-se sair muito bem.
   - Vou tentar. Este parece ser um stio muito bom para trabalhar.
   - Um stio fabuloso, na verdade. Eu adoro-o. Trabalho principalmente com o Isaiah.  um excelente patro - disse Belinda, com um encolher de ombros e um sorriso. 
- E o cenrio tambm no  nada mau...
   Laura ficou a pensar no que ela quereria dizer. A perturbao devia ser patente na sua fisionomia porque Belinda riu-se.
   - Isaiah...- explicitou ela. - Falemos no que  agradvel  vista. Ele no  um borracho?
   O calor assomou s faces de Laura.
   - Ele  simptico, penso eu...
   - Simptico? - Belinda deu outra gargalhada. -Ei, s estamos ns duas aqui, numa conversa entre mulheres. Podemos abandalhar...
   - Okay- cedeu Laura. - Ele  um boca-dinho melhor do que s simptico...
   - E o Tucker tambm no  nada mau - confidenciou Belinda. - So gmeos,  claro, portanto nem sequer era preciso dizer. - Ela bateu com a base da palma da mo 
contra a tmpora. - Mas estou parva ou qu?! Voc j deve conhecer o Tucker h muito mais tempo do que eu.
   Laura abanou a cabea.
   - No. Nem sequer o cheguei ainda a ver.
   Belinda franziu o sobrolho.
   - Julgava que o Isaiah tinha dito que voc era amiga de famlia...
   Foi a vez de Laura se rir.
   - Mais ou menos, penso eu. A minha av vive ao lado da me dele.
   - Ah. Portanto no conhece a famlia de per se.
   - Conheo bastante bem a me dele. Por vezes, quando vou a casa da minha av, ela est l a tomar caf.
   - Estou a ver. Bem, como quer que a coisa tenha ocorrido, estou feliz por ter sido contratada. As coisas vo ficar um pouco agitadas para si nas prximas duas 
semanas, mas talvez depois de a Laura se aclimatar ns possamos ir almoar juntas e ficarmos a conhecermo-nos melhor.
   O corao de Laura saltou de alegria. Almoar com uma colega de trabalho. Era precisamente o tipo de coisa que ela esperava que pudesse acontecer, mas no esperava 
ter um convite to cedo.
   - Gostaria muito...
   - ptimo. Est ento combinado. - Belinda espalmou a mo contra a rede. -Venho-a buscar depois, Laura. Bem-vinda  equipa.
   Laura sorriu para si prpria enquanto Belinda se afastava.Bem-vinda  equipa. Pela primeira vez em cinco anos, ela sentia finalmente que fazia de novo parte de 
alguma coisa.
   A previso de Belinda revelou-se correcta; as duas semanas seguintes foram incrivelmente agitadas para Laura. Depois de ter formao durante toda a manh na clnica, 
ela voltava a correr  cidade para passear ces, limpar casas e engomar a roupa de outras pessoas. Como resultado, andava numa roda-viva, arrancando todos os dias 
s cinco da manh sem nunca abrandar at s cinco da tarde. Passava depois os seres a fazer o jantar, a lavar a loua, a limpar o seu apartamento e a lavar a roupa. 
Em resumo, mal tinha tempo para respirar.
   Mas valia a pena. Ela simplesmente adorava o trabalho na clnica. Pensara que ser zeladora de canil fosse uma ocupao bastante solitria, mas no era. Empregados 
de ambas as alas estavam constantemente a entrar na rea do canil para controlar o estado dos ces ou administrar medicamentos, proporcionando a Laura a oportunidade 
para conhecer umas vinte pessoas. Para alm de Belinda, Trish, Angela, Susan, Mike e James, que trabalhavam na ala sul com Isaiah, havia um certo nmero de pessoas 
da equipa de Tucker de quem Laura gostava verdadeiramente, nomeadamente Sally Millet, uma tcnica de pequena estatura e encorpada, com cabelo castanho encaracolado 
e alegres olhos tambm castanhos, que adorava contar anedotas e tinha um riso arranhado e contagioso; Jeri Gibson, uma ruiva rolia e "sada da casca" nos seus cinquenta 
e muitos anos que travava uma guerra permanente com as razes grisalhas; Tina Moresly, uma senhora alta, de ossos largos, na casa dos quarenta, com uma personalidade 
brincalhona; e Lena Foster, uma assistente de veterinrio do gnero avozinha de cabelo branco que se reformara h cinco anos e que agora voltava a exercer em part-time 
para compensar a sua magra reforma da segurana social.
   Laura estava feliz por ter tantos amigos novos. Sabia bem andar pela clnica e ter pessoas a darem-lhe os bons-dias. Durante as pausas para o caf, ela ouvia 
os mexericos, ria-se de anedotas que no compreendia e desfrutava da sensao de pertencer a qualquer coisa, que lhe faltara na vida por demasiado tempo. Judi tinha 
sempre histrias engraadas das suas netas para contar. Lena estava sempre a tentar arranjar compromissos para maratonas de beneficncia, procurando assim angariar 
fundos para a pesquisa da esclerose mltipla e do cancro da mama. Tina, casada mas sem filhos, trazia fotos das suas sobrinhas e sobrinhos. Era divertido, e Laura 
sentia-se sempre um pouco triste quando os intervalos terminavam.
   A tristeza nunca durava muito tempo. Trabalhar to de perto com os animais dava-lhe uma profunda sensao de alegria e de satisfao. Havia felinos de focinho 
querido que ronronavam e se roavam por ela a pedir mais festas quando ela lhes pegava, e ces com todos os gneros de personalidade para a impedirem de se sentir 
aborrecida. Sempre que Laura lavava um cobertor, limpava uma jaula ou aproveitava um momento para dar a um animal um afecto especial, sabia que estava a fazer algo 
de positivo e importante. E isso sabia-lhe indescritvel e maravilhosamente bem.
   Certo dia, acabara de limpar o ltimo canil e estava prestes a sair para ir para casa, com os pensamentos postos no fim-de-semana que se aproximava, quando Isaiah 
apareceu na coxia por detrs dela.
   - Viva - disse ele. - H muito que no a via.
   Tinham passado vrios dias desde que se haviam falado pela ltima vez. Ela vislumbrara Isaiah ocasionalmente e de fugida, enquanto se afadigava a fazer o seu 
trabalho, mas andavam ambos demasiado ocupados para trocarem mais do que simples cumprimentos de cabea. V-lo outra vez ao perto lanou-lhe de novo a pulsao num 
ritmo acelerado. Como  que ele conseguia ser to bonito? A sua camisa de xadrez precisava urgentemente de ser passada a ferro, as suas botas estavam riscadas e 
cheias de p e as suas jeans Wrangler estavam to desbotadas que pareciam quase cinzentas. Era bvio que ele dava muito pouca ateno  sua aparncia.
   Numa postura tipicamente masculina, ele estava de p com as mos apoiadas descontraidamente nas ancas, um joelho ligeiramente flectido, os ombros largos descontrados. 
Um estetoscpio pendia-lhe do pescoo. O seu cabelo escuro caa-lhe em madeixas soltas e atraentes sobre a fronte alta. Quando ela olhou para os olhos azuis dele, 
esfumou-se todo e qualquer pensamento racional que pudesse existir na sua cabea.
   - Viva - conseguiu ela dizer. - Faz tempo...
   Ele apoiou um brao contra a parede divisria entre duas baias do canil.
   - Duas semanas, para ser exacto - disse ele, pousando um olhar caloroso sobre o dela. - Est na altura de fazer a sua primeira avaliao de desempenho.
   Avaliao de desempenho? Laura sentiu um aperto no estmago. Oh, meu Deus. Se ele a despedisse, ela ficaria capaz de morrer. Ela adorava aquele trabalho, e fizera 
tantos amigos novos. Val Boswell, a gestora, era uma loura magra e tisnada pelo sol nos seus cinquenta e tal anos, sempre pronta a oferecer um sorriso caloroso e 
que, sendo amante de ces, visitava amide os canis s para ficar a conversar com ela um pouco. E isso j para no mencionar todas as tcnicas e assistentes de ambas 
as alas. A favorita de Laura era Trish Stone, uma das tcnicas de Isaiah, uma morena pequena de alegres olhos castanhos que falava constantemente nos seus filhos 
e nos seus ces, dois turbulentos airedales chamados Kip e Rip.
   E os animais. Laura sentia um aperto no corao s de pensar em deix-los.
   - Quer que eu v ao seu gabinete? - perguntou ela, tendo logo vontade de se morder por ter deixado a sua voz fraquejar.
   - N... nada de to formal - respondeu ele, lanando-lhe um lento sorriso descentrado que a fez sentir como se tivesse engolido uma dzia de peixes dourados vivos. 
- Toda a gente me diz que a Laura se est a sair estupendamente, que  a melhor zeladora de canil que ns j tivemos. E benquista de todos. O pessoal do Tucker acha 
que voc  fabulosa, e o meu pensa o mesmo. A Laura est sempre pronta a trabalhar, por mais desagradvel que seja a tarefa. At me dizem que fica aqui para alm 
do termo do seu turno s para passar mais algum tempo com os animais.
   Laura expirou profundamente o ar que no tinha conscincia de estar a reter.
   - Ento fico?
   Ele lanou para trs a cabea morena e desatou a rir. Quando dominou o riso, disse:
   - Experimente ir-se embora e toda a gente aqui  capaz de desencadear uma revoluo. Por mim, podemos esquecer o nosso acordo original de a mantermos  experincia 
por trinta dias. O cargo  seu, Laura. Todos aqui, incluindo eu, sentem que a Laura est pronta a tornar-se um membro de pleno direito da equipa. V falar com a 
Val na segunda-feira. Ela vai ter um plano de trabalho pronto para si.
   Laura ficou to encantada que quase lhe deu um abrao.
   - Oh! Ento, tudo bem... Eu, hum... Obrigada, muito obrigada!
   - No me agradea. A Laura tem trabalhado que se desunha aqui. Durante o dia, estou sempre to ocupado que no tenho praticamente tempo para falar consigo. Mas 
na verdade no h verdadeiramente nada para debatermos, no h reas onde a Laura precise de melhorar, no h reas onde brilhe em particular. Pelo que sei, a Laura 
brilha em tudo!
   Uma avaliao de desempenho rpida e informal vinha mesmo a calhar para Laura. Com efeito, ela estava ansiosa que ele se fosse embora para se poder abraar a 
si prpria e fazer a sua dana de contentamento.
   Mas, em vez de se ir embora, ele limitou-se a franzir ligeiramente o sobrolho.
   - Posso-lhe espicaar um pouco os miolos para me ajudarem numa coisa?
   A pergunta despertou a veia humorstica dela.
   - Eu no tenho muito crebro para espicaar...
   Ele semicerrou os olhos.
   - No diga coisas dessas.
   Laura encolheu os ombros.
   - Desculpe. Acontece que  raro pedirem-me uma opinio.
   - Ento saboreie este momento. Tenho de ir hoje  noite a uma festa de anos, e disse ele, olhando para o relgio - depois de sair daqui, tenho aproximadamente 
trinta minutos para parar algures e comprar um presente.  para este velhote, o Sly Glass, que trabalha como capataz no rancho da famlia do meu cunhado. Ele e a 
mulher acabaram de remodelar a casa, e ele diz que gostaria de ter algo para a "toca" deles. A Laura  boa na decorao. Pensei que talvez pudesse ter algumas ideias 
e saber de alguma loja aonde eu possa ir.
   Laura pensou por um momento.
   - Como  que ele ?
   - O Sly? - perguntou Isaiah, esfregando o queixo. - um velho cowboy magro e rijo, com um chapu Stetson castanho e abaulado, com uma cara semelhante a um velho 
saco de papel castanho todo amarrotado.
   - A Mula Teimosa...- disse Laura.
   Isaiah lanou-lhe um olhar estranho.
   - Ele  um pouco teimoso, creio eu...
   - No, no, no  o seu amigo. A Mula Teimosa  uma loja do Oeste. Tm algumas coisas impecveis, coisas de que um velho cowboy  capaz de gostar.
   A perplexidade na expresso dele deu lugar a outro sorriso de orelha a orelha, que lhe enrugou os cantos dos olhos.
   - A Mula Teimosa, ? Creio que j passei por l.  junto  circunvalao, no ?
   - Exacto.
   - Tem alguma ideia do que lhe devo oferecer? - perguntou ele. -O que  que fica bem num escritrio?
   - Para um velho cowboy, eu procu-raria coisas de cavalos. Uma velha sela seria giro. Ou talvez o quadro de um campo com cavalos? Eles tambm tm umas bonitas 
almofadas de couro, para pr nos sofs, todas feitas  mo.
   - Uma velha sela, diz a Laura?
   - H imensa gente que tem uma velha sela no escritrio, ou na sala ntima. Eles pem-na em cima de um...- o crebro de Laura ficou de repente vazio. - No me 
consigo lembrar da palavra! - disse ela, com um gesto de impotncia. - Odeio quando isto acontece.
   - Um cavalete?
   Ela estalou os dedos e acenou com a cabea.
   - Exacto, um cavalete, s que um bonito.
   - Sabe, ele  mesmo capaz de gostar disso.  do tipo de gostar de selas.
   Laura sorriu.
   - Vai encontrar l o que procura.  uma loja gira.
   Depois de Isaiah sair, Laura abraou a sua prpria cintura e rodopiou pela coxia abaixo, to contente que lhe apetecia gritar. Um membro de pleno direito da equipa. 
Encostou o queixo ao pescoo e voltou para cima a chapa com o seu nome para olhar para ela. No momento presente, dizia: LAURA, FORMANDA. Na prxima semana, iria 
ter uma nova com os dizeres: ZELADORA DE CANIL, em maisculas garrafais.
   Era oficial. Ela estava aqui para ficar.
   A meio do turno de segunda-feira, Laura foi ao gabinete de Val para buscar o seu novo plano de trabalho. Val estava encolhida atrs da secretria, a olhar para 
um bloco de notas em branco. Demorou um pouco a erguer os olhos.
   - Ol, Laura - disse ela, com a voz sem o seu entusiasmo habitual.
   - Viva. O Isaiah disse que tem um novo plano de trabalho para mim.
   - Oh, bolas! - exclamou Val, batendo com o punho no seu curto cabelo louro. -Esqueci-me por completo! Podes passar por c antes de sares?
   - Claro - respondeu Laura, observando a expresso da gestora e na forma como a sua boca se curvava para baixo em amarga e exausta derrota. -Passa-se alguma coisa?
   Val reclinou-se na sua cadeira estofada.
   - Na reunio de direco na semana passada, o Isaiah e o Tucker decidiram que deveramos decorar a clnica para todas as festas daqui em diante, comeando com 
o Halloween. Acham que isso ir levantar os nimos a todos e fazer com que a clnica parea mais agradvel.
   - Est bastante despida - observou Laura. - Mas sou suspeita, porque gosto de muita cor.
    * Sou inteiramente a favor de que esta clnica melhore o aspecto - disse Val, passando os dedos no peito ossudo. - Mas adivinha quem foi escolhida para fazer 
a decorao?
   - Oh, oh. E no ests contente com isso, pois no?
   Val atirou com a caneta para cima da secretria.
   - Sou pssima para decoraes. E l em cima querem que a coisa seja feita com bom-gosto.
   Laura rodou nos calcanhares para olhar em volta da moldura da porta, na direco do balco de atendimento.
   -  capaz de no ser muito difcil - disse ela. - Qualquer coisa antiga vai bem com madeira de cedro e paredes brancas.
   Val lanou um olhar especulativo a Laura.
   - s boa em decorao?
   Laura encolheu os ombros.
   - Razovel, creio eu.
   - Eles no querem recortes de abboras ou de bruxas colados por todo o lado.
   - O que  que eles querem?
   Val soprou uma mecha de cabelo tombada sobre os olhos.
   - Coisas com gosto, apesar de tanto o Isaiah como o Tucker no conseguirem reconhecer uma coisa com gosto mesmo que ela corra para eles e os morda no rabo.
   Laura deu uma risadinha.
   - Ora ento! Vais-te sair bem!
   - No - disse Val, franzindo as sobrancelhas como um vilo de desenho animado. - Tu  que vais.
   Laura ergueu as mos e deu um passo atrs.
   - Oh, no!
   - Oh, sim! Vais de certeza ser melhor nisso do que eu. - Val assentou os seus cotovelos ossudos sobre o mata-borro da secretria e inclinou-se para a frente, 
com uma sbita expresso de splica. - Por favor, Laura... por favor, por favor, por favor?.Traz-me s os recibos e eu reembolso-te de todas as despesas. Detesto 
fazer decoraes!
   Laura adorava fazer decorao, e gostava tanto da Val que detestava ter de lhe dizer no.
   - No prometo que fique bem - experimentou ela a dizer.
   - Se for eu a faz-la, garanto-te que no fica.
   - Estamos quase no Hallo-ween- lembrou Laura  gestora. - No temos muito tempo.
   - A quem o dizes! Homens! No fazem a menor ideia do que  preciso para decorar um trio. Salva-me, Laura. Fazes-me esse favor?
   Na sexta-feira, Laura telefonou a desmarcar todos os seus outros compromissos e tarefas. Assim, na semana que comeava, teria imenso tempo livre para se dedicar 
a um projecto-extra.
   - Okay- acedeu ela. - Vou tentar. E porque no? Se no gostares do que eu fizer, pago-te as coisas e uso-as em casa.
   - Combinado! - exclamou Val, com um sorriso de gratido. - Lembra-te de anotares as horas extraordinrias de forma a que eu as possa incluir na tua folha de pagamentos.
   - Eu no tenho de ser paga por isso - protestou Laura. - Tenho muito gosto em faz-lo!
   - Tens a certeza? Se eu ficasse c mais tempo para o fazer, seria paga por isso. Por que razo no o serias tambm?
   Laura abanou a cabea.
   - Tenho um tecto salarial...
   - Ento, jantamos fora; eu pago.
   - Parece-me ptimo.
   - Ento est combinado - disse Val, pondo de lado o bloco de notas. - Vieste c por um motivo. Agora no me consigo lembrar de qual foi...
   - As minhas horas -recordou-lhe Laura.
   - Oh! - exclamou Val, revirando os olhos. - Creio que estou a chocar qualquer coisa. A minha cabea parece estar em papas, e estou indisposta do estmago.
   - Espero que fiques bem depressa.
   - Oh, vou sim. Umas bolachas e um ch devem ajudar - respondeu ela, esfregando a testa. - Podes passar por c antes de te ires embora, Laura? Nessa altura j 
devo ter um horrio de trabalho pronto para ti.
   
   Depois de sair do gabinete de Val, Laura parou um pouco junto ao balco da recepo para observar a sala de espera, que estava pejada de clientes com os seus 
animais de estimao. Tentou visualizar que tipo de decorao ficaria ali bem. Grinaldas sazonais eram capazes de ficar muito bem com a madeira de cedro. Cestos 
cheios de cabaas dariam um toque de cor muito necessria, com a vantagem adicional de os cestos poderem ser reutilizados para o Dia de Aco de Graas e para o 
Natal, e cheios de arranjos florais apropriados durante o resto do ano.
   Essa ideia fez Laura dar meia-volta. Val ergueu os olhos interrogativamente quando Laura lhe apareceu de novo em frente da secretria.
   - Acerca das paredes - comeou Laura a dizer. - Esto todas nuas.
   - Grande novidade. Esta coisa  propriedade de dois solteires.
   - Toda a clnica tem paredes nuas. Sei que no podemos ter muita coisa nas paredes. Seria difcil de limpar. Mas, sem nada, faz a clnica parecer to fria! Eu 
vou muito a feiras na rua. E se eu comear a comprar umas coisas para aqui? No iria custar muito dinheiro compor este local.
   - , isso a fora est muito desolado...- disse Val, ponderando a sugesto. - Se no custar os olhos da cara, estou certa de que tanto o Isaiah como o Tucker 
no se iro opor.
   - Estou sempre a ver lindas pinturas emolduradas nas feiras. Nunca custam muito.
   Val assentiu decisivamente com um movimento de cabea.
   - Ento v, avana.
   Depois de sair do gabinete de Val, Laura passou um dedo pelo lambril de madeira enquanto avanava pelo corredor. Decorar uma clnica iria ser um desafio. A sua 
experincia estava mais voltada para casas. No tinha a certeza que tipo de quadros se adequaria mais ao ambiente. Talvez conseguisse arranjar algumas ideias a folhear 
revistas.
   Sim, era uma boa ideia, pensou. No extremo do vestbulo, voltou-se para estudar de novo a rea, tentando visualizar como ela ficaria. No conseguia contudo formar 
uma imagem ntida na sua mente. S sabia que a Clnica Veterinria de Crystal Falls estava prestes a sofrer uma remodelao.


   
Captulo Quatro










   Na manh seguinte, Laura estava a limpar os canis cinco e seis quando Isaiah apareceu ao fundo da coxia. Trazia uma bata azul manchada de sangue, uma touca cirrgica 
e uma mscara. Os seus olhos ardiam de urgncia por cima da faixa de pano branco.
   - Preciso de si na cirurgia, j! - gritou.
   Laura largou os cobertores sujos que acabara de recolher nos seus braos, trancou as portas dos canis e correu atrs dele. Quando entrou na sala de operaes, 
ele atirou-lhe uma bata estril, uma touca e uma mscara.
   - Depressa! Mais de metade do pessoal meteu baixa por doena. Tenho em mos uma fractura mltipla de fmur. E h uma artria principal seccionada.
   Petrificada, Laura olhou com horror crescente para o co na mesa de operaes. Um tubo ligado a um cateter, alimentado por um saco transparente contendo um lquido 
incolor, suspenso de um trip, j estava preso  perna da frente do animal. Uma das suas pernas traseiras assentava num ngulo estranho e tinha sido apertadamente 
embrulhada numa toalha, a qual agora estava ensopada de vermelho. Gotas de sangue pingavam da mesa de ao inoxidvel para o cho de ladrilho.
   - Laura? - disse Isaiah, lanando-lhe um olhar severo. - Sei que isto no faz parte das suas atribuies laborais, mas a Laura  a nica pessoa que lenho aqui.
   Laura limitou-se a abanar a cabea. Decerto que ele no estava a querer que ela o assistisse na cirurgia. No, no, no! Ela iria fazer uma qualquer asneira terrvel. 
O co iria morrer por sua causa. Ela no podia fazer isto.
   Isaiah tirou a toalha da perna do co e desapertou o torniquete improvisado que algum havia aplicado para retardar a hemorragia.
   - Tem de me ajudar, Laura. No tenho mais ningum. A Jennifer e a Gloria esto sozinhas na recepo. Esto a fazer os possveis por arranjar mais pessoas para 
aqui, mas todas a quem elas telefonaram esto de cama com uma espcie de gripe. A Belinda est de baixa por doena. O marido da Trish telefonou a dizer que ela esteve 
toda a noite a vomitar. No sei nada da Angela, mas est atrasada. O mais provvel  que esteja demasiado doente para sequer telefonar.
   - Mas...
   - No h mas, nem meio mas. O Tucker est com trs urgncias na ala dele, e s tem a Susan para o assistir. Normalmente,  a Val que preenche o lugar quando temos 
falta de pessoal, mas ela tambm no est c. Assim, s me resta voc para me ajudar.
   Ainda a abanar a cabea, Laura conseguiu articular:
   - Eu... no consigo. Desculpe, mas no consigo!
   - Tem de conseguir - disse ele, com os olhos azuis assestados nos dela. - Est em jogo a vida deste animal. No h tempo para os donos o levarem a outro veterinrio. 
Ele esvai-se em sangue.
   Laura apertou as roupas de cirurgia contra o peito, desejando tambm estar doente. Como  que todos foram apanhar o bicharoco e ela se sentia bem?
   - No sei o que fazer...
   - Eu vou guiando-a - disse ele, inclinando a cabea para o lavatrio enquanto pegava numa tosquiadora para preparar o candeo inconsciente.
   - Esse doseador por cima da torneira  de sabo anti-sptico. H luvas esterilizadas nessa caixa azul na ponta da bancada.
   Depois de tirar a bata suja, Laura vestiu rapidamente a limpa e correu para o lavatrio. Acomodando o cabelo com dedos dormentes enquanto enfiava a touca, ela 
olhou para o espelho para se assegurar de que toda a sua cabea estava coberta. Os seus olhos, grandes e vidrados, olhavam para ela de uma cara branca como a cera.
   - Depressa! -apressou-a Isaiah. - No quero perder este animal.
   Laura estava a tremer com tanta violncia que atirou com espuma desabo para todo o lado ao lavar as mos e antebraos. Pouco depois, comeou a sentir vertigens 
ao se aproximar da mesa. Havia uma poa de sangue em redor da parte traseira do co.
   - No me desmaie aqui -avisou-a Isaiah, com suavidade. - Faa de conta que  uma coisa que est a ver na televiso.  o que eu costumava fazer.
   Ele parecia to calmo, to pouco afectado pelo sangue, que custava a Laura acreditar que ele se tivesse alguma vez sentido to nauseado quanto ela se estava a 
sentir.
   Como se adivinhasse os seus pensamentos, ele disse:
   - A primeira vez que assisti a uma operao, quase que desmaiei. Acontece a imensa gente. Tudo o que podemos fazer  encontrar uma forma de nos separarmos do 
que estamos a assistir.
   Laura aquiesceu. Fazer de conta que era qualquer coisa a passar na televiso no funcionava muito bem. O cheiro adocicado do sangue recobria-lhe a boca, fremia-lhe 
na lngua. O olhar dela estava constantemente a dirigir-se para a mesa de apoio ao lado de Isaiah. Sobre ela, estava uma dzia de instrumentos diferentes, dispostos 
sobre uma toalha branca, o ao inoxidvel de que eram feitos a brilhar sob a luz forte. Ela no sabia os nomes dos instrumentos, ou de qual deles ele poderia precisar. 
Assistira na televiso a suficientes programas de medicina para compreender que uma assistente cirrgica tinha de prever as necessidades do cirurgio e corresponder 
sem hesitao s suas ordens.
   As pernas dela pareciam ter-se liquefeito, mas obrigou-se a aproximar-se.
   - No sei o que fazer - voltou ela a dizer, com voz trmula e fraca.
   - No se preocupe. Tudo o que preciso  de um par de mos-extra - disse ele, apontando com o queixo para os instrumentos. - Neste preciso momento, preciso de 
um bisturi. - Ao ver que Laura hesitava, ele descreveu o utenslio e depois piscou-lhe o olho quando ela pegou nele. - Est a ver, querida? J  uma profissional...
   Quando ele fez uma longa inciso na perna do animal, Laura engoliu audivelmente em seco. Viu pequenospontos negros a danarem-lhe em frente dos olhos. Voltou 
o olhar para a cabea do co. Os seus olhos s estavam parcialmente fechados, e a sua boca pendia muito aberta. Era como se Isaiah tivesse puxado a lngua do animal 
para fora, por cima dos dentes. Sentiu o estmago a revirar-se. Para evitar o vmito, centrou a ateno no cobertor de algodo que agora cobria o corpo do canino.
   - De que raa  ele? - pergunta Laura, desesperada em arranjar algo, qualquer coisa, que lhe afastasse a mente do que estava a acontecer.
   -  um rafeiro como eu, um pouco disto e um pouco daquilo. Deve ser principalmente arraado de pastor alemo, creio eu. "Rafeiro" no  um termo muito simptico. 
Pessoalmente, prefiro o termo "mestio" - disse ele, olhando para o monitor para verificar os sinais vitais do animal e ajustar o fluxo do cateter. - Sabe o que 
 resposta capilar?
   Laura abanou a cabea afirmativamente. Conhecia o significado de muitos termos que j no conseguia verbalizar.
   - De tantos em tantos minutos, belisque-lhe a lngua e pressione-lhe as gengivas para verificar a resposta capilar. Tente usar apenas uma mo para fazer isso. 
Mantenha a outra estril para me passar os instrumentos. Se se esquecer, troque de luvas.
   Laura olhou estupidamente para a lngua do co.
   - Chama-se Humphrey - disse lsaiah, como se pressentisse a relutncia dela. - Quando ele acordar, vai-lhe lamber a mo para dizer "ol". Vai querer que ele volte 
a acordar, no vai?
   A pergunta actuou no seu sistema em choque como um copo de gua gelada atirada  cara. Ela apressou-se a beliscar a lngua pendente do co e a pressionar a ponta 
de um dedo contraa gengiva superior. Por no conseguir dizer capilar, e para salvar a cara, limitou-se a dizer:
   - A resposta dele parece-me boa. A cor volta muito depressa.
   - ptimo, ptimo. Os sinais vitais esto dentro do normal, mas isso pode mudar num piscar de olhos quando um animal perde muito sangue.
   Laura sentiu um aperto no corao. Isto era real, pensou ela, estonteada. A vida deste co estava parcialmente nas suas mos. Por assim ser, ela procurou bem 
fundo dentro de si a coragem que pensava no possuir. Uma estranha calma assentou sobre ela. Ela conseguia fazer isto. Ela iria fazer isto. Queria que o Humphrey 
acordasse em breve, queria sentir a aspereza da sua lngua a lamber-lhe a mo e ver vida nos seus olhos agora sem expresso.
   - Fale-me dele - disse ela, trmula. -  um novo paciente?
   O olhar de Isaiah saltou para os olhos dela e manteve-se neles s por um momento, mas nesse momento o olhar foi caloroso.
   - Estou a segui-lo h cerca deum ano, intermitentemente - respondeu.
   Pediu-lhe ento para limpar um pouco do sangue com um pedao degaze, de modo a que ele conseguisse ver o que estava a fazer. Enquanto trabalhavam, ele continuou:
   - S visitas de consultrio... Vacinas, desparasitao, esse gnero de coisas. No tivemos muito tempo para nos ficarmos a conhecer bem, mas, a julgar pelo pouco 
que vi dele,  um ptimo co, esperto e muito simptico.
   Sob a mscara, Laura sorriu ligeiramente.
   - Tem um ar amigvel. Como  que so as pessoas dele?
   Ele lanou-lhe outro olhar rpido.
   - A Laura tem isso s avessas, no tem? As pessoas so os donos dele...
   Laura discordou.
   - No penso que se trate de quem  dono de quem. Trata-se de amor. Ele tem pessoas simpticas?
   Isaiah abanou afirmativamente a cabea.
   - Um homem, uma mulher e uma rapariguinha amorosa com grandes olhos castanhos e rabo-de-cavalo. Deixo-lhe a si adivinhar de quem o Humphrey gosta mais.
   - Da menina! - respondeu logo Laura. Quase que podia ver o co a brincar com a criana, ladrando e correndo alegremente atrs de uma bola. Ficou de repente muito 
contente por Isaiah lhe ter pedido para o auxiliar. Se o Humphrey sobrevivesse, ela poderia dizer que ajudara, mesmo que apenas um bocadinho, a salvar a vida dele. 
- Ele parece ser um co que gosta de crianas...
   - Em cheio... E, esta manh, tornou-se um heri e tanto - disse ele, piscando-lhe os olhos, um hbito que ela comeava a suspeitar que ele cultivara por ter as 
mos muitas vezes ocupadas e a parte de baixo da cara tapada pela mscara. - A menina correu para a frente de um carro.
   - Oh, no! -O que restava da relutncia de Laura desvaneceu-se. - Foi assim que ele ficou ferido?
   Isaiah abanou afirmativamente a cabea.
   - O dono diz que o Humphrey saltou para a rua mesmo a tempo de empurrar a rapariguinha para fora da trajectria do carro. Infelizmente para o Humphrey, a condutora 
diz que tudo aconteceu to depressa que ela no teve hiptese de travar. Se no fosse o Humphrey, ela teria atingido a criana.
   - Oh, meu Deus.
   Embora Laura no pudesse ver a boca de Isaiah, as rugas que de repente se lhe formaram no canto dos olhos disseram-lhe que ele estava a sorrir.
   - J alguma vez salvou a vida de um heri?
   - No.
   - H uma primeira vez para tudo. O Huphrey merece uma medalha - disse ele, abrindo a carne do animal e expondo tendes, osso e a artria danificada. Laura passou 
por um mau momento quando olhou para dentro da ferida. Ento, pensou de novo no Humphrey a correr atrs de uma bola, e os pontos negros que lhe perturbavam a viso 
desapareceram. Pegou em gaze limpa para absorver o sangue. Isaiah abanou a cabea em aprovao. - Foi imaginao minha ou voc disse que no era capaz de fazer isto? 
Estou a pensar mant-la aqui a tempo inteiro...
   Laura deu uma risadinha dbil.
   - Nem pensar. Estou feliz nos canis. -O sorriso dela esfumou-se quando voltou a olhar para o co. - Ele vai safar-se, no acha?
   Isaiah deu um salto atrs para evitar um jorro de sangue.
   - Grampo!
   Laura procurou freneticamente o que se parecesse com um grampo, entregou-lho e quase que desmaiou de alvio quando ele usou o instrumento para estancar a hemorragia.
   - Oh, meu Deus.
   - Ele est aqui - disse Isaiah, com voz rouca - a olhar por cima dos nossos ombros e a guiar as nossas mos. - Ergueu ento os olhos. - Deus, quero dizer. H 
pessoas que me chamariam maluco por eu acreditar nisso.
   Laura no era uma dessas pessoas. Naquele momento, ao olhar para os olhos de Isaiah Coulter, compreendeu o que o levara a tornar-se veterinrio. No era um desejo 
egosta de dinheiro, nem uma nsia de prestgio. Ele estava aqui, a fazer o que fazia, porque gostava de animais e sentiu um chamamento para os ajudar.
   - Com Deus de servio, talvez o Humphrey tenha uma hiptese - disse ela, trmula.
   - No h talvez. Deus vela por todos ns, tanto seres humanos como animais. O Humphrey vai-se safar - disse ele, lanando um olhar a um altifalante montado no 
tecto por cima deles. - Da prxima vez, lembre-me para pr uma msica. Trabalho melhor com ritmo.
   Laura sentiu o estmago a apertar-se.
   - Da prxima vez?
   - Tenho um cachorrinho com um osso de galinha espetado nos intestinos - esclareceu ele, piscando-lhe de novo os olhos. - A no ser que a Gloria consiga fazer 
um milagre e arranje mais gente para c, vou precisar de si a maior parte do dia. A no ser, claro, que a Laura tenha outros compromissos que no possa desmarcar.
   Laura tencionava comear a decorar a sala de espera quando sasse ao meio-dia. Mas um cachorrinho com um osso nos intestinos era claramente prioritrio.
   - No, no tenho nada - respondeu ela.
   - Ento est combinado, querida.
   Um pensamento horrvel ocorreu a Laura.
   - No vou ter de o ajudar com os seus cavalos doentes, pois no?
   Ele desatou a rir.
   - No, temos tcnicos especialmente treinados para isso no centro equino. Est safa dessa.
   Laura ficou aliviada. Cirurgia em gatos e ces era uma coisa, mas cirurgia num cavalo seria uma coisa completamente diferente.
   Para Laura, a manh passou-se num borro surrealista. Em breve deixou de pensar no sangue. Havia muitas outras coisas para lhe ocupar a mente - os nomes de diferentes 
instrumentos e tcnicas cirrgicas, desinfectantes e medicamentos. Quando no estava de p ao lado de Isaiah, a assisti-lo num procedimento, andava numa correria 
a esterilizar mesas ou a juntar os utenslios necessrios para efectuar uma cirurgia noutro paciente.
   Pouco depois do meio-dia, mesmo a meio de uma operao, desta vez a um Terra-Nova com um pau entalado na garganta, Laura reparou que as mos de Isaiah estavam 
a tremer. Preocupada, ela examinou o que conseguia ver da cara dele por cima da mscara cirrgica. Havia uma palidez na sua tez escura, e a pele dele brilhava de 
suor.
   - Voc est bem?
   Ele fez um gesto afirmativo, mas Laura no estava convencida.
   - Isaiah?
   - Preciso de comer. Fico com tremuras de fraqueza.
   - O que  que tomou ao pequeno-almoo?
   - Nada. Tencionava ir ao McDonald's no caminho para c, mas foi quando recebi o telefonema acerca do Humphrey e nunca cheguei a l ir.
   Logo que eles colocaram o Terra-Nova numa jaula de observao, tapado com cobertores quentes, Laura despiu a bata, a mscara e as luvas cirrgicas e correu para 
o frigorfico. Dentro, quase que s encontrou refrigerantes. As nicas coisas comestveis eram boies de iogurtelight e queijo de dieta, o que no constitua decerto 
a alimentao mais desejvel para um homem grande e muito trabalhador. Ela encheu a dobra de um brao e ambas as mos com comida e depois dirigiu-se ao seu patro, 
que j estava a vestir uma bata cirrgica limpa para operar um gato com uma uretra entupida.
   - Coma primeiro - disse ela com firmeza, enquanto dispunha a refeio improvisada sobre uma toalha de papel estendida em cima do balco.
   - No tenho tempo. Aquela bexiga est prestes a rebentar.
   Laura lanou-lhe um olhar de repreenso por cima do ombro.
   - Voc tem de comer. No pode operar um gato com as mos a tremer!
   Isaiah no estava habituado a que um empregado cuidasse dele. Normalmente, num dia atarefado, era cada um por si. Contudo, tinha de admitir que aquilo at sabia 
bem. Depois de ir ter com ela junto ao lavatrio, ele sentou-se num banco e pegou num boio de iogurte.
   - Obrigado, Laura.
   Abriu o envelope de celofane de uma colher de plstico e praticamente inalou o iogurte. Ainda no engolira a ltima colherada e j ela abria o selo de outro boio 
e o empurrava na direco de Isaiah.
   - Beba tambm uns golos de refrigerante - disse-lhe ela. - Far subir mais depressa o acar no seu sangue.
   Isaiah bebeu vrios tragos de Coca-Cola. Ao voltar a pousar a lata no balco  que se apercebeu de como as suas mos estavam a tremer.
   - Obrigado - voltou a dizer. - J me estou a sentir um pouco melhor.
   Os lindos olhos cor de avel de Laura estavam sombrios de preocupao.
   - Devia mesmo comer mais vezes. Ningum pode trabalhar assim tanto sem comida.
   A simplicidade daquela afirmao no passou despercebida a Isaiah. A maior parte das pessoas teria usado as palavras alimentao e energia.O facto de ela ter 
evitado esses termos f-lo constatar quo extraordinrio fora o desempenho dela nessa manh. Enquanto trabalhava a seu lado, esquecera-se por longos perodos de 
que ela era deficiente.
   - J lhe disse quanto apreciei a sua ajuda nesta manh? Sei que no foi fcil para si.
   A boca dela encurvou-se nos cantos quando ela sorriu, dando aos seus lbios cheios uma doura apetecvel que era difcil de ignorar.
   - O fcil  para mariquinhas - respondeu ela, com os olhos a bailarem de diabrura. - E, sim, j me agradeceu. -O olhar dela desviou-se para as jaulas na extremidade 
da sala, onde o Humphrey jazia agora acordado. O co estava fraco mas conseguia erguer a cabea, o que Isaiah tomou como um sinal positivo. - A verdade  que - continuou 
ela - sou eu que tenho de lhe agradecer. Consegui hoje ajudar a salvar vidas.  uma coisa que eu no pensava conseguir fazer.
   Isaiah compreendeu a sensao de assombro dela. Ele prprio a sentira nas primeiras vezes que operara. Com o tempo, perdera-a, e s agora se apercebia disso ao 
trabalhar com Laura e observar o espanto nos olhos dela.
   -  uma sensao incrvel, no ?
   Ela disse que sim com a cabea e olhou para as suas mos.
   - Nem mesmo agora consigo acreditar que o fiz.
   Ele no pde deixar de sorrir.
   - No s o fez como fez um excelente trabalho.
   Isaiah esteve para acrescentar que ela daria uma excelente tcnica se tivesse a formao adequada, mas refreou-se antes de pronunciar as palavras. Laura fizera 
um bom trabalho sob a sua orientao, espantosamente bom, mas no poderia ir muito mais longe. A constatao disso entristeceu-o.
   O rubor de satisfao que aflorou s faces de Laura revelou-lhe quanto o elogio era importante para ela, o que o entristeceu ainda mais. Se no fosse o acidente, 
ela teria tido um futuro brilhante.
   Isaiah atirou com os boies de iogurte vazios para o caixote de lixo.
   - No vai comer nada? - perguntou ele, enquanto tirava o plstico que empacotava um palito de queijo.
   Ela franziu o nariz e abanou a cabea negativamente.
   - Depois. Agora no sinto muita fome.
   Ocorreu a Isaiah que provavelmente ela se deveria sentir demasiado nauseada para conseguir comer. Ele tambm se recordava desses dias.
   - Desculpe-me. Esqueo-me de que as outras pessoas no vem este tipo de coisas regularmente. Depois de fazermos isto durante algum tempo, habituamo-nos.
   - Hum - disse ela, lanando-lhe um olhar dbio. - Talvez.
   Pelas cinco da tarde, as costas de Isaiah estavam a mat-lo. Estivera de p durante horas sem descanso. Quando a ltima operao terminou com sucesso, ele deixou 
-se cair pesadamente sobre um banco, inclinou a cabea para trs e suspirou.
   - Que dia este!
   Laura estava no lavatrio, a lavar as mos.
   - Se j acabmos, preciso de ir ao canil ver se todos os animais estobem.
   Isaiah resmungou. Jennifer encontrara uma pessoa para tratar do canil na ausncia de Laura nessa manh, mas a pessoa que deveria ter vindo  tarde telefonou a 
dar parte de doente. Isso significava que ainda haveria a fazer umas boas quatro horas de trabalho.
   - Eu ajudo - disse Isaiah.
   - Eu aguento-me.
   - E fica-me aqui at Deus sabe quando?
   - Se calhar tambm vou ter de fazer o turno da noite, se todo o pessoal do canil estiver doente.
   - A Jennifer falou com o Dan Fosworth. Ele diz que se sente bem, portanto temos a noite assegurada. O que  bom, pois se calhar amanh vou precisar de si outra 
vez aqui.
   Ela parou de secar as mos.
   - Acha?
   - E possvel. Depende do tipo de gripe que toda a gente tem. A no ser que seja do gnero que passa em vinte e quatro horas, o mais provvel  ficarmos de novo 
com falta de pessoal.
   - E quem fica a trabalhar nos canis amanh?
   - A Lena precisa das horas. A Gloria disse-me que ela concordava em fazer o dia todo.
   Trinta minutos depois, eles estavam juntos a limpar os canis. Laura recolhia os cobertores sujos enquanto Isaiah lavava e desinfectava o cho. Tal como acontecera 
na cirurgia, depressa encontraram um ritmo compatvel e conseguiram fazer muita coisa em tempo recorde. Mal Isaiah acabava de lavar e desinfectar uma jaula, Laura 
colocava de imediato cobertores limpos. Depois, ela trazia o animal de volta  jaula enquanto ele lavava as tigelas e as voltava a encher de comida e de gua.
   Na pressa em terminar e ir para casa, Isaiah quase que ralhou com Laura quando reparou que ela se estava a demorar em cada uma das jaulas para fazer festas aos 
ces e falar suavemente com eles. O que  isto? J haviam trabalhado doze horas nesse dia. quele ritmo, passariam ali toda a noite. Mas, mal abriu a boca para dizer 
qualquer coisa, reparou no olhar de pura adorao de um dos ces.
   Isaiah mostrou um sorriso cansado e encostou um ombro contra a rede de arame da porta de um canil.Isto,apercebeu-se ele, era o que tornava Laura to boa no seu 
trabalho. Ela gostava verdadeiramente dos animais, e eles gostavam verdadeiramente dela. Ela demorava-se s um minuto com cada co antes de avanar para o seguinte. 
Tudo somado, ela teria gasto menos de dez minutos, e teria sido tempo bem gasto. Cada um dos ces ao seu cuidado obtinha a sua quota-parte de afecto.
   - Voc  espantosa - disse ele, por fim.
   Ela endireitou-se e lanou-lhe um olhar perplexo.
   Isaiah apontou para o relgio.
   - A Laura est aqui desde as seis da manh, e sei que deve estar exausta. Contudo, ainda arranja tempo para fazer com que todos estes ces se sintam amados. Acho 
isso extraordinrio.
   - Eles sentem-se ss.
   Foi tudo o que ela disse, mas a resposta revelou a Isaiah mais do que ela poderia pensar. A me dele dissera a verdade: Laura Townsend era to doce quanto parecia. 
No era fingimento. Ela no estava a agir para o impressionar. Na sua opinio, o afecto que ela dedicava a cada animal era to importante quanto os cobertores lavados 
e a comida.
   - Pizza- disse ele.
   Ela voltou a parecer perplexa.
   - Jantar, voc e eu, pago eu. O que diz?
   - No tem de me alimentar.
   - Temos ambos de comer, e detesto ir a um stio qualquer sozinho - retorquiu ele, olhando-a com um olho semicerrado. - A Laura  ou no  a mesma pessoa que me 
estava a dar uma palestra h bocado acerca da alimentao?
   A face dela encovou-se num sorriso.
   - Faz com que seja difcil dizer que no.
   - Ento no diga.


 
   
   
   
   
   A quarta-feira foi quase uma repetio da tera-feira, com mais de metade do pessoal de baixa e s Laura para assistir Isaiah na cirurgia, com a diferena de 
terem entrado menos casos urgentes. O ritmo menos acelerado deu a Laura mais oportunidades do que ela desejava de reparar no homem que estava a seu lado - como os 
tendes nos seus antebraos bronzeados inchavam e se moviam enquanto trabalhava, como os seus olhos escureciam quando se concentrava, e como ele cheirava, uma atraente 
mistura de colnia com fragrncia a especiarias, resqucios de sabo, e uma essncia puramente masculina que a impeliam a querer aproximar-se dele para cheirar o 
seu aroma. M ideia. A nica esperana de Laura era a de que um par de tcnicas estivesse suficiente melhor no dia seguinte para poder vir trabalhar, de modo a que 
ela pudesse voltar para os canis, que era o seu lugar.
   s dez, ela arranjou alguns minutos entre dois pacientes para fazer um bule de caf fresco. Mal a mquina acabou de o fazer, ela pegou na manga de Isaiah e arrastou-o 
da sala de operaes para fora.
   - Est na hora de comer qualquer coisa -informou-o ela. - Desta vez no seu gabinete, para que eu tambm possa comer um pouco.
   - Comer qualquer coisa? - perguntou ele, com um cintilar de interesse no olhar. -O qu? Mais iogurte?
   - Nada disso. Uma coisa muito melhor.
   Isaiah estacou mal passou a porta.
   - Rolinhos de canela? Morri e fui para o cu! - exclamou ele, dando a volta  secretria. Deixou-se cair sobre a cadeira e inclinou-se para a frente para cheirar. 
- Cheiram exactamente como os da minha me...
   - A Safeway tem bons bolos - explicou ela. No era mentira, a Safeway tinha uma pastelaria fabulosa. Mas Laura preferiu no lhe dizer que os rolinhos tinham sido 
feitos por ela. No sabia bem por que razo o fizera, talvez por isso poder parecer demasiadamente pessoal. - Vo bem com caf acabado de fazer.
   Ele suspirou e deu uma dentada. Laura tirou um dos rolinhos para si prpria, colocando-o sobre um guardanapo de papel. Antes de o provar, experimentou o caf. 
Era a primeira vez que fazia caf com a mquina da clnica, e no tinha a certeza de quantas colheres de caf usar. Ficou aliviada por descobrir que o caf sabia 
bem.
   - Isto  uma maravilha - disse ele, lambendo um pedao de vidrado de acar do dedo. - Os rolinhos de canela esto entre os meus favoritos. Iria jurar que estes 
so caseiros.
   Laura sorriu enquanto enterrava os dentes no seu rolinho. Era bom, constatou ela; no seria uma das suas melhores fornadas, mas estava aceitavelmente leve, com 
a quantidade certa de canela e glac. Era uma receita da sua av, uma massa que se fazia de uma assentada, sem necessidade de amassar, de modo que ela teve tempo 
de fazer uma fornada na noite anterior antes de cair na cama.
   - Vou trazer mais alguns, um destes dias - prometeu ela.
   Ele aquiesceu.
   - Mas no se esquea de pedir  Val o reembolso. No quero que a despesa saia do seu salrio.
   O custo fora principalmente em tempo e trabalho, mas ela no conseguiu ter coragem para lho dizer. Era melhor que ele pensasse que os rolinhos foram comprados 
na loja. Assim, ela podia voltar a faz-los sem se sentir constrangida.
   - Para o almoo, tenho sanduches, batatas fritas e um monte de sopas instantneas. Graas a Deus que a Safeways est aberto vinte e quatro horas por dia. No 
gosto de passar fome.
   - As sanduches vo ser ptimas - disse ele, pegando num segundo rolinho e voltando a recostar-se na cadeira, com uma expresso de pura satisfaoespelhada no 
seu rosto moreno. - Mais do que ptimas. Continue assim que eu ainda a vou querer na cirurgia a tempo inteiro.
     Posso manter o frigorfico cheio, trabalhe eu onde trabalhar -lembrou ela. - O mercado fica no meu caminho para o trabalho.
   - Isso seria maravilhoso, Laura. Quando temos uma equipa completa a trabalhar, as tcnicas combinam entre si as pausas para o almoo e geralmente saem para irem 
almoar a um stio qualquer. Normalmente, eu no tenho tempo para isso.
   Laura constatou que o problema de Isaiah era mais o excesso de dedicao do que a falta de tempo. Ele no era apenas um bom veterinrio; era totalmente dedicado 
 sua profisso e aos animais confiados ao seu cuidado. Que se recordasse, ela nunca trabalhara tanto como o fizera no dia anterior. Tinha a sensao de que Isaiah 
dava tudo por tudo em cada dia.
   Olhando para ele do outro lado da secretria, Laura voltou a desejar que pelo menos alguns dos tcnicos e tcnicas voltassem ao trabalho no dia seguinte. Ficaria 
satisfeita se as coisas voltassem ao normal. A intimidade nem sempre d azo a desrespeito. Por vezes, no fundo de um corao insensato de mulher, planta-se a semente
de sentimentos muito mais profundos.
   Laura no podia deixar que essa semente criasse razes. Precisava de voltar para os canis, a uma distncia segura de Isaiah, antes que fizesse qualquer coisa
realmenteestpida, como apaixonar-se por ele.



Captulo Cinco










   O desejo de Laura realizou-se. No dia seguinte, a maior parte dos outros empregados voltaram ao trabalho e retomaram as suas tarefas habituais. Satisfeita por 
o pior da epidemia de gripe ter passado, Laura voltou aos canis. O trabalho com Isaiah fora interessante e empolgante, mas estar com os animais era o trabalho dela. 
Tinha a rotina perfeitamente assimilada, sentia-se mais descontrada e, embora gostasse de todos os animais que ficavam por breve trecho ao seu cuidado, no estava 
em perigo de se perder definitivamente de amores por nenhum deles.
   Quando o turno dela terminou ao meio-dia, Laura dirigiu-se ao seu carro para ir buscar os volumosos sacos de plstico que enchiam a mala e os assentos de trs 
desde a sua ida s compras na segunda  noite. No momento em que abria a mala, entrou no parque de estacionamento umapick-up com um reboque para cavalos. Um homem 
de certa idade, de calas e casaco de ganga Levi's, saiu do veculo.
   - No h problema se eu estacionar aqui? - perguntou ele. - Os lugares em frente ao centro equestre esto todos ocupados...
   Laura olhou para o grande pavilho de cobertura metlica onde Isaiah e Tucker tratavam os cavalos, e l estava um enorme reboque para quatro cavalos estacionado 
de lado, a ocupar todo o espao de parqueamento disponvel.
   - Penso que no h problema - respondeu ela.
   Enquanto Laura tirava da mala sacos de decoraes, o homem descarregou um belo cavalo castanho-avermelhado do reboque. O animal lambia a perna dianteira direita 
e mancava muito.
   - Oh, como  que ele magoou a perna? - perguntou ela.
   - Tem apenas um tendo distendido, espero eu - respondeu o homem. - Mas est a mancar muito. Pensei que fosse melhor o Isaiah v-lo.
   - Ah - exclamou ela. Normalmente, Isaiah fazia visitas domicilirias a quintas e ranchos trs manhs por semana, de modo a poder tratar no local de pequenos ferimentos 
e doenas comuns a animais grandes. -O senhor deve viver bastante longe...
   O homem anuiu.
   - Sessenta milhas a norte, um bocado longe para um veterinrio ir at l.
   Laura sabia que tanto Isaiah como Tucker tinham demasiados pacientes para poderem deslocar-se at to longe para tratar apenas de um.
   - Estou a ver. Bem, espero que a perna do seu cavalo fique boa depressa.
   Ela ficou a olhar para o homem enquanto ele levava o animal para o centro equestre. Um tcnico envergando uma bata azul de laboratrio saiu da recepo para levantar 
uma grande porta corredia de modo a que tanto o cavalo como o dono pudessem entrar no edifcio.
   Alguns momentos depois, quando Laura entrou na sala de espera da clnica com os braos carregados de sacos, Debbie, uma das secretrias, perguntou:
   - O que trazes a? Precisas de ajuda?
   Laura no podia dizer a Debbie o que estava nos sacos. Halloween e decoraes eram palavras polissilbicas. Se tentasse dizer as duas, uma a seguir  outra, comearia 
a gaguejar.
   Optou por sorrir e levantar as sobrancelhas. Debbie, que poderia ser descrita como indefinida, com cabelo castanho claro cortado curto, olhos azuis, feies regulares 
e um corpo mediano, era normalmente uma pessoa reservada com ar executivo. Mas agora a curiosidade era claramente mais forte do que ela. Levantou-se da cadeira e 
deu a volta ao balco.
   - O que  que tens a? - perguntou ela, esticando o pescoo para espreitar para dentro de um saco.
   Laura pousou cuidadosamente os sacos no cho. Acenando com a mo, disse:
   - Espreita e v...
   Uma mulher que estava sentada na ltima cadeira da sala de espera inclinou-se muito para a frente quando Debbie abriu um dos sacos. Seguiram-se exclamaes de 
satisfao e, antes que Laura percebesse bem o que estava a acontecer, as suas compras para o Halloween ficaram sob ataque, com todas as recepcionistas a vasculharem 
a mercadoria, enquanto os clientes, com os ces pela trela, pairavam por detrs delas, tentando ver. At Gloria, uma mulher aparentemente aptica, largou uns sonoros 
"Oh!" e "Ah!" ao examinar os enfeites.
   O burburinho fez Val sair do seu gabinete.
   - Mas que raio se passa aqui?
   - Enfeites de Halloween! - exclamou Jennifer Bacchi, uma ruiva alta mas bem proporcionada, erguendo uma rvore miniatura, um ramo desfolhado pintado de negro 
para que parecesse deliciosamente sinistro. - Vem ver, Val! - Hoje, graas s lentes de contacto coloridas, os olhos azuis de Jennifer eram verde-esmeralda, e brilhavam 
de excitao. - Ela arranjou coisas girssimas para pendurar nos ramos!
   Cabelo louro  duende, desgrenhado pelo vento por ter acabado de vir do exterior, aonde fora para fumar um cigarro, Val adiantou-se para se debruar sobre um 
saco e depois outro. A fragrncia que a envolvia, uma mistura curiosamente agradvel de perfume e fumo de tabaco, enchia o ar quando ela passava.
   - Ento, sou boa ou no sou? - a cara dela, tisnada pelo sol, enrugou-se toda num sorriso agradvel quando ergueu os olhos para Laura. - Eu sabia que serias boa 
nisto!
   - Trouxe uma carrada dessas mas caramelizadas! - exclamou Debbie. - E no  que parecem mesmo verdadeiras?
   Val pegou num cesto amarelo que estava num dos sacos de Laura.
   - Oh, Laura, estes cestos so maravilhosos. O que  que vais pr neles?
   Normalmente, quando Isaiah regressava  clnica aps as suas consultas domicilirias s quintas e ranchos, entrava no edifcio por uma porta nas traseiras, mas 
nessa manh havia um reboque para cavalos a bloquear o seu lugar de estacionamento habitual. Isaiah reconheceu o camio que puxava o reboque como sendo de um cliente 
que vivia fora da rea. Isaiah no se lembrava do sujeito ter uma consulta marcada para esse dia, mas isso no queria dizer muito. O seu dia estava sempre to preenchido 
que apenas a sua agenda de marcaes o salvava.
   A falta de lugar de estacionamento nas traseiras forou Isaiah a deixar o Hummer na parte da frente. Tirou as luvas de couro, contornou o veculo, saltou para 
o passeio fronteiro  clnica e avanou pelo cimento com marcas de patas a passadas longas e apressadas.
   Ouviu os gritos antes de chegar ao edifcio. Mal passou a porta, estacou e ficou a olhar, embasbacado. As suas empregadas, normalmente eficientes e dedicadas, 
tinham abandonado os seus postos para se agacharem, ajoelharem e sentarem no cho da rea de espera, todas entretidas com um lote colorido de coisas de Halloween. 
Enquanto tiravam coisas do monte de sacos de plstico, elas emitiam sons semelhantes aos de um bando de galinhas assustadas.
   Com as faces rubras de satisfao, Laura estava de p no meio do grupo, explicando no seu modo pausado e suave onde tencionava pr isto ou pendurar aquilo, sinal 
evidente para Isaiah de que era esta sua bonita e loura zeladora de canil a responsvel por todo aquele caos. Dado que as clientes pareciam estar-se a divertir tanto 
quanto as empregadas, Isaiah no pde deixar de sorrir. Parecia que nada mais ficaria na mesma na clnica agora que Laura fora contratada. A sua disposio luminosa 
e o seu calor humano pareciam contagiar toda a gente.
   Um golden retriever apanhou a sua dona desprevenida e deu um puxo na trela para meter a cabea num dos sacos. Laura soltou uma gargalhada e agachou-se para afagar 
o pescoo do co.
   - s mesmo espertalho, no s? - disse ela, enquanto fazia festas nas orelhas do animal; depois, meteu a mo dentro do saco e tirou para fora um pacote. - Sim, 
acertaste, trouxe guloseimas para cezinhos! - Laura recompensou o candeo farejante com um biscoito cor de fgado. - Estes so saborosos; no so nada como aquelas 
coisas nojentas ditas saudveis que o Isaiah e o Tucker compram...
   O co apressou-se a devorar a guloseima. Laura sorriu, deu-lhe outra, e depois pegou numa abbora de plstico com tampa amovvel enquanto se punha outra vez de 
p. Estava a despejar os biscoitos de co para dentro dela quando viu Isaiah.
   - Isaiah!
   Os risos sucumbiram de imediato, e todas as cabeas se voltaram. Isaiah avanou para elas.
   - Minhas senhoras...- disse ele,  laia de cumprimento.
   Debbie ps-se de p num salto. A cara de Jennifer ficou quase to vermelha quanto o seu cabelo. Gloria, que era sempre impassvel e controlada, voltou a guardar 
os objectos que tinha tirado de um dos sacos antes de se juntar ao xodo sbito em direco aos postos de trabalho. S Val se manteve no terreno, um tringulo de 
pouco mais de um metro de lado no cho de ladrilho pejado de abboras e cabaas das mais variadas cores.
   - Na ltima reunio de direco, o senhor pediu que a clnica fosse decorada -lembrou-lhe ela. -Recorda-se?
   Isaiah recordava-se de ter feito o pedido. Na altura, imaginara que fosse trabalho para uma s mulher. Agora podia constatar o erro do seu raciocnio.
   - Parece-me um projecto vlido. Continuem.
   Ao ouvirem estas palavras, as recepcionistas, que se apressavam a retomar os seus lugares, estacaram. Isaiah piscou-lhes o olho. Os ombros comearam a relaxar, 
os sorrisos voltaram a despontar, os ps retomaram o caminho em sentido inverso e em breve a gralhada feminina ecoava de novo no trio. S Laura no se mexia. De 
olhos ainda muito abertos, ela olhava para ele.
   - Creio que deveria ter guardado isto para fora das horas de servio - disse ela. - No tencio-nava atrapalhar a rotina habitual...
   - A rotina habitual precisa de ser interrompida de vez em quando - respondeu Isaiah. Apenas se interrogava como Laura ficara com a trabalheira da decorao. Olhou 
para a parafernlia espalhada por sobre o ladrilho. A Jennifer estava a brincar com o que parecia ser uma abbora-lanterna miniatura a pilhas. Iluminava-se em tons 
de laranja, e depois piscava. - Onde raio foi desencantar estas coisas?
   - Na Season's Delights, uma loja na Cidade Velha, junto ao jardim. Fui l no Natal passado, e agora  onde vou sempre. Algumas coisas deles so carotas, mas a 
maioria no .
   Isaiah comeava a suspeitar de que Laura gostava de fazer compras. Parecia saber precisamente aonde ir para comprar qualquer coisa em especial.
   - Estou impressionado... Abboras que se iluminam?
   - So para a rvore - esclareceu Laura, pegando numa coisa negra presa a uma base, no meio da trapalhada espalhada aos seus ps. - Descobri tambm bruxas em vassouras 
e pequenos mafarricos para pendurar nelas. E teias de aranha. Vai ficar giro. Penso que ficaro bem sobre o balco.
   Ela apressou-se a mostrar a Isaiah uma quantidade de outras coisas que comprara - cestos, cabaas, mas caramelizadas artificiais, coroas e grinaldas de folhas 
de Outono, frascos de doces com a forma de abboras e uma coleco de clssicos do Halloween que incluam bruxas de papel, diabretes e esqueletos.
   Mas Isaiah s tinha olhos para Laura. Ela vestia uma camisola de malha cor de ferrugem que combinava to bem com todos os tons outonais que ela prpria poderia 
ter sado de um dos sacos. Enquanto passava os olhos pela figura esbelta da rapariga, ele deu por si a desejar que assim fosse. Teria pegado nela debaixo de um brao 
e levado a rapariga para sua casa para a abrilhantar para o Halloween.
   - Ento... o que  que acha? - perguntou ela.
   Ele despertou de chofre para a realidade. Em que  que estava a pensar? Havia uma forte possibilidade de estar a perder o juzo.
   - Eu... bem...  tudo ptimo... - gaguejou ele.
   - Tentei escolher coisas com gosto.
   Isaiah no pescava nada sobre decorao, mas vira o apartamento de Laura. Ela tinha jeito para arranjar coisas e loisas, agrup-las, e fazer com que ficassem 
bem e agradveis  vista.
   - Estou certo de que vai tudo ficar lindamente quando a Laura terminar.
   Laura sentiu o corao sobressaltar-se estranhamente no peito quando Isaiah se aproximou dela. Nessa manh, ele tinha na cabea um Stetson cor de areia que ainda 
parecia aumentar mais a sua impressionante estatura, a aba a lanar uma sombra sobre as suas feies cinzeladas. O seu casaco de lona castanho, de bainhas compridas 
para andar a cavalo em frios dias de Inverno, apenas acentuava a sua boa aparncia. A gralhada das mulheres ao seu lado foi diminuindo at que s o som da sua prpria 
respirao lhe ressoava nos ouvidos.
   - A Laura est bem?
   Laura endireitou os ombros.
   - Estou bem, estou ptima - disse ela. S que no estava. Sentia o corao apertar-se-lhe s de olhar para ele. E ter trabalhado com ele durante dois dias completos 
no fora bom. Ela queria perguntar-lhe se ele tomara o pequeno-almoo. Teve de morder a lngua para refrear o desejo de lhe lembrar que tinha de almoar. - Estou 
feliz por ter gostado do que comprei.
   Ele aquiesceu e tirou o chapu. O cabelo escuro caiu-lhe em ondas emaranhadas por sobre a fronte, fazendo com que as pontas dos dedos de Laura desejassem comp-lo. 
Isaiah sorriu ligeiramente - um daqueles sorrisos descentrados que levantavam apenas um dos cantos da sua boca.
   - Creio que  melhor eu ir-me embora, para que a Laura possa voltar ao seu trabalho - disse ele, tocando com a biqueira num dos sacos. - Mas no trabalhe demais, 
est bem? Esse vrus de gripe ainda pode andar por a. No exagere e desgaste as suas resistncias. No quero que fique doente.
   A preocupao na voz funda dele parecia sincera, dando a Laura razo para se perguntar se ele estaria to confuso pelos seus sentimentos em relao a ela quanto 
ela estava em relao a ele. Mal esse pensamento se imiscura na sua mente, o sangue esfriou-lhe nas veias. Estpida, estpida, estpida! Um homem como Isaiah nunca 
se interessaria por uma pessoa como ela. Com a sua inteligncia e a sua energia, ele poderia deixar uma marca no mundo da medicina veterinria. Com esse sucesso 
futuro viriam a fortuna e oportunidades estimulantes. A ltima coisa de que ele precisava era de uma mulher com leses cerebrais a fazer-lhe de lastro.
   A sensao de aperto em volta do corao tornou-se dolorosa, mesmo quando ela se forou a sorrir.
   - No me vai levar muito tempo - disse ela, apontando para as outras mulheres. - Tenho montes de ajuda.
   Os bonitos olhos azuis dele pousaram nos dela e, por um breve instante, Laura sentiu como se eles fossem as nicas pessoas na sala. Depois, ele deu meia-volta 
e foi-se embora.
   Quando se encontrou na cirurgia, Isaiah pendurou o chapu num cabide e tirou o casaco. Raios. Na maioria das vezes, no tinha quaisquer problemas em abafar sentimentos 
de atraco quando estes no eram convenientes. Tome-se, por exemplo, a mulher do Zeke, a Natalie. Era linda, talentosa e encantadora. Qualquer tipo com olhos na 
testa se babaria da primeira vez que a visse. Isaiah no fora excepo, mas, no momento em que sentiu um toque de desejo, expulsou-o por completo e nunca mais se 
permitiu senti-lo de novo.
   Por que razo, ento, no conseguia fazer o mesmo com Laura? Sim, ela era bonita, mas tambm havia milhares de outras mulheres que o eram. Ele nunca tivera problemas 
em resistir a qualquer uma delas. Com efeito, atarefado como sempre estava, era rara a mulher que o fazia olhar duas vezes para ela.
   - Viva! - cumprimentou Trish, voltando-se da jaula de um gato. O seu sorriso de boas-vindas desvaneceu-se no momento em que viu a cara dele. - Oh, oh. Problemas?
   - Nada de relacionado com a clnica. - Mentiroso. Laura estava a criar um lugar para si prpria na clnica, demonstrando ser uma valiosa aquisio. Ele tinha 
de manter a cabea no lugar no que a ela dizia respeito. Os homens que assediam mulheres que lhes esto subordinadas so um nojo, e ele nunca se permitiria descer 
a esse nvel. - Estou apenas um pouco em baixo.
   - A Laura trouxe bolachas caseiras... daquelas grandes e gordas, que se derretem na boca, com montes de pepitas de chocolate de leite. Coma algumas, para animar.
   Isaiah quase que rosnou. Laura, Laura, Laura!O nome dela parecia despontar em quase todas as conversas. Decidido a concentrar-se no seu trabalho, Isaiah deu uma 
olhada para as marcaes do dia. Estava certo, o Roger Petty tinha uma marcao com ele para a uma e meia, para tratar do seu quarter-horse castrado, o Rusty. Mancava 
muito da perna frontal direita. Isaiah esperava que no fosse nada de grave. O velho gostava daquele cavalo como se fosse de um filho.
   Arregaando as mangas da camisa, Isaiah dirigiu-se ao lavabo para lavar as mos. Quando se voltou para pegar numa toalha de papel, Trish foi na ponta dos ps 
at  sua frente e ps-lhe uma bolacha  frente do nariz.
   - V l, uma grande dentada. O chocolate melhora a disposio!
   S o cheiro era suficiente para melhorar a disposio de Isaiah. O pequeno-almoo, meia embalagem de aperitivos de queijo que ele comera enquanto conduzia, fora 
h seis horas. Deu uma grande dentada na bolacha.
   Quando comeou a mastigar, Trish acrescentou:
   - H estudos que dizem que o chocolate d s pessoas a mesma sensao que tm quando se esto a apaixonar.
   Isaiah parou de mastigar, com os dentes enterrados em deliciosas pepitas de chocolate. Um activador hormonal era a ltima coisa de que precisava. Infelizmente, 
as pepitas de chocolate j se estavam a derreter sobre a sua lngua, e ele no era de ferro. Que pessoa normal e racional conseguiria resistir e no engolir?
   A bolacha era deliciosa. Isaiah devorou o resto e tirou mais duas de uma bandeja cor-de-laranja vivo, adornada com pequenas bruxas negras. Enquanto comia, constatou 
que havia alguma verdade no velho adgio que dizia que o caminho para o corao de um homem passava pelo seu estmago.
   Depois de acabar a decorao da rea de espera, Laura passou para a ala de Tucker da clnica, na esperana de que Isaiah estivesse ocupado nas salas de observaes 
quando ela se virasse para a ala dele. No teve essa sorte. Ele estava a meio de uma operao a um gato cinzento malhado quando ela entrou no bloco cirrgico da 
ala sul.
   Ao ouvir o som da porta a fechar-se por detrs dela, ele ergueu os olhos e lanou-lhe um longo olhar contemplativo. Habituada a uma recepo mais amigvel, Laura 
interrogou-se se no teria feito algo de errado.
   Trish, parecendo um pequeno elfo mascarado ao lado do seu alto patro, lanou a Laura um olhar malandro.
   - Ora aqui ests tu! Se tens as orelhas a arder  porque estvamos a falar de ti...
   Belinda, que estava a limpar uma jaula de observao, voltou-se.
   - Pois , menina - disse ela com um sorriso -, ests metida numa alhada...
   Laura lanou a Isaiah um olhar interrogativo. Ele apercebeu-se e piscou os olhos.
   - Uma alhada de fazer crescer gua na boca -sossegou-a ele. - Estamos apenas agradecidos pelas bolachas. So deliciosas.
   - Eu que o diga. E as bandejas so girssimas! Pe-me mais no esprito do Halloween - disse Trish, esfregando a ponta do nariz com o antebrao, atravs da mscara 
cirrgica. -Despache-se e acabe isto, Isaiah. Apetece-me outra bolacha!
   - Sim, senhora - respondeu Isaiah, debruando-se para continuar o seu trabalho. - A propsito, Laura, creio que voc e a sua av esto convidadas para o jantar 
de Aco de Graas na casa dos meus pais.
   - Aco de Graas? - exclamou Belinda, amassando um jornal sujo nas mos. - Por favor! No podemos deixar primeiro passar o Halloween?
   Trish riu-se.
   - Nem pensar! Vamos estar na carreira das festividades durante os prximos dois meses.
   Belinda bufou e revirou os olhos.
   Como os pais de Laura viviam na Florida e a irm em Portland, Laura contava passar o feriado com a av.
      -Ainda no falei com a minha av - acabou ela por dizer. - E ela ainda no dissenada acercade ir a casa dos seus pais para o jantar de Aco de Graas.
   Ele no ergueu os olhos.
   - Bem, ainda  cedo. A minha me tem o hbito de planear tudo para as frias com grande antecedncia. Interrogava-me apenas se a Laura l poderia ir - disse ele, 
limpando o suor da testa com a manga da sua bata. - No h problema, se a Laura tiver outros planos.
   O prazer radiou atravs de Laura, inundando todo o seu corpo de calor. Ele queria saber se ela iria estar presente no jantar de Aco de Graas em casa dos seus 
pais. Ela no pde deixar de se interrogar se isso significava que ele tinha a esperana de que ela pudesse ir. Mal o pensamento chegou, Laura afastou-o da sua mente. 
Terreno perigoso. No que dizia respeito a este homem, ela precisava de manter os ps bem assentes na realidade. Ele pensava nela como amiga, e nada mais.
   - A minha av no me disse nada. Mas seria bom -ouviu-se ela prpria a dizer.
   - Se decidirem ir,  melhor treinarem o vosso jogo de damas - disse ele com um sorriso. - Sou o campeo absoluto nas damas.
   Laura sempre gostara de damas, e esse era um dos poucos jogos que ela ainda conseguia jogar.
   - Eu tambm no sou m s damas...
   Os olhos dele enrugaram-se nos cantos, sinal seguro de que se estava a rir. Depois, ele ergueu um polegar e voltou a sua ateno para o gato.
   - Oh, oh... No estou a gostar do aspecto disto...
   Trish seguiu-lhe o olhar.
   - Parece-lhe maligno?
   - Merda! - suspirou Isaiah, desanimado. -E melhor fazermos uma biopsia.
   Trish foi at um armrio.
   - A Shania e o Trevor adoram bolachas com pepitas de chocolate, Laura. Pode-me dar a receita?
   Laura estava especada a olhar para o gato inconsciente e a pensar nos seus donos. Se o felino tinha cancro, eles poderiam ter de o abater.
   - O qu? - perguntou ela, voltando a ateno para Trish. - Desculpa.
   - Meu Deus - disse Isaiah quase num murmrio. -Isto  cancro.
   Voltando para a marquesa com uma lamela de plstico transparente, Trish respondeu  pergunta de Laura.
   - Eu disse que queria a tua receita das bolachas.
   - Claro - disse Laura, fazendo as palavras passarem por uma garganta apertada. - Vou copi-la para...
   - Filho da me! H mais do que um tumor. Testa! - disse Isaiah, inclinando a cabea para Trish, de modo a que ela lhe pudesse limpar o suor do sobrolho. Depois, 
voltou-se a debruar sobre o seu trabalho. - Que sorte malvada. Ela d tudo por este gato...
   Belinda abandonou o que estava a fazer para se aproximar da mesa de operaes.
   - Oh, no. No o podemos deixar morrer, Isaiah. A Sra. Palmer vai ter um ataque cardaco.
   As sobrancelhas de Trish enrugaram-se de preocupao.
   - Acha que  muito grave?
   Por baixo da mscara que cobria a metade inferior da cara de Isaiah, Laura pde ver o msculo do maxilar dele a latejar.
   - No sei se vou conseguir apanh-lo todo. Mas raios me partam se no vou tentar. No admira que o bichano tenha andado arredado da comida. O pobrezito est todo 
comido por dento.
   Trish olhou para Laura.
   - Conheces a Sra. Palmer?
   Laura abanou a cabea negativamente.
   -  uma querida - atalhou Belinda - Uma velhinha adorvel. O Seymour  tudo quanto ela tem agora. Omarido dela morreu h cerca de seis meses.
   Isaiah praguejou de novo. O corao de Laura sofria por ele. Naquele momento havia imensa angstia nos seus olhos.
   - Meu Deus! - A palavra murmurada soou como um grito. Isaiah endireitou-se e fechou os olhos. - Aguentem-me uns segundos - disse ele a Trish. - Tenho de telefonar 
 dona. - Arrancou a mscara enquanto se afastava da mesa. - J volto.
   O estmago de Laura revoltou-se com nusea quando ele saiu do bloco operatrio. Trish estava de p junto do gato, com o olhar desprovido da malandrice que era 
to caracterstica nela. Belinda voltou a limpar as jaulas, com uma expresso sombria.
- Isto  o lado negativo da medicina veterinria - disse Trish com a voz embargada. - Aquele no vai ser um telefonema nada fcil para ele. - Afagou a cabea do 
gato. - Pobre gatinho. - Inspirou profundamente. - melhor assim do que da forma como alguns deles se vo. Ele s no vai acordar. E l vai ele para a Terra do Arco-ris.
   - Terra do Arco-ris? - repetiu Laura.
   Belinda interrompeu com brusquido:
   - No me venhas outra vez com essa treta do Arco-ris! Os animais no tm alma, Trish. Portanto, no podem ir para o Cu.
   - Tm sim! - contraps Trish. - e a Terra do Arco-ris  onde eles esperam pelos seus donos: um lugar maravilhoso, a meio caminho entre aqui e o Cu. Eles brincam 
e retouam a no paraso animal,  espera que os donos venham juntar-se a eles para os acompanharem no resto da viagem at ao Cu.
   Laura enlaou a prpria cintura. Para seu horror, apercebeu-se de que estava prestes a chorar. E no ajudava nada ver as lgrimas nos olhos da Trish.
   - Odeio dias como este! - desabafou Trish. - Queria tanto que pudssemos salv-los a todos!
   - Pois, mas no podemos - atalhou Belinda, bruscamente, empurrando o caixote do lixo  sua frente com o joelho, enquanto avanava para outra jaula. - Se queres 
singrar nesta profisso, Trish, no podes ser to piegas. Seno, estoiras.
   Laura pensou no seu av Jim, que os deixara h pouco mais de dois anos. O mdico que sara depois do bloco operatrio pegara nas mos da av dela e tinha lgrimas 
nos olhos ao dar-lhe a notcia. Houve vida, e depois houve morte. Era a triste realidade a que ningum conseguia escapar. O mdico que se distanciasse deste drama 
humano arriscava-se perigosamente a perder a sua compaixo.
   Isaiah voltou a entrar no bloco operatrio nesse preciso momento. No disse uma palavra, no estabeleceu contacto visual com ningum. Foi direito a um armrio, 
retirou um frasco e encheu uma seringa hipodrmica com um lquido incolor. Quando se aproximou da marquesa sem lavar as mos ou pr outra mscara, Laura percebeu 
o que ele ia fazer. Momentos depois, um silncio pesado abateu-se sobre a sala quando Isaiah se inclinou para aplicar o estetoscpio ao peito do gato.
   - A dona quer que ele seja cremado? - perguntou Trish, com a voz ainda pesadamente embargada.
   - No, ela quer lev-lo de volta para casa - respondeu Isaiah.
   - Ela tem filhos na cidade? - perguntou Belinda. - que no o consegue enterrar sozinha.  uma velhota debilitada, e o solo est a comear a gelar.
   - Eu vou l e enterro-o - disse Isaiah, dobrando as pontas do lenol cirrgico sobre o gato e levando-o para fora da sala.
   Trish abanou a cabea e lanou a Laura um olhar triste.
   - Como se ele tivesse tempo para fazer isso. Por vezes  to querido...
   Laura encontrou Isaiah no gabinete dele, inclinado para trs na cadeira, com um brao sobre os olhos e os ps em cima da secretria. Quando a ouviu entrar, ps-se 
direito de um salto, batendo fortemente com as botas no cho. Ela podia ver pela expresso dele que estava incomodado por ter sido apanhado a chorar. Porqu, ela 
no sabia. A capacidade que ele tinha em se preocupar com as pessoas e os animais era uma das coisas que ela achava mais maravilhosas em Isaiah.
   - Laura - exclamou ele, rodando para a encarar e mostrando um sorriso rgido. -O que  que ainda est aqui a fazer?
   Laura achou que seria mais apropriado perguntar-lhe o que estava ele ali a fazer. Tinha pacientes  espera para exames de rotina e para vacinas. Todas as salas 
de observaes estavam ocupadas e a sala de espera estava a ficar superlotada. No era prprio de Isaiah fazer as pessoas esperar. Com efeito, nunca o vira negligenciar 
os seus deveres. O facto de ele o ter feito agora dizia muita coisa a Laura.
   - Eu s queria dizer-lhe quanto estou triste pelo Seymour.
   Ele fez uma careta e esforou-se por sorrir de novo, um sorriso que no se lhe expressou no olhar.
   - Ah, pois... Ganhamos umas, perdemos outras... Nada de especial.
   S que era mesmo algo de especial. Ele estava triste, e Laura sofria comisso. Ela vira o olhar dele quando ele se apercebeu da extenso do cancro. Tambm vira 
a resignao sombria na cara dele quando administrou a injeco letal. At ao momento, ela nunca parara para pensar em toda a tristeza associada  profisso deste 
homem. Ela pensara apenas em como ele era talentoso, e em como o seu talento lhe abria portas que estavam para sempre vedadas a ela.
   - So todos algo de especial - disse Laura, interrompendo-se para engolir em seco. - Uma velhinha perdeu o seu nico amigo. Se no se sentisse mal com isso, que 
tipo de veterinrio seria voc?
   - Se calhar, seria mais feliz...- respondeu ele, passando uma mo pelo cabelo e assentando os cotovelos na secretria. Passou uma mo sobre os olhos e confessou 
suavemente: - Est bem, sinto-me pessimamente. Admito-o. Sentir-se assim parece que  prprio da profisso...
   Laura afundou-se na cadeira onde fora entrevistada para conseguir o emprego. Parecia ter sido h sculos.
   - Ela est completamente s - sussurrou ele. -O Seymour era tudo o que lhe restava. Aprendi na faculdade a no deixar que estas coisas me afectem. Mas parece 
que no aprendi bem a lio. Ela  uma velhota to querida. Trouxe-me o Seymour porque ele no tocava na comida. Quando vi uma massa no raio-X, tive esperana de 
que fosse benigna.
   Laura sabia que muita gente, incluindo Belinda, lhe poderiam lembrar que o Seymour era apenas um gato. Mas ela estivera presente dois dias antes, de manh, quando 
fora o Humphrey a ser operado. Para este homem, todos os animais eram importantes.
   - Voc no os pode salvar a todos. Acontece o mesmo com as pessoas. Quando envelhecemos e os nossos corpos se gastam, acabou.
   Ele concordou.
   - Eu sei - respondeu, torcendo a boca. - S que  difcil quando sou eu a ter de decidir e a abat-los. E  particularmente difcil quando sei que uma velhotinha 
muito querida confiou implicitamente em mim e ps todo o seu mundo nas minhas mos.
   Laura quase que conseguia sentir a dor dele e no conseguia pensar em nada de reconfortante para dizer.
   - Ela no estava  espera daquele telefonema - disse ele, com a voz embargada. - Pensava que eu iria fazer um milagre, que o Seymour regressaria amanh a casa 
sentindo-se melhor. - Fez uma careta e deixou os ombros descarem. - Ela nem sequer pode pagar a conta. Vive de uma penso da Segurana Social. Creio at que o Seymour 
comia melhor do que ela.
   - Que pena...
   - Pois...- disse ele, encolhendo os ombros e esfregando o queixo. - Eu dou a volta aos custos. Contudo, ela ter de pagar ainda os custos fixos. Isto porque o 
inventrio foi comprado a meias entre mim e o Tucker. Mas posso abater um bom bocado no lhe cobrando os meus servios.
   Laura teve vontade de o abraar.
   - E muito bondoso da sua parte, Isaiah.
   - Bondoso? Matei-lhe o gato! - retorquiu ele, beliscando a cana do nariz. - Raios! Sei que ela est neste momento lavada em lgrimas. E isso pe-me doente.
   Quando Laura saiu do gabinete de Isaiah, alguns momentos depois, f-lo com um peso no corao.
   Por volta das seis dessa tarde, Isaiah aprontava-se para arrumar tudo e sair quando Laura lhe apareceu inesperadamente na cirurgia. Embrulhada por causa do frio 
numa parka cor-de-rosa com um remate de pelia artificial no capuz, ela parecia adorvel, com os olhos a brilharem de excitao, as faces coradas pelo frio da tarde. 
Trazia as mos cruzadas sobre o peito, parecendo estar a esconder qualquer coisa sob o casaco.
   - O que est a fazer aqui? - perguntou ele, embora se sentisse absurdamente agradado por a ver.
   Encovando as faces num sorriso de conspirao, ela disse:
   - Tenho uma emer-gncia...
   O corao dele teve um baque.
   - O que aconteceu?
   Ela aproximou-se, abrindo a frente do casaco. Um gatinho cinzento, malhado e felpudo, estava anichado contra os seios dela, a dormir profundamente.
   - Este pobrezinho apareceu a miar  minha porta. Anda perdido, e o meu senhorio no me deixa ter animais.
   - Oh, oh...- disse Isaiah. No conseguia descartar a sensao de que aquilo era uma piada e de que ele no percebera a graa.
   - Tenho de encontrar um lar para ele - continuou ela, naquele seu modo lento e compassado. - Sabe de algum que possa ficar com ele, algum especial que o possa 
amar? Talvez uma velhinha que acabou de perder o seu gatinho...
   Isaiah aproximou-se dela. O gatinho era precisamente da mesma cor que o Seymour.
   - Ho! - exclamou ele, numa interjeio de espanto. - Meu Deus, ele perfeito! Onde raio  que o foi descobrir?
   - No meu alpendre - respondeu ela, olhando fixamente para ele com um ar inocente. - Esta  a minha verso, e no a vou alterar.
   Isaiah no engoliu aquilo.  claro que existiam coincidncias, mas a expresso de auto-satisfao de Laura dizia-lhe que no era o caso.
   - Agora a srio, Laura, onde  que o encontrou? Ele  uma verso em miniatura do Seymour.
   Ela pousou suavemente a mo em concha sobre o gatinho adormecido.
   - O canil municipal revelou-se um beco sem sada, portanto procurei no jornal da tarde de ontem. Ele estava na ltima casa aonde fui. E  um macho. Que sorte, 
hem?
   Isaiah sentiu como se tivesse uma bola de golfe entalada por detrs da laringe. Ficou a olhar estupidamente para a cara adorvel de Laura. Naquele momento, ela 
parecia irradiar luz, parecendo mais anglica do que humana. Ele no podia acreditar que ela desperdiara toda a tarde que tinha livre a passar Crystal Falls a pente 
fino  procura de um gatinho cinzento malhado que se parecesse exactamente com o Seymour. Aquilo fora extremamente bondoso da parte dela - e muito para almdo seu 
dever profissional. Ela nem sequer conhecia a Sra. Palmer.
   Belinda apareceu nesse momento, vinda do bengaleiro.
   - O que ? - perguntou ela, ao ver a expresso de espanto de Isaiah.
   Forando-se a arrancar o olhar fixo na fisionomia de Laura, Isaiahrespondeu:
   -  um gatinho para a Sra. Palmer. A Laura passou toda a tarde a responder a anncios classificados, a tentar encontrar um gato cinzento malhado.
   Belinda aproximou-se para ver o gatinho.
   - Oh...  to querido!
   Laura  que  a querida, pensou Isaiah, mas refreou-se de o dizer. Por um momento, as duas mulheres arrulharam e proferiram exclamaes de espanto em relao 
ao gatinho adormecido. Depois, Laura voltou a dirigir o olhar para Isaiah, com uma expresso de expectativa.
   - Ento, o que acha? - perguntou ela. - Se o despejarmos no colo dela e lhe dissermos que ele no tem casa onde ficar, acha que ela vai engolir?
   Isaiah desatou a rir, desaparecida a tristeza que o atormentara durante toda a tarde.
   -  claro que vai engolir. Se ela hesitar, prego-lhe com o meu famoso discurso acerca da castrao e da sobrepopulao de gatinhos na nossa rea e de quantos 
so mortos todas as semanas por no encontrarem lar que os acolha.
   Belinda sorriu para Laura.
   - Acredita, ele tem mesmo jeito para isto. A Sra. Palmer no vai conseguir dizer que no.
   - Deviam t-la visto quando eu estava a cavar a sepultura esta tarde - disse Isaiah. O seu corao deu um baque com a recordao. - Ela ficou sentada no alpendre 
das traseiras, a embalar o Seymour nos braos e a soluar. No houve nada que eu pudesse dizer ou fazer para a fazer sentir-se melhor. Ela parecia estar to s que 
detestei ter de me ir embora.
   Laura levantou o gatinho e encostou-o  face.
   - Ela agora j no vai ficar sozinha...
   A Sra. Palmer vivia numa velha casa mvel pr-fabricada4, de dois corpos, com um ptio frontal coberto, atulhado de mobilirio de jardim e de peas decorativas, 
muitas delas de contraplacado recortado e pintado com arte. Um mobile de azules balouava pendurado numa viga exposta de madeira. De uma outra pendiam um rapazinho 
e uma rapariguinha empoleirados em baloios. Perto do alpendre da frente, estava um velho fazendeiro barbudo, em fato-macaco azul, a segurar uma placa de BEM-VINDO 
nas mos calosas. Havia tanto para ver que Laura mal podia abarcar tudo.
   - O marido dela era marceneiro - explicou Isaiah. - Quando se reformou, continuou ocupado a fazer coisas de madeira para vender.
   Laura estava a admirar uma coleco de animais recortados em contraplacado que se amontoavam em redor dos degraus: guaxinins, coelhos, esquilos e um sem-nmero 
de outros perdidos naquela multido, todos eles muito queridos.
   - Ele era muito bom - comentou Laura. - Olhe para aquele tordo! No parece mesmo verdadeiro?
   Isaiah contornou uma famlia de ursos negros em miniatura para subir os degraus. Ao bater, disse:
   - Creio que ele fez bastante dinheiro a vender estas coisas. A maior parte das pessoas no tem tempo ou talento para fazer este gnero de trabalho.
   Ficaram calados,  espera de uma resposta  batida. Quando a velhota abriu finalmente a porta, o corao de Laura teve um baque. Apesar de o seu corpo frgil 
no ter fora para se manter direito sem apoio, a Sra. Palmer estava de p, com uma mo artrtica apoiada na ombreira da porta. Uma blusa de polister demasiadamente 
grande e umas calas de treino muito largas quase que engoliam a sua estrutura descarnada. O seu cabelo branco envolvia-lhe a cabea, com pontas soltas a despontarem 
aqui e acol.
   - Dr. Coulter? - disse ela, com voz sumida.
   - Sim, sou eu, Sra. Palmer. Tenho um problema e rezo para que a senhora me possa ajudar com ele...
   - Ai, meu Deus...- disse ela. Com dedos trmulos, empurrou dbil- mente a desengonada porta de rede mosquiteira. - Entre, entre.
   Isaiah agarrou a porta e abriu-a toda.
   - Trouxe uma amiga comigo; espero que no se importe...
   A Sra. Palmer olhou para Laura, que vinha atrs dele.
   - Eu estou um pouco adoentada, sabe. No sei se estou capaz de receber convidados.
   - No nos demoramos nada, prometo -assegurou-lhe Isaiah. - Tal como lhe disse, tenho um problema.
   - Oh, bem... nesse caso - disse ela, dando um passo incerto atrs para os deixar entrar. - No tenho bolachas  mo, mas posso fazer um chazinho.
   - No  necessrio, obrigado - disse Isaiah, enquanto invadiam a minscula sala de estar da velhota. - Esta  a Laura Townsend, Sra. Palmer. Trabalha para mim 
na clnica.
   A Sra. Palmer franziu os olhos para ver.
   - Tenho muito gosto em a conhecer, minha querida. Desculpe esta confuso, mas este tem sido um dia terrvel para mim.
   Mantendo a mo esquerda espalmada contra a parte da frente do casaco, Laura estendeu a direita para apertar a mo da velha senhora.
   - Tenho muita pena pelo seu gatinho...
   Correram lgrimas pelas faces da Sra. Palmer. Limpou-as com dedos trmulos.
   - Sou uma velha tonta, a chorar por causa de um gato cheio de pulgas...
   - No, a senhora no  tonta coisa nenhuma - protestou Laura. - A senhora gostava dele.
   O interior da casa da Sra. Palmer estava to atravancado quanto o seu ptio. Laura olhou para todas as bugigangas poeirentas que adornavam as paredes de contraplacado 
barato e depois voltou o olhar para um grande cesto de verga repleto de novelos de l, colocado junto a um velho e gasto cadeiro reclinvel castanho. Ela quase 
que podia ver a velha senhora a descansar nele com Seymour a dormir ao colo, enquanto fazia croch e via televiso. Como a casa lhe devia parecer vazia, agora que 
o seu querido animal de estimao morrera!
   Isaiah agarrou no ombro encarquilhado da senhora e levou-a at ao cadeiro. A Sra. Palmer sentou-se com alvio no almofadado, abaulado no centro por anos de uso. 
Ela indicou-lhes com uma mo trmula um sof verde, coberto por um cobertor de motivos geomtricos, que no estava em melhor estado.
   - Sentem-se, por favor.
   Com o gatinho anichado debaixo do casaco, Laura sentou-se numa das pontas do sof. Isaiah declinou a oferta e agachou-se junto ao cadeiro da senhora. Com o seu 
bluso de montar castanho, bem poderia estar agachado junto a uma fogueira crepitante a segurar uma caneca de lata nas suas grandes mos. Laura imaginou a luz das 
chamas a bailar-lhe na fisionomia bem delineada.
   - O problema  o seguinte - disse ele solenemente  Sra. Palmer. - Hoje  noite, quando a Laura foi para casa, encontrou um gatinho perdido no alpendre da casa 
dela.
   Os olhos azuis remelosos da Sra. Palmer arregalaram-se.
   - Oh, meu Deus.
   - Ele no tem lar e est cheio de fome - continuou Isaiah - e no h hiptese de a Laura ficar com ele. Se no lhe conseguirmos arranjar uma casa onde ficar, 
ela vai ter de o levar para o canil municipal.
   - Oh, no - sussurrou a velha senhora.
   - E uma situao triste - continuou Isaiah. - H tantos gatos e gatinhos sem casa neste momento... A Sociedade Protectora recolhe cerca de trinta a cada dia. 
Eles so excelentes quando se trata animais sem dono, at que eles sejam adoptados, mas com tantos...- Isaiah deixou arrastar a voz, ficando as implicaes do que 
acabara de dizer a pairarem no ar. - Odiaria saber que este bichinho foi abatido.
   A Sra. Palmer abanou a cabea.
   - Se est a pensar que eu possa ficar com ele, desiluda-se. No posso. O meu rico Seymour ainda nem sequer esfriou na cova...
   Isaiah acenou com a cabea compreensivamente.
   - Estaria totalmente de acordo consigo h uma hora, Sra. Palmer. Mas, ao ver este gatinho, mudei de opinio. - Isaiah hesitou por um momento. - A senhora acredita 
no destino?
   - Destino? - repetiu a senhora.
   - Sim, sabe, que algumas coisas na vida acontecem por uma determinada razo? Tal como quando a senhora conheceu o seu Alfredo, por exemplo. Acha que isso aconteceu 
por acaso?
   - Encontrar o meu Alfredo? Por acaso? - a Sra. Palmer voltou a abanar a cabea. - Cus, no. Estvamos destinados um para o outro. Sempre acreditmos os dois 
nisso.
   - H coisas que esto destinadas a acontecer, no h dvida - concordou Isaiah. - E estou certo de que esta  uma delas. Quando pus os olhos neste gatinho perdido, 
fiquei todo arrepiado.  um ssia perfeito do Seymour.  como se Deus o tivesse pousado  porta de Laura especialmente para si.
   - Ele  parecido com o meu Seymour?
   Isaiah voltou-se para Laura. Percebendo a deixa, ela tirou o gatinho de baixo do casaco. Enquanto o segurava para que a Sra. Palmer o visse, ela disse:
   - No  incrvel? Ele at tem aqueles tufozinhos de plo nas orelhas.
   A Sra. Palmer apertou cinco dedos nodosos sobre a boca e fixou nogatinho os olhos cheios de lgrimas.
   - Agora sabe porque  que eu fiquei arrepiado quando o vi - disse Isaiah, tirando o gatinho das mos de Laura enquanto falava. - A minha me disse-me durante 
toda a minha vida que Deus nunca nos d uma provao maior do que aquela que podemos suportar. H seis meses, a senhora perdeu o seu marido. Hoje, perdeu o Seymour. 
Creio que Deus sabe bem como a senhora est triste e enviou este bichano para a porta da Laura, de modo a que ele pudesse encontrar um caminho para si.
   Isaiah colocou o gatinho adormecido no colo da Sra. Palmer. As mos da velhota pairaram trmulas sobre o minsculo felino, as pontas dos dedos mal tocando na 
pelagem macia.
   - Oh - murmurou ela. Um soluo embargou-lhe a garganta, fazendo tremer os seus frgeis ombros. - Oh, meu Deus, ele parece-se mesmo com o Seymour. Quase exactamente. 
No parece?
   - Nunca vi gato mais parecido - disse Isaiah, lanando a Laura um sorriso triunfante. -  uma parecena demasiado grande para ser coincidncia. Estou convencido 
que este gatinho foi enviado do Cu.
   - Oh, meu Deus - disse mais uma vez a Sra. Palmer, tomando finalmente o gatinho nas mos para olhar para o focinhito engraado. - Est to magrinho! Consigo sentir-lhe 
as costelas!
   O gatinho fora tirado  me nessa mesma tarde, e portanto estava at bastante anafado, mas Isaiah abanou a cabea em assentimento.
   - Quem sabe h quanto tempo o bichano est sem comer - disse ele. -  um mundo cruel para um gatinho sem lar.
   A Sra. Palmer levou o gatinho ao peito.
   -  um milagre ter sobrevivido!
   - Eu sei que  um grande abuso, mas poder dar-lhe um lar, Sra. Palmer? - disse Isaiah, transferindo o seu peso para se sentar nos calcanhares. - Eu nunca estou 
em casa. Nunca poderia tomar conta de um gatinho to novo, e a Laura vive num apartamento onde os senhorios no querem animais.
   -  ainda terrivelmente cedo! - disse a Sra. Palmer. Mas o seu tom indicou que estava a ceder.
   - Eu sei. Mas, dada a tremenda semelhana, no creio que o Seymour se importasse. Na verdade, ele at seria capaz de gostar da ideia... outro gato exactamente 
igual a ele. De certo modo,  uma honra  memria dele. No acha, Laura?
   - Oh, claro que sim - respondeu Laura, dizendo enfaticamente que sim com a cabea. - Penso que o Seymour ficaria contente. Ele gostava muito de si, Sra. Palmer. 
No iria querer que a senhora ficasse sozinha.
  Ele vai precisar das vacinas, e de ser castrado quando chegar a altura observou a senhora.
   - Deixe isso por minha conta - ofereceu Isaiah. -Faz-me um grande favor em o aceitar.  o mnimo que posso fazer.
   A Sra. Palmer ergueu-se da cadeira. Aconchegando o gatinho contra o peito, ela foi em passo incerto at  cozinha, dizendo:
   - Vamos dar-te um leitinho enquanto penso no assunto. Meu peque- iiino cheio de fome!
   Isaiah sorriu para Laura ao erguer-se.
   - Est no papo! - sussurrou ele.
   Quando voltou, a Sra. Palmer estava radiante.
   - Meu Deus, como ele bebe aquele leite! Estou em crer que o estmagozinho dele est to vazio que est colado  coluna.
   - Eu trouxe uma comida especial para lhe pr alguma carne nos ossos -disse-lhe Isaiah. - Vou busc-la. Isto , se a senhora ficar como ele.
   A Sra. Palmer olhou para baixo e riu-se de satisfao. Seymour Segundo seguira-a desde a cozinha e estava a atacar-lhe o cesto do croch. Antes que algum pudesse 
reagir, um novelo de l vermelha estava a rolar pelo cho e o gatinho lanado em sua perseguio. A velhota correu atrs do seu novo animal de estimao, apanhou-o 
e agitou um dedo reprovador em frente do focinhito cor-de-rosa.
   - Tens de aprender que o meu cesto de croch no  para mexeres! - Ela aconchegou o gatinho para mais perto de si e sorriu. - Ele parece-se tanto com o meu Seymour! 
Se calhar foi mesmo enviado do Cu! - acrescentou ela, roando a cara no pelo do gatinho. - Sim, fico com ele. Como poderia dizer que no? No posso deixar que o 
ssia do Seymour seja posto a dormir!
   Enquanto Isaiah saa para ir buscar a comida de gato, Laura sentou-se com a Sra. Palmer a observar o gatinho a brincar com um novelo de l. A velhota estava-se 
a rir baixinho quando Isaiah regressou. Trazia um grande saco de comida granulada e uma caixa de comida enlatada, que depositou na cozinha.
   - Se mo trouxer amanh - disse ele -dou-lhe a primeira dose de vacinas, gratuitamente.
   - Oh, no, o doutor no tem de fazer isso - protestou a Sra. Palmer.
   - Eu insisto. Como disse, a senhora j me est a fazer um grande favor ao ficar com o gato. Partir-me-ia o corao ter de o levar para um canil. Nunca sabemos 
se um animal vai ser adoptado ou no. Sei que aqui, consigo, ele vai ser amado e bem tratado.
   - Pode ter a certeza disso - confirmou a Sra. Palmer.
   - Em compensao, ter cuidados veterinrios gratuitos - disse Isaiah, observando o gatinho a dar uma cambalhota e a ficar enredado no fio de l. - Ele vai-lhe 
dar trabalho...
   A Sra. Palmer concordou acenando com a cabea.
   - Tenho primeiro de lhe arranjar uns brinquedos. Ele  muito traquinas.
   Quando Isaiah e Laura saram alguns minutos depois, foi ao som do riso da Sra. Palmer. Isaiah parou no limiar do ptio e olhou para trs, para as janelas iluminadas, 
a sorrir.
   - Isto sabe bem.
   Laura concordou inteiramente. Sabia maravilhosamente.
   - No creio que ela chore mais...
   - No, e  tudo graas a si. Por pior que eu me sentisse em relao a ela, nunca me passaria pela cabea arranjar-lhe um gato idntico. Jogada brilhante!
   Enquanto caminhavam em direco ao Hummer de Isaiah, Laura respondeu:
   - Estou mesmo satisfeita que ela tenha ficado com ele. No posso ter animais em casa, sabe.
   Ele deu uma gargalhada e abriu a porta do passageiro.
   - Qual era o seu plano no caso de ela no querer ficar com ele?
   Laura fez uma careta.
   - Voc no tem um gato mascote na clnica. A maioria dos vete-rin-riostem...
   - Um gato mascote, ? - disse ele, pegando lhe no brao para a ajudar a subir para o Hummer. O calor da mo dele radiou atravs da manga do casaco dela. -  uma 
ideia.
   Isaiah fechou a porta. Enquanto Laura apertava o cinto de segurana, ele contornou a frente do veculo e subiu, sentando-se ao lado dela.
   - Estou esfomeado. Voc j comeu?
   Laura queria poder dizer que sim. No era boa ideia passar demasiado tempo com Isaiah Coulter. A cada dia que passava, ela tinha mais dificuldade em controlar 
os sentimentos que nutria em relao a ele.
   - No, ainda no comi - confessou.
   - ptimo! Que tal um italiano?
   Embora no fosse muito apreciadora de comida italiana, Laura pensou que era uma ideia fabulosa. E nisso residia toda a questo: qualquer coisa relacionada com
Isaiah Coulter a atraa.



Captulo Seis










   Para Laura, o fim-de-semana seguinte foi preenchido com as ltimas preparaes do Halloween, o qual marcava o fim do horrio de Vero e o incio da sua poca
favorita do ano, a poca das festas. No sbado de manh, foi  mercearia comprar os ingredientes para bolachas de acar enfeitadas, que ela cozinhou e decorou nessa
mesma tarde. Depois, passou parte do sero com o seu senhorio, o Sr. Evans, que apareceu para atrasar uma hora todos os relgios e electrodomsticos, uma tarefa 
maadora, frustrante e quase que impossvel para Laura.
   Depois de ir  missa com a av no domingo de manh, Laura regressou a casa e ouviu um romance de Jeffery Deaver gravado numa cassete udio, enquanto embrulhava 
montes de doces individuais em quadrados de celofane atados com fitas laranjas e negras. Cada embrulho assim alegremente enfeitado ia para um grande cesto destinado 
a ficar junto  porta para os midos do "doce ou travessura" que tocariam  porta mais tarde.
   O romance, intituladoO Vazio Azul, era acerca de um hacker malfico que invadia os computadores das suas vtimas e atraa-as para a morte. Era adequadamente assustador 
para criar um estado de esprito prprio do Halloween, um complemento agradvel s bruxas e diabretes que pendiam nas janelas de Laura e s duas abboras iluminadas 
que estavam na sua cozinha, uma sobre o balco e a outra como pea central na mesa. O apartamento dela cheirava divinamente, pois um pote de cidra com canela estava 
a fervilhar ao lume e a encher os aposentos com a sua fragrncia de especiarias.
   Pelas quatro da tarde, Laura estava to pronta quanto podia para receber todas as crianas que lhe iriam decerto em breve bater  porta. Levando uma chvena de 
cidra quente para a casa de banho, tomou um duche rpido e depois vestiu o seu disfarce de Halloween, um pijama cor-de-rosa de uma s pea, com ps e um par de orelhas 
de coelho a condizer, que ela fizera com veludo, montado sobre arame leve e dobrvel. E, pronto, eis que ela era quase um coelho de Halloween. Depois de pregar uma 
cauda em "pom-pom" ao traseiro do pijama, dedicou-se a trabalhar a cara, usando um lpis de maquilhagem negro para criar pestanas e bigodes exagerados, rouge para 
corar a face e batom para dar aos lbios um tom de rosa brilhante.
   Acabara de completar a sua transformao quando tocou o telefone. Correu para o quarto e pegou no porttil.
   - Est?
   - Ol, mana!
   - Aileen! - exclamou Laura, sentando-se na beira da cama. - Que bom teres telefonado!
   - No posso falar muito tempo. Tenho de vestir os disfarces aos midos. Tenho estado todo o dia a pensar em ti, a lembrar-me de Halloweens passados.
   Aileen vivia nos arrabaldes de Portland, a quatro horas de carro. Laura gostaria de poder ver a irm mais velha com maior frequncia, mas a conduo citadina, 
com todos os sinais de trnsito abstrusos e os nomes estranhos, era demasiado confusa para ela. Aileen vinha ao Oregon Central visit-la sempre que podia, mas um 
marido, dois filhos e um emprego a tempo inteiro mantinham-na bastante ocupada. Por isso, as duas irms no se viam desde que os pais se tinham mudado para a Florida, 
h seis meses.
   - Tambm tenho pensado em ti - disse Laura, com um sorriso melanclico.
   - Fizeste hoje a cidra do av Jim? -perguntou-lhe Aileen.
   - Yep. Est a aquecer no fogo. Estou mesmo agora a beber uma caneca.
   - Eu tambm. A minha levou um toque de vinho. Preciso de qualquer coisa que me aquea as entranhas quando for esta noite para a rua com os midos. Est tanto 
frio l fora! O Jim vai ser o nosso motorista, e tenho de acompanhar os midos no porta-a-porta. Como  que est a o tempo?
   - Frio. Estou desejosa que neve - respondeu Laura, olhando para a janela com cortinas de folhos. - Mas no caiu ainda nada. Ora! Vou acender a minha lareirazinha 
a gs. Vai tornar isto mais confortvel e alegre.
   - Ests vestida com o teu disfarce de coelhinha?
   - Temos de entrar no esprito da coisa. Ests outra vez vestida de Clo?
   - Estou muito gorda para me vestir de Clepatra este ano.
   - No ests gorda.
   - Diz isso ao meu top de alas.
   - Ento vais vestida de qu?
   - De bruxa malvada. V l, ri-te  vontade! Vai ser muito mais prtico. Posso vestir um casaco grosso por baixo da minha capa de bruxa, para evitar que me gele 
o rabo, e posso gritar e comportar-me como uma bruxa, uma vantagem indiscutvel quando estamos a tentar arrebanhar trs midos na noite de Halloween. O Trevor e 
o Cody s tm uma velocidade: alta.
   Laura podia ouvir a gritaria dos filhos da irm como pano de fundo. Parecia que os rapazes, de seis e sete anos de idade, estavam a atormentar a sua irm de dez 
anos, Sarah.
   - Porque  que eles esto  bulha?
   - Pela posse das abboras iluminadas. A Sarah fez a mais bonita de todas. O Trevor diz que  dele, e ela est furiosa.
   Laura lembrava-se do tempo em que ela e Aileen estavam sempre a discutir, levando a me delas ao desespero.
   - ramos uns anjinhos...
   - Pois. Lembras-te de quando enchemos de papel higinico a esquadra de polcia?
   Laura deu uma risadinha.
   - Foi to divertido! Os chuis estavam todos fora, em patrulha para apanharem os brincalhes. Foi o crime perfeito...
   - Pareces-me ptima! Penso que ests a falar melhor.
   - Achas?
   - Sim, mais depressa e... bem, no sei, com maior fluidez, creio.
   - Nada de palavras compridas - notou Laura. - Estou a ficar boa a evit-las.
   - Mal posso notar que h alguma coisa de errado. H quanto tempo no nos vemos?
   - Seis meses.
   - Ainda ests a tomar aquela coisa para melhorar o crebro?
   - Qual qu... Agora que a me no est c, deitei-a fora. Agora tenho um emprego a srio. J sabias?
   - A av falou nisso. A me anda to ocupada com a aerbica aqutica e as quermesses comunitrias que quase que no me liga. E ests a gostar? Do trabalho, quero
dizer...
   - Adoro-o! - exclamou Laura. Depois, enumerou as suas funes e prosseguiu, descrevendo Isaiah e quo bonito ele era. - Tenho uma grande queda por ele. Sei que
 estpido, mas parece que no o consigo evitar.
   - Mas que mal h em teres uma queda por ele?
   - Nunca ir acontecer. Ele tem tanta coisa a favor dele, e eu... bem, eu no tenho.
   Aileen resfolgou.
   - s uma mulher muito bonita, Laura. O Jim diz que s uma ssia da Charlize Theron.
   Laura riu-se tanto que caiu para trs sobre a cama.
   - Pareces-te mesmo com ela - insistiu Aileen. - Qualquer homem que te apanhe  um felizardo.
   - Tambm gosto de ti.
   Aileen suspirou.
   - A tua afasia  um problema. No vou dizer que no . Mas no  assim to m. O Isaiah est claramente interessado em ti. Um tipo no leva uma mulher a jantar 
fora por duas vezes a no ser que haja algo de p. - Aileen deu uma gargalhada teatral. - E digo isto em sentido literal!
   Laura revirou os olhos.
   - No sejas grosseira.
   - Sou uma velha mulher casada. Posso ser ordinria se quiser.
   - Os jantares no foram desse gnero, no foram romn-ticos nem nada. De ambas as vezes, j era muito tarde, e ele s me convidou por deli-cadeza.
   - Pois, est bem...
   Laura ficou ao telefone durante mais uns minutos, a actualizar-se acerca de todas as novidades familiares. Pouco depois de ela e Aileen terem desligado, o telefone
voltou a tocar, e eram os seus pais. Laura teve de enfrentar as perguntas da me. Estava a tomar os comprimidos todos? Sim, me. Notara alguma diferena desde que 
comeara a tomar os comprimidos de algas? No, me. Laura sentiu-se aliviada quando o seu pai veio finalmente ao telefone. Mike Townsend era muito mais terra-a-terra
do que a sua mulher.
   - Como est a minha menina? - perguntou ele.
   - Estou bem, pap. Mas tenho saudades tuas...
   - Arranjaste uma abbora iluminada?
   - Duas.
   - Tens cidra?
   - O que seria o Hallo-ween sem ela? - contraps Laura.
   Quando o seu pai se assegurou de que ela estava feliz, saudvel e a celebrar a festividade como devia ser, despediu-se, deixando beijos e abraos para a av dela 
antes de desligar.
   Laura correu  cozinha para aquecer um guisado que sobrara do dia anterior para o seu jantar.
   E, depois, ficou  espera que os midos viessem. O crepsculo, que  normalmente a altura em que as crianas andam na rua em bandos durante o Halloween, veio 
e passou sem que houvesse uma batida na porta. Laura ficou de p junto  janela da cozinha, a ver hordas de midos brincalhes a baterem  porta do seu senhorio, 
mas nenhum deles parecia aperceber-se de que vivia algum por cima da garagem. Laura pensou em abrir a janela para lhes gritar. Mas isso seria estpido.
   Desapontada, ligou para a av.
   - Oh, querida, estou desolada. Sei quanto gostas de ver todas as crianas com aqueles disfarces. Para o ano, tens de o vir passar c a casa. Tenho tido montes 
de midos, tantos que estou quase sem doces.
   Nesse preciso momento, a campainha da porta de Etta voltou a tocar, portanto Laura despediu-se apressadamente e deixou-a ir.
   No havia nada de interessante na televiso, por isso Laura passou a hora seguinte a ouvir mais um pouco da sua novela na cassete. Acabava de carregar na pausa 
do leitor de cassetes para ir tirar a maquilhagem da cara e as suas orelhas de coelho quando ouviu finalmente uma batida na porta.
   O seu corao saltou de alegria. Um grupo de brincalhes do Halloween era melhor do que nada.
   Quando Laura abriu a porta, deu de caras com a sua dupla em miniatura de p no topo dos degraus, uma menininha adorvel vestida de coelhinha cor-de-rosa. A criana 
tinha uns enormes olhos castanhos e caracis escuros que lhe desciam em cascata at aos ombros.
   - Doce ou travessura! - gritou ela.
   Um rapaz mais velho subiu por detrs dela e gritou as mesmas palavras numa voz mais grave. Estava vestido de vampiro, com sangue a escorrer-lhe dos cantos da 
boca, de onde saam dois grandes caninos.
   Deliciada, Laura abriu a porta de par em par.
   - Entrem para aqui, que est mais quentinho - convidou ela. - vocs so os meus primeiros brincalhes desta noite, e tenho montanhas de doces. Vocs vo carregados 
daqui.
   - Tambm posso entrar?
   Laura espreitou por cima das crianas, e viu um cowboy alto e magro, de p no limiar do crculo de luz lanado pelo candeeiro do alpendre. Convencida de que eram 
os seus olhos que lhe estavam a pregar uma partida, ela perguntou:
   - Isaiah?
   Ele deu um passo em frente, de modo a que ela o pudesse ver bem. Vestia de novo o casaco de montar de lona castanha e o chapu Stetson cor de areia, e parecia 
extremamente atraente aos seus olhos famintos - pernas longas e musculadas moldadas em ganga, ombros encolhidos com o frio, a cara ensombrada pela aba do chapu. 
Laura sentiu o corao a bater-lhe descompassadamente no peito.
    -Apresento-lhe a Rosie e o Chad, meus sobrinhos. A me deles, a Natalie,  dona do Papagaio Azul, e est l esta noite a dar uma festa deHalloween karaoke.O 
meu irmo Zeke est a distribuir doces na sua loja fornecedora de ranchos. Ofereci-me para levar os midos na ronda do "doce ou travessura". A Valerie, tia deles
e irm da Natalie, no o podia fazer. Ficou na casa do Zeke e da Natalie para a ajudar a distribuir os doces de modo a no ficarem com as janelas sujas.
   Esquecendo-se de que tinha orelhas de coelho, Laura levou a mo ao cabelo para o alisar. Quando as pontas dos seus dedos encontraram veludo, ela pestanejou. Por
que razo ela nunca estava no seu melhor quando ele aparecia?
   - Entrem, por favor! - disse ela, fazendo as crianas passarem a soleira da porta. - Vocs gostam de cidra?
   - Gosto imenso! - respondeu a Rosie. - O Chad prefere refrigerantes com gs. Acha que a sua misso na vida  deixar apodrecer todos os seus dentes.
   - No  nada!
   - Tambm !
   - No  nada!
   Isaiah entrou atrs dos midos.
   - Rebobinem l isso! No quero guerras! Foi o que combinmos, lembram-se?
   Lanando olhares assassinos ao Chad com os seus olhos expressivos, Rose franziu os lbios e torceu o nariz. Com voz sibilina, Chad sussurrou:
   - s vezes s mesmo uma merdinhas...
   -  melhor ser uma merdinhas do que um merdo! - replicou prontamente Rosie.
   Laura refreou uma gargalhada. Isaiah parecia siderado. Por cima das cabeas das crianas, lanou a Laura um olhar repleto de aflio, o que a fez ter novamente 
vontade de rir. Ela nunca vira um homem grande e possante parecer to perdido e ensarilhado.
   - Por acaso tenho refrigerantes no frigorfico - assegurou ela a Chad. Fechando a porta ao ar glido da noite, acrescentou: - Tambm tenho montes de bolachas 
de acar. Se vocs tirarem os casacos e se sentarem  mesa, j vos sirvo.
   - Bolachas de acar? - disseram as crianas em coro. - Boa!
   Enquanto as crianas despiam os casacos e corriam para a cozinha,Laura lanou a Isaiah um olhar interrogativo.
   - Voc vive no outro extremo da cidade. O que  que o traz at aqui?
   Ele tirou o chapu e passou uma mo pelo cabelo escuro desgrenhado.
   - Doces envenenados.
   Laura franziu o sobrolho.
   - O qu?
   - A me deles est convencida de que  perigoso os midos aceitarem doces de estranhos. A escola deu uma grande festa de Halloween na sexta  noite, mas no  
a mesma coisa do que andar no giro do "doce ou travessura". Fui incumbido de os arrastar por toda a Criao Divina at s casas das pessoas conhecidas. A me sugeriu 
que eu os levasse a casa da sua av. Ela disse-nos ento que nenhum mido tinha vindo at aqui e encorajou-me a passar por c.
   - Estou feliz por o ter feito. Estava-me a sentir um pouco triste. Gosto de ver todas as crianas.
   - So mais engraadas  distncia...
   Rosie deu um grito nesse preciso momento. Laura virou-se a tempo de ver Chad a puxar pelas orelhas de coelho da irm.
   - Ei! - gritou Isaiah. - Chad, pra j com isso! Rosie, pra de lhe bater!
   - O Chad est a ser um chato!
   - No estou nada! Tu estavas-me a tentar arrancar os dentes!
   - S porque no podes comer com eles postos!
   Laura apressou-se a ir  cozinha para endireitar as orelhas de Rosie, voltar a colocar os dentes a Chad e acalmar os nimos. Quando olhou para os olhos castanhos 
de Rosie, cheios de lgrimas, derreteu-se.
   - Est tudo bem, querida. Vocs j tm tudo no lugar...
   Rosie levou as mos  cabea para verificar as orelhas postias. Quando se certificou de que elas no estavam danificadas, lanou a Chad outro olhar cortante 
e depois olhou interrogativamente para Laura.
   - Tens um problema na fala?
   - Rosie! - gritou Isaiah, parecendo chocado ao avanar pela cozinha dentro. - muito feio perguntar isso!
   - No faz mal - disse Laura, conduzindo a criana para uma cadeira. - Tenho. Tenho difi-culdade a falar, Rosie. H cinco anos, mergulhei no rio e bati com a cabea 
numa rocha. Quando acordei, no conseguia falar.
   - Nada de nada? - perguntou Chad, sentado do lado oposto  irm. - Isso  chato.
   - Pois  - concordou Laura, enquanto punha bolachas numa travessa e arranjava qualquer coisa para as crianas beberem. - Pepsi ou laranjada, Chad?
   - Laranjada. Ento como  que agora consegues falar?
   - Fui para a reabi-litao e aprendi tudo de novo.
   De chapu na mo, Isaiah estava de p com as ancas magras encostadas ao balco, as longas pernas cruzadas nos tornozelos. Lanou a Laura um olhar pesaroso.
   - No tem importncia -sossegou-o ela. E na verdade no tinha. Apesar das recentes afirmaes da sua irm de que o seu problema de fala j quase que no se notava, 
Laura sabia que no, e no se importava de responder s perguntas das crianas. Ao trazer as bebidas para a mesa, disse:
   -  por isso que eu falo to devagar e paro entre as palavras. Sei que irrita as pessoas, mas para mim  melhor do que no conseguir sequer falar.
   Rosie acenou com a cabea em concordncia.
   - Mas consegues falar muito bem, a srio.
   - Muito obrigada.
   - Mhh! - exclamou Chad ao ver as bolachas. - Tm cobertura de acar! - Agarrou numa mo cheia e colocou-as no guardanapo. Depois de dar uma grande dentada numa 
bolacha decorada como uma abbora-candeio, suspirou e disse - Fofinhas, tambm! As da minha me esto sempre queimadas no fundo e duras como pedras.
   - A nossa me  cantora e compositora - esclareceu Rosie. - Por isso, o nosso pai cozinha a maior parte das vezes, porque a mam distrai-se e deixa queimar tudo.
   - Estou a perceber - disse Laura. Nunca havia encontrado uma rapariguinha to nova com um vocabulrio to rico. - Quantos anos tens, Rosie?
   - Tenho seis.
   - Mentirosa, mentirosa, ainda levas uma tosa! - gritou o Chad, em tom de cantilena. - S fazes seis em Fevereiro!
   - E depois? - gritou Rosie. - Estamos quase em Fevereiro.
   - Ainda no tens seis! No pegues petas! A me vai-te pr pimenta na lngua!
   - Ela tem quase seis - interveio Laura.
   Apaziguada mas ainda irritada, Rosie trincou afectadamente uma bolacha.
   - Tio Isaiah, tem de experimentar uma destas. So deliciosas!
   Laura regressou  cozinha, a abanar a cabea de espanto ante o domnio da lngua inglesa que Rosie demonstrava.
   - Isto no  de fam-lia? - perguntou Laura a Isaiah.
   Ele sorriu. Em voz baixa, para que s Laura o pudesse ouvir, explicou:
   - No somos aparentados. O meu irmo Zeke adoptou-os. O pai biolgico deles foi morto.
   - Oh, que tragdia!
   - O Robert no era muito bom pai - disse Isaiah, despindo o casaco. Por baixo, vestia uma camisa de corte do Oeste, de manga comprida e cor vermelho-sangue, que 
dava  sua tez j escura um bronze mais acentuado. - Os midos esto muito melhor com o meu irmo. O Zeke gosta deles como filhos, e est a revelar-se um grande 
pai.
   Laura seguiu-o com o olhar enquanto ele foi at  sala pendurar o casaco e o chapu num cabide de p.
   - No est disfarado - reparou ela.
   - A Rosie tentou vestir-me de fantasma, mas o lenol s ia at aos meus joelhos.
   - Se calhar  melhor assim. O ar de cowboy est mais de acordo consigo. - Laura foi buscar cidra para cada um deles e colocar mais bolachas numa travessa. Agarrando 
uma caneca quente com ambas as mos, debruou-se por cima da ilha da cozinha, do lado oposto ao dele. Com um olhar s crianas, cujas bocas estavam agora demasiadamente 
cheias de bolachas para que pudessem lanar insultos uma  outra, ela perguntou: - Ento, a sua noite de tortura est a acabar, ou no?
   - Isso queria eu! H um grande bairro neste lado da cidade que a Nattie diz que  seguro. A maior parte das pessoas que l vive  gente nova com as famlias. 
Vou deix-los correr  vontade durante um bocado. Com um pouco de sorte, vo esgotar as energias e acabar por adormecer  hora habitual. Tm escola amanh.
   - Espero que os vigie de perto...
   - Vou com eles. O Chad tem idade suficiente para olhar pela Rosie, mas nunca sabemos que gnero de loucos pode andar pelas ruas nesta noite - disse Isaiah, erguendo 
uma sobrancelha. - Quer vir?
   H anos que Laura no saa no Halloween. Parecia divertido, e ela queria muito dizer que sim, mas o afecto crescente que sentia por ele comeava a alarm-la.
   - Obrigada pelo convite. Mas devo-me manter por aqui para o caso de apare-cerem mais midos.
   - Ningum lhe bateu  porta a noite toda...
   Laura sentiu-se a vacilar. Ele era to simptico, e ela gostava tanto da sua companhia! Desde que ela conseguisse manter os ps no cho, que mal poderia advir 
de serem amigos?
   - S se eu puder ir como estou e fizer "doce ou travessura" com os midos...
   Ela estava  espera que ele desatasse a rir. Em vez disso, ele sorriu, encolheu os ombros e disse:
   - Faa o que lhe der na real gana... Eu apreciaria uma companhia adulta - disse ele, inclinando a cabea, arqueando uma sobrancelha e lanando a Laura um olhar 
implorativo. -Faz-me esse favor? Se no vier connosco, ainda me posso passar e estrangular estes midos antes do final da noite.
   Laura no estava minimamente preocupada que Isaiah pudesse fazer mal aos sobrinhos. Ela vira-o a tratar de animais e sabia quo ilimitadas podiam ser as suas 
reservas de pacincia em situaes exasperantes. E no estava a o cerne do problema? Ela no se limitava a gostar deste homem. Ela tambm o admirava.
   Pela segunda vez em muitos minutos, campainhazinhas de aviso tilintaram na sua mente. Infelizmente, Isaiah Coulter tinha uma maneira de ser irresistvel, mesmo 
quando no estava a fazer de propsito. Quando passava para o seu modo persuasivo, Laura achava difcil, seno mesmo impossvel, dizer-lhe que no.
   Para Isaiah, aquilo que comeara como uma incumbncia desagradvel - fazer de motorista a duas crianas briguentas -transformara-se num sero delicioso. Tal como 
havia ameaado, Laura foi vestida com o seu disfarce de coelhinha cor-de-rosa para o bairro elegante, envergando por cima dele a sua parka rosa, que ela costumava
por vezes levar para o trabalho, como nica concesso ao aspecto prtico, para no gelar com o frio da noite. Isaiah sempre achara Laura lindssima, mas ao observ-la
a deambular com a Rosie para bater s portas e gritar "doce ou travessura!" naquele jeito dela, lento e sincopado, constatou que a verdadeira beleza era muito mais
profunda do que a aparncia.
   Ele cortejara inmeras mulheres ao longo da sua vida, a maioria delas fisicamente belssimas, mas nunca conhecera nenhuma to natural, espontnea ou querida como
Laura Townsend. Oh, claro est, conhecera raparigas que disfaravam muito bem, fingindo gostar de animais, de crianas e de actividades ao sabor do momento. Mas
depois era uma unha acrlica que se partia, uns collants que se desmalhavam, ou as mos gordurentas de uma criana que entravam em contacto com uma permanente perfeitamente 
estilizada, e ento toda a aparncia se esfumava.
   No havia pretensiosismo em Laura. Quando um dogue alemo conseguiu escapar-se ao dono para ir ladrar e rosnar  porta dos recm-chegados, ela no desceu atabalhoadamente 
os degraus a quatro e quatro num ataque de pnico como muitas mulheres fariam. Em vez disso, tirou as suas orelhas de coelho para parecer mais normal e agachou-se 
para travar amizade com o animal ameaador. Quando a Rosie ficou com as mos todas besuntadas de chocolate Snickers e tocou com elas na cara de Laura, ela limitou-se 
a rir, lambeu um dedo para limpar a mancha pegajosa e depois voltou a meter o dedo na boca, dizendo:
   - Mhhh! Posso ter mais?
   Em resumo, os midos adoravam-na, e Isaiah achava-a muito difcil de resistir. Mesmo com bigodes e orelhas de coelho, ela conseguia atra-lo mais do que qualquer 
outra mulher que conhecera.
   No decurso da noite, Isaiah estava-se sempre a lembrar da figura dela quando Laura abriu a porta  Rosie - toda vestida para o Halloween e sem ter aonde ir. A 
decorao no interior do apartamento indicava o empenho dela na celebrao das festividades. Entristecera-o v-la rodeada da animao do Halloween e contudo to 
terrivelmente s. Era uma pena que algum com tanto para dar no tivesse ningum com quem o partilhar.
   - Consegui mais do que vocs! - gritou Chad, correndo  frente de Laura e de Rosie de volta ao passeio, onde Isaiah os aguardava.
   - No, no conseguiste! -gritou-lhe Rosie.
   - Consegui, sim!
   - No, no conseguiste!
   Isaiah estava prestes a partir um molar de tanto ranger os dentes quando Laura ergueu o seu saco e gritou:
   - Fui eu quem recebeu mais!
   Chad e Rosie gritaram ambos:
   - No conseguiste nada!
   Laura gritou:
   - Consegui, sim!
   E a guerra verbal recomeou. S que, desta vez, teve uma reviravolta no final que fez com que Isaiah desatasse a rir. Laura entrou na contenda durante algum tempo, 
dizendo "Consegui, sim!", at os midos entraram no ritmo, e depois trocou de posio com eles, gritando "No conseguiste nada!" De imediato, Chad e Rosie contrapuseram 
com "Consegui, sim!"
   Laura deu uma gargalhada.
   - Apanhei-vos!
   Clamorosamente derrotadas, as crianas riram-se e apressaram-se a correr para a casa seguinte. Mas ainda no tinham percorrido nem dez metros quando se comearam 
a acotovelar, tentando empurrar-se mutuamente para fora do passeio e espalhando pelo cho a maior parte dos doces durante o processo. Isaiah estava prestes a agarrar 
ambos os midos pela gola e dar-lhes um ralhete quando Laura gritou:
   - Quem achar fica com eles!
   No instante seguinte, ela estava a correr pelo passeio, apanhando os doces espalhados e colocando-os no seu saco, com a cauda de pom-pom a aparecer por baixo 
da orla do casaco sempre que ela se baixava. A rir-se, Isaiah seguiu-a, pegando em todos os doces que conseguia antes que os midos fossem capazes de os agarrar.
   - Esse  meu!- protestou a Rosie.
   - Agora j no  - disse Laura, apanhando mais do saque de Chad antes que ele se lanasse para o agarrar. - No preciso de andar a tocar s portas atrs de vocs, 
meninos. Consigo arranjar mais doces assim.
   Chad e Rosie apressaram-se a recolher os doces espalhados que ainda no tinham sido confiscados.
   - Mas vocs so adultos! -queixou-se Rosie. - No devem tirar os doces s crianas!
   Impassvel, Laura mostrou um sorriso triunfante a Isaiah antes de responder:
   - E os midos tambm no devem andar  bulha. Se vocs quebram as regras, creio que ns tambm podemos.
   Claramente sem saber o que responder, Rosie cerrou os lbios e franziu o sobrolho. Chad bufou de contrariedade.
   - Anda! - disse ele  irm. - Podemos arranjar mais doces na prxima casa.
   Enquanto os midos andavam  frente deles, Isaiah ouviu Chad sussurrar para a irm:
   - Acabaram-se as brigas, OK? Se o tio Isaiah faz queixa de ns, estamos metidos num belo sarilho.
   - Tu empurraste-me primeiro!
   - Porque tu me deste uma cotovelada!
   - Foi sem querer!
    - Treta!
    - Foi sim, senhor! Eu estava a tentar ver para dentro do meu saco e dobrei o brao. No te queria dar uma cotovelada!
    - Ento porque  que no o disseste?
    - Porque me empurraste!
    Chad suspirou, endireitou as orelhas da irm e optou por um compromisso:
    - Eu peo-te desculpa se tu tambm me pedires.
    Rosie deu um suspiro teatral.
    - Desculpa.
    - Desculpa-me tambm.
    Tendo chegado a um acordo de paz provisrio, desataram a correr. Isaiah abanou a cabea, interrogando-se se a maneira lenta de falar de Laura faria com que as 
crianas a ouvissem com mais ateno do que a ele.
    - Isto  espantoso. Sabe quantas vezes eu lhes pedi esta noite para deixarem de andar  bulha?
    Laura limitou-se a sorrir.
    - A Laura  incrvel com crianas -disse-lhe ele. - uma pena no ter filhos.
    Ela acompanhava-lhe o passo, ao lado dele, a respirao dela a formar pequenas baforadas de condensao no ar frgido da noite.  luz dos candeeiros pblicos, 
os olhos dela brilhavam como topzio polido.
    - Eu estava a planear t-los, mas depois tive o acidente e as coisas mudaram - disse ela, franzindo o nariz e encolhendo os ombros. - Foi muito duro para os 
meus amigos. No podia falar com eles, e por isso eles deixaram de me ir ver passadas algumas visitas. O meu namorado tinha muita pena de mim, mas eu j no lhe 
podia dar nada do que ele almejava, e no foi preciso muito tempo para que ele rompesse o namoro.
    Acontecera essencialmente a mesma coisa a Bethany, irm de Isaiah, aps o seu acidente de equitao. Isaiah no suportava homens que abandonavam as mulheres
quando estas mais precisavam deles. Contudo, era assim que as coisas se passavam na maior parte das vezes. Alguns homens s amavam uma mulher enquanto fosse fcil 
am-la.
   - Ainda no  tarde para constituir famlia -disse-lhe ele. - A Laura ainda  nova.
   - Tenho trinta e um, Isaiah.
   -  assim to velha? - brincou ele.
   - Para mim no  a mesma coisa...
   Isaiah inclinou a cabea para lhe ver a cara.
   - No estou a perceber...
   Ela evitou o olhar dele, mexendo no casaco.
   - Talvez um dia eu encontre um homem que no se importe com a minha afasia. Mas no me parece que o v encontrar em breve. E no posso ter um beb sozinha.
   Isaiah sentiu um aperto no peito, e teve vontade de se bater por ser to idiota. Uma mulher linda como Laura teria normalmente homens a fazerem fila para a levarem 
a sair, e ele acabara de presumir... Meu Deus! s vezes ele era to cabea no ar! As regras gerais no se podiam aplicar a ela. Mesmo sendo to bonita, s a fala 
dela afastaria muitos tipos. E Laura tambm tinha um monte de outros problemas.
   - Nos dias de hoje, voc no precisa necessariamente de um homem para ter um filho -lembrou-lhe ele.
   - A minha preo-cupao no  engravidar.  o depois... No poderia criar um filho sozinha.
   Isaiah contornou cautelosamente a questo. Estivera no apartamento dela, e este no estava s impecavelmente limpo como era adorvel. Ela era tambm uma cozinheira 
fantstica.
   - Acho que a Laura daria uma me fabulosa.
   - Muito obrigada. S gostava que tivesse razo. Mas h demasiadas coisas que no consigo fazer.
   Tanto quanto Isaiah se conseguia aperceber, ela cumpria todos os requisitos bsicos.
   - Tais como?
   Ela riu-se.
   - Quer uma lista? - e depois, com um fungar autodepreciativo, acrescentou - Esquea o que eu disse. Fazer listas  uma das coisas que eu no consigo fazer muito 
bem. Tenho dificul-dade em escrever - e fez um gesto de impotncia com as mos. - Muitas das coisas que as pessoas fazem sem pensar so difceis para mim. Nem sequer 
consigo passar cheques.
   - Ento como  que paga as contas?
   - Levo-as ao banco e peo ao caixa para me passar ordens de pagamento nas quantias certas. Depois vou aos locais pagar pessoalmente.
   Isaiah nunca imaginaria aquilo. Ele pagava as suas contas pela Internet com carto de crdito, e todas as quantias eram-lhe debitadas uma vez por ms.
   Como se adivinhasse os pensamentos dele, ela mostrou um sorriso e disse:
   - No  assim to mau. Limito-me a contornar as coisas. Quando vou comprar comida, caminho devagar, cubro toda a loja e olho para as coisas com olhos de ver. 
A maior parte das vezes regresso a casa com todas as coisas de que preciso.
   - E como  que paga?
   - A maior parte das vezes com carto de dbito, s vezes em dinheiro. Limito-me a entregar o meu dinheiro  empregada e esperar que ela no me engane.
   Isaiah soubera desde o primeiro momento que Laura tinha dificuldade em contar, mas nunca parara para pensar nas ramificaes que isso tinha no que dizia respeito 
 vida quotidiana. Ela tinha de dar s pessoas o dinheiro e confiar que no a enganariam no troco?
   Forando-se a regressar ao assunto original, ele disse:
   -  parte isso, voc desembaraa-se bem. Se consegue fazer isso para si, porque no faz-lo tambm para uma criana?
   Os olhos dela ensombraram-se quando olhou para ele.
   - Os midos precisam de ajuda para fazerem os trabalhos de casa. Eu no a poderia dar. Adoecem e precisam de re-mdios. No consigo ler muito bem as etiquetas. 
Eles tambm querem que lhes leiam histrias para adormecerem, e eu levaria at  meia-noite para ler uma s.
   Nunca at quele momento Isaiah se apercebera ao ponto a que o acidente no rio alterara a vida de Laura. Todas as coisas que a maior parte das mulheres toma como 
certas podem nunca acontecer a ela - nenhuma carreira interessante, nenhum marido, nenhuns filhos, nenhuns netos. Ela adorava animais e nem sequer podia ter um animal 
de estimao porque vivia num pequenssimo apartamento por cima da garagem de algum.
   - No o faa - disse ela, com um erguer de queixo orgulhoso.
   - No fao o qu?
   - No sinta pena de mim. Detesto quando o fazem!
   - No tenho pena de si. S acho  que no  nada justo...
   - Estou satisfeita com o que tenho. Estou feliz. Tenho uma boa vida. Talvez no seja aquela que eu ambicionara, mas  suficiente.
   Suficiente. Uma pessoa como Laura no devia ser levada a contentar-se. Certo, ela era deficiente, e qualquer homem que casasse com ela teria de compensar as suas 
deficincias. Mas haveria decerto contrapartidas. Laura gostaria provavelmente de ser uma me caseira. O marido poderia ter de ler as histrias para adormecer as 
crianas, ajud-las nos trabalhos de casa e gerir todas as finanas domsticas, mas em contrapartida nunca chegaria a casa depois de um duro dia de trabalho com 
a responsabilidade de tratar ainda de cinquenta por cento das tarefas domsticas. Havia muitos homens, nmero esse em que ele se inclua, que se sentiriam extremamente 
felizes por chegarem a casa todas as noites e terem uma refeio quente no fogo, com uma esposa linda como Laura para a servir.
   A ideia fez Isaiah estacar. Alerta vermelho. Mas que raio estava ele a pensar? Lanou a Laura um olhar de soslaio, apanhando-a num perfil perfeito. Um tipo podia 
escolher pior, no havia dvida. Mas ele no estava pronto a assentar. S a ideia dava-lhe vontade de fugir.
   Tinha ainda muitas outras coisas a fazer primeiro.
   No dia seguinte, Laura estava escalada para fazer o seu primeiro turno da noite. Quando chegou  clnica, pouco antes das nove, ficou sentada no carro durante 
alguns minutos, com a luz do habitculo acesa, repetindo sem cessar o nmero de cdigo que iria, se introduzido correctamente, desarmar o sistema de alarme. Depois 
de qualquer porta do edifcio ser aberta, tinha de ser introduzido um nmero de cdigo de quatro dgitos no painel de comando no espao de um minuto, para impedir 
que o alarme disparasse.
   Para qualquer outra pessoa, isto seria uma tarefa bastante simples. Para Laura, no o era. O cdigo, 6925, era para ela uma malvada combinao de nmeros. Por 
vezes, ela via letras e nmeros de cabea para baixo, ou invertidos como uma imagem num espelho, tornando os seis, noves, dois e cincos muito traioeiros. Um seis 
invertido, por exemplo, parecia-se com um nove, e vice-versa. De um modo ligeiramente diferente, os dois e os cincos eram igualmente traioeiros.
   Laura fora  clnica nessa tarde para praticar a introduo do cdigo sob a superviso de Val, e correra tudo bem. Mas isso no significava que no corresse mal 
quando ela tentasse introduzir o cdigo sozinha.
   Depois de respirar fundo para ganhar coragem, ela saiu do carro e dirigiu-se resolutamente para as traseiras do edifcio. Sentiu o corao a bater-lhe com fora 
no peito quando meteu a chave na fechadura. Por favor, meu Deus, no deixes que eu faa asneira. Para que pudesse conservar o emprego, ela tinha de ser capaz de 
activar e desactivar o sistema de alarme. De outra forma, s poderia trabalhar durante o dia, quando outras pessoas estivessem presentes. Isso no seria justo para 
os outros zeladores do canil. Durante uma semana em cada ms, cada um deles era obrigado a fazer o turno da noite.
   Laura sentia a pulsao acelerada ao abrir a porta e entrar na sala das traseiras fracamente iluminada. Depressa, depressa. Um minuto s tem sessenta segundos. 
Quantos desses segundos j teriam passado? Ela fechou e trancou a porta, tal como a Val lhe dissera para fazer. Depois, agarrando num papel com o cdigo escrito 
nele, apressou-se a ir at  consola do alarme, um pequeno painel rectangular fixado na parede. Fica calma. Basta-te olhar com muito cuidado para cada nmero antes 
de o digitares.
   Com um dedo a tremer, Laura introduziu o cdigo e depois carregou no 1 para desarmar o sistema. Depois, ficou paralisada no lugar, como que  espera que as sirenes 
no exterior comeassem a uivar. Em vez disso, a luzinha vermelha piscou e passou a verde, o que significava que o sistema tinha sido desarmado com sucesso. Ela fechou 
os olhos e vacilou de alvio. Obrigada, meu Deus. Introduzira correctamente o cdigo. Agora, tudo o que tinha a fazer era voltar a ligar o alarme de modo a que nenhuma 
pessoa no autorizada pudesse entrar no edifcio enquanto ela ali estivesse sozinha.
   Com um cuidado extremo, Laura reintroduziu o cdigo e depois pressionou no trs, seguindo as instrues da Val. A luzinha verde piscou e voltou a ficar vermelha, 
tal como devia. Laura sorriu e quase que danou de alegria. Ela conseguia fazer aquilo. Raios, sim, sem problemas.
   Metendo a garrafa termo e o saco da refeio debaixo de um dos braos, Laura sacudiu uma manga do casaco para a despir enquanto avanava atravs do armazm em 
direco  porta que abria para os canis. Dera talvez dez passos quando o alarme disparou. O uivo estridente era to alto que parecia ribombar contra as paredes 
e da disparar directamente para os tmpanos de Laura. O barulho assustou-a tanto que quase se urinou nas calas. Oh, meu Deus. Horrorizada, largou as suas coisas 
no meio do cho, correu a abrir a porta e entrou nos canis. Ao correr pela coxia central, os ces assustados aumentavam a confuso, ladrando e uivando e esgravatando 
as portas das jaulas com as patas.
   At quele momento, Laura no tinha noo da enorme dimenso da clnica. Estava sem flego quando entrou no vestbulo da frente, que separava as salas de exame 
dos escritrios e gabinetes. No caso de o alarme disparar, a empresa de segurana deveria telefonar para a clnica antes de alertar a polcia. Laura nunca usara 
qualquer um dos telefones das salas das traseiras, e no sabia bem onde  que eles estavam. Precisava de estar no balco da recepo para atender a chamada.
   Acabava de chegar ao trio quando a sirene se calou abruptamente. Quase de imediato, os telefones comearam a tocar. Laura contornou o balco para pegar no auscultador.
   - Est?
   Respondeu uma mulher.
   - Boa noite, fala da Harris Security. Como deve saber, o alarme da clnica acaba de disparar.
   - Foi um aci-dente - disse Laura, ofegante. - Devo ter carregado no nmero errado quando entrei.
   - Ah, estou a perceber - disse a mulher, rindo-se. - No h problema. Acontece de quando em vez. Tudo o que preciso  da palavra-chave.
   O crebro de Laura teve uma branca. A palavra-chave. Oh, meu Deus. Levou uma mo  cabea e quase que chorou de desespero. Estivera to preocupada em no se esquecer 
do cdigo que no pensara em memorizar a palavra-chave. Tinha algo a ver com ces. O nome de uma determinada raa, se calhar. S que no se conseguia lembrar de 
qual a raa. Caniche, cocker, aussie? Nenhuma destas parecia ser a certa. Que iria fazer?
   -  uma raa de co...- disse Laura, com a voz a tremer.
   - Sim, mas preciso mais do que isso -informou-a a mulher. - Se no me conseguir dizer a palavra exacta, terei de chamar a polcia.
   Laura deu com o punho fechado na cabea. Estpida, estpida, estpida. A palavra-chave, precisava da palavra-chave.Por favor, meu Deus. Mas o seu crebro permanecia 
teimosamente vazio.
   - Tenho leses cerebrais...- explicou ela.
   Nesse preciso momento, ouviu um barulho de qualquer coisa a cair, vindo de um dos gabinetes. Sobressaltou-se e olhou para trs, interrogando-se se estaria mais 
algum no edifcio.
   - A gestora de pe-ssoaldisse-me a palavra-chave - explicou ela. - Mas, quando me enervo, fico confusa...
   - Desculpe - disse a mulher. - Mas o nosso regulamento  este. Preciso da palavra-chave.
   Laura respirou fundo, tentando acalmar-se.
   - No pode tele-fonar a um dos mdicos? Vo-lhe dizer que est tudo bem...
   - No, desculpe.
   Isaiah acabara de comer e estava a deitar a travessa de plstico do jantar no lixo, por baixo do lava-louas, quando tocou o telefone. Resmungou e pegou no telefone 
que estava em cima do balco antes que o atendedor de chamadas pudesse arrancar. Tal como era seu hbito, no disse "est".
   - Fala Isaiah.
   - Doutor Coulter? - perguntou uma voz de homem.
   - O prprio - respondeu Isaiah. Pensando que era um cliente com uma pergunta acerca de um animal, Isaiah agarrou na garrafa de cerveja que acabara de abrir e 
contornou o bar para se sentar enquanto falava. Depois de ter estado de p durante todo o dia, as costas estavam-no a matar. -O que deseja?
   - Fala o agente Radcliff, da polcia estadual do Oregon.
   Isaiah ajeitou-se num dos bancos do bar. O assento de verga rangeu ao receber o peso dele. Nem sempre eram ms notcias quando a polcia telefonava. Ainda na 
semana passada, a Associao de Xerifes do Estado do Oregon telefonara-lhe a pedir-lhe um donativo. Mesmo assim, o corao de Isaiah bateu um pouco mais depressa.
   - H algum problema?
   -  isso que estou a tentar perceber. H poucos minutos, o alarme da sua clnica disparou. A mulher que estava no interior do edifcio no conseguiu dar  empresa 
de segurana a palavra-chave correcta, e por isso fomos notificados.
   A tenso abrandou sobre os ombros de Isaiah. Olhou para o relgio e viu que passava pouco das nove. Veio-lhe  mente uma imagem da cara de Laura e sorriu ao de 
leve.
   - Estou a ver...
   - Ela diz que trabalha para si;  uma senhora chamada Laura Townsend.
   - A menina Laura Townsend trabalha efectivamente para mim. E o primeiro turno da noite que ela faz. Nunca teve de lidar com o sistema de alarme anteriormente.
   - Foi o que ela disse. Bem, isso  bom; pelo menos no  um ladro.
   - No  de forma alguma. Ela tem autorizao para trabalhar l.
   - Segundo ela, o problema com o alarme pode voltar a acontecer. Ela diz que sofre de uma deficincia qualquer que lhe faz ver as letras e os nmeros ao contrrio. 
Sendo esse o caso, ser talvez melhor que o senhor a tenha a trabalhar durante o dia, de modo a que ela no tenha de mexer no alarme.
   O polcia tinha razo.
   - Eu vou l tratar do assunto - disse Isaiah. - Diga por favor  menina Townsend que estarei l dentro de meia hora.
   Depois de a polcia se ter ido embora, Laura decidiu trabalhar nos canis at que Isaiah chegasse. O tempo passaria mais depressa se ela se mantivesse ocupada, 
pensou para si prpria; e, dessa forma, quando outro empregado pegasse ao servio no turno seguinte, ela no teria deixado um monte de trabalho para outra pessoa 
fazer.
   Enquanto recolhia cobertores sujos, Laura lutou contra as lgrimas. Desde o incio que acordara com Isaiah que ele a deixaria ir-se embora se ela no conseguisse 
fazer o trabalho. Parte das suas funes era assegurar um dos turnos da noite durante uma semana em cada ms, tal como faziam os outros zeladores do canil. Agora 
que se mostrara incapaz de preencher esse requisito, Isaiah no teria outra hiptese seno a de a despedir.
   Esta constatao entristeceu Laura, por diversas razes. Este era mais do que um simples emprego para ela. Ia sentir falta de todos os amigos que fizera ali na 
clnica. E, oh, como iria sentir saudades de trabalhar com os animais! Era o seu nicho. Os outros zeladores de canil faziam apenas o que lhes era exigido, e nada 
mais. S Laura se dava ao trabalho de dar diariamente a cada gato e a cada co um pouco de ateno extra. E porque no? No tinha ningum  sua espera em casa - 
nem filhos, nem marido, nem sequer namorado. Se quisesse deambular pelos canis depois de terminar o seu turno, era livre de o fazer - e fazia-o com frequncia. Por 
isso, este emprego tornara-se em pouco tempo no centro da sua vida.
   Suspeitava de que Isaiah sabia quanto ela gostava de trabalhar para ele. Ele iria provavelmente sentir-se muito mal ao despedi-la. Ao pensar nisso, Laura limpou 
as lgrimas que lhe corriam pela cara e endireitou os ombros. Era altura de afivelar uma cara alegre. No queria estar de olhos vermelhos e inchados quando ele chegasse. 
Isso s o iria fazer sentir-se pior. Eles tinham feito um acordo e ela tencionava honr-lo.
   Estava a lavar as jaulas quando ele chegou. No momento em que o viu avanar pela coxia central, desligou a mangueira, pendurou-a atravs da rede e saiu para ir 
ao seu encontro. Ele vestia uma camisola azul escura que parecia que tinha sido lavada quase tantas vezes quanto as suas Wranglers desbotadas; contudo, conseguia 
ainda parecer maravilhoso.
   - Ol...- foi tudo o que ela conseguiu dizer.
   Os olhos azuis dele brilharam de riso contido.
   - Parece que o seu primeiro turno da noite comeou com alarido. Ou deverei dizer com uma sirene?
   Forando-se a sorrir, Laura arregaou as mangas da sua camisola de malha rosa.
   - Desculpe-me t-lo feito vir aqui to tarde. Estive hoje a praticar com a Val a desligar o alarme e pensava que o conseguia fazer.
   Ele enfiou a ponta dos dedos nos bolsos da frente das suasjeans.
   - Mas qual  exactamente o problema? Talvez a gente lhe consiga dar a volta.
   - Eu gostava. Mas no creio que possamos - disse Laura, com um aperto na garganta. - Os nmeros e as letras so difceis para mim. Os seis parecem-me por vezes 
noves. Os dois parecem cincos. - Ela encolheu os ombros e tentou rir-se. - Agora sabe porque  que eu no passo cheques.
   Os olhos dele ensombraram-se de preocupao.
   - No  grave, sabe. Praticamente toda a gente faz disparar o alarme de vez em quando. Vamos pensar numa forma de...
   - Vou-me embora - atalhou Laura, interrompendo-o a meio da frase.
   Um silncio tenso caiu entre os dois. At os ces pareceram sentir atenso e pararam de ganir. Isaiah levantou lentamente uma mo.
   - Eh l!
   - Foi o que combi-nmos -lembrou-lhe ela. - Eu nunca quereria o trabalho seno o conseguisse fazer. - Encolheu os ombros como se fosse um caso de somenos importncia. 
- No consigo, e assim  ponto final.
   - No est a ser um pouco precipitada?
   - No pode confiar em mim para mexer no alarme, Isaiah. Isso quer dizer que eu no posso trabalhar  noite. Todos os zeladores de canil tm de fazer turnos  
noite. Faz parte do contrato. Eu no quero tratamento especial.
   - No lhe estou a propor tratamento especial. Acho apenas que podemos contornar o problema.
   Ela ergueu as mos num gesto derrotista.
   - Eu revi o cdigo vezes sem conta. No  uma questo de eu precisar de mais tempo. Vejo por vezes mal os nmeros, e no h prtica que corrija isso.
   - E como  voc com os oitos?
   - Oitos? - repetiu ela, espantada.
   - Sim, oitos - reafirmou ele, traando um no ar. - Ao contrrio, invertidos ou deitados, parecem sempre da mesma maneira.
   Isso era verdade, mas Laura no conseguia ver a relao.
   - O que  que os oitos tm a ver com isto?
   Ele sorriu e piscou os olhos.
   - Uma caracterstica simptica do nosso sistema de alarme  permitir vrios nveis de acesso. Basta eu premir alguns botes para lhe atribuir o seu prprio cdigo 
de acesso. O que acha de quatro oitos?
   Laura mal conseguia acreditar no que estava a ouvir.
   - Tudo oitos? Pode fazer isso?
   - Se os oitos so fceis para si, no s posso como vou faz-lo.
   Laura estivera to certa de que teria de abandonar o emprego que a sugesto abalara-a por completo. Assomaram-lhe de novo lgrimas aos olhos, e pouco podia fazer 
para impedir que o queixo lhe tremesse.
   - Isso seria ptimo - disse ela. - Mas e quanto  palavra-chave? Eu tambm no me conseguia lembrar dela. Logo aps a polcia ter sado, acalmei um pouco e lembrei-me 
dela. Mas juro que no me conseguia lembrar dela quando telefonou a pessoa do alarme.
   - H alguma palavra que ache que se possa lembrar? - perguntou ele. - Uma que lhe venha sempre  mente quando fica enervada e no consegue pensar com clareza?
   Laura no precisava de pensar muito para responder quela pergunta:
   - Estpida.
   - Ah, querida - disse Isaiah. Antes de ela poder adivinhar o que ele se propunha a fazer, ele passou-lhe uma mo sobre o ombro e chegou-a para ele. - No  nada 
estpida. Nem sequer deve pensar nisso.
   A respirao de Isaiah agitou as madeixas de cabelo nas tmporas dela. Por um breve instante, Laura deixou-se abandonar no aconchego do brao dele. Ah. Ela deixou 
que os seus olhos se fechassem. Sentia-o to grande, forte e slido! Ele pousou-lhe uma mo no cabelo, o seu toque to leve e imaterial que bem podia ter sido um 
suspiro.
   - No se diminua - ralhou-lhe ele ternamente, com os lbios a aflorarem-lhe o cabelo. - A Laura  uma engenheira do ambiente, pelo amor de Deus.
   - Fui. Passado.
   - Mesmo assim, isso significa que teve cabea para conseguir uma licenciatura. A afasia no afecta a inteligncia - contraps ele, passando-lhe uma grande mo 
acariciante pelas costas. - to inteligente agora como o era ento.
   A camisola dele roou pela cara dela. O cheiro dele - uma mistura maravilhosa de almiscarado masculino, aftershave e vestgios fugazes de sabo -encheu-lhe os 
sentidos. A coluna vertebral de Laura perdeu toda a rigidez. Isaiah. Oh, como ela desejava abandonar-se de encontro a ele. Mas aquelas campainhas de alarme estavam 
j a repicar de novo. Este homem podia ter qualquer mulher que desejasse. Ela era louca por desejar coisas que nunca iriam acontecer.
   Apoiando o cutelo das mos contra o peito largo de Isaiah, Laura tentou afastar-se dele, mas acabou por esbarrar contra o crculo formado pelo seu brao. Assomou-lhe 
calor ao rosto quando os seus olhos se encontraram. O olhar dele sondava o dela, interrogativamente - e talvez sonhadoramente. A sua boca firme, refulgente como 
seda polida  luz fluorescente, resvalou para um sorriso descentrado. Por um instante apenas, ela pensou que ele a fosse beijar, e teve a certeza de que o seu corao 
pararia de bater se ele o fizesse. Em vez disso, Isaiah enleou as mos sobre os ombros dela e, suavemente, afastou-a dele.
   Recuando um passo, Isaiah disse:
   - Apesar de me revoltar as entranhas, acho que "estpida" pode funcionar como palavra-chave. Vou telefonar  empresa de segurana e pedir-lhes para a colocarem 
no nosso ficheiro como palavra-chave alternativa.
   - Eles faro isso?
   - Claro. Desde que no nos despistemos, eles esto-se nas tintas para o nmero de palavras-chave que tivermos. Muitas empresas tm mais do que uma. Algumas pessoas 
no se conseguem lembrar de uma palavra-chave se esta no tiver um significado especial para elas.
   Laura acompanhou-o desde o canil at ao armazm e ficou a observa lo enquanto ele programava o sistema de modo a que este aceitasse o cdigo de utilizador dela. 
Depois de rever com ela vrias vezes os diversos passos, Isaiah dirigiu-se  recepo para telefonar  empresa de segurana. Com um desejo to intenso que roava 
a dor, Laura seguiu-o com o olhar.
   Estpida. Naquele momento, mais do que nunca, ela teve a certeza de que a palavra assentava-lhe que nem uma luva. Estava a apaixonar-se por Isaiah Coulter. Se 
isso no fosse estupidez, no sabia o que seria.
   Depois de fazer apenas dois turnos nocturnos, Laura deu por si a contar as horas que faltavam para poder regressar aos turnos diurnos. No era para admirar que 
os zeladores de canil detestassem trabalhar nos turnos tia noite. Estar sozinho num edifcio to grande como aquele seria j de si assustador em plena luz do dia, 
mas era absolutamente sinistro  noite. As salas, que nunca pareciam to grandes durante o dia, tinham um aspecto cavernoso sem pessoas nelas. Os corredores escuros 
e os recantos sombrios causavam arrepios a Laura. At o som de uma porta a fechar-se atrs dela parecia ensurdecedor.
   Ela nunca tivera medo do escuro ou receara a solido, mas trabalhar sozinha durante o terceiro turno era suficiente para fazer disparar at a sua imaginao. 
Por diversas vezes, durante a noite, deu por si a olhar por cima do ombro, incapaz de afastar a impresso de que estava algum a observ-la. A determinadas alturas, 
poderia jurar que ouvira movimento noutras partes do edifcio - o sussurro furtivo de passos ou ocliqueabafado de uma porta a fechar-se.
   Ela poderia no se ter sentido to pouco  vontade se ao menos os ces estivessem acordados para lhe fazerem companhia, mas at os seus relgios internos pareciam 
estar regulados para o perodo diurno. Eles mal se mexiam quando ela entrava nas suas jaulas para recolher as cobertas sujas e lavar-lhes os pratos. Sentia falta 
do toque deles, a solicitarem carcias e arranhadelas, do ladrar excitado quando ela avanava pela coxia central e da sensao de utilidade que ela tinha sempre 
que interagia com eles.
   Tambm sentia falta da camaradagem dos seus colegas de trabalho.  noite, ela no podia aguardar ansiosamente pelas pausas para o caf com a Lena, a Jeri e a 
Tina. A Sally no estava ali para a fazer rir com as suas anedotas. O James nunca se esgueirava at aos canis para dar uma guloseima aos ces. Em suma, o turno da 
noite era uma perfeita estopada.
   O tdio nas horas mortas da madrugada fazia com que cada minuto parecesse uma pequena eternidade. Por volta da meia-noite Laura tinha j a vista turva e sentia-se 
exausta e com uma vontade doida de ir para casa. As ltimas duas horas do turno pareciam nunca mais acabar.
   Nessa quarta-feira, Laura sentiu tantas saudades de toda a gente da clnica que decidiu ir at l para lhes fazer uma visita. Depois de ter dormido at tarde 
nessa manh, tomou um duche rpido, vestiu uns trapos velhos, meteu num pacote um punhado de bolachas congeladas que sobraram do Halloween, pegou no carro e foi 
at ao seu local de trabalho. Antes de sair do automvel, permitiu-se dar uma olhada ao seu aspecto no espelho retrovisor. No pusera maquilhagem, reparava agora, 
e quase que meteu a mo na mala em busca de um batom. Mas no. Isaiah teria j acabado as suas visitas domicilirias aos ranchos, e ela iria decerto encontr-lo, 
mas isso no implicava que ela se produzisse. Eles eram amigos, e nada mais. Ela tinha de ter isso sempre presente na cabea.
   As mulheres na recepo ficaram encantadas quando viram que Laura lhes trouxera guloseimas.
   - Oh, que bom! - exclamou Jennifer. Com o cabelo apanhado no topo da cabea com um gancho verde a condizer com as lentes de contacto coloridas, a ruiva levantou-se 
de um salto da cadeira. - Acho que te deviam pr a tempo inteiro no horrio diurno. Ningum mais traz coisas boas para os colegas.
   Por mais que Laura adorasse poder trabalhar s durante os turnos diurnos, sabia que isso seria injusto para com os outros zeladores de canil.
   - Bolachas de acar? - exclamou Debbie, normalmente calma e reservada, sorrindo maliciosamente e agarrando numa bolacha antes que Jennifer a pudesse bater na 
tiragem. - Mmm... e tm cobertura! Obrigada, Laura.
   Tucker e a sua equipa ficaram igualmente satisfeitos por receberem as bolachas. Tucker acabava de terminar uma operao e estava a vasculhar o frigorfico da 
ala norte  procura de qualquer coisa para comer quando Laura apareceu. Os seus olhos azuis, muito semelhantes aos de Isaiah, brilharam de interesse quando viram 
os pacotes nas mos dela.
   - Comida?
   Laura riu-se. Ao contrrio de Isaiah, Tucker nunca se esquecia de comer.
   - Apenas umas bolachas que sobraram do Hallo-ween- disse ela, estendendo-lhe um pacote. - Prove.
   Ele j tinha dado uma dentada numa bolacha e estava a mastig-la quando disse:
   - O que  que est a fazer aqui? Esta semana trabalha nos turnos da noite...
   - Decidi fazer uma visita.
   - Teve mais problemas com o alarme?
   - No, graas a Deus!
   - Isso  bom - disse ele. Olhou para a bolacha meia comida que tinha na mo. - Uau! Estas so mesmo boas! Falhou a sua vocao, Laura. Deveria abrir uma pastelaria.
   -  uma ideia...
   - Falando de vocaes...- continuou ele, erguendo um dedo para a impedir de se ir embora. - Tenho de falar consigo acerca de uma coisa. Na noite de segunda-feira 
a Laura baralhou um pouco as coisas ao alimentar os ces. No teria importncia se o golden retriever do canil quatro no estivesse com uma dieta especial. Ao comer 
a comida errada, ficou um bocado mal.
   Laura conhecia o co. Uma visita ao caixote do lixo de um vizinho deixara-o com problemas gstricos e intestinais agudos, necessitando de alimentao intravenosa 
nas primeiras vinte e quatro horas e hospitalizao temporria. O animal tinha um problema crnico de hipotiroidismo que exigia medicao apropriada e uma dieta 
leve, sem gorduras, para o manter sob controlo. Iria regressar em breve a casa.
   - Eu dei-lhe a comida errada? - repetiu ela, incrdula.
   Tucker encolheu os ombros.
   - Era a primeira vez que voc trabalhava de noite sozinha, e, com o alarme a disparar e tudo o resto, sei que foi um turno difcil. Felizmente, a Susan deu pelo 
erro quando c chegou s seis, e assim a trapalhada foi corrigida antes que tivesse ocorrido grande estrago. S que...-interrompeu-se ele, sorrindo benevolamente. 
- A noite passada, a Laura fez tudo na perfeio. Estou certo que o continuar a fazer daqui para a frente. S lhe peo  que no se volte a descuidar tanto. Est 
bem? Outros erros podero no ser to fceis de corrigir.
   Laura sentiu como se o seu estmago lhe casse aos ps. No conseguia acreditar que tivesse trocado as jaulas. Era sempre to cuidadosa! Uma pessoa como ela tinha 
de o ser. Sendo esse o caso, como  que ela trocara a comida?
   - Desculpe...- disse ela, com a voz sumida. - No voltar a acontecer...
   Tucker acenou com a cabea em concordncia.
   - Isso. -O seu sorriso esfumou-se. - Porque no podemos permitir que volte a acontecer. Est a perceber?
   Laura engoliu em seco e disse que sim com a cabea. Da forma mais simptica que podia, Tucker estava-lhe a dizer que ela seria despedida da prxima vez que tal 
acontecesse.
   Laura ia de sobrolho franzido quando atravessou o curto corredor que levava ao bloco cirrgico de Isaiah. Um segundo depois, quando entrou na grande sala e viu 
todas as caras familiares, foi como se tivesse regressado a casa aps uma longa ausncia.
   Trish, de p junto ao lavatrio a lavar as mos, comeou a uivar como uma sirene logo que viu Laura. Descartando a sensao de desgraa eminente causada pela 
reprimenda de Tucker, Laura riu-se e revirou os olhos.
   - Ento j ouviste falar nisso...
   Trish teve um sorriso rasgado.
   - Quando vim para c pela primeira vez, tambm fiz disparar o alarme.  uma tradio aqui da clnica, uma espcie de ritual de iniciao, se quiseres. - Acabando 
de secar as mos, ela voltou-se para encarar Laura. - E o que te traz aqui to cedo?
   - Tenho saudades dos meus bebs...- confessou Laura. - Os mal-cheirosos dormem a noite toda. Gostaria de passar um pouco de tempo com eles enquanto tm os olhos 
abertos.
   -Ah.
   - Ol, Laura! - cumprimentou Belinda, fechando a porta de um armrio e sorrindo por cima do ombro. - Sentimos a tua falta. O iogurte j se foi todo e estamos 
reduzidos a um nico tipo de refrigerante, as sanduches tambm acabaram e a sopa est no fim.
   Laura sorriu e ergueu o ltimo pacote de bolachas.
   - Raes de emer-gncia!
   - Ooh! - exclamou Belinda, agarrando no pacote; abriu o selo e cravou os dentes numa bolacha de acar com cobertura de laranja. - Molinhos! Adoro-os assim!
   - No os comas todos - disse Trish, atirando o toalhete de papel para o lixo. - Eu tambm quero a minha parte.
   Isaiah e Angela estavam de p junto a uma mesa de operaes no extremo oposto do bloco. Um lenol tapava o paciente, fazendo com que Laura no conseguisse identificar 
que tipo de animal estava a ser operado. Ela acenou-lhes e dirigiu-se para a porta que dava para os canis.
   - Laura! - chamou Isaiah.
   Ela voltou-se para olhar interrogativamente para ele.
   - Sim?
   Os olhos azuis dele estavam inusitadamente solenes por cima da mscara cirrgica que lhe cobria a metade inferior da sua face morena.
   - Viu o Tucker?
   Laura acenou com a cabea.
   - Sim, mesmo agora. - Aquela sensao horrvel de afundamento atacou-lhe de novo o estmago. - Falmos.
   Isaiah sorriu, parecendo aliviado. O piscar de olhos familiar voltava-lhe lentamente.
   - Polcia bom e polcia mau. Revezamo-nos. S espero que ele no tenha sido muito duro consigo.
   Caiu um silncio na sala. Belinda e Trish ficaram inexplicavelmente atarefadas. As faces de Laura tornaram-se rubras de vergonha. Por um momento, ficou magoada 
com a falta de tacto de Isaiah. Ela pode ter feito asneira, mas ao menos ele podia discutir o assunto em privado.
   Antes que a fria criasse razes, o sentido de justia de Laura cortou-lhe o caminho. No havia segredos na clnica. Decerto que todos naquela sala j sabiam 
da trapalhada que ela fizera com a comida dos ces.
   - No - respondeu ela. -O Tucker foi muito simptico. E peo desculpa por ter feito um erro.
   - Dois erros - atalhou Belinda, embora sorrisse para suavizar o comentrio. - Baralhaste os canis trs e quatro, por isso houve dois ces que receberam a comida 
errada, e no apenas um.  por isso que aqui somos sempre to cuidadosos. Pode acontecer a qualquer um.
   No, no a qualquer um, pensou Laura com amargura, s a uma atrasada mental como eu. Ainda lhe era difcil acreditar que trocara as jaulas, mas, se dois dos ces 
receberam a comida errada, no havia outra explicao. Lera mal os nmeros do cdigo nessa noite. O fiasco do alarme era testemunho disso. Contudo, no costumava 
confundir os trs com os quatros. No se pareciam nada uns com os outros, por mais que os rodssemos ou voltssemos ao contrrio.
   - Eu vou ter mais cuidado daqui para a frente - prometeu Laura. Olhou apreensivamente para Isaiah, cujos olhos ficaram de novo solenes. - Verdade -assegurou-lhe 
ela. - No volta a acontecer.
   Laura entrou nos canis. Quase de imediato, os ces comearam a latir de alegria. Inspirou profundamente, exalou devagar e abandonou-se ao prazer dos focinhos 
hmidos que a procuravam para lhe tocar, ao hlito canino. Ao deslocar-se de uma jaula para a seguinte, chegando finalmente ao canil trs, olhou fixamente para os 
nmeros, enormes, gordos, pintados a negro bem alto na parede de trs das baias de blocos de cimento. Ela tinha uma dificuldade extrema em ler correctamente alguns 
desses nmeros, mas um trs no fazia parte deles.
   Uma hora depois, quando chegou a altura de Laura se ir embora, voltou a entrar no bloco operatrio para ir buscar o casaco e a carteira. Belinda acabava de tirar 
um grande gato angor de uma jaula, pegando-lhe pelo cachao. Era evidente que o felino no gostou da forma como Belinda lhe pegou, pois comeou de imediato a bufar 
e a agitar as patas no ar.
   - Apanhei um bem vivao! - exclamou Belinda.
   - Tr-lo c -disse-lhe Isaiah.
   Belinda apressou-se a colocar o gato na mesa de ao inoxidvel. Mal as patas do felino tocaram na superfcie metlica, ele comeou a lutar desesperadamente para 
se tentar libertar, contorcendo-se, arranhando, uivando e fazendo tudo para morder. Assustada com a ferocidade do animal, Belinda largou-o e deu um salto para trs. 
S a reaco pronta de Isaiah impediu que o gato saltasse da mesa. Lanou-lhe uma mo, voltou a agarrar o angor pelo cachao e ergueu-o bem alto no ar.
   -  rapazinho - disse ele, tentando acalm-lo. - Vamos ser amigos, est bem?
   Na opinio de Laura, Belinda foi responsvel pelo comportamento do gato. O pobrezinho estava num ambiente que lhe era estranho. Tambm fora fechado numa jaula, 
o que provavelmente era uma coisa a que no estava habituado. Depois, para piorar as coisas, a tcnica no fizera qualquer esforo para acalmar o animal antes de 
lhe pegar.
   Bufando e cuspindo, o felino tentou dar uma patada na cara de Isaiah. Este atirou a cabea para trs mesmo a tempo.
   - Ele j foi desunhado? - perguntou a Belinda.
   -  a primeira vez que ele c vem, e ainda no temos a ficha dele - respondeu Belinda, agarrando numa das patas da frente do gato. Pressionou um polegar contra 
as costas dos dedos do animal e disse: - Sim, parece-me que ele j no tem unhas.
   - Preciso de um aaime - gritou Isaiah por cima do ombro para Trish. Para o gato, disse: - Olha, Abracinhos, podemos fazer isto a bem ou a mal. A escolha  tua.
   Rhhaa! Foi a resposta do Abracinhos, rapidamente seguida de patadas maldosas mas fteis contra a cara e o peito de Isaiah.
   - O dono dele estava pedrado ou qu? - perguntou James do outro lado da sala. - Abracinhos no  um bom nome para ele. Que tal Exterminador?
   Laura sorriu e aproximou-se da mesa. A bata azul de Belinda estava coberta com tanto plo branco que Laura ficou surpreendida por o Abracinhos ainda ter algum 
no corpo anafado. Antes de Isaiah conseguir adivinhar o que Laura se preparava para fazer, ela enroscou as mos em redor do ventre do felino, puxou-o delicadamente 
para o soltar do aperto de Isaiah e encostou o gato aterrorizado contra o peito.
   - Pobrezinho! - arrulhou ela.
   O Abracinhos rosnou e bufou, tentou inutilmente trepar para o ombro de Laura para fugir e depois desistiu da luta.
   - Chh-hh -acalmou-o Laura, afagando-lhe o plo ao de leve. - Um gatinho to bonito. Sim, s mesmo bonito. Est tudo bem...- Respondendo ao tom suave dela, Abracinhos 
parou de se debater. - Pronto, ests a ver? - sussurrou-lhe ela. - Ningum te vai fazer mal.
   Sacudindo plo da sua camisa verde, Isaiah abanou a cabea.
   - Isto  espantoso! No acredito que ele no a esteja a morder.
   O gato encostou-se ao peito de Laura e meteu o focinho por baixo da gola dela.
   - Ele est assustado - explicou ela. - No podem tir-lo assim da jaula e come-arem-lhe a fazer maldades. Algum tem de o segurar primeiro durante um boca-dinho.
   Belinda bufou.
   - Ao contrrio de certas pessoas, eu tenho um horrio a cumprir.
   Isaiah ergueu uma mo.
   - No, Belinda, ela tem razo - disse ele, estendendo a mo e tocando com a ponta de um dedo na cabea do gato. - No sou muito amigo de gatos, tenho de o confessar. 
- Tambm ele comeou a afagar o plo do animal. - Mas trato montes deles. Tenho de desenvolver uma melhor relao com os bichanos.
   - Ele  um querido...- disse Laura, esfregando o queixo contra a pelagem macia do gato. - J percebi porque  que lhe chamaram Abracinhos. Ele  muito meigo quando 
no est assustado.
   Isaiah deu uma risadinha.
   - De qualquer modo, ele est consigo.
   Laura mudou o grande gato de posio para o segurar com mais facilidade. O Abracinhos comeou a ronronar, o que fez Isaiah sorrir.
   - O que se passa com ele? - perguntou Laura.
   - Qualquer coisa que no est bem como ouvido - disse Isaiah. - At aqui, no me consegui aproximar o suficiente para ver qual  o problema.
   Laura continuou a fazer festas ao gato e virou-o de modo a que Isaiah pudesse ver um dos lados da cabea do animal.
   - Agora pode ver...
   - V l! - disse Belinda, impaciente. - Ele pode-se assanhar a qualquer momento!  bvio que tu nunca lidaste com gatos nem foste mordida por nenhum. Prefiro 
conservar os meus dedos todos, mas, se no pensas assim,  l contigo.
   Trish chegou nesse momento com o aaime para o gato, uma engenhoca de aspecto horrendo que apanhava todo o focinho do felino e era preso com correias cruzadas 
por detrs da cabea do bicho. Laura no conseguia perceber como  que um gato podia sequer respirar com uma coisa daquelas. Olhou implorativamente para Isaiah.
   - Eu seguro-o enquanto voc olha -ofereceu-se ela. - Se tivermos cuidado em no o assustarmos, no creio que ele v morder.
   Isaiah semicerrou os olhos ao olhar para ela, ao mesmo tempo que tirava do bolso uma caneta-lanterna. Debruando-se at ficar perto do gato, ele espreitou para 
dentro do ouvido. Laura virou com cuidado a cabea do Abracinhos, de modo a que Isaiah pudesse observar melhor.
   - E uma espiga de erva...- murmurou ele.
   - Oh-oh - comentou Belinda, dando a volta para ver. - Est muito enterrada?
   Laura sabia por experincia prpria como as espigas podiam ser traioeiras. Com a forma de flechas, crescem na porta de longos caules herbceos, ficando amarelo-acastanhadas 
quando secam durante o Vero. As espigas desprendem-se da planta ao menor toque ou lufada de vento e agarram-se s roupas e ao plo dos animais. Uma vez presas, 
a sua forma e a ponta aguada permitem-lhes enterrarem-se. Os animais apanham-nas com frequncia nas patas, orelhas, bocas e olhos. Muitos cavalos da zona usavam 
proteces de olhos enquanto andavam a pastar para os proteger das espigas.
   - Nem por isso - respondeu Isaiah.
   - Ela trouxe-o logo que ele comeou a abanar a cabea - atalhou Trish.
   - Foi bom - retorquiu Isaiah. - A sacaninha s se iria enterrar mais.
   - Deve ser de um campo perto da casa - observou Belinda.
   Isaiah foi buscar umas pinas compridas. Quando voltou, um momento depois, olhou Laura de esguelha.
   - Se o conseguir manter quieto, creio que poderei tir-la com bastante facilidade...
   Laura acenou com a cabea, e em breve acabava a tortura do Abracinhos. Laura ficou com o gato ao colo durante mais um bocado, antes de o voltar a pr na jaula. 
Por detrs dela, ouviu Isaiah dar ordens para os cuidados continuados a dar ao bichano. Quando Laura se voltou, viu que Trish estava a tomar notas enquanto Isaiah 
lavava as mos. Laura foi buscar a carteira. No momento em que passava a ala pelo ombro, Isaiah olhou em volta.
   - Tem a certeza de que quer ser uma zeladora de canil? Os seus talentos esto a ser desperdiados l atrs...
   - Nem mais - secundou Trish. - Davas uma tcnica assistente fabulosa.
   - Oh, no - disse Laura, abanando a cabea com veemncia. - No estou talhada para isso. Lem-bram-se de mim, a mulher que baralhou a comida de co?
   Com a lembrana, o sorriso encorajador de Isaiah desvaneceu-se e os olhos ensombraram-se-lhe. No disse nada, mas as palavras no eram necessrias. Esquecera-se 
claramente por um momento de que Laura fora admoestada. Mais um erro e seria despedida.


   
Captulo Sete










   - Que imagem queres que escolha? - perguntou Etta Parks.
   Espreitando por cima do ombro da sua av, Laura semicerrou os olhospara ver o pequeno ecr do telemvel. Batera  porta de Etta nessa manh para que ela lhe programasse 
o nmero da clnica no mvel.
   - Um co ou um gato seria giro...
   Etta puxou um trago do seu cigarro Winston e expirou uma baforada de fumo, a qual flutuou at  cara de Laura.
   - Usaste o co para a Sra. Kessler e o gato para os Segais. Tens um balo de festa, um copo de vinho...- Etta rolou o ecr para ver mais opes - um livro, um 
bolo, uma impressora, um carro e uma chvena de caf. No h mais animais para escolher.
   Por Laura ter tanta dificuldade em ler nmeros e letras, comprara um telemvel com smbolos que podiam ser atribudos a pessoas a quem ela telefonasse com frequncia. 
Assim, podia percorrer rapidamente a lista de contactos, reconhecer os nomes das pessoas pelas imagens que lhes estavam associadas e fazer telefonemas sem ter sempre 
de digitar os nmeros.
   - Escolhe o bolo. Isso d.
   - O bolo? Para uma clnica veterinria?
   Laura confirmou.
   - Estou-lhes sempre a levar comida.
   - Seja ento um bolo. - Com o cabelo prateado que lhe dava pelos ombros apanhado por uma bandelete prpura a condizer com a camisola berrantemente decorada, Etta 
dedicou-se a programar o telefone. - Que tipo de comida levas para l?
   - Muita coisa. Em casa estou sempre a fazer demasiada, e o meu con-gela-dor est a ficar cheio. O Isaiah esquece-se de comer, a no ser que tenha qualquer coisa 
 mo, e por isso posso livrar-me do que tenho a mais e aliment-lo ao mesmo tempo.
   - A cuidar dele, ? - sorriu Etta. -Parece-me muito ntimo.
   - Somos s amigos - respondeu Laura, pensando, enquanto falava, que aquelas palavras se haviam tornado no seu mantra.
   Enquanto a sua av pressionava os botes do telefone e resmungava baixinho contra aquelas invenes modernas, Laura foi buscar uma bebida. Com as ancas encostadas 
aos armrios, passeou o olhar pela cozinha familiar enquanto bebia lentamente pequenos golos de gua. Aquela cozinha era para ela um aposento muito querido. Em criana, 
sentara-se muitas vezes  mesa oblonga com o av Jim, partilhando um pequeno-almoo ainda o dia no despontara, antes de sarem para irem pescar para o lago. Ela 
tambm passara muitos seres de vero naquela cozinha com a av, a prepararem e a guardarem hortalias colhidas na horta. Aquilo dava imenso trabalho, mas a av 
sempre conseguira faz-lo parecer divertido. A recordar-se desses dias, Laura como que desejou ser de novo criana.
   Com o passar dos anos, a cozinha sofreu muitas transformaes - novos apetrechos, diversos esquemas de cores - mas mantivera-se essencialmente na mesma. A janela 
do recanto de pequenos-almoos ostentava agora cortinas de Priscilla verde-lima a condizerem com os flocos de um verde mais escuro que salpicavam os novos balces 
de frmica e o padro rodopiante da alcatifa de interior/exterior que a sua av instalara recentemente de modo a no ter mais de usar a esfregona. Uma mquina de 
caf Mr. Coffee castanha-escura assentava  esquerda do lava-loias de ao inoxidvel, com o seu bule meio cheio a desprender o rico aroma de caf acabado de fazer. 
A porta do frigorfico estava to coberta de bugigangas que mal se via a sua superfcie branca. Muitos dos manes ostentavam dizeres que Laura tinha agora dificuldade 
em ler, mas estavam ali h tanto tempo que ela memorizara a maior parte deles.
   Fala em dieta e morres. Deus abenoe esta casa. No sou uma simples boa cozinheira; sou uma estupenda cozinheira. Laura sorriu quando o seu olhar recaiu sobre 
o seu man preferido, que ela dera de presente  av h alguns anos. Eu e tu, e tu e eu,  assim e sempre ser. Oh, como aquilo era verdade! Passados todos esses 
anos, ali estava ela, de p na cozinha da av, um dos lugares onde mais gostava de estar.
   - Est quase...- disse a av.
   Ao olhar para ela, Laura sorriu para si prpria. Mesmo aos setenta e seis anos, Etta era uma mulher linda, esbelta, de feies delicadas. Muita gente afirmava 
que Laura se parecia com ela, mas Laura nunca vira a parecena. A tez das duas era semelhante, mas no ia alm disso.
   O telemvel comeou de repente a tocar nas mos artrticas de Etta.
   - Meu Deus! - exclamou ela, sobressaltando-se tanto que quase deixava cair o aparelho. - Detesto estas geringonas!
   Laura riu-se enquanto atravessava o aposento. Pegando no aparelho, carregou no pequeno smbolo de um telefone verde para atender a chamada.
   - Est?
   - Viva, Laura - respondeu uma profunda voz masculina. - Fala Isaiah.
   O corao dela comeou a bater um pouco mais depressa.
   - Ol...
   Longo silncio. Depois, ele disse:
   - Esta manh houve aqui um problemazito. Cheguei agora mesmo das minhas visitas domicilirias aos ranchos e acabaram de me contar. Acho que precisamos de falar. 
Pode vir at c hoje para falar comigo?
   O sorriso de Laura desvaneceu-se. A voz de Isaiah estava tensa, quase sombria.
   - Claro. Que tipo de problema? Troquei outra vez a comida? - Laura franziu o sobrolho ao fazer a pergunta, pois fora ultracuidadosa na noite anterior, verificando 
e tornando a verificar o seu trabalho a cada uma das vezes. - No acredito que tenha feito um erro.
   - Falaremos nisso quando chegar c.
   Laura estava a comear a ter uma premonio muito m. Isaiah tambm parecia distante.
   - Muito bem. A que horas lhe d jeito?
   Outro silncio.
   - Venha quando puder. Vou ficar por c durante o resto do dia.
   Depois de terminar a chamada, Isaiah recostou-se na cadeira da sua secretria e esfregou os olhos. Tucker, sentado a um canto da secretria, emitiu um suspiro 
audvel, brincou com o agrafador durante um momento e depois disse:
   - Temos de a mandar embora, Isaiah.  quase um milagre que o co no tenha morrido.
   Um brutal aperto emocional estrangulou a garganta de Isaiah.
   - Ela  to cuidadosa, Tucker. No posso acreditar que tenha deixado a porta do canil destrancada.
   Tucker soltou um valente palavro por entre dentes cerrados.
   - Raios, Isaiah, no vs por a. Ela foi a nica pessoa a estar c ontem  noite. Quem mais poderia ter feito isso?
   Isaiah no tinha qualquer explicao racional para o facto. Apenas sabia que Laura era meticulosa naquilo que fazia.
   - Muito bem - argumentou ele. - Apenas por mera hiptese, vamos admitir que ela deixou a porta aberta. Pode acontecer a qualquer um. Porque  que no nos limitamos 
a chamar-lhe a ateno e encerramos assim o assunto? Parece-me muito duro despedi-la por um erro que ela pode nunca mais cometer...
   Tucker ergueu as mos. Os seus olhos azuis chispavam de fria.
   - No viste o estado em que estava o co! Havia tanto sangue que o canil parecia um campo de batalha. Ele podia ter morrido, Isaiah.  um co muito caro. Os donos 
poderiam ter-nos processado. Deixar uma porta de um canil destrancada no  um errozinho.
   Isaiah concordou.
   - Eu estou ciente da gravidade, Tucker. Mas no me ests a compreender. A Laura  simplesmente fabulosa com os animais. Penso que deveramos trabalhar com ela 
e dar-lhe outra oportunidade.
   - Quantas mais oportunidades? - perguntou Tucker, levantando-se. - Somos financeiramente responsveis pelas broncas dela. - A cada palavra, ele falava mais alto. 
- No nos podemos limitar a dar-lhe uma palmadinha na mo e arriscarmo-nos a que ela repita a asneira! Isso no faz sentido!
   Isaiah ergueu-se da cadeira. Com os punhos apoiados na secretria, inclinou-se para a frente para olhar o irmo nos olhos.
   - Fui eu quem decidiu contrat-la. Penso que devo ser eu a decidir quando a devo despedir. J trabalhei com a rapariga. Conheo-a muito melhor do que tu.
   -  isso que me preocupa. Ests cado por ela, ou coisa parecida?
   - No, claro que no.
   - Ento porqu esta relutncia em nos protegermos? Usa a cabea, mano, e no me estou a referir  que est atrs da tua braguilha!
   - Que raio queres dizer com isso?
   - Ela  uma mulher atraente.
   - Temos vrias mulheres atraentes a trabalhar aqui - fez notar Isaiah. -Oponho-me a que se despea qualquer uma delas se sentir que ela no o merece.
   Tucker respirou fundo para se acalmar, meteu os dedos no cabelo para o alisar e ficou a olhar para o cho. Ao observ-lo, Isaiah teve de se interrogar se ele 
prprio seria tambm to intimidante quando se irritava. Os msculos que traavam os ombros de Tucker estavam tensos, o seu queixo tremia e as suas grandes mos 
cerravam os punhos de cada vez que ele baixava os braos.
   - Muito bem - acedeu ele por fim, num tom que transmitia um pro fundo desagrado. - Tu trabalhaste com ela e eu no. Tens razo em dizeres que a conheces melhor 
do que eu. Deixo a coisa nas tuas mos. Mas se volta a acontecer qualquer coisa, por mais insignificante que seja, ela vai para a rua, sem apelo nem agravo. Combinado?
   Isaiah aquiesceu.
   - Combinado.
   Tucker abriu a porta e preparou-se para sair. De repente, rodou sobre si prprio. Em voz baixa, para que no se pudesse ouvir na recepo, disse:
   - Mantm a cabea no lugar, Isaiah. A Laura  uma querida, no h dvida que  bonita; mas traz imensos problemas. No caias na asneira de te apaixonares por 
ela.
   Isaiah abanou a cabea.
   - Esse aviso  completamente desnecessrio.
   De msculos tensos, Laura agarrou-se aos braos da cadeira enquanto esperava que Isaiah deixasse de remexer nas coisas que estavam na sua secretria e lhe dissesse 
o que havia feito de mal. Era evidente que ele receava essa conversa. Parecia incapaz de a olhar nos olhos e no era nada dele fugir s questes.
   Durante toda a vida, Laura perguntara a si prpria por que razo as pessoas s vezes descreviam o silncio como sendo ensurdecedor. Agora sabia a resposta. O 
gabinete estava num silncio to pesado que poderia jurar que ouvia o suor a sair-lhe dos poros.
   Por fim, Isaiah endireitou-se e olhou para ela. Quando os olhos dele encontraram os dela, o seu olhar azul foi directo e implacvel.
   - A noite passada, voc deixou a porta de um canil destrancada...
   O corao de Laura teve um baque.
   - Mas no pode ser...
   - O co saiu - continuou ele, cortando-lhe a palavra. - Um labrador preto que foi ontem submetido a uma cirurgia abdominal. Estava a ser alimentado por via intravenosa. 
Quando saiu da jaula, o saco de soro soltou-se do gancho, caiu ao cho e o co arrastou-o atrs dele. A certa altura, ele saltou para cima de uns caixotes colocados 
por baixo de uma das janelas, provavelmente numa tentativa de fugir para o exterior, e o saco de soro ficou a um nvel inferior ao do cateter, provocando um refluxo.
   Laura no fazia ideia do que aquilo significava. Ele viu claramente a confuso que se espelhava na expresso dela, pois apressou-se a explicar:
   - Isso significa que, em vez de se injectar o soro na veia do paciente, o sangue sai dela por efeito de sifo. Neste caso, graas a Deus, o co deve ter saltado 
para cima dos caixotes mesmo antes de a Susan chegar. Perdera imenso sangue, tanto atravs do cateter como da inciso no abdmen, aqual deve ter rebentado os pontos; 
mas o animal no morreu. Ela chamou o Tucker, que fez uma transfuso ao co, efectuou uma operao de emergncia e, pela Graa de Deus, parece que ele se vai safar.
   Laura estava to aturdida que apenas conseguia abanar a cabea.
   - No...- conseguiu ela dizer por fim. - No, isso no pode ser.
   Como se ela no tivesse dito nada, ele continuou:
   - Estou a arriscar o plo por no a despedir de imediato. S h um motivo que me leva a arriscar mant-la c: o facto de a Laura ser to espantosa com os animais. 
Acredito honestamente que  a melhor empregada de canil que alguma vez tivemos.
   - Obrigada...- balbuciou ela.
   - Mas no podemos deixar que aconteam coisas destas. O co podia ter morrido. Est ciente das consequncias disso? Os donos poderiam termos processado e deixar-nos 
lisos.
   - Sim, eu com-com-preendo - gaguejou Laura. Sentia a mente toldada, e o estmago to revoltado que parecia ir vomitar. - S que eu verifiquei todas as portas 
para me certi-ficar que estavam trancadas - disse ela, com voz sumida. -E a ltima coisa que fao mesmo antes de sair.
   Ele voltou a recostar-se na cadeira. O msculo do seu maxilar encrespou-se pelo seu cerrar de dentes.
   - Ontem  noite deve-se ter esquecido de o fazer - disse ele, abrindo as mos. - Como isso aconteceu, no  importante. Temos de lidar aqui com o facto de que 
a coisa ocorreu no seu turno e de que um co quase que ia morrendo. Reuni-me com o Tucker para discutirmos o que deveramos fazer. Por recomendao minha, ele acordou 
em lhe dar outra oportunidade, subentendendo-se que a Laura ser despedida se voltar a acontecer outra coisa qualquer. Est em jogo a nossa reputao como veterinrios.
   As lgrimas ardiam nos olhos de Laura. Uma dor atravessava-lhe o peito.
   - Talvez eu deva poupar a todos um monte de chatices e desistir agora mesmo.
   Isaiah assentou os cotovelos na secretria, fechou as mos e apoiou o queixo nos ns dos dedos. Uma vez mais, os seus olhos no deram quartel a Laura.
   -  isso que quer? -perguntou-lhe ele, com suavidade. - Desistir, simplesmente?
   - No,  claro que no. Adoro este trabalho. Mas no gosto de ser acusada de uma coisa que no fiz. Eu verifiquei aquelas portas, como sempre fao. Sei que no 
deixei nenhuma jaula aberta.
   - Algum o fez, e a Laura era o nico algum aqui...
   Laura ergueu-se da cadeira.
   - Tem a certeza?
   Com uma mscara de incredulidade e de espanto afivelada ao rosto, ele ergueu os olhos para ela. Laura fechou as mos em punhos frementes. As palavras amontoavam-se-lhe 
na base da garganta. Queria tanto defender-se, mas ele iria provavelmente pensar que ela perdera o que lhe restava do juzo.
   - Oua - disse ele em tom razovel - vamos inverter a questo. Pode jurar, ou seja, a Laura tem a certeza absoluta de que no podia ter deixado acidentalmente 
uma das portas destrancadas?
   Laura quase que disse que sim, mas nesse preciso momento estava to transtornada que a memria de toda a noite anterior no passava de um borro indistinto na 
sua cabea. Ela precisava de recapitular tudo o que fizera na noite anterior para ter a certeza absoluta.
   - Te... tenho quase a certeza - acabou ela por dizer.
   - Quase? Isso no chega.
   Laura lembrava-se perfeitamente de percorrer a coxia central de uma ponta  outra, verificando as portas de ambos os lados antes de sair da clnica. Teria havido 
algo que a distrasse? Poderia ter passado acidentalmente por uma das portas sem experimentar o trinco? Ela estabelecera uma rotina durante o turno de dia, e seguia-a 
agora sempre  risca. As rotinas eram vitais para uma pessoa como ela, que tinha tendncia a ser mais esquecida do que a maioria das outras pessoas.
   - Espero que continue connosco, Laura - disse Isaiah com suavidade. - Lutei muito para lhe dar outra oportunidade. Ser uma pena se desistir.
   Naquele momento, ela estava demasiadamente perturbada para continuar a discutir o assunto, e por isso limitou-se a abanar afirmativamente a cabea.
   - Talvez - continuou ele - a Laura possa desenvolver alguns hbitos novos que impeam que uma coisa como esta se repita.
   Ele prosseguiu, sugerindo-lhe vrias ideias, todas elas precaues de segurana que ela j tinha implementado. Quando ele parou de falar, ela sentia-se aturdida.
   Quando Laura se levantou para sair do gabinete dele, tudo o que conseguiu dizer foi:
   - Tenho muita pena do co, Isaiah.
   - Todos ns temos.
   Eram quase sete horas quando Isaiah saiu da clnica nessa noite. Uma vaga enxaqueca montara loja por detrs dos seus olhos, e a sua mente enxameava com fragmentos 
de diversas conversas que tivera ao telefone com colegas respeitados. Um dos pacientes de Isaiah, um chesapeake castrado, estava a morrer de doena auto-imune, e 
os tratamentos habituais, altas doses de antibiticos e de prednisona, no estavam a resultar. Estava na altura de dar tudo por tudo e tentar uma coisa nova: terapia 
de substituio hormonal.
   Era difcil para Isaiah acreditar que injeces de testosterona pudessem salvar o chesapeake, quando falharam as abordagens mais tradicionais. Mas, caramba, comparado 
com Rodney Porter, director clnico do Centro de Pesquisa Veterinria do Leste do Oregon, Isaiah era ainda um aprendiz. Se Porter achava que a falta de hormonas 
naturais poderia enfraquecer o sistema imunitrio, Isaiah iria tentar dar injeces de testosterona ao chesapeake.
   Porque no? Um cansao entranhado at aos ossos e uma pesada sensao de derrota tentavam Isaiah a experimentar um cocktail de testosterona nele prprio.
   Ao caminhar para o seu Hummer atravs do ar glido da noite, Isaiah carregou no comando  distncia para destrancar as portas de trs do jipe, de modo a poder 
carregar alguns tomos de pesquisa nos assentos traseiros. Ia ser mais uma longa noite, pensou ele, com desnimo. No iria ser capaz de dormir enquanto no conseguisse 
ler tudo sobre doenas auto-imunes a que pudesse deitar a mo.
   Quando as trancas das portas do Hummer se abriram, acenderam-se as luzes das embaladeiras e a interior do tecto. A sbita iluminao aclarou o parque de estacionamento 
de resto imerso na escurido. Isaiah ficou surpreendido por ver outro carro estacionado do lado oposto ao mastodntico Hummer. Seria porventura de algum da empresa 
de limpezas a fazer horas extraordinrias? Ao se aproximar, ficou ainda mais surpreendido por ver que era o Mazda vermelho de Laura.
   Depois de atirar os livros para dentro do Hummer, Isaiah olhou para o relgio, pensando que seria mais tarde do que julgava. Mas no, eram apenas sete horas. 
O turno de Laura s comeava s nove. Que raio estaria ela ali a fazer to cedo?
   Voltando atrs, Isaiah entrou de novo no edifcio e dirigiu-se aos canis. O instinto conduziu-o directamente  jaula do labrador negro. Encontrou Laura sentada 
dentro da jaula, sobre o cimento frio, com a enorme cabea do co aninhada no regao. A sua expresso triste, os ombros descados, recordou-lhe a figura do anjinho 
perdido de um dos livros de histrias do seu sobrinho Garrett. Madeixas de cabelo douradas pendiam-lhe sobre a cara. Havia um olhar ferido nos seus grandes olhos 
cor de avel.
   O som dos passos dele nem sequer a fizeram erguer a vista.
   - No est aqui desde que falmos, pois no?
   - Sim, estou - respondeu ela, em tom abafado.
   - Porqu? A Laura trabalha hoje no ltimo turno da noite. No se vai ter de p pelas duas da manh -disse-lhe ele. E mais propensa a cometer outro erro, pensou.
   Ela passou suavemente uma mo sobre as omoplatas do co.
   - O Dusty quase que morreu. Ainda se est a sentir muito mal. Ficar aqui sentada com ele  o mnimo que posso fazer.
   O corao dele foi surpreendido pelo tom monocrdico da voz dela, o qual acentuava a forma entrecortada como falava. Como estava ali de p h j vrios segundos 
e ela ainda no olhara para ele, Isaiah abriu a porta e entrou na jaula. Apoiando as costas contra o cimento, Isaiah deixou-se escorregar ao longo da parede at 
ficar de ccoras.
   - Bem - disse ele com suavidade -, estou a ver que ainda est zangada comigo. - Como ela continuava sem olhar para ele, tentou uma pilhria para amenizar a tenso. 
-Ei, no  assim to mau! Voc ainda est na folha de pagamentos. O Dusty vai ficar bom. Antes que d por isso, toda esta trapalhada no passar de uma memria.
   Ela ergueu finalmente o olhar para ele. Os seus olhos cor de avel ardiam de ressentimento.
   - Se eu tivesse mesmo deixado a porta aberta, no me importaria que me culpassem por isso. Nem sequer ficaria ressen-tida se fosse despedida. S que no fui eu 
quem o fez.
   No era prprio da Laura negar com tanta teimosia a responsabilidade por uma coisa que era culpa dela com tanta evidncia. Desde o incio que se mostrara invulgarmente 
humilde e a duvidar da sua capacidade em efectuar este trabalho.
   - Esta jaula foi deixada aberta - disse ele, em tom neutro. - A Laura era a nica pessoa no edifcio. Quem mais o poderia ter feito?
   - No sei. S sei que verifico sempre as portas para me certi-ficar de que esto fechadas - disse ela, cessando o movimento da mo ainda assente sobre a omoplata 
do co. - Eu no sou como as outras pessoas, Isaiah. - A voz dela tremeu ao pronunciar o nome dele. - Eu nem sequer consigo manter a conta das colheres de caf quando 
o estou a fazer sem a ajuda dos meus feijes de contagem...
   Ele ignorou cautelosamente aquilo, sem perceber bem o que a capacidade dela em fazer caf tinha a ver com a situao. Estava prestes a perguntar-lhe quando ela 
acrescentou:
   - Sabendo isso de mim, acha mesmo que eu viria para aqui, onde tudo o que fao  to impor-tante, deixar o que quer que fosse confiado  memria? Sou mais cuidadosa 
do que as outras pessoas. Tenho de o ser.
   Uma sensao de aperto atacou o estmago de Isaiah. Ele dissera quase exactamente o mesmo nessa manh a Tucker.
   Ela agitou a mo num movimento que abrangia todas as jaulas.
   - Eu adoro estes ces. Nunca corro riscos com a segurana deles. Tenho uma rotina rgida e sigo-a sempre, sempre! De outro modo, poderia esquecer-me de qualquer 
coisa. - A laringe dela mexeu-se quando ela engoliu em seco. - Ontem  noite eu estava preocupada com o Dusty e fui ver como ele estava mesmo antes de sair.
   - No haver a possibilidade de a Laura se ter esquecido acidentalmente de correr o trinco quando saiu da jaula? - sugeriu amigavelmente Isaiah.
   - No - respondeu ela com firmeza, olhando-o directamente nos olhos. - Quando falmos esta manh, eu estava transtornada e no me conseguia lembrar bem dos porme-nores, 
mas agora consigo. - Ela elevou o seu pequeno queixo na direco dele. - Verifiquei por duas vezes para me certificar de que o fecho estava corrido depois de eu 
ter sado da jaula.
   Isaiah dobrou os joelhos para criar um apoio para os braos. Olhando para os olhos cheios de mgoa dela, no teve outra opo seno acreditar nela. Ela era quase 
ritualista nas suas pequenas rotinas. Com o tempo, foi-se apercebendo de que ela fazia exactamente as mesmas coisas pela mesma ordem, dia aps dia. Por exemplo, 
quando saa da clnica, no fim do seu turno, ela seguia sempre um determinado padro - ia primeiro verificar a reserva de comida ao entrar no bloco operatrio, e 
depois ia buscar o casaco e a carteira antes de se despedir. Outras pessoas poderiam desviar-se deste padro, dizendo primeiro adeus e verificando o frigorfico 
por ltimo, mas Laura nunca alterava um padro, sem dvida por se poder esquecer de qualquer coisa importante se fizesse as coisas fora de sequncia.
   - Eu quero acreditar em si - confessou ele, com a voz embargada pelo pesar. - E se isso tivesse acontecido durante o dia, com outras pessoas nos canis, eu acreditaria 
em si. Mas estou com dificuldade em ultrapassar o facto de a Laura ter sido a nica pessoa a estar aqui na noite passada.
   Afloraram lgrimas aos olhos de Laura. Ela olhou fixamente para ele durante um longo, interminvel momento, e depois desviou o olhar.
   - O que foi? - perguntou ele, inclinando-se de lado para lhe ver a cara. - Voc ia a dizer qualquer coisa. O que era?
   - Vai pensar que sou maluca...
   - No, no vou. Deite isso c para fora.
   Os tendes da garganta dela ficaram tensos. Respirou fundo. Ao exalar, balbuciou:
   - Creio que h algum a meter-se c durante a noite...
   Ela tinha razo; ele pensou que ela estava maluca.
- Porqu?
   - Para que eu seja despedida.
   Aquilo era ainda mais louco. Tanto quanto ele soubesse, toda a gente na clnica gostava de Laura.
   - Mas por que razo haveria algum de querer que fosse despedida? Desculpe, no  que no acredite em si, Laura, mas quem iria querer que perdesse o emprego?
   Os lbios dela tremeram nos cantos.
   - No sei. S sei que h algum que quer. Talvez uma pessoa que no goste de mim por eu ter leses cerebrais, e por ser fcil montar-me uma arma-dilha. Se a comida 
dos ces  trocada, sou eu que a devo ter trocado. Bem, grande novidade: toda a gente sabe que eu por vezes troco os algarismos ao l-los, mas nunca confundo os 
meus trs com os quatros.
   Isaiah no percebeu novamente a ligao.
   - O co no canil q-quatro recebeu a rao que era para o c-co do canil trs - explicou ela, com a agitao a travar-lhe ainda mais a fala. - Um t-t-trs  o 
mesmo no importa de que forma o viremos, e um q-quatro no se parece nada com um trs, de pernas para o ar, invertido, t-t-tombado. - Ela parou de acariciar o Dusty 
para apontar para o enorme sete pintado a negro na parte de cima da parede da baia. - No se trata de nmeros pequenos ou difceis de ler. Posso t-ter leses cerebrais, 
Isaiah, mas no sou cega...
   Isaiah olhou pensativamente para o sete, e depois voltou a dirigir o olhar para a fisionomia plida dela.
   - No i-incio desta semana, quando o Tucker me deu um ralhete por eu ter su-suposta-mente baralhado a co-comida, perguntei a mim prpria como  que eu poderia 
ter feito um erro to e-estpido. Sou sempre to cuidadosa. Agora tenho quase a certeza de que entrou aqui algum que trocou as malgas.
   Normalmente, Isaiah era extremamente analtico, um homem que lidava apenas com factos e reunia dados cuidadosamente. Mas apesar de as alegaes de Laura no lhe 
fazerem intelectualmente sentido, deu por si a acreditar nela. Ela no era pessoa para inventar uma coisa assim to descabida, e no conseguia descortinar o que 
 que ela poderia ganhar com aquilo. No perdera o emprego, portanto no era um estratagema para o recuperar. Ela era tambm suficientemente inteligente para se 
aperceber que alegaes daquele teor poderiam voltar-se contra ela com facilidade, lanando ainda mais dvidas sobre a sua credibilidade.
   - Eu sabia que ia pensar que sou ma-maluca - sussurrou ela, em tom acusatrio. - Bem, se pensa que isto  mau, vai mesmo pensar que sou d-doida varrida quando 
eu lhe contar o resto. No creio que tenha sido eu a fazer d-disparar o alarme na noite de segunda-feira.
   Isaiah fez deslizar as solas das suas botas para a frente e deixou o traseiro descair sobre o cimento. Perdido por cem, perdido por mil. Se conseguia acreditar 
que algum se introduzira ali para trocar as malgas de comida e deixar uma porta aberta, no lhe era difcil dar mais um passo e acreditar que outra pessoa tenha 
feito disparar o alarme.
   - Eu treinei-me com a Val a des-desligar o alarme nesse dia -apressou-se ela a dizer. - Ela disse-me para observar a luzinha na c-consola. Quando est vermelha, 
o alarme est ligado. Quando est verde, o alarme est desligado.
   - Exactamente.
   - Na noite de segunda-feira era tudo ainda novidade para mim - continuou ela. - Pensei que poderia ter feito qualquer coisa mal, apesar de a luz ter ficado nas 
cores certas. Agora tenho a certeza. No fiz nada de errado. A luz nunca fica verde a no ser que o alarme esteja desligado, e nunca fica vermelha a no ser que 
o alarme seja ligado.
   - Tem a certeza de que a luz ficou verde quando desarmou o sistema?
   Ela acenou afirmativa e veementemente com a cabea.
   - E estava vermelha quando deixei a consola para me dirigir aos canis. Estava mais ou menos a meio do armazm quando a sirene disparou.
   Se a luz tinha ficado vermelha quando ela deixou a consola, o alarme fora efectivamente ligado.
   - A Laura alguma vez viu ou ouviu algum no edifcio durante a noite? - perguntou ele.
   Ela olhou implorativamente para ele.
   - Se eu responder a essa per-pergunta, vai pensar que eu sou d-doida?
   - No - respondeu ele, com sinceridade.
   - Depois de o alarme ter disparado na noite de s-segunda-feira, estava eu ao telefone com aquela senhora, poderia jurar que ouvi qualquer coisa a cair num dos 
ga-gabinetes...
   - Qual deles?
   - No tenho a certeza. S sei que ouvi um grande es-estrondo. Nunca fui ver o que era. Fiquei to pertur-bada com tudo o resto que me esqueci disso at mais tarde.
   Isaiah compreendia isso.
   - Houve mais qualquer outra coisa de estranho?
   - De noite, quando estava a trabalhar, ouvi barulhos. Por vezes eram passos abafados, como os que podemos ouvir se estiver algum noutra parte do edi-fcio. s 
vezes era o som tnue de coisas a serem arrastadas; rangidos e baques. At hoje, repeti sempre para mim prpria que estava tudo na minha cabea. Agora estou certa 
de que no.
   - Se a Laura voltou a ligar correctamente o alarme na noite de segun-da-feira, a nica coisa que o poderia fazer disparar seria a abertura de uma porta ou de 
uma janela. No temos detectores de movimento por causa dos animais.
   Ela abanou a cabea.
   - Eu estava a despir o casaco; nunca toquei numa porta ou numa janela. Ele disparou sem mais nem menos.
   Isaiah olhou pensativamente para a parede.
   - H duas consolas de alarme no edifcio, uma  frente e outra nas traseiras. Se algum estivesse junto das portas da frente, a olhar para essa consola, saberia 
pela luz indicadora quando a Laura rearmou o alarme. Depois pode ter corrido para um dos gabinetes para abrir uma janela. Quando o alarme disparou, ele pode ter 
fechado a janela e permanecido no gabinete at a polcia vir e se ir embora.
   Os olhos de Laura encheram-se de lgrimas.
   - Acredita em mim?
   - No sei quem  mais doido, se eu ou a Laura, mas sim, acredito em si. Por que razo iria mentir acerca de uma coisa destas, e com que finalidade?
   Ela fechou os olhos com fora. Saram-lhe lgrimas por baixo das pestanas escuras, formando crregos brilhantes sobre as suas faces plidas.
   - Ei! - chamou ele.
   Ela abriu os olhos e mostrou-lhe um sorriso trmulo.
   - Desculpe-me...Eu nunca pensei... -interrompeu-se, prendeu o lbio inferior entre os dentes e voltou a abanar a cabea. - Nunca pensei que pudesse acreditar 
em mim,  tudo.
   - Pois bem, pensou mal - disse Isaiah, estendendo a mo para lhe limpar as lgrimas. Depois, voltou a puxar os ps para debaixo de si e ergueu-se. - Tudo o que 
me resta fazer  confirmar a sua histria.
   - Como  que consegue fazer isso?
   - Telefonando para a Harris Security - respondeu ele. Ao ver o olhar interrogativo dela, Isaiah sorriu. - Ningum pode entrar ou sair desta clnica depois de 
o alarme ter sido armado sem deixar um rasto electrnico. A consola envia um sinal para a Harris Security por uma linha telefnica segura sempre que o cdigo de 
segurana  usado para activar ou desactivar o sistema.
   - Ela faz isso? - perguntou Laura, com os olhos muito abertos. - Assim, vai mostrar se esteve aqui outra pessoa na noite de segunda?
   Ele acenou com a cabea.
   - De certeza.
   Naquele momento, Isaiah sentiu que fizera bem em acreditar em Laura. Ela no parecia estar assustada ou pouco -vontade como uma pessoa que estivesse a mentir 
e se apercebesse de repente que o jogo acabara. Ela acreditava claramente que os registos de segurana a iriam vingar.
   - Quer vir? - convidou ele. - Pode ficar a ouvir enquanto eu fizer a chamada.


Captulo Oito










   A casa de quinta vitoriana de Tucker estava inserida numa propriedade de dezasseis hectares situada na parte oriental da cidade. Alguns talhes do terreno eram 
arborizados e outros eram de pastagens, criando um equilbrio perfeito para um veterinrio atarefado que queria criar alguns cavalos mas no tinha tempo para cuidar 
de um rancho a srio. O jardim propriamente dito era delimitado por uma cerca de estacas de madeira brancas, debruadas a hera. Uma velha e amolgada caixa de correio 
montada sobre um poste erguia-se junto ao porto da frente.
   Quando Tucker comprara a propriedade, sofrera muitos remoques do seu pai e dos seus irmos. Perguntaram-lhe se aquilo era o seu lado feminino a despontar, por 
comprar uma casinha branca com uma cerca de madeira, e questionaram-se em voz alta se Tucker iria comear a servir-lhes ch em chvenas de porcelana quando eles 
o fossem visitar. Por fim, quando a me deles se afastou ao ponto de no os ouvir, Tucker ergueu todos os cinco dedos de uma mo e informou-os jocosamente que aquilo 
era um ramo de "vo-se f****", um para cada um deles. Isso ps um ponto final na chacota.
   Isaiah admirava secretamente a atitude do irmo. No havia ningum mais duro ou mais masculino que Tucker, mas ele no estava interessado em cultivar essa imagem. 
Ele era quem era e no se preocupava com o que outras pessoas pudessem pensar. Gostara desta casa e da sua localizao. Agradavam-lhe torrees, alpendres trabalhados, 
frisos de casinha de chocolate e jardins  inglesa. Isaiah estava mais virado para madeiras envernizadas e linhas arquitecturais simples, mas cada um era livre de 
gostar de uma coisa ou de outra. Se o Tucker era feliz assim, era tudo o que interessava.
   Ao avanar a p pelo caminho de alpondra que levava aos degraus do terrao coberto, Isaiah encolheu os ombros para subir a gola do casaco mais para cima da nuca. 
Em Novembro, as temperaturas nocturnas no Oregon Central caem para valores negativos, cristalizando o ar com partculas de gelo e cobrindo de geada as agulhas dos 
pinheiros. Uma lua muito cheia banhava a paisagem numa luz prateada, fazendo com que as rvores parecessem mais cinzentas do que verdes.
   Est demasiado frio para neve, pensou Isaiah ao subir os degraus para bater  porta da frente do irmo. Havia uma luz tnue a filtrar-se pelas janelas, revelando 
a Isaiah que Tucker estava em casa e ainda a p.
   Momentos depois, Tucker apareceu no grande vestbulo de entrada, o qual abrangia uma escadaria central em curva, com corrimes pintados de verde-escuro. Atravs 
do vidro da porta em oval gravado em gua-forte, a silhueta dele aparecia distorcida, criando um borro cobre e azul onde o tronco nu se encontrava com a linha de 
cintura dasjeans.
   Abriu a porta de rompante.
   - Isaiah? O que te traz aqui? - Abriu a porta dupla de par em par, esfregando o peito peludo quando o ar gelado volteou em redor dele. - Eu deixei-me dormir no 
sof. J passa das nove.
   - Preciso de falar contigo.
   Isaiah conhecera ao longo dos anos diversos pares de gmeos idnticos, e uma boa metade deles no achava que se parecessem muito um com o outro. Mas tal nunca 
fora o caso dele e do seu irmo. A sua tez, feies e constituies eram to marcadamente semelhantes que por vezes ambos sentiam como se estivessem a olhar para 
um espelho. Para Isaiah, este era um desses momentos. Talvez fosse pelo brilho suave de um candeeiro aceso por detrs de Tucker, lanando a sua cara na penumbra. 
Qualquer que fosse a razo, Isaiah teve a sensao incmoda - mesmo se por um s momento - de estar a ter uma experincia fora-do-corpo.
   Tucker recuou um passo para deixar entrar o irmo.
   - Sentiram todos a tua falta na festa...
   - Que festa?
   - A Terra chama Isaiah!...- disse Tucker, fechando a porta. - A festa de aniversrio do av da Natalie, esta noite, s seis em ponto. Diz-te alguma coisa? Apareceram 
todos menos tu.
   - Merda! - praguejou Isaiah, lembrando-se agora. Arranjara um presente e fora  festa do Sly, mas esquecera-se de ir  festa do av da Natalie. - Eu at tenho 
um presente para ele; um caixote inteiro de vinho da Borgonha barato para ele ter debaixo da cama...
   Tucker sorriu.
   - Deixa-o l e pede desculpa. Com uma caixa de vinho como oferenda de paz, ele desculpa-te quase tudo. - Depois, com um arrepio, Tucker perguntou: - De que  
que me querias falar?
   Isaiah tirou o chapu.
   - H um problema na clnica...
   - Merda. O que foi que aconteceu desta vez?
   - Na verdade no aconteceu mais nada. Acabo  de tomar conhecimento de algumas informaes que precisamos de discutir.
   - Esta noite?
   - No pode esperar at amanh.
   Praguejando entre dentes, Tucker percorreu descalo o vestbulo em direco  biblioteca, situada  esquerda das escadas. Meteu a mo por detrs da ombreira da 
porta para ligar o interruptor que acendia o lustre de tecto, antes de entrarem na sala. O sbito fluxo de luz fez com que o soalho de madeira-de-lei reluzisse como 
vidro polido.
   - Vejo pela tua cara que no so boas notcias - disse ele a Isaiah. - Na minha opinio, as ms notcias a esta hora exigem uma bebida...
   Aquilo pedia aco imediata, mas Isaiah conhecia bem o irmo e absteve-se de largar aquela bomba at o momento se apresentar propcio. Atirou o chapu para cima 
de um elegante canap que no vira aquando da sua ltima visita.
   - Uau! Estamos a ter classe, ? Mobilirio de estilo? E autntico, ainda por cima?
   - O papel de parede tambm - informou Tucker, dirigindo-se para um pequeno bar de mogno trabalhado  mo. - Gostei das rosas de ch. O que achas?
   Dava a ideia de que uma mulher adquirira ali direitos de habitao, mas Isaiah limitou-se a acenar com a cabea ao examinar as pequenas rosas que trepavam sobre 
um fundo espiralado de verde-hera.
   - Bonito - acabou ele por dizer. O que era uma caracterstica das coisas amaneiradas.
   Tucker tirou dois copos de whisky de uma prateleira e despejou uma medida de whisky irlands em cada um deles. Ele parecia demasiado grande, demasiado escuro 
e rude para andar a mexer num decantador de cristal.
   - Cansei-me de improvisar e contratei uma decoradora de interiores.
   Isaiah passou um olhar espantado pela moblia de escritrio em mognoque ocupava um canto da sala. Havia at uma secretria com floreados por todo o tampo. Na 
ltima vez que ali estivera, um estirador barato servia de secretria, e havia apenas mais duas cadeiras de metal e um caixote de mas a servir de mesa de apoio. 
Atravessou a sala para se colocar em frente da lareira e esfregar as mos.
   - Porque  que as pessoas fazem isso? - perguntou Tucker.
   - Fazem o qu?
   - Aquecem as mos numa lareira que est apagada.
   Isaiah olhou para baixo, e constatou que estava a estender as mos para um calor no existente.
   - Boa pergunta. Hbito, penso eu. Est um frio de rachar l fora.
   A sorrir, Tucker abanou a cabea.
   Isaiah observava uma pintura da natureza numa moldura oval, pendurada por cima da lareira.
   - Isto  realmente um espanto, Tucker - disse ele, dando-se conta de que estava a ser sincero. A casa tinha agora uma atmosfera acolhedora e caseira. - Talvez 
eu deva contratar um decorador. Estou na minha casa h seis meses, e ainda me estou a sentar em pufes para ver televiso.
   - Isso no  forma de impressionares as midas - comentou Tucker. Depois de dar um whisky a Isaiah, Tucker deixou-se cair num cadeiro de orelhas colocado em 
ngulo frente  lareira. - As mulheres procuram homens bem-sucedidos na vida e com gostos refinados. - Um brilho matreiro assomou-lhe aos olhos azuis. - Para no 
mencionar que  incmodo como tudo seduzir uma mulher numa cadeira dobrvel.
   A imagem que veio  mente de Isaiah trouxe-lhe um sorriso aos lbios.
   - Imagino que sim.
   - O nome da mida  Lisa Banning, se ests interessado.
   - Quem, a mulher que seduziste numa cadeira dobrvel?
   - No, miolos de aorda, a decoradora.
   Isaiah sentou-se frente ao irmo. Por mais elegante e estilizado que o cadeiro de orelhas fosse, ele descobriu com agrado que o conforto no fora sacrificado 
em prol da aparncia. O estofo era luxuosamente macio, e suficientemente generoso para acomodar o seu grande corpo.
   - Talvez lhe telefone...
   Tucker bebericou um pouco do seu whisky. Depois de engolir e dar um assobio apreciativo, acrescentou:
   - Ento o que  que no pode esperar at amanh?
   Isaiah recostou-se na cadeira, com o copo apoiado num joelho.
   - A Laura no deixou a porta do canil aberta ontem  noite. Fizemos mal em tirarmos concluses precipitadas.
   Tucker no respondeu de imediato. Agitou o whiskey no copo, com uma expresso meditativa. Quando voltou a cruzar o olhar com o de Isaiah, todo o riso desaparecera 
dos seus olhos.
   - Tens noo de como o que ests a dizer parece absurdo, Isaiah? Uma pessoa trabalha no turno da noite. A noite passada essa pessoa foi a Laura. Se no foi ela 
a deixar a porta aberta, quem ter sido ento? Um diabrete brincalho?
   Isaiah no se quis zangar.
   - Armaram-lhe uma cilada, Tucker. Creio que h algum a tentar que ela seja despedida.
   Tucker inclinou-se para a frente na cadeira.
   - Ento, Isaiah, s realista! Quem  que quereria fazer isso? Tanto quanto sei, toda a gente na clnica gosta da Laura. Sei de fonte segura que nenhuma das minhas 
tcnicas tem um desaguisado com a Laura. A Lena tece-lhe loas. Aquela zeladora de canil, a Danielle Prince, cujo cabelo muda de cor uma vez por ms, acha que ela 
 a melhor coisa que aconteceu desde a inveno das pipocas, pois a Laura nunca deixa pormenores de merda por acabar para o turno seguinte. A Tina acha que ela  
uma santa. Repito-te, quem  que quereria que ela seja despedida?
   - Ainda no tenho todas as respostas - respondeu Isaiah. - S sei que lhe armaram uma cilada.
   Tucker arqueou uma sobrancelha escura.
   - No estamos aqui a falar de um cargo executivo. Ela  uma simples zeladora de canil, pelo amor de Deus! Quem  que quereria o trabalho dela?
   Tendo o cuidado de no entornar a bebida, Isaiah mudou de posio na cadeira para meter a mo no bolso do casaco. Tirou dele uma folha de papel dobrada.
   - Perguntas bem - disse ele, passando o papel ao irmo. - Mas os factos no mentem. V isto.
   - E isto  o qu? - perguntou Tucker, comeando a ler o papel de fax.- Datas, horas? No estou a perceber.
   - Isso foi-me enviado porfax h bocado, pela pessoa do turno da noite da nossa empresa de segurana. Sempre que uma pessoa liga ou desliga o alarme da clnica, 
a Harris Security recebe um sinal via telefone, e fica registado num histrico do computador deles.
   - Recordo-me de qualquer coisa acerca disso - disse Tucker, com um tom de enfado na voz. - E isto  importante porque...?
   - Isso  o registo de toda a actividade do nosso alarme nesta semana. Se reparares, algum desarmou e voltou a armar o sistema segunda-feira  noite, s oito, 
quase uma hora antes da Laura chegar l. Repara tambm que, segundo esse registo, a Laura desarmou e rearmou correctamente o sistema pouco antes das nove. Menos 
de trinta segundos depois, o alarme disparou. Presta ateno  causa que est a listada, por favor. Diz "violao de permetro". Isso significa que o alarme foi 
devidamente rearmado e que algum abriu uma porta ou possivelmente uma janela para o fazer disparar.
   Tucker analisou as primeiras linhas da lista impressa.
   - Se ela desarmou e rearmou correctamente o sistema, por que raio foi ela abrir uma porta exterior e fazer disparar o alarme?
   - No foi ela. O alarme disparou quando ela estava a entrar nos canis.
   - Isso  o que ela diz...
   Uma imagem da cara doce de Laura passou pela mente de Isaiah.
   - No a acuses de mentir, Tucker. Posso admitir que ela cometa um erro, mas no que minta descaradamente.
   - Ests muito sensvel, no ests?
   - Neste preciso momento, estou completa e perfeitamente lixado. Olha para a maldita listagem. Fala por si. Havia j algum no edifcio quando a Laura l chegou! 
- Passando a sua bebida para o brao do cadeiro, Isaiah pousou uma bota sobre o joelho. - Pensa, Tucker. De noite, quando vais  clnica e tencionas demorar-te, 
que procedimento adoptas com o alarme?
   - Destranco a porta - disse Tucker, em tom sarcstico. - Depois volto a tranc-la de imediato. Depois disso feito, corro para a consola, digito o nosso cdigo 
de utilizador e desligo o sistema. Quando a luz passa a verde, reintroduzo o nosso cdigo e rearmo o sistema carregando no trs.
   - E quando sais?
   - Repito todo esse processo para sair do edifcio.
   Isaiah inclinou a cabea na direco da listagem.
   - Precisamente. Mesmo antes das oito da noite, uma hora bem medida antes de a Laura entrar no edifcio, algum desarmou e rearmou o sistema. No h registo disso 
voltar a ser feito antes de a Laura chegar.
   - Isso no significa necessariamente que essa pessoa tivesse permanecido no edifcio. Talvez fosse algum que se tenha esquecido de qualquer coisa, Isaiah. J 
desarmei o sistema e corri at ao meu gabinete para ir buscar um dossi ou um livro de pesquisa mdica antes de rearmar o sistema e sair.
   - Conseguiste ir at ao teu gabinete e voltares  consola do alarme em menos de dez segundos? - contraps Isaiah.
   Tucker olhou de novo para a listagem. Depois deu um assobio.
   - Raios, tens razo. Quem quer que tivesse entrado s oito rearmou o alarme trs segundos depois.
   Uma sensao fria percorreu a pele de Isaiah.
   - Exacto. Ningum poderia ter entrado a correr para ir buscar qualquer coisa e rearmado depois o alarme em menos de trs segundos. O padro que vs a  congruente 
com o padro que ocorre quando algum entra no edifcio  noite, tencionando demorar-se.
   - Porque  que algum iria demorar-se por l a meio da noite se no estivesse de turno?
   - Para fazer disparar o alarme depois de a Laura entrar no edifcio e fazer com que ela parecesse uma imbecil incompetente.
   Os olhos de Tucker escureceram at ficarem de um cinza tempestuoso.
   - Ela viu algum no edifcio?
   A pergunta indicou a Isaiah que Tucker estava a comear a acreditarnele.
   - No, mas ouviu qualquer coisa a cair ao cho num dos gabinetes enquanto estava a falar ao telefone. Infelizmente, no meio de toda aquela confuso, no deu muita 
ateno ao assunto e nunca foi investigar.
   - Foi o meu pisa-papis - sussurrou Tucker.
   - O teu qu?
   - O meu pisa-papis - repetiu ele, mais alto. - Aquele grande touro de cermica que a me me deu pelo Natal do ano passado. Na tera de manh encontrei-o no cho, 
partido em mil pedaos. Pensei que tivesse sido algum do pessoal da limpeza que o tivesse feito tombar da minha secretria e deixado ali os cacos para no se meter 
em sarilhos.
   -  possvel, creio eu. Mas o mais provvel  que o estrondo que a Laura ouviu fosse o pisa-papis a ser atirado ao cho.
   Tucker voltou a percorrer com a vista a listagem.
   - A clnica esteve to concorrida nessa noite quanto a Estao Central. Olha todas as ocorrncias por volta das dez menos um quarto.
   - Isso fui eu, a reprogramar a consola para dar  Laura um cdigo de utilizador s dela - esclareceu Isaiah, pousando o copo sobre o consolo da lareira e deixando 
o cadeiro para se pr de ccoras ao lado do irmo. Bateu com o dedo no papel para apontar outras ocorrncias importantes. - A polcia saiu aqui. Isto  quando eu 
cheguei. Toda esta confuso foi um pouco depois, quando atribu  Laura o seu nmero de utilizador.
   - Estou a perceber-te - disse Tucker, em tom suave. Apontou para outras ocorrncias mais abaixo. -Isto foi quando tu saste?
   Isaiah analisou o registo.
   - Dez e meia. Sim, isso fui eu - respondeu ele. Deslizou o dedo at outra linha. - Olha para isto. Algum desarmou e rearmou o sistema numa sequncia rpida s 
onze e quarenta. Penso que foi quando o nosso misterioso disparador de alarme deixou finalmente o edifcio. A Laura estava nessa altura a trabalhar nos canis ou 
na lavandaria, bem longe de qualquer das consolas do alarme, e portanto no poderia ter visto as luzes indicadoras a mudarem de cor. Ela nem sequer se apercebeu 
de que havia l mais algum. As gamelas da comida de co das jaulas trs e quatro foram provavelmente trocadas enquanto ela estava na lavandaria.
   Tucker baixou o papel e fechou os olhos.
   - D-me um segundo para processar isto...
   - O que  que h a processar? - perguntou Isaiah. -  to bvio quanto o nariz que tenho na cara, e esse  bvio como um raio. Havia outra pessoa na clnica nessa 
noite, e tambm na noite passada. No se trata apenas da palavra da Laura, que considero sagrada. As ocorrncias do registo corroboram o que ela diz.
   Tucker passou de novo a vista pela listagem.
   - Santo Cristo. Algum entrou na clnica esta madrugada, depois de a Laura ter sado. Aquele co ia morrendo. Quem faria uma coisa destas?
   De momento, Isaiah sentia-se satisfeito com o reconhecimento de que Laura estava ilibada de responsabilidades, mesmo na opinio de Tucker.
   - E uma boa pergunta! - disse ele. - E para a qual temos de arranjar uma resposta bem depressa.
   Tucker recostou-se na cadeira, com a listagem pousada no colo.
   - Portanto a Laura no se esqueceu de trancar aquela porta, afinal.
   - No - concordou Isaiah, com voz rouca. - Ela saiu do edifcio hoje s duas da manh, exactamente no termo do turno dela. Pouco antes das cinco, entrou outra 
pessoa.
   Tucker alisou a listagem sobre a coxa para verificar de novo as ocorrncias.
   - Filho da me! Pobre co! Isto d-me ganas de matar o gajo! - desabafou ele, lanando a Isaiah um olhar ardente. - Algum deixou deliberadamente aquela jaula 
aberta e desprendeu o saco de soro do gancho, sabendo que provavelmente iria ocorrer um refluxo intravenoso.
   -  o que eu acho.
   O msculo do maxilar de Tucker comeou a pulsar.
   - No sei o que pensas, mas estou convencido de que esta coisa foi cuidadosamente orquestrada de modo a que a Susan chegasse menos de uma hora depois para salvar 
o co.
   - O objectivo no era matar o labrador, Tucker. Era tramar a Laura.
   - Mas quem poder odi-la a esse ponto?
   Isaiah s pde abanar a cabea.
   - No fao ideia.
   Normalmente de um acobreado escuro, a face de Tucker tornara-se cor de cinza.
   - Quem quer que tenha feito isto poder enfrentar um processo-crime.
   - Temos primeiro de apanhar a pessoa. Mas receio que as nossas hipteses de o fazer sejam bastante tnues.
   - Achas que  um homem... ou uma mulher?
   Isaiah encolheu os ombros.
   - Temos mais mulheres a trabalhar para ns do que homens, mas, quando tento imaginar qual delas possa ser, o meu crebro entra em curto-circuito. Por mais mal-humorada 
e agressiva que a Susan possa ser,  uma pessoa bondosa, e parece gostar realmente da Laura. A Trish tambm  uma querida. E a Belinda trabalhou a matar para conseguir 
o seu diploma de veterinria assistente, de tal modo que no creio que fosse pr em risco o seu lugar.
   - Se calhar poderia ser algum da minha equipa - pensou Tucker alto. - S que no consigo imaginar quem. Toda a gente na minha ala parece gostar da Laura e acha 
que ela est a fazer um excelente trabalho. - Tucker franziu ligeiramente a testa. - No podemos pr de parte a possibilidade de poder ser um dos homens da tua ala, 
o James e... como se chama o outro gajo?
   - Mike. Mas nenhum deles v a Laura com frequncia.
   Tucker agitou de novo o whisky no copo.
   - Nunca subestimes um homem despeitado. A Laura  muito bonita e simptica. Pode acontecer que um deles tenha uma queda por ela. O amor no correspondido pode 
levar pessoas que j tenham uns parafusos a menos a fazerem algumas coisas completamente loucas.
   Isaiah assentiu, pensativo.
   - Suponho que seja verdade.
   Tucker inclinou-se para a frente.
   - Mas que raio vamos ns fazer, Isaiah? Podemos andar s voltas durante um ms a tentar descobrir quem  que fez isto. Entretanto, o que  que vai impedir que 
isto volte a acontecer?
   Isaiah, com o pensamento em Laura e em como era fcil um homem perder-se de amores por ela, sacudiu-se para acordar.
   - J tomei algumas medidas...
   - Que tipo de medidas?
   - Tomei a liberdade de alterar o nosso cdigo de utilizador antes de sair da clnica. O antigo j foi  vida. Se algum entrar esta noite no edifcio e tentar 
desarmar o sistema usando o cdigo antigo, o alarme ir disparar.
   - Boa ideia. Qual  o nosso novo nmero?
   - Da ltima vez, usmos os ltimos quatro dgitos do meu nmero de segurana social. Achei que seria muito arriscado se usssemos o teu, desta vez; seria muito 
fcil algum adivinh-lo. Em vez disso, combinei os ltimos dois dgitos dos anos de nascimento do Pai e da Me.
   - Quatro-dois-quatro-seis? - confirmou Tucker, com um aceno de cabea. - Isso d. Na clnica ningum sabe quando  que eles nasceram.  claro que algum pode 
vir a descobrir, mas para isso ser preciso investigar bastante.
   - Foi tambm o que eu pensei.
   - E quanto aos nossos empregados? Se o cdigo antigo j no  vlido, como  que eles vo desligar o alarme para entrarem no edifcio?
   - Atribu a cada um deles um cdigo de utilizador individual - disse Isaiah, olhando para o relgio. - Temos de ligar  Susan para lhe darmos o dela, de modo 
a que ela possa abrir a clnica de manh. Os outros recebero os deles amanh. - Isaiah tirou outra folha de papel do bolso. -Fiz-te uma cpia.
   Tucker aceitou a listagem.
   - Nunca deixas de me espantar.
   - Como ?
   - Todo esse crebro numa cabea exactamente do mesmo tamanho que a minha - explicou Tucker, mostrando um rpido sorriso. - Ests sempre um passo  minha frente. 
Foi sempre assim durante todas as nossas vidas.
   Na opinio de Isaiah, Tucker era to inteligente quanto ele. S que via tudo atravs de lentes mais amplas, enquanto Isaiah tinha tendncia para se concentrar 
em pormenores. Quando era confrontado com um problema, no desistia enquanto no o conseguisse resolver.
   - Pelo menos, nenhuma outra pessoa para alm de mim, de ti e da Laura ser capaz de entrar ou sair do edifcio sem fazer disparar o alarme. E a partir de amanh, 
quando atribuirmos os novos cdigos de utilizador, toda a gente ter de deixar a sua "assinatura" para mexer no alarme.
   - Podemos nunca vir a descobrir quem fez isto - disse Isaiah.
   Tucker acenou com a cabea em assentimento.
   - O mais importante  os animais estarem seguros.
   E tambm o estava o emprego de Laura, pensou Isaiah, com uma sensao de alvio ainda maior.
   Antes de seguir para casa, Isaiah passou pela clnica para informar Laura acerca do seu encontro com Tucker. Quando entrou nos canis, no a viu em parte alguma. 
Avanou pela coxia central, olhando para dentro de cada uma das jaulas para se certificar de que ela no estava no interior com um candeo a precisar de festas. 
Tudo o que viu foram ces, alguns a comerem alegremente de malgas acabadas de encher, outros a dormir em cobertas limpas. Nem mesmo Laura conseguiria limpar um canil 
suficientemente bem para que uma pessoa pudesse comer do cho, mas pouco faltava para isso. O cimento brilhava sob a luz fluorescente. Todo o lugar cheirava principalmente 
a detergente lquido com aroma de limo. A mulher era uma maravilha.
   Quando Tucker chegou  jaula do chesapeake, abrandou at parar e ficou a olhar para o seu interior. O grande co de plo avermelhado estava sobre as quatro patas. 
Nessa manh, e depois de novo nessa mesma noite, quando Isaiah lhe administrou as injeces, o co estivera quase comatoso.
   - Raios partam!...
   Visivelmente abalado e fraco, Rocky tentou abanar a sua cauda farfalhuda e avanou a cambalear para meter o focinho atravs da rede metlica.
   - Ol, pazinho...- disse Isaiah, com a alegria a percorrer-lhe o corpo. Abriu a jaula e entrou. Quando ps as mos sobre o plo sedoso do animal, Rocky caiu exausto 
no cho e gemeu. - Ainda ests muito doentinho. - Isaiah verificou as gengivas do candeo. - Mas j ests a recuperar alguma cor. Nem posso acreditar. J pensava 
que te ias embora.
   - Isaiah.
   A voz de Laura sobressaltou-o. Olhou por cima do ombro e sorriu.
   - Viva! - disse ele. Voltou a olhar para o co, - Funcionou, Laura. Ele estava a morrer. Agora, olha para ele!
   Ela entrou na jaula e agachou-se para se juntar a ele nas festas ao animal.
   - Reparei que ele parecia estar muito doente. O que se passa com ele?
   - Auto-imunidade. Nenhum dos tratamentos habituais resultou. Um colega meu sugeriu que eu experimentasse injeces de testosterona. Ele diz que os animais castrados 
esto privados das suas hormonas naturais, e que isso pode-lhes afectar a sade e o sistema imunitrio - explicou Isaiah. De repente, lembrou-se de que estava a 
falar com uma mulher com leses cerebrais, e interrompeu-se. - Desculpe, no a queria aborrecer com isto.
   Os olhos dela brilharam de interesse.
   - No estou aborrecida. Desde h muito que acho que castrar ces e gatos pode ser mau para eles. Ficam to gordos e moles! No deve ser nada divertido para os 
animais.
   - Essa no  uma teoria muito popular na medicina veterinria - respondeu Isaiah. - Tenho a certeza absoluta que no me ensinaram isso na escola de medicina veterinria, 
e nenhum colega com que eu tenha trabalhado alguma vez falou nisso. Bem pelo contrrio.
   Laura sentou-se ao lado do chesapeake. Naquela luz transbordante, ela parecia simultaneamente linda e fofa. Por cima da camisola de malha rosa, ela vestia uma 
velha camisa de flanela demasiado longa, ao ponto de quase a engolir. O cabelo dela estava em confuso desalinho, as madeixas douradas brilhantes a tentarem as pontas 
dos dedos dele para que as tocassem. A boca dela, de um rosa delicado, curvava-se docemente num sorriso de Madonna de um quadro renascentista.
   - Isso no significa que todos os veterinrios tivessem razo - disse ela, lanando-lhe um sorriso maroto que lhe fez covinhas na cara. - Quando castraram a minha 
me, ela passou um mau bocado.
   Isaiah nunca ouvira algum referir-se a uma histerectomia como "castrao", e quase que se riu. Mas lembrou-se de que Laura no conseguia dizer histerectomia 
e refreou a gargalhada. Apercebeu-se de que no eram as palavras que ela dizia que tinham importncia. O que tinha importncia era o facto de ela conseguir compreender 
a linha de pensamento dele, ser uma caixa de ressonncia, e dar-lhe uma resposta inteligente.
   - Continue - exortou ele. -O que  que aconteceu  sua me?
   Ela encolheu os ombros e franziu o nariz.
   - No conseguiam acertar-lhe com as hormonas. Ganhou peso e ficou neura. Chorava imenso. Aparecera-lhe plos sobre o lbio superior e no queixo. At mesmo nos 
dedos dos ps! - descreveu ela, erguendo as sobrancelhas finamente arqueadas. - Foi muito mau. Quando final-mente lhe acertaram com a dose, ela melhorou e perdeu 
os bigodes. Se hormonas baralhadas puderam fazer tudo aquilo a ela, por que razo no seriam to ms para um co ou um gato?
   Isaiah concordou.
   -  um conceito que me  estranho, mas tem toda a razo. As hormonas so importantes - disse Isaiah. As dele estavam nesse momento em ebulio. Ele queria beij-la 
to desesperadamente que deu por si a inclinar-se para ela at o tnue perfume de Laura lhe inebriar os sentidos. No era um bom plano. Manter amizade com ela estava 
bem. Passar para alm disso podia ser arrebatador, mas Laura poderia levar o caso a srio, e ele no estava pronto para uma relao sria.
   Por isso, baixou o olhar para o co.
   - Isto precisa de mais investigao. Graas a Deus que h veterinrios fabulosos que dedicam as suas carreiras a esse tema. O Rocky  capaz de se safar  justa, 
graas a eles. Talvez seja apenas sorte. Talvez no o seja. O que eu sei  que ele comeou a recuperar desde que eu lhe dei as injeces de testosterona.
   Laura passou a mo esbelta pela pelagem lustrosa do co.
   - Deixe algum crdito tambm para si. Predisps-se a aceitar o risco e a dar-lhe as injeces.
   - No estava a ver como que  que elas lhe poderiam fazer mal.
   - E no fizeram. Ele est a ficar melhor - comentou ela, inclinando-se para a frente para olhar directamente nos olhos tristes do co. - No , Rocky? E tudo 
porque Isaiah tentou uma coisa nova.
   Isaiah apercebeu-se de que sabia bem falar assim com Laura. Partilhar as suas preocupaes e receber um retorno amvel e ponderado. Ela tinha algumas ideias interessantes. 
Talvez j no fosse mais capaz de dobrar a lngua em torno de palavras longas, mas a inteligncia dela estava to viva como sempre.
   - Passei por c para lhe falar da conversa que tive com o Tucker.
   Os olhos dela escureceram.
   - O que  que ele disse?
   - Sente-se pessimamente por ter tirado concluses precipitadas hoje de manh. Est tambm furioso como tudo. Quer descobrir quem deixou aberta a porta da jaula 
e desanc-lo.
   A tenso que assentava sobre os ombros estreitos dela desvaneceu-se.
   - Ele acredita que no fui eu?
   - Claro que sim. Aqueles registos provam que no foi a Laura.
   Antes de sair, Isaiah fez a ronda  clnica para ter a certeza absoluta de que ningum estava escondido algures no edifcio. Disparate. Nada fora feito directamente 
contra Laura. Ela estaria perfeitamente em segurana e ele no se deveria sentir preocupado. S que estava. Deixar aberta a porta de um canil no  um acto abertamente 
hostil, mas o resultado fora-o, indubitavelmente. Por mais que Isaiah desse a volta quilo, o perpetrante daquela aco tinha inteno de fazer mal a Laura. Quando 
Isaiah facturou isso na dor e no sofrimento de Dusty, um pobre co indefeso, o sangue gelou-lhe nas veias.
   A pessoa que deixara a jaula aberta era empregada na clnica. O que significava que essa pessoa sabia de antemo que as consequncias das suas aces iriam infligir 
ao animal dor e at possivelmente a morte. Isso no era prprio de algum com conscincia, e Isaiah no conseguia afastar a preocupao de que a prxima partida 
pudesse ser dirigida mais directamente a Laura.
   Se no fosse uma sobrecarga to grande para Laura assisti-lo na cirurgia, Isaiah t-la-ia tirado imediatamente do seu lugar no canil e comeado a trein-la para 
ser sua assistente. Ela fizera um trabalho fantstico quando toda a gente estava doente.
   Isaiah no gostava, pura e simplesmente, da ideia de Laura ficar sozinha de noite na clnica. Para j no falar no facto de ele gostar de estar com ela e desejar 
poder trabalhar sempre com ela. Contudo, gostava tambm das outras tcnicas. A Trish era uma boneca, Belinda tinha um sentido de humor custico e extraordinrio 
e a Angela era uma maga com a anestesia. No fundo, formavam uma equipa fabulosa.
   S que no era to divertido estar com qualquer uma delas como o era com Laura.


Captulo Nove










   Na segunda-feira seguinte, Laura voltou ao turno de dia. Apesar de os novos procedimentos do alarme terem sido implementados na sexta-feira anterior, ela ainda 
ouvia alguns queixumes referentes s mudanas. Durante o fim-de-semana, a Trish perdera o bocado de papel onde escrevera o seu cdigo de utilizador, o que lhe valeu 
uma reprimenda de Isaiah. Por isso, ele convocou uma reunio do pessoal e insistiu para que comparecesse toda a gente que trabalhava no edifcio, incluindo o pessoal 
de escritrio. Era a primeira vez que Laura ia a uma reunio na clnica. Era estranho ver tanto os veterinrios como os restantes empregados reunidos todos na mesma 
sala. A equipa de Tucker estava reunida num grupo, e o pessoal de Isaiah noutro. S o pessoal dos canis trabalhava para ambos os mdicos. Por a Laura ser a nica 
zeladora de canil a trabalhar naquele turno, era a nica a estar presente.
   Isaiah iniciou o dilogo salientando a todos - no uma, mas duas vezes - que o cdigo de segurana de cada pessoa era nico e altamente confidencial.
   - Aconselho vivamente que memorizem o vosso nmero - disse ele e que depois destruam o papel onde ele est escrito. Tratem-no como um cdigo PIN do vosso carto 
de multibanco. Guardem-no com a vossa vida.
   Laura esperava que a coisa ficasse por ali, mas Isaiah surpreendeu-a. Passando rapidamente o olhar pensativo por ela, prosseguiu:
   - Na manh da ltima quinta-feira, foi encontrado um co praticamente morto quando a Susan abriu a clnica. O animal quase que se esvaiu em sangue por a porta 
do seu canil ter sido deixada aberta.
   Todos olharam para Laura. Esta sentia as faces arderem-lhe de humilhao. A sala ficou to silenciosa que ela podia ouvir a respirao das pessoas que estavam 
 sua volta.
   - Por a Laura ter trabalhado no turno da noite de quarta-feira, todos, incluindo o Tucker e eu, presumimos que fosse ela a responsvel. Devemos-lhe todos um pedido 
de desculpas.
   Tucker sorriu rasgadamente para Laura e tocou com a ponta de um dedo no sobrolho numa continncia fingida.
   - Da minha parte devo-lhe mesmo uma, Laura. Desculpe-me por eu ter tirado concluses erradas.
   Isaiah sorriu ligeiramente e continuou:
   - Por a Laura ter negado com tanta veemncia toda a responsabilidade neste caso, decidi verificar os registos do alarme com a empresa de segurana, para ver se 
outra pessoa entrou no edifcio na noite de quarta-feira e,  claro, tinha mesmo entrado. Tambm descobrimos que no foi a nica vez que algum se introduziu no 
edifcio enquanto a Laura estava a trabalhar. No foi a Laura quem fez disparar o alarme na noite de segunda-feira. Provmos isso sem qualquer sombra de dvida. 
Isso leva-nos a questionar se realmente foi a Laura quem trocou a comida dos ces nos canis trs e quatro, nessa mesma noite. Com toda a probabilidade, o nosso brincalho 
trocou as malgas enquanto a Laura estava a trabalhar noutra parte do edifcio.
   James, que ultrapassava em quase uma cabea a altura de todas as tcnicas, lanou a Laura um olhar horrorizado. Belinda pousou uma mo no ombro de Laura e disse:
   - Que coisa horrvel! A Laura podia ter sido despedida!
   Tucker confirmou essa possibilidade acenando com a cabea.
   - Em vez de nos centrarmos nisso, gostaria que nos concentrssemos na preveno. Isto no pode voltar a acontecer. - disse Tucker. Falou ainda durante vrios 
minutos, concluindo com: - Se o Dusty tivesse morrido, a clnica podia apanhar com um processo judicial, o que iria afectar o posto de trabalho de todos. - E, estremecendo. 
- Incluindo o meu. Eu e o Isaiah estamos apenas a comear a ter cho firme debaixo dos ps. No temos recursos para pagar uma grande indemnizao e continuarmos 
de portas abertas.
   - Mas decerto que tm um seguro para isso - observou Belinda.
   - E temos - atalhou Isaiah. - Mas h um plafond para cada pedido de indemnizao. - E, olhando para o irmo. - Sendo mdicos veterinrios h relativamente pouco 
tempo, optmos pelo pacote mais econmico, com uma franquia bastante grande. Como nos temos todos vindo a aperceber ao trabalharmos aqui, as pessoas adoram os seus 
animais de estimao. J ficam suficientemente perturbadas quando perdem um co ou um gato devido a complicaes inevitveis ou a uma doena incurvel. Imaginem 
a reaco se viessem a saber que um dos seus animais foi deliberadamente maltratado por uma pessoa nossa empregada.
   - Era logo processo em cima! - comentou um dos tcnicos de Tucker. - Se fosse comigo, era mesmo certo. No fariam o mesmo?
   - Creio que a maior parte dos donos pensaria, no mnimo, em nos processar - concordou Tucker. - E, na eventualidade de eles o fazerem, eu e o Isaiah teramos 
de pagar muito mais do que o valor do animal. Provavelmente tambm nos pediriam indemnizao por perdas e danos morais, para j no falar de negligncia mdica. 
E o prmio do nosso seguro dispararia decerto para valores incomportveis.
   - E - acrescentou Tucker - tambm temos de pensar nas nossas reputaes. So coisas como essas que fazem as notcias locais. As pessoas poderiam hesitar em trazer-nos 
os seus animais para tratamento. A nossa prtica clnica sofreria com isso. No h qualquer dvida: Se aquele co tivesse morrido, isso teria tido um efeito muito 
negativo sobre todos os que se encontram aqui nesta sala. E por isso que queremos tomar todas as precaues possveis para vos proteger e nos protegermos a ns at 
que essa pessoa seja apanhada.
   - Por isso  que  importante que protejam o vosso cdigo de segurana - continuou Isaiah, fazendo uma pausa para olhar cada um dos presentes nos olhos. - Se 
perderem o vosso nmero e ele cair nas mos da pessoa errada, podem ver-se numa situao muito desagradvel. Se o vosso cdigo for usado para entrar no edifcio 
e fazer mal a um animal, vo parecer culpados, e tanto eu como o Tucker no hesitaremos em apresentar queixa contra vocs.
   - Ests-me a fazer sentir como uma criminosa - disse Trish com um riso amargo.
   - Tambm me estou a sentir assim - coadjuvou James. - A maior parte de ns trabalha aqui j h algum tempo. Parece-me que j merecemos alguma confiana, ou no?
   Isaiah sorriu.
   - Cada um de vocs , de uma forma nica e especial, membro importante da equipa, quer trabalhem principalmente com o Tucker ou comigo, portanto peo-vos que 
no tomem isto como um ataque pessoal. No estamos a apontar o dedo a ningum. Estamos apenas a dar-vos um aviso srio, de modo a que no percam os vossos cdigos 
e sejam assim inadvertidamente culpados por uma coisa que no fizeram.
   Val levantou a voz.
   - Incomoda-me pensar que algum deixou essa porta aberta. - E, depois, olhando na direco de Laura. - Por mais perturbante que foi pensar que a Laura poderia 
ter sido despedida, pelo menos eu sabia que ela no o fizera maldosamente. Que tipo de pessoa o faria? E por que razo, pelo amor de Deus, uma pessoa dessas ter 
vindo trabalhar para uma clnica veterinria, onde em princpio todos ns gostamos de animais?
   - No temos quaisquer respostas - respondeu amavelmente Tucker. Depois, acrescentou: - Por enquanto. - A voz dele retiniu com uma implcita promessa sombria. 
- Esperamos vir a saber a identidade da pessoa. Talvez vos possamos dizer mais alguma coisa nessa altura.
   Por mais incmoda que a reunio fosse para Laura, ela podia andar de cabea um pouco mais erguida uma vez ela terminada. Recebera um pedido de desculpas pblico 
de Tucker e de Isaiah e fora ilibada daquilo de que era acusada. Contudo, havia um seno. Deu por si a olhar nos olhos os seus colegas de trabalho em alturas inesperadas, 
perguntando a si prpria se aquela pessoa seria quem a tramara de forma to ardilosa.
   Com a Festa de Aco de Graas a aproximar-se rapidamente, Laura viu-se de novo encarregada da decorao da clnica para essa festividade, o que fez com que as 
duas semanas seguintes passassem como uma nvoa indistinta. Para seu grande alvio, no aconteceu mais nada de especial na clnica durante esse tempo. Era quase 
como se a segurana mais apertada e as revelaes feitas por Tucker e por Isaiah na reunio de pessoal tivessem assustado o brincalho e feito com que ele - ou ela 
- recuasse.
   Na segunda-feira anterior  Festa de Aco de Graas, quando a Val afixou o horrio de trabalho para a festividade em ambos os blocos cirrgicos, Laura estudou-o 
ansiosamente. Para o fim-de-semana de quatro dias que se aproximava, s o pessoal de escritrio estaria isento de trabalhar algumas horas. Apesar de a clnica ficar 
fechada ao pblico, os animais hospitalizados iriam precisar de cuidados. Laura ficou feliz por saber que o seu turno para o fim-de-semana se resumia  manh de 
sexta-feira, o que lhe libertava o resto do fim-de-semana prolongado. Poderia assim passar o Dia de Aco de Graas com os Coulter, como planeado.
   Durante a semana de Aco de Graas, quando Laura no estava a trabalhar na clnica, passava o tempo a decorar o seu apartamento com cores apropriadas  poca 
e a cozinhar todo o tipo de guloseimas. Fez bolachas, biscoitos e tartes para levar para a clnica. Cozinhou tartes de ma e de abbora, guardando-as depois no 
congelador at as poder transportar para a casa dos Coulter, para o jantar de Aco de Graas.
   Sem que Laura desse por isso, chegou a vspera do Dia de Aco de Graas. Acabara de colocar sobre o fogo uma caarola de feijo com tomate, que preparara como 
acompanhamento da refeio festiva do dia seguinte, e estava a revistar o roupeiro, desesperadamente  procura de qualquer coisa para vestir, quando o telefone tocou. 
Resmungando, atirou-se sobre a cama para pegar no telefone sem fios.
   - Est?
   - Ol, Laura.  o James.
   Laura sorriu e rolou sobre a cama at ficar deitada de costas. Gostava de James Masterson. Embora fosse tcnico e trabalhasse principalmente com Isaiah, visitava 
com frequncia os canis para tratar dos ces. Vinha sempre com guloseimas para lhes dar e passava alguns minutos com cada animal. Tinha um ar bondoso e gentil, que 
Laura considerava ser raro num rapaz novo.
   - James! Ol. A que devo esta honra?
   - Eu, hum, eu... eu s...-interrompeu-se e engoliu audivelmente em seco.
   Normalmente, era Laura quem gaguejava. O sorriso dela desvaneceu-se, para dar lugar a preocupao.
   - Ests bem?
   - ptimo, estou ptimo... - respondeu ele, engolindo novamente em seco, com o som de um plunc abafado a ser transmitido pela linha. - Olha, eu sei que estou a 
telefonar  ltima hora, e tu pro-provavelmente tens j planos, mas eu estava... bem...queria-te perguntar o que fazes amanh. Os meus pais esto em Reno. Pensei 
que nos pudssemos encontrar e, bem, darmos uma volta.
   O corao de Laura bateu mais depressa. H j muito tempo que no ouvia um rapaz gaguejar de nervosismo ao convid-la para sair. O James? Ela achava que ele deveria 
estar nos vinte e poucos anos, o que o tornava demasiado novo para ela. Mesmo assim, era lisonjeiro saber que o rapaz tinha uma paixoneta por ela.
   No querendo ferir os sentimentos dele, Laura procurou a coisa certa para dizer.
- Oh, James, eu adoraria sair contigo, mas j tenho planos para amanh.
   -Ah.
   Ela sentou-se e afastou o cabelo dos olhos.
   - Desculpa. Vou com a minha av jantar a casa de uma pessoa amiga - disse Laura, pensando ser melhor no dizer que a pessoa amiga era a me do patro de ambos. 
- Esta  a minha primeira grande fes-tividade desde que os meus pais se mudaram. Sou o nico membro da fa-mlia que a av tem na cidade, e eu tenho mesmo de passar 
o dia com ela.
   - Oh - disse ele, parecendo abatido. - Bem, claro, vais ento passar o dia com ela. Compreendo perfeitamente. Era s uma ideia. Sabes... vou enfrentar o dia sozinho. 
Pensei que estivesses numa situao semelhante e pudesses querer companhia.
   Laura desejava de todo o corao poder convidar James para o jantar em casa dos Coulter, mas isso no competia a ela.
   - Que pena! Ningum deve passar o Dia de Aco de Graas sozinho.
   - Ah, bem, vou alugar alguns filmes e beber umas cervejas. Bem...- disse ele, arrastando a voz no final.
   Laura disse rapidamente.
   - Muito obrigada por teres pensado em mim, James. Foi muito querido da tua parte. Se eu no tivesse j planos, aceitaria com muito gosto.
   - Oh, bem, pois. Claro que pensei em ti. Trabalhamos juntos, e tudo o mais...
   Laura franziu o sobrolho ao desligar o telefone. Incomodava-a saber que o James ia passar o Dia de Aco de Graas sozinho. Foi at  cozinha para tirar o telemvel 
da carteira. Carregando nas teclas para trazer os smbolos ao ecr, rolou-o para baixo at ver o balo que a sua av programara para Isaiah na mesma manh que ela 
fora tramada na clnica. Laura nunca incomodara o seu patro ligando-lhe para casa, mas sentia que aquilo era importante.
   - Est? - A voz dele veio pela linha, profunda e sedosa.
   - Ol, Isaiah,  a Laura.
   - Laura! Ia agora mesmo telefonar-lhe.
   - Ia?
   - Sim, para confirmar para amanh. Ainda est a tencionar ir?
   Laura encostou a anca ao armrio.
   - Estou. Foi mais ou menos por isso que t'fonei. O James acaba de ligar para ver se eu gos-taria de sair com ele amanh.
   Silncio. Depois, com a voz subitamente tensa, Isaiah disse:
   - Ai ?
   A mudana no tom de voz dele apanhou Laura de surpresa.
   - Sim. Os pais dele foram para Reno, e ele vai estar sozinho. Sinto-me mal com isso.
   - No sabia que voc e o James eram assim to chegados.
   - Somos apenas amigos. De todos os tcnicos,  ele quem eu vejo mais. Quando ele visita os canis, fica sempre um bocado.
   - Fica, no fica?
   Laura ergueu as sobrancelhas.
   - Isaiah, parece-me estar per-turbado. Est-me a escapar alguma coisa?
   Ele hesitou, e depois disse:
   - Na tera-feira  noite, quando me encontrei com o Tucker, debatemos a possibilidade de que a pessoa que a tramou possa ser um homem que se julgue apaixonado 
por si... algum que a Laura tenha inadvertidamente ignorado ou ofendido.
   Sentindo os joelhos subitamente fracos, Laura foi at  mesa e deixou-se cair numa cadeira.
   - O James?
   - Ele  homem, e sente obviamente qualquer coisa por si.
   - Vejo-o mais como um mido.
   - E exactamente isso. Ser tratado como um mido pode pr o tipo completamente lixado. Fere-lhe o ego. Est a compreender?
   Laura compreendia perfeitamente. S que nunca detectara qualquer sinal de raiva em James.
   - No  normal que um homem convide uma mulher para passar o Dia de Aco de Graas com ele a no ser que ande atrs dela - acrescentou ele.
   Laura lembrou-se da forma como James gaguejou quando lhe telefonou, dando-lhe a impresso de que tinha um fraco por ela.
   - Sempre fui simptica para o James. Se ele tem um fraco por mim, como voc diz, no lhe dei qualquer motivo para que esteja zangado comigo.
   - Talvez a Laura no tenha sido suficientemente simptica na ptica dele - contraps Isaiah. - Quem quer que tenha feito isto tem um parafuso a menos, querida. 
E isso no  coisa que se possa sempre detectar s por falar com um tipo. O que a Laura pode achar que se trata de um relacionamento de amizade com um colega de 
trabalho simptico pode ser para ele o romance do sculo. Se calhar, a certa altura ele estava a falar consigo e a Laura distraiu-se com qualquer coisa. Ou saiu 
do p dele por ter trabalho a fazer. No podemos saber o que origina uma crise num tarado.
   O James, um tarado? Laura sentiu-se doente. Algum estava determinado a tram-la. Isso era um facto inegvel. Mas, meu Deus, ela no queria que fosse o James. 
Contudo, quando pensava nisso, no conseguia pensar em ningum da clnica que queria que fosse.
   - Oh, Isaiah - suspirou ela, abalada. - E eu ia pre-cisa-mente per-guntar-lhe se ele podia tambm ser con-vidado para o jantar...
   Isaiah suspirou, e depois ela ouviu o som dos passos dele, botas de co- wboy a soarem sobre ladrilho.
   - Bem, penso que o podemos convidar. O facto de ele ter uma queda por si no o torna necessariamente culpado do que quer que seja. S significa que tem de se 
andar de olho nele.
   - Eu no queria  que ele jantasse sozinho...
   - Vou-lhe telefonar a convid-lo para se juntar a ns - o som de gua a correr ouvia-se como fundo. - Quantos mais, melhor.
   - A sua me no se importa?
   Ele deu uma risadinha seca.
   - A casa vai estar to apinhada de gente que provavelmente ela nem sequer vai dar por isso. Os jantares festivos dos Coulter comeam todos com a colocao catica 
das cadeiras.
   Laura esqueceu-se da sua preocupao com James e sorriu ao telefone.
   - Cadeiras? - repetiu ela.
   - Oh, sim. Comermos at ficarmos empanturrados  apenas uma das muitas atraces. As cadeiras esto na primeira linha do programa. Lembre-se de que sou um de
seis filhos, e de que eu e o Tucker somos os nicos que ainda no demos o n e comemos a multiplicar-nos. A Bethany e o marido tm dois midos. O Jake e a mulher,
a Molly, tm um e vem outro a caminho. Depois, h o Hank, a Carly e o beb deles. O Zeke e a Natalie e os seus dois filhos somam mais quatro, e a me insiste sempre 
em convidar todo o cl Westfield.
    - Quemso esses?
   - A famlia da mulher do Zeke. Depois, por insistncia da me, o Tucker vai trazer uma namorada. A sua av e um tipo qualquer chamado Frank tambm l vo estar. 
A Laura e eu constitumos outro casal. E, conhecendo a minha me como conheo, ela convidou os Kendricks, toda a miudagem deles, e metade dos trabalhadores do rancho 
do Zeke e do Hank, o Lazy J. - Isaiah fez uma pausa, murmurando nmeros enquanto tentava calcular o total de pessoas. - Quantas pessoas faz isso?
   - E est-me a perguntar a mim?
   Ele riu-se de novo.
   - Vai buscar os teus feijes, mida!
   - Creio que so mais de vinte - disse ela. -  consigo.
   - Raios. Esqueci-me de contar a minha gente. Imagine sardinhas a agitarem-se dentro de uma lata. A casa dos meus pais no  assim to grande. Sempre me questionei 
como  que a minha me consegue encaixar tanta gente, mas o facto  que consegue sempre. Alugam mesas e cadeiras dobrveis, e ela arranja daquelas toalhas de mesa 
de plstico que parecem pano. No montamos as mesas antes da hora da janta. At essa altura, limitamo-nos a alinhar duas filas de cadeiras contra as paredes da sala. 
Logo que chegamos, lanamo-nos todos ao trabalho. Assim todos conseguem arranjar lugar para se sentar.  sempre uma enorme confuso, com toda a gente a falar ao 
mesmo tempo e os midos a correrem pelo labirinto, no batendo por pouco com a cabea numa ou noutra perna de cadeira.
   Parecia divertido para Laura, que gostara sempre das suas reunies familiares. S a ideia de enfrentar um to grande nmero de estranhos ps-lhe as palmas das 
mos a suar.
   - O que devo vestir?
   - Roupas.
   Ela resfolgou e depois corou pelo barulho que fizera.
   - Sabe o que quero dizer. E traje de cerimnia?
   - Vai ver um pouco de tudo, jeans, calas de treino, vestidos. No se preocupe com isso.
   - Eu no quero parecer deslocada...
   - Parece sempre estupenda, vista o que vestir. A srio, no  razo para se preocupar.
   Laura estivera precisamente a procurar no seu armrio qualquer coisa adequada para vestir. Agora desejava ter ido comprar um novo conjunto - ou possivelmente 
alterar um na sua mquina de costura.
   Caiu um silncio na linha - o tipo de silncio que ocorre quando duas pessoas se encontram ao telefone sem mais nada para dizerem uma  outra.
   - Bem - disse ele, pigarreando. - Vou telefonar ao James a convid-lo.
   Laura anuiu com a cabea, e depois lembrou-se de que ele no a poderia ver.
   - Se tiver a certeza de que a sua me no se importa, isso seria simptico. Pelo menos, ele ter um stio aonde ir.
   - Eu vou l estar por volta do meio-dia. Se puder chegar l a essa hora, ptimo. Seno, a refeio propriamente dita s comear cerca das trs e meia.
   Laura no queria chegar imediatamente antes de a refeio ser servida. Parecia mal no confraternizar um pouco nem ajudar na cozinha.
   - Ao meio-dia est bem...
   - ptimo. At l, ento. - Outro silncio. Depois: - Durma bem. No deixe que os percevejos lhe mordam...
   Quando a conversa terminou, Laura voltou ao quarto para continuar a busca no roupeiro. Acabara de desencantar trs vestidos de Inverno e estava a tentar escolher 
um deles quando tocou outra vez.
   Ela agarrou no telefone que estava sobre a cama, para onde o atirara.
   - Est?
   - Ol, Laura.  outra vez o Isaiah. Acabo de falar com o James. Recusou o convite.
   - Recusou?
   - Terminantemente - respondeu Isaiah, pigarreando. - Tive a impresso de que ele no ficou nada satisfeito por saber que a Laura vai passar o dia comigo.
   - No  nada disso...
   - Ambos sabemos isso, mas o James no sabe. O gajo precisa mesmo de ser vigiado. Vou alertar o Tucker. O James pode ser o nosso homem.
   Laura no queria acreditar naquilo. O James no lhe parecia o tipo de homem capaz de fazer mal a um animal. Parecia mesmo gostar dos ces e era sempre muito carinhoso 
para com eles. Era verdade que ele metia sempre conversa com ela quando ia aos canis. Era possvel que ele estivesse a alimentar uma paixo por ela desde que Laura 
comeou a trabalhar na clnica. Mas se ela alguma vez o deixou despeitado, ele nunca o demonstrou.
   - Tenha cuidado com ele,okaylS para estar de sobreaviso - disse Isaiah. - Se o James alguma vez aparecer na clnica quando a Laura l estiver sozinha, telefone-me 
imediatamente, est bem?
   Laura assegurou a Isaiah de que o faria. Depois de desligar, sentou-se na beira da cama, a olhar absorta para o cho. Talvez ela fosse apenas pssima juza de 
caracteres, mas os seus instintos diziam-lhe que James era inocente.
   Dobrado pela cintura, com uma perna esticada por detrs dele, Isaiah estava junto ao lava-loias da cozinha, com os braos apoiados na borda da bacia. Olhava 
pensativamente para fora, para a noite, iluminada apenas pelas estrelas e por uma lua ainda no primeiro quarto. No  nada disso, afirmou Laura quando ele lhe disse 
que James parecera agastado por eles irem passar o dia juntos. Intelectualmente, Isaiah estava absolutamente de acordo. No era assim que as coisas se passavam entre 
eles - nem poderiam passar-se. Ele precisava de mais um par de anos para alicerar a sua prtica de clnica veterinria antes de se comprometer com uma mulher. Uma 
relao sria? Nem pensar. E, com uma pessoa como a Laura, uma relao sria era a nica opo.
   Ento por que razo estava ele a antecipar o dia seguinte como um mido adolescente ansioso pela sua primeira sada com uma rapariga? E por que raio ele a encorajara 
a vir to cedo? Bolas. Dois ou trs jogos de damas ocupariam cerca de uma hora. Que raio iriam eles fazer com o resto do tempo?
   Isaiah precisava de ter a cabea fria no que a ela dizia respeito. Por outro lado, por mais bonita e querida que ela fosse, ele estava completamente desinteressado. 
Mas, curiosamente, quando a parte desinteressada dele no estava atenta, outra parte dele parecia trabalhar com uma finalidade contrria, fazendo-o pedir-lhe para 
que aparecesse cedo ao jantar da famlia. No era coisa boa. Se ele no tivesse cuidado, poderia estar-lhe a transmitir a ideia errada.
   Laura era uma querida. Ele no queria involuntariamente dar-lhe esperanas onde no havia nenhuma e acabar por a magoar.
   No dia seguinte, passados dez minutos do meio-dia, Isaiah, que estivera a dispor as cadeiras com um ouvido atento  porta da frente, ouviu a campainha tocar. 
Teve de abrir caminho por entre a turba de familiares a transportarem cadeiras para chegar  porta. Ento, quando a abriu, tudo o que conseguiu fazer foi ficar a 
olhar, extasiado. Com um casaco de l cinzento dobrado num dos braos, Laura estava de p no alpendre. Envergava um vestido cor de vinho escura, com decote em V 
e mangas compridas. Feito de malha de l, o vestido era cintado, abrindo-se depois em pregas graciosas que pendiam at meio da tbia, revelando um par de botas de 
couro preto brilhante que lhe realavam os tornozelos finos e as pernas bem feitas. Uau.
   - Ol! - disse ela, lanando-lhe um daqueles sorrisos deslumbrantes que lhe faziam covinhas nas faces. - Espero no ter vindo cedo demais. Disse para eu vir ao 
meio-dia, no foi?
   Tudo o que Isaiah conseguiu fazer foi abanar a cabea afirmativamente. Linda. Ela era linda de morrer. O suficiente para fazer com que a lngua de um homem ficasse 
colada ao palato. Isaiah deu um passo atrs para a deixar entrar. Quando ela atravessou a soleira para a luz mais tnue do interior, ele ainda no conseguira tirar 
os olhos dela. Fazia-lhe lembrar um clice de vinho atravessado pela luz de velas, com o medalho dourado que trazia ao pescoo a reluzir contra o branco prola 
da sua pele. Trs dos seus irmos casaram com mulheres belssimas mas, na opinio de Isaiah, Laura metia-as a todas num canto.
   Tem cuidado, maarico,sussurrava-lhe uma vozinha dentro da cabea. Pois de contrrio ele iria apaixonar-se por esta rapariga - uma paixo completa, desabrida 
e irrevogvel.
   - Vem mesmo a horas - conseguiu por fim ele dizer.
   Ela estava a olhar, de olhos arregalados, para toda a gente na sala. Isaiah seguiu-lhe o olhar e quase que estremeceu. A famlia dele aguentava-se bem em doses
reduzidas, mas quando se reuniam todos o resultado era bastante avassalador. O mido de Hank, agora com oito meses, estava aos berros, e Hank estava a praticar a
"dana do beb aos ombros" para o acalmar, enquanto a sua mulher, Carly, uma loirinha engraada, esvoaava-lhe ansiosamente em volta dos ombros. Zeke estava a atravessar
o aposento com quatro cadeiras dobradas erguidas ao alto bem acima da sua cabea morena, para evitar dar com elas em algum. A sua mulher, Natalie, debitava entusiasticamente
o "Forever and Always", a cano favorita deles, enquanto dispunha as cadeiras numa fila muito arrumadinha. Jake, o irmo mais velho, tinha um brao sobre a sua
mulher grvida, Molly, e estava a tentar, sem grande sucesso, dar um passo de valsa com ela sem pisar ningum. O filho deles, Garrett, que faria trs anos em Fevereiro,
e o filho da Bethany, Sly, que faria quatro em Abril, estavam entretidos a bater  vez um no outro com um martelo de espuma, o que deviam achar muito divertido,
a julgar pelas risadinhas e guinchos que soltavam. Para aumentar a confuso, Gramps, o av de Natalie, um resmungo intratvel com oitenta e cinco anos, que ainda
por cima era surdo como uma porta, estava debruado sobre os dois filhos dela, o Chad e a Rosie, que se encontravam sentados no cho em frente da televiso. No 
parava de gritar:
   - Playstation, foi o que vocs disseram? Quem diria!
   Ou:
   - Vejam-me s aquilo!
   Ou ainda:
   - O que  que eles iro inventar mais?
   - Desculpe - disse Isaiah. - A minha famlia  um pouco excntrica. - Depois, erguendo a voz at quase gritar, disse: -Ei, ouam todos! Esta  a Laura. Tenham 
maneiras e apresentem-se!
   Jake rodopiou a mulher at ambos pararem e apertou-a contra ele, com a sua grande mo assente de forma possessiva e com familiaridade provocante sobre a anca 
bem torneada dela. Molly, com o seu cabelo cor de mbar a formar um halo de curtos caracis em redor da cara, deu uma risadinha, deslocou a mo dele de novo para 
a sua cintura e roou-se alegremente pelo ombro do marido.
   - Ol, Laura, s bem-vinda! - saudou ela, em voz alta. - Eu sou a Molly. Este grande trangalhadanas  o Jake, o irmo mais velho do Isaiah.
   Hank mudou a posio do pequeno Hank que trazia aos ombros e olhou para Laura por cima da fralda do filho.
   - Eu sou o Hank, o penltimo da ninhada...
   Carly franziu os seus grandes olhos azuis para ver.
   - Ol, Laura, sou a Carly. Sou a mulher do Hank. Ainda no consigo ver muito bem ao longe. Fui operada  vista h uns tempos e ainda no consigo focar...
   - Terrvel - atalhou Hank, cortando o discurso a Carly. -O que ela est a tentar dizer  para a Laura no ficar ofendida se ela a vir outra vez mais tarde e voltar
a apresentar-se.
   Carly riu-se e lanou uma srie de beijos pelo ar na direco do seu beb berro.
   - Este  o pequeno Hank. Est agora a tentar partir os cristais da av com os seus berros.
   Ryan Kendrick, tambm a transportar cadeiras, deps um carregamento delas contra uma parede, passou uma grande mo sobre o cabelo negro para o alisar onde fora
levantado pelo vento quando estivera no exterior e sorriu na direco deles.
   - Viva, Laura. Sou o Ryan, o marido da Bethany - disse ele, olhando em volta  procura da mulher. - Ela deve andar algures por a...
   - Estou aqui! - exclamou Bethany, atravessando a porta em arco, vinda da cozinha, na sua cadeira de rodas. - Ol, Laura. Vens mesmo a tempo. A me est a tentar 
mexer quatro tachos ao mesmo tempo, e eu no consigo chegar ao fogo para a ajudar.
   Laura olhou para o casaco que trazia no brao e depois para Isaiah.
   - Trouxe comida. No banco de trs do meu carro - disse ela, atirando-lhe o casaco para as mos. - No se importa de ma ir buscar?
   E de repente, sem mais nem menos, Isaiah perdeu-a de vista.
   Quando ele entrou na cozinha alguns minutos depois, trazendo uma travessa com duas tartes, encontrou Laura ao fogo, com o seu bonito vestido cor-de-vinho j 
meio coberto por um dos aventais brancos bordados da sua me. Ela estava a mexer comida em panelas, a ajustar a temperatura dos bicos de gs e a rir-se com qualquer 
coisa que a me dele acabara de dizer.
   - Oh, Laura, no devias ter-te incomodado! - gritou Mary quando viu as tartes. - Meu Deus, que lindas! - Depois, com um sorriso malicioso para Isaiah, disse: 
- Imagina! Uma rapariga moderna que sabe cozinhar! Que outras maravilhas nos esperaro? - Voltou ento de novo a ateno para as sobremesas. - A minha abbora ficou 
um pouquinho tostada demais este ano. A tua est perfeita, Laura.
   O cheiro de peru e fiambre a assar fez o estmago de Isaiah emitir um ronco. Pousou a travessa e lanou a mo a um dos canaps dispostos num grande prato, ganhando 
com isso uma palmada na mo da parte da sua me.
   - No lhes toques!- ralhou Mary.
   - Mas estou com fome!
   Mary revirou os olhos, meteu-lhe um pequeno canap na boca e depois redisps os outros de modo a preencher o lugar vago.
   - Arranja uma sanduche. Estes so para os convivas.
   - E o que  que eu sou, presunto s fatias?
   Esta era uma pega que Mary tinha com todos os seus filhos a cada reunio festiva desde que eram crianas.
   - Fora daqui! - resmungou ela. - Seno, ponho-te a trabalhar.
   Normalmente, Isaiah fugia a sete ps quando ouvia aquela ameaa, mashoje estava tentado a ficar. Olhou para a figura esbelta de Laura, que estava de costas para 
ele.
   - O que posso fazer?
   Mary ergueu as sobrancelhas. Olhou ainda para Laura. Depois, lanou ao filho outro sorriso malicioso.
   - Podes raspar a casca de uma laranja para o molho de arando, se quiseres...
   Isaiah queria. Depois, ajudou Laura a cortar fruta para uma coisa chamada ambrosia. A seguir, arranjou o peru fumado, que os seus pais compraram no talho completamente 
preparado e que iria ser servido morno, aquecido no microondas. Depois disso, despejou leo na caarola que estava no exterior, sobre o deck, e acendeu o fogareiro 
a propano sobre o qual ela estava assente, para o peru frito, um prato que fora acrescentado ao menu do jantar de Aco de Graas dos Coulter h um par de anos.
   - Trs perus? - exclamou Laura, espantada.
   Isaiah riu-se.
   - Temos imensa gente para alimentar. J alguma vez provou peru frito?
   - No.
   -  delicioso - disse ele, beijando as pontas dos dedos. - To hmido e saboroso que nem d para acreditar nas nossas papilas gustativas. Tambm se cozinha bastante 
rpido, demora muito menos que assar um peru  moda antiga.
   Cozinhar no era propriamente uma coisa de que ele gostasse mas, como acontecia sempre que estava com Laura, Isaiah teve satisfao em faz-lo. Tambm tinha o 
benefcio acrescido de poder surripiar bocadinhos de comida sem o perigo de ser apanhado. De quando em quando, Laura rearranjava os acepipes nas travessas para disfarar 
o facto de ele andar a petiscar.
   Aquilo funcionou at Bethany se juntar a eles na cozinha para dar de mamar  sua filha de sete meses, Chastity Ann. Quando ela viu Isaiah surripiar um ovo  la
diable do frigorfico enquanto a me dele estava de costas, gritou em cantilena, suficientemente alto para acordar cobras em cinco condados:
   - Me, o Isaiah est a roubar comida! - A acusao vinha da infncia deles, e ela estragou o efeito por se comear a rir. - Disseste que ainda no podamos petiscar
nada, mas ele no est a fazer caso!
   Mary lanou a Isaiah um olhar de reprovao.
   - Se eu no tiver acepipes suficientes para os meus convidados, nem sei o que te fao!
   - Queixinhas! - disse Isaiah  irm. Depois, voltou-se para a me e, numa voz esganiada de contralto, disse: - Mam, faz a Betty parar de fazer queixinhas de 
mim!
   Mary riu-se e revirou os olhos.
   - Graas a Deus que esses dias j l vo!
   Laura, que estava debruada sobre o fogo, endireitou-se, com as faces afogueadas pelo calor, os olhos a brilharem.
   - Eles brigavam muito quando eram pequenos? - perguntou.
   - Muito? Com seis midos  trela, as guerras nunca tinham trguas.
   - Fedelha! - disse Isaiah para a irm, atravessando a cozinha para dar um puxo ao cabelo escuro da irm e depois inclinar-se para beijar os caracis negros de
Chastity. Agachando-se junto  cadeira de rodas, ele contemplou a sobrinha por um momento e depois sussurrou:
   - Ela  to bonita, Bethany Ann. - Em seguida, ergueu o olhar para a irm. - A cpia perfeita da mam dela.
   Bethany, tapando por pudor o seio com uma toalha de mos enquanto a beb mamava, lanou um sorriso orgulhoso ao irmo.
   - Ela no se parece assim tanto comigo. Acho que ela tem o nariz dopai.
   - Cala-me essa boca! - disse Ryan, entrando na cozinha. Debruando-se sobre o ombro da mulher, observou a filhinha beb e depois disse em tom ditatorial: - Nenhuma 
filha minha ter a penca dos Kendrick!
   - Eu gosto do teu nariz - protestou Bethany.
   - Pois, est bem...- replicou Ryan. - No sou uma rapariga.
   - Facto pelo qual estou muito grata - gracejou Bethany.
   A campainha da porta tocou nesse preciso momento, e o resto da famlia Kendrick entrou. Ryan saiu da cozinha para cumprimentar os seus pais, Keefe e Ann Kendrick, 
e depois o irmo mais velho, Rafe, um homem alto e magro com cabelo negro azeviche e pele escura que bem poderia passar por seu ssia. A mulher de Rafe, Maggie, 
uma morena baixinha e muito atraente, estava ao lado do marido. Flanqueando o casal, estavam os filhos, Jaimie, que fizera sete anos em Setembro, e Amlia, que completara 
os cinco h apenas duas semanas.
   Quando Isaiah estava a apresentar as pessoas a Laura, esta interrompeu-o para perguntar:
   - Sabe a idade de cada uma das pessoas?
   Ele pensou um segundo no assunto e depois riu-se.
   - Lembra-se de todos aqueles presentes de aniversrio que estou sempre a comprar? Agora sabe porqu.  rara a semana em que no haja uma festa de aniversrio.
   A sala de estar estava agora to cheia que parecia poder rebentar pelas costuras. Etta Parks, a av de Laura, chegou de brao dado com um cavalheiro idoso mas 
de bom porte que ela apresentou como sendo Frank. Isaiah chegou  concluso de que a sua me estava perfeitamente louca por ter convidado tanta gente. Levou Laura 
atravs da turba, at uma cadeira.
   - A Laura  uma convidada - insistiu ele. - J fez o suficiente na cozinha. Fique aqui e trave conhecimento com toda a gente.
   Os olhos de Laura arregalaram-se quando passou revista  multido.
   - Oh, eu no creio...
   Antes de Laura poder completar a objeco, a mulher de Jake, Molly, veio sentar-se a seu lado.
   - Portanto voc  a fabulosa zeladora de canil de quem tanto tenho ouvido falar...
   - Oh, bem - disse Laura, corando. - Ouviu falar de mim?
   Molly riu-se e fez sinal a Maggie e a Natalie para que se juntassem a elas. Quando Isaiah saiu da sala para ir ajudar a me na cozinha, Laura j estava profundamente 
embrenhada em conversa.
   O jantar foi fabuloso. A sala fora esvaziada de toda a sua moblia no dia anterior, e, quando toda a carne estava quase pronta, os homens montaram dez mesas de 
um metro e oitenta, topo a topo, para acomodar os convidados. Logo que as mesas foram montadas, as mulheres lanaram-se ao trabalho, cobrindo-as com toalhas e colocando 
pratos, talheres e copos. Nada condizia. Todos os servios de loia que Mary Coulter possua foram trazidos para a mesa, incluindo o servio de porcelana do casamento 
da av McBride, acrescidos de dois servios de quarenta peas pertencentes aAnn Kendrick. Algumas pessoas ficaram com copos de vinho de plstico transparente em 
vez de cristal genuno. No havia sequer talheres que chegassem, e por isso toda a gente ficou apenas com um garfo.
   Contudo, a comida era abundante e maravilhosamente preparada, e toda a gente se divertiu. Contaram-se anedotas, e todos se riram delas, quer tivessem ou no graa. 
Trocaram-se mexericos. As crianas pintaram a manta. Por mais do que uma vez durante a refeio, Isaiah olhou de soslaio para Laura a pedir-lhe desculpa por toda 
aquela confuso.
   Ela sorriu-lhe e disse:
   - Adoro isto!
   Isaiah olhou em volta para todas aquelas caras, algumas delas to conhecidas suas quanto a sua prpria cara, outras no. O Hank e o filho da Carly estavam sentados
numa cadeira alta entre eles, forando o casal a inclinar-se para a frente ou para trs para ouvir o que um deles dizia baixo ao outro. Zeke e a sua mulher, Natalie,
pareciam colados um ao outro pelas ancas, ainda to apaixonados que no tinham olhos para mais ningum,  excepo dos seus filhos, os quais lhes exigiam ocasionalmente
ateno. Jake e Molly, que eram o segundo casal h mais tempo casado, contentavam-se em fixarem ocasionalmente os olhos um no outro, os olhares que passavam entre
eles cheios de um amor profundo e fiel. Por andar de cadeira de rodas, Bethany ficou sentada numa extremidade da mesa, com o marido, Ryan,  sua direita e o filho
 esquerda. Ryan tinha a filha sentada num joelho, dando-lhe a comer pur de batata e recheio entre duas garfadas dele.
   A cada extremidade da mesa do centro, que acomodava todos os convivas mais idosos, sentavam-se os pais de Isaiah em lugares de honra, falando num tom mais alto
do que o normal de modo a no excluir os seus convidados. Mary Coulter tinha o ar de uma doce matrona com o seu bonito vestido azul, enquanto cavaqueava alegremente 
com a av de Laura, que se sentava  sua direita, e com Ann Kendrick, sentada  sua esquerda. No extremo oposto da mesa, Harv era uma verso mais velha dos seus 
filhos, um homem magro mas bem musculado, de pele morena, e com o cabelo grisalho - que outrora fora negro - a ficar completamente branco nas tmporas. Travava um 
debate aceso com o pai de Natalie, Pete, e com KeefeKendrick, enquanto comia, s fazendo uma pausa de tempos em tempos para se repetir quando Gramps, o av de Natalie, 
fazia uma concha com a mo por detrs do ouvido e berrava: "O que  que disseste?"
   Famlia. Tudo se resumia a isso, pensou Isaiah, sentindo-se subitamente nostlgico. Os midos cresciam, apaixonavam-se, casavam-se e tinham filhos, at que muito 
em breve uma sala de estar de boas dimenses mal os poderia conter a todos. No faltaria muito para que, aps ele e o Tucker se casarem, tivessem de arrendar um 
pavilho para celebrar as suas festividades. Mas seria ptimo, tambm. No se tratava do ambiente, fosse ele luxuoso ou improvisado. Tratava-se do pintar a manta, 
dos avs surdos, das rivalidades de irmos e das tribulaes da vida quotidiana, as quais eram ultrapassadas ou toleradas porque, subjacente a tudo, o amor fazia 
com que as pequenas irritaes parecessem bnos.
   Por mais do que uma vez, Isaiah apanhou Laura a olhar para os bebs e para as crianas pequenas com um sorriso melanclico a curvar-lhe os lbios. Quando Isaiah 
seguiu o olhar dela, desejou sentir-se presunoso e satisfeito consigo mesmo. No tinha fraldas sujas para mudar. Deixaria para os irmos esse prazer. Contudo, sentiu-se 
tambm estranhamente triste.
   Era decerto devido  ocasio, tentou convencer-se Isaiah. Qualquer festividade ou reunio familiar podia fazer com que algum se sentisse um pouco sentimental. 
S que Isaiah sabia que no era apenas isso. Ao observar os seus irmos casados, ao ver o amor e o orgulho estampados nas suas expresses quando olhavam para as 
suas mulheres e filhos, foi forado a admitir, mesmo que s para si prprio, que estava a ficar cansado de ser solteiro. Logo que a sua clnica e a sua carreira 
estivessem seguras, teria de comear a pensar seriamente em assentar.
   Nessa noite, quando a festa terminasse, o Jake, o Zeke e o Hank no sairiam sozinhos, e quando chegassem a casa no vagueariam solitrios por divises enormes 
e sem moblia, a ecoarem como tmulos. Em vez disso, cada um deles iria sair da festa com uma criana adormecida nos braos, levando com elas para casa uma parte 
do barulho, da confuso e do riso.
   Isaiah olhou pensativamente para Laura, e a sensao que o tomara pela garganta quando ela chegara avassalou-o de novo. Tentou escorra-la e, no o conseguindo, 
ignor-la desesperadamente. Mas era incapaz de tirar o olhar do lindo perfil de Laura. Querida. A palavra dava-lhe voltas  cabea sempre que ele olhava para ela. 
Adorava a forma como ela se ria, um riso leve, musical e natural. Com o tempo, passou mesmo a gostar da forma como ela falava - sempre to devagar, a escolher cuidadosamente 
cada palavra. A cadncia do discurso dela acalmava-o, talvez por o forar tambm a abrandar o seu prprio ritmo.
   Keefe Kendrick ps-se de p e bateu no seu copo de vinho de cristal com a ponta da faca.
   - Antes que este maravilhoso jantar termine, gostaria de expressar os meus agradecimentos  Mary e ao Harv pela gentileza de terem aberto a sua casa a todos ns 
- disse ele, olhando em redor da sala. - Uma multido e peras... Dar uma refeio a tanta gente no  tarefa fcil. - Sorriu e inclinou a cabea para Mary. - Um 
jantar estupendo, Mary. Nem mesmo a minha Annie conseguiria fazer melhor, e ela  uma das melhores cozinheiras deste lado da Linha Divisria5.
   Ann Kendrick corou e rejeitou o elogio fazendo beicinho e enxotando-o com um movimento da mo.
   - Ests-me a dar graxa...- disse ela. -O que  que queres?
   Keefe sorriu e piscou-lhe o olho. Depois, virou-se para o seu anfitrio.
   - Infelizmente, uma mulher no pode exibir os seus dotes culinrios a tanta gente sem fazer um grande rombo na carteira do marido, portanto alguns dos agradecimentos 
tm de ir para o chato intratvel com quem a Mary est casada. Obrigado, Harv. E agora, se no te importas, tenho de saber: onde raio foste desencantar a ideia de 
cozinhar um peru na fritadeira?
   - Programas de culinria -informou-o Gramps. - Nunca vs televiso?
   Toda a gente se riu e secundou a apreciao de Keefe acerca da refeio. Quando os elogios esmoreceram um pouco, Harv disse:
   - J chega destas coisas suculentas! Mary, est na hora da sobremesa!
   Irromperam reclamaes de todas as mesas, mas foram seguidos derisos e de preferncias declaradas em voz alta:
   - Tarte de abbora para mim!
   - Podes ficar com a de abbora. Eu quero  uma fatia dessa de noz-pec!
   - Quero gelado na minha, por favor!
   Depois da refeio, Laurae a me de Isaiah foram banidas da cozinha, por terem ambas trabalhado tanto na preparao do repasto. A namorada de Tucker, uma "pozinho-sem-sal" 
alta e magra chamada Grace, que viera para o jantar com uma; jeans Wrangler justssimas e uma camisa do Oeste com franjas, insistira em ajudar a arrumar e a lavar
a loia. Enquanto Ryan ficou a tomar conta do beb, Bethany levantava os pratos e talheres das mesas, andando infatigavelmente de um lado para o outro na sua cadeira 
de rodas, indo das mesas para a cozinha com pilhas de loia suja sobre o colo protegido por uma toalha. O pai de Isaiah e dois dos seus irmos, Tucker e Jake, arregalaram
as mangas para fazerem a parte que lhes competia.
   - Daqui para fora! - gritou o pai a Isaiah, quando ele tentou entrar na cozinha. - J ajudaste a cozinhar.
   Isaiah no fizera assim tanto, mas aceitou o dito com gratido e convidou Laura para darem uma volta a p. Depois de a ajudar a vestir o casaco e de envergar 
o seu bluso, levou-a para a noite que descia.
   - Ah, o silncio! - exclamou ele apreciativamente quando chegaram ao alpendre da frente. O barulho no o incomodava particularmente mas, para algum que no estava 
habituada a ele, parecia-lhe ser de boa educao diz-lo.
   Ela estremeceu de frio e levantou a gola do casaco. Ao longo de ambos os lados da rua, as casas com as janelas iluminadas criavam um fundo dourado e alegre para 
os carvalhos desnudados e nodosos que cresciam ao longo do separador relvado.
   - Gosto daquele barulho todo - retorquiu ela com uma risada. - Com tanta gente, nunca nos aborrecemos.
   -  verdade, mas com essa gente toda a falar ao mesmo tempo, fico com os ouvidos cansados passado um bocado.
   Ao atravessarem o caminho de cimento que ia do alpendre ao passeio, ela levantou os olhos para o cu plmbeo, rapidamente a escurecer para o breu.
   - Creio que o Inverno j est aqui.
   - Receio bem que sim - respondeu Isaiah, correndo o fecho do bluso. No crepsculo agreste, os passos deles ecoavam de forma rspida no cimento gelado, com as 
botas dela a marcarem um ritmo feminino, ligeiramente mais rpido do que o dele. Homem e mulher. O perfume dela chegava at ele, um odor leve e luminoso que lhe 
ia bem. Sempre que ele se atrevia a olhar para ela, no conseguia evitar que os seus olhos se perdessem na curva graciosa do seu maxilar e da suavidade de marfim 
da garganta dela que lhe emergia por cima da gola do casaco. - No deve faltar muito para comear a nevar.
   Pensando nas dificuldades de conduzir durante o Inverno, Isaiah ficou surpreendido quando ela disse, a sorrir sonhadoramente;
   - Adoro a neve! Tambm gosta?
   Ao virarem  esquerda para o passeio, ele abrandou o passo para a acompanhar.
   - Oh, sim - disse ele, com uma ponta de sarcasmo. - A neve  ptima. No h nada que valha termos de a raspar do pra-brisas s cinco da manh; ou descobrir, 
sempre quando estou atrasado,  claro, que as portas esto geladas e no abrem. Escorregar nos degraus  tambm estupendo. Adoro.
   Ela franziu o nariz.
   - No seja um velho rabugento. E todas as coisas boas, o que  delas?
   O olhar irritado que ela lhe lanou trouxe-lhe um sorriso aos lbios.
   - Tais como?
   - Tais como ficar sentado  janela com uma caneca de sopa quente, a ver os flocos de neve a cair...
   - H isso...- concedeu ele.
   - E fazer uma pilha de bolas de neve para uma guerra de bolas de neve...
   Ele sorriu.
   - Gosta de guerras de bolas de neve?
   - E quem no gosta?
   No, nem toda a gente gosta, pensou ele. Na verdade, no se conseguia lembrar quando estivera pela ltima vez com uma mulher que gostasse sequer minimamente dessa 
actividade. Cabelo molhado, neve a escorrer pelo pescoo abaixo, levar com uma bola de neve em cheio na cara. A maior parte das mulheres maiores de dezoito anos 
estremecia de horror s com a ideia.
   - E fazer anjos de neve - continuou ela. - No nos podemos esquecer disso.
   Isaiah podia imagin-la deitada de costas na neve, a divertir-se alegremente a agitar os braos e as pernas para criar a imagem de um anjo na neve.
   - Tambm  giro escorregar monte abaixo sobre sacos de lixo de plstico - disse ela.
   Isaiah no se conseguia recordar quando deslizara por uma encosta coberta de neve pela ltima vez.
   - No deixe de fora os gelados de neve - atalhou ele. - Quando eu era mido, mal conseguia esperar pelo primeiro nevo. Os meus pais faziam-nos sempre esperar
um bocado e s nos deixavam apanhar neve da camada de cima para haver a certeza de que no estava suja.
   - Os meus tambm faziam isso - disse ela, revirando os olhos. - Como se a neve fosse alguma vez verda-deiramente limpa. Se eu tivesse filhos, no os faria esperar.
   - Ah, deixe-se disso. A antecipao, a espera, era j metade do gozo. - Isaiah lembrava-se de estar com os irmos e a irm  janela da sala, de narizes colados
 vidraa. - Pergunto a mim prprio se os gelados de neve ainda sabem bem...
   -  claro que sim! - exclamou ela, lanando-lhe um olhar escandalizado. - Os gelados de neve so maravi-lhosos. J no faz gelados de neve?
   Isaiah deu uma risadinha.
   - Posso inferir da que a Laura ainda os faz?
   Com os delicados ns dos dedos rosados pelo frio, ela apertou para si a parte da frente do casaco e da gola.
   - Se era divertido quando eu era uma garota, decerto tambm o ser agora. Porque  que as pessoas pensam que tm de deixar de fazer todas as coisas boas quando 
crescem?
   Era uma excelente pergunta e, sem dvida alguma, uma das razes pelas quais ele tanto gostava da companhia de Laura. Ela lembrava-lhe que no devia levar sempre 
a vida to a srio.
   - -me difcil agora encontrar tempo para esse tipo de coisas... - disse ele.
   - Arranje-o - disse ela, com os olhos a brilharem como lascas de mbar cristalino ao olhar para ele. - Uma vez por dia, to-dos os dias, deveramos arranjar tempo 
para sermos de novo midos. Seno o fizermos, porqu preocu-parmo-nos? De que vale viver a vida se no nos divertirmos?
   - Tem razo - disse ele, com suavidade. - Sei que tem razo. S que  difcil pensar que h mais coisas na vida para alm do trabalho.
   Ela encolheu os ombros e suspirou, o hlito dela a sair dos seus lbios rosados num pequeno sopro de vapor.
   - Faa um lembrete para si prprio - sugeriu. -Pendure-o no retrovisor - acrescentou, sorrindo-lhe. - Uma coisa simples, como "Diverte-te Uma Vez por Dia".
   Isaiah estava mais inclinado a saborear aquele momento enquanto ele durasse. Era apenas um simples passeio num sero de Inverno mas, por qualquer razo, faz-lo 
com Laura parecia torn-lo especial.
   - Quando nevar, aposto que consigo fazer um boneco de neve melhor do que o seu! - brincou ele.
   - Nam-nam! Sou eu quem faz os melhores bonecos de neve!
   - Nunca viu os meus.
   - Est combinado!- acordou ela com uma gargalhada. -O que  que apostamos?
   Ainda a olhar para a cara dela, Isaiah esteve para propor que o vencedor levasse um beijo do vencido. Dessa forma, sairia vencedor de qualquer modo. Mas, em vez 
disso, disparou:
   - O vencido ter de cozinhar para a outra pessoa um jantar de sete pratos completo.
   Ela aquiesceu.
   - Muito bem - disse ela. Depois, franziu ligeiramente o sobrolho. - Eu desco-nhecia que sabia cozinhar...
   - E no sei - respondeu ele, ostentando um sorriso de satisfao. - Portanto, se for esperta,  melhor que me deixe ganhar...
   Ela recompensou-o com uma sbita gargalhada.
   - No  justo!
   - J concordou - retorquiu ele. - Agora no pode voltar atrs.
   Quando voltaram para a casa, tanto velhos como novos tinham-seagrupado s mesas para jogarem. Ann e Keefe Kendrick eram parceiros contra os pais de Isaiah num
jogo de pinocle6. Tucker e Grace, Hank e Carly e Zeke e Natalie estavam a jogar um turbulento jogo de cartas chamado spoons7. Noutra mesa, o jogo da canasta estava
no auge, com Bethany e Ryan a jogarem contra os pais de Natalie, Pete e Naomi. O av de Natalie estava sentado no cho, de pernas cruzadas, em frente da televiso
de plasma, completamente absorvido num jogo de basebol de Playstation.
   Isaiah abriu caminho por entre bebs a dormirem no cho em carrinhos forrados de cobertores, at descobrir duas cadeiras vagas onde ele e Laura pudessem jogar 
s damas. Acabaram por partilhar uma mesa com Jake e Molly, que estavam a jogar  pesca com todos os midos no extremo oposto. Confiante nas suas capacidades, Isaiah
no se sentia preocupado com as distraces que crianas birrentas ou com risadinhas constantes pudessem provocar.
   Trinta minutos depois, Laura tinha uma dama e Isaiah estava em srio perigo de levar uma tareia. Com o lbio inferior apanhado entre os dentes, ela lanou-lhe
um olhar inocente:
   - Desculpe... Eu disse-lhe que era boa nisto.
   - No disse nada. Disse que gostava de jogar s damas.  diferente...
   Para piorar a derrota de Isaiah, a famlia dele reuniu-se  volta delespara verem Laura a trucid-lo.
   - Fora, Laura! - incentivava Zeke. - Ele tem andado h anos a dar a todos abadas nas damas. J era tempo de levar uma surra.
   Isaiah lanou ao irmo um olhar de soslaio assassino.
   - Ds licena? Ests a interferir com a minha concentrao.
   Tucker debruou-se sobre o ombro de Laura para analisar o tabuleiro.
   - A concentrao no te vai valer de nada, mano. Ela tem-te entalado e bem...
   Isaiah lutou at ao fim. Quando Laura retirou alegremente do tabuleiro a ltima pea dele, ele lanou-lhe um longo olhar perscrutador e disse:
   - A melhor de trs.
   Ela olhou para o relgio de pulso.
   - Nem sequer pense em queixar-se de que se est a fazer tarde - avisou-a Isaiah. - Est em jogo a minha reputao de campeo.
   - Aposto dez na Laura - disse Hank, em voz alta.
   - Eh l! - exclamou Harv Coulter, metendo a mo no bolso traseiro das calas para tirar a carteira. - Eu cubro essa aposta. Ela apenas teve sorte. Ningum bate 
o Isaiah nas damas.
   Ann Kendrick deu um toque com o cotovelo nas costelas do seu marido grande e espadado. Keefe inclinou a cabea morena para ouvir o que ela dizia. Momentos depois, 
abria a carteira. Ann mostrou uma nota de vinte dlares.
   - Aposto o meu dinheiro na Laura. Ns, as raparigas, temos de nos manter unidas.
   Bethany sorriu.
   - Estou contigo, a mam tambm - disse ela, estendendo a mo para o marido, Ryan. - Dinheiro, querido. Quero apostar na Laura.
   - Eu tambm! - gritou Etta Parks. - Dez dlares na minha neta!
   - No posso acreditar nisto! -queixou-se Isaiah. - At agora s uma pessoa apostou em mim! - Depois, olhando para Tucker - Tambm vais ser um vira-casacas?
   O jogo de damas seguinte foi o centro das atenes. Algumas pessoas ficaram de p para terem melhor vista do tabuleiro. Outros, sentaram-se confortavelmente em 
cadeiras. Isaiah e Laura, que haviam comeado o primeiro jogo a rirem-se, afivelaram durante o segundo uma expresso de solene e sombria ateno a cada jogada.
   Quando o segundo jogo terminou, Isaiah estava a fazer votos de aperfeioar a sua arte de construir bonecos de neve. Caso contrrio, podia bem ver-se obrigado 
a cozinhar um jantar de sete pratos para a sua adversria.
   Isaiah lanou-lhe um olhar avaliador. Nunca como naquele momento ele apreciou tanto o brilho de inteligncia que bailava nos olhos cor de avel dela.
   - Joga xadrez? -perguntou-lhe ele.
   Ela fez uma covinha na cara, comeu-lhe a ltima pea e disse:
   - No muito. No sou muito boa.
   Isaiah tinha uma imagem a preservar.
   - Quer fazer com que o terceiro jogo seja um pouco mais interessante? - perguntou ele. -O vencedor ser o campeo absoluto.
   Ela encolheu os ombros e anuiu com a cabea. Isaiah correu a ir buscar o jogo de xadrez.
   Mas a opo dele revelou-se um erro crasso. Uma hora e meia depois, quando Laura disse "xeque-mate", ele ficou a olhar incrdulo para o tabuleiro, a murmurar:
   - No  possvel. Pensei que voc tivesse dito que no era boa nisto...
   Ela teve um sorriso matreiro e debruou-se por cima do tabuleiro para lhe segredar:
   - Menti...


Captulo Dez










   Na manh aps o Dia de Aco de Graas, Laura chegou  clnica dez minutos antes das seis. Depois de entrar no edifcio, olhou para trs e desactivou o alarme. 
Ento, no momento em que estava a reactivar o sistema, ouviu bater  porta. Sobressaltou-se, fez meno de responder ao apelo, mas depois pensou melhor. Com as mos 
a tremer, introduziu o seu cdigo pessoal e rearmou rapidamente o sistema. S ento  que se aproximou da porta das traseiras.
   - Quem ? - perguntou ela.
   - Sou eu, o James. Podes deixar-me entrar por um segundo?
   O corao de Laura falhou uma batida. Isaiah pedira-lhe que telefonasse se James alguma vez aparecesse por l quando ela estivesse sozinha de turno. Meteu a mo 
na carteira  procura do telemvel.
   - S preciso de te falar por um instante - insistiu ele.
   Apanhada em indeciso, Laura ficou a olhar para o telemvel. James.
Apesar dos avisos de Isaiah, era-lhe difcil de acreditar que o jovem tcnico tivesse alguma coisa que ver com o que se passara na clnica. O James poderia ter uma 
paixoneta por ela. Laura no discutia isso. Mas tal no significava necessariamente que fosse culpado de qualquer coisa mais. Com efeito, os seus instintos diziam-lhe 
precisamente o contrrio.
   Com um suspiro, ela deixou cair o telemvel de novo na carteira.
   - S um momento, James. Preciso de desarmar o alarme.
   Ela dirigiu-se  consola, desligou o alarme e depois voltou  porta e destrancou-a. Quando esta se abriu, James apressou-se a entrar. Envergava um volumoso anorak 
azul. O seu cabelo castanho encaracolado estava despenteado pelo vento agreste da manh.
   - Ol - disse ele, exibindo um sorriso tmido enquanto fechava a porta. - Deves estar a tentar imaginar que raio estou eu aqui a fazer...
   Laura estava a pensar exactamente nisso. O sol ainda nem sequer nascera, e aquele era o dia de folga dele. A maior parte das pessoas quereria tirar partido disso 
e dormir at mais tarde. Ela estava provavelmente a ser insensata ao deix-lo entrar no edifcio, mas, quando lhe perscrutou os olhos, no viu neles nada de sinistro.
   - E ainda bastante cedo - acabou ela por dizer.
   Ele virou-se e trancou a porta.
   - Sim, bem...- comeou ele a dizer, cruzando os braos enquanto se dirigia para ela. - Na verdade,  bom que seja cedo. Assim ningum mais sabe que eu passei 
por aqui.
   Por um mero instante, Laura sentiu-se pouco -vontade. Mas antes que a sensao tivesse tempo de se firmar, James disse:
   - Quanto  outra noite, e eu ter-te pedido para passares o Dia de Aco de Graas comigo... Quando Isaiah me ligou de seguida, quase que tive um ataque cardaco.
   - Verdade? Porqu?
   Ele suspirou e meteu os dedos pelo cabelo, com movimentos agitados.
   - H aqui uma regra no escrita que diz que os empregados no devem namorar. Pensei que ele me fosse despedir.
   - Oh, no- sussurrou Laura, com genuna consternao.
   - Oh, sim -assegurou-lhe James, acenando a cabea e coando o queixo. - s muito bonita, Laura, e no podemos negar a qumica que existe entre ns. Pelo menos, 
eu senti-a. Mas no posso pr o meu emprego em risco, de forma alguma. Espero que compreendas.
   Laura no sabia o que dizer.
   - Eu gosto mesmo deste trabalho -apressou-se ele a dizer. -O Isaiah foi impecvel por me ter deixado estudar  parte para obter as minhas credenciais de tcnico. 
No ano passado, ele at me deu tempo livre e pagou-me para que eu pudesse obter o meu certificado de raios-X. Na minha ltima entrevista, falmos em eu ir para a 
universidade no ano que vem, se calhar para me tornar um tcnico de primeira, como a Belinda. Ele est disposto a reservar o meu lugar aqui na clnica enquanto eu 
estiver fora na faculdade e a ajudar-me a pagar as propinas. Isso seria mesmo fantstico para mim.
   - Sim, seria mesmo - concordou Laura, sem estar minimamente surpreendida ao ouvir da generosidade de Isaiah.
   - Portanto, compreendes perfeitamente porque  que esta coisa entre ns tem de parar antes que nos comprometamos mais.
   - Oh, sim, claro!
   Ele olhou-a profundamente nos olhos.
   - Creio que podia ser uma coisa mesmo especial entre ns, Laura. Palavra. Mas quem pode ter a certeza? O meu futuro aqui na clnica  uma coisa assegurada. Tudo 
o que tenho de fazer  no me meter em sarilhos.
   Laura esforou-se para no sorrir.
   - Ento  isso que deves fazer, James.
   Ele lanou-lhe outro olhar emotivo.
   - Quem me dera que pudesse ser de outro modo. Algumas pessoas daqui namoraram sem que ningum se apercebesse.
   - Tiveram sorte -apressou-se Laura a dizer. - No, James, o risco  demasiado grande para ti. Pes em risco todo o teu futuro. - Depois, acrescentou, engolindo 
em seco - H coisas que no esto destinadas a acontecer.
   - Sem dvida.  s que...- ele interrompeu a frase a meio, e lanou-lhe outro olhar melanclico. - Se ao menos... Tu sabes...
   Laura pousou uma mo sobre a manga do casaco dele.
   - Mas ns podemos ser amigos. No h nenhuma lei que o proba, pois no?
   A tenso que pesava sobre os ombros de James desvaneceu-se, e ele sorriu.
   - No, no h. A amizade  consentida...
   Devolvendo-lhe o sorriso, Laura disse:
   - Ento ser amizade.
   Ele suspirou e esfregou a cara com uma mo. Depois, o seu olhar caiu penetrante sobre o dela.
   - O Isaiah no suspeita de nada, pois no? Ele pareceu-me esquisito quando me telefonou.
   - No -assegurou-lhe ela. -O Isaiah no faz a menor ideia. E um segredo s nosso.
   - Graas a Deus. Quando ele me ligou, comecei a suar frio. Estava em crer que ele nos tinha descoberto. Ele foi simptico e tudo o mais. Mas eu podia jurar que 
pressenti um toque de suspeita na voz dele.
   Laura abanou a cabea.
   - No me parece. O Isaiah tem s vezes muita coisa em que pensar. Talvez fosse isso.
   - Espero bem que sim - disse ele, inflando as bochechas ao expirar. - Ento estamos de acordo. Daqui para a frente, seremos amigos e nada mais.
   - Amigos e nada mais - repetiu Laura. Depois, espreitando o relgio, Laura foi at  porta e destrancou-a. - Fora daqui. J so quase seis. O alarme envia um 
sinal de cada vez que algum digita um cdigo. No quero que o registo mostre que comecei a trabalhar tarde. Daria azo a perguntas. Assim, posso dizer que me esqueci 
de uma coisa no carro para explicar por que razo desarmei o sistema.
   - Oh! - exclamou ele, virando-se para sair. Com a porta aberta, olhou para trs. - Obrigado por compreenderes, Laura.
   - No h problema. Fico feliz por teres vindo falar comigo.
   - Pareceu-me justo. A minha deciso afecta-te tanto a ti como a mim.
   Laura ainda estava a sorrir um momento depois, quando reactivou o
alarme. Isaiah estava certo num ponto: ela estivera envolvida no romance da vida de algum. S que no o soubera.
   Um pouco antes das dez, Laura quase que saltou para fora da sua prpria pele com o sobressalto causado pelo som de passos sobre o cimento, aproximando-se por 
detrs dela. Tentou desajeitadamente no deixar cair uma gamela de comida de co e, rodopiando, espalmou a mo que tinha livre sobre a garganta, suspirando de alvio 
ao ver Isaiah de p junto  porta da jaula.
   - Desculpe - disse ele. - No queria assust-la.
   - Bem, assustou-me mesmo. O que est a fazer aqui?
   Ele colocou as mos na anca. Nessa manh, vestia um casaco de ganga, aberto  frente para revelar uma camisa vermelha de xadrez cuidadosamente metida para dentro 
de um par de jeans Wrangler descoradas e com um cinto largo. O seu cabelo escuro assentava-lhe em ondas sedosas sobre a fronte alta, com algumas das madeixas to 
compridas que lhe tocavam as sobrancelhas.
   - H algum tempo que a Laura no fica aqui sozinha. S passei para ver se estava bem.
   Laura no pode deixar de se sentir tocada pela gentileza dele.
   - Estou ptima.
   - Nenhum problema?
   Por um instante, ela achou por bem no lhe falar da visita matutina de James, mas a honestidade era sempre a melhor poltica.
   - No houve mesmo problema, a srio.
   A expresso de Isaiah tornou-se mais preocupada.
   - O qu?
   - O James apareceu c para falar comigo.
   O msculo do maxilar de Isaiah contraiu-se.
   - Pensei que tnhamos combinado que me telefonaria se ele aparecesse.
   - Desculpe...- disse Laura, no conseguindo pensar em muito mais para sua defesa. Ter deixado o James entrar no edifcio no fora a deciso mais acertada que 
ela tomara. -Tirei o telemvel da carteira e quase que o fiz. Mas no consegui acreditar que ele consti-tusse uma ameaa.
   - E se estivesse enganada? Raios, Laura. Se o gajo  pirado da bola, pode passar de gatinho a tigre num abrir e fechar de olhos. Podia ser magoada e ficar aqui 
cada durante horas  espera de ajuda.
   - Mas ele no  pirado. O meu instinto estava certo.
   Ela prosseguiu ento a contar a conversa que tivera com James. Para o final da histria, os olhos de Isaiah brilhavam de riso.
   - Ele pensou que eu lhe telefonei naquela noite para o despedir?
   Laura confirmou com a cabea.
   - Foi o que ele disse. Creio que foi por isso que no quis ir ao jantar a casa dos seus pais. Ele estava convencido que o Isaiah andava de olho em ns.
   A boca rgida dele resvalou lentamente para um sorriso.
   - Bem, eu acertei numa coisa: ele julga-se apaixonado por si.
   Laura baixou-se para fazer uma festa de despedida ao co antes de sair da jaula.
   - J no est. Para proteger o futuro dele, acordmos em ignorar os nossos sentimentos e sermos apenas amigos.
   Isaiah deu uma risada abafada.
   - Um grande sacrifcio para ambos, suponho.
   Laura lanou-lhe um olhar inocente.
   - Claro. Penso que o James se sente mal por ter posto o trabalho acima de mim. Mas, tal como frisou, ns no somos uma coisa certa, e o trabalho . Tive de aplaudir 
o bom senso dele. Est em jogo o futuro do rapaz.
   Isaiah abanou a cabea.
   - A Laura  uma querida, sabe? Muitas mulheres ter-lhe-iam dito que ele estava a sonhar acordado e que se pusesse a milhas.
   Laura deixou tombar o fecho da jaula e abanou-o para se certificar de que esta estava bem fechada.
   - Porqu fazer isso? Ele j queria sair.
   - Nem sequer considerando que a Laura nunca se apercebera de que ele estava pelo beio?
   Laura encolheu os ombros e sorriu.
   - Ele  um bom rapaz. Eu no quereria ferir-lhe os sentimentos.
   - Foi o que eu disse, uma querida - disse Isaiah, acompanhando-a enquanto ela avanava pela coxia central. Olhando para o relgio, acrescentou - J quase que 
terminou por aqui, no  verdade?
    - Quase.
    - Que tal um almoo mais cedo?
    O convite apanhou-a de surpresa. Lanou-lhe um olhar interrogativo.
    - Almoo?
    Ele afivelou um sorriso maroto que deu a Laura um lampejo de como ele deveria ter sido girssimo quando mido.
    - Sim, sabe, isto... - disse ele, fingindo levar comida  boca. - A refeio que a maior parte das pessoas toma entre o pequeno-almoo e o jantar. Est com fome?
    O bagel que Laura comera s cinco da manh h muito que se evaporara.
    - Esfomeada.
    - Ento, combinado? H um restaurantezinho excelente na Cidade Velha. Comida fabulosa, com vista para o rio. Podemos comer uma sopa quente e ver os flocos de 
neve a cair.
    Os olhos de Laura arregalaram-se.
    - Est a nevar?
    - Esse  um dos inconvenientes de se trabalhar num grande edifcio sem muitas janelas. Pode at ocorrer uma tempestade de neve que nem nos apercebemos disso.
    Enquanto navegava por entre o trnsito de arranca-pra para chegarem ao restaurante, Isaiah teve de se questionar acerca do que estava a fazer. Almoo?O que 
 que havia com Laura que o tornava to idiota? Estava a nevar. Grande coisa. S porque ela gostava daquelas coisas brancas e ele pensou nela quando as viu cair 
no significava forosamente que ele teria de se sentar com a rapariga junto a uma janela e comer sopa ao almoo.
    Ele tinha imperativamente de dominar o comportamento impulsivo que parecia apoderar-se dele sempre que estava junto dela. No andava  procura de uma esposa, 
e uma esposa era aquilo que ele bem podia arranjar se no tivesse muito cuidado. Um almoo rpido, prometeu a si prprio. Depois lev-la-ia de regresso  clnica 
para que ela fosse buscar o carro, e desse momento em diante ele poria fim quela loucura anlesque da o metesse em sarilhos.
   - Pare! - gritou ela de repente.
   O p de Isaiah pressionou o pedal mesmo antes de ele tomar conscincia da palavra. Os traves com ABS do Hummer actuaram e depois largaram, quando o veculo entrou 
em derrapagem. Gelo. Vinha de mos dadas com a neve. Ainda Isaiah se debatia para fazer parar o pesado SUV em segurana e Laura estava j a desapertar o cinto de 
segurana e a tentar abrir a porta do seu lado.
   - Oh, meu Deus! - gritou ela. - Ele vai ser atropelado!
   Quem  que ia ser atropelado? Antes que Isaiah pudesse verbalizar a pergunta, Laura saltou do veculo. Ainda estavam numa faixa de rodagem, e havia carros a deslocarem-se 
em ambas as direces.
   - Laura?
   Deus do Cu.O corao de Isaiah subiu-lhe direito  garganta quando ela cambaleou, escorregando e deslizando sobre o gelo e a lama, ao contornar o pra-choques 
da frente do Hummer, vendo-se dela apenas o topo da sua cabea loira.
   - Laura!
   Ele abriu a porta do condutor com violncia, tentando saltar para fora do veculo, mas viu-se preso pelo cinto de segurana que se esquecera de abrir. Um carro 
derrapou at parar por detrs deles, ficando o pra-cho- ques frontal demasiadamente perto da traseira do Hummer para sossego de Isaiah.
   - Laura! - voltou ele a gritar quando as suas botas entraram finalmente em contacto com o pavimento coberto de lama. Atravs dos flocos de neve que volteavam 
no ar, vislumbrou o brilho do cabelo dourado dela. Raios. Ela corria precisamente ao longo do centro da via, ignorando os automveis que travavam e faziam pies 
para evitar atropel-la. - Perdeu o juzo? Venha j para aqui!
   Os gritos de Isaiah nem sequer fizeram Laura abrandar o passo. Deixando a porta do condutor aberta, ele arrancou numa corrida atrs dela, a gritar-lhe o nome 
a cada meia dzia de passos. A frente dele, ela parou por fim, com as suas pernas esbeltas, moldadas em ganga, muito afastadas, os braos abertos para fazer parar 
o trnsito. Isaiah calava botas de cowboy de sola de couro lisa, e ia caindo por diversas vezes enquanto corria rua acima atrs dela. Quando chegou ao p de Laura, 
os carros que seguiam em ambas as direces tinham-se imobilizado todos, e Laura estava a recolher nos braos um co beb um pouco avantajado.
   - Mas que raio est voc a tentar fazer? Matar-se? - gritou ele.
   - Oh, Isaiah, ele no  to querido?
   Laura estava com o nariz quase a tocar no focinho do cozinho. Antes que Isaiah pudesse responder que o bicho era a criatura mais desengraada em que alguma vez 
pusera a vista, j ela estava a fazer rudos a imitar beijos.
   - Mas voc est doida? - voltou ele a gritar.
   Ela arregalou muito os olhos, com um ar incrdulo.
   - Ele estava prestes a ser atropelado. Tive de o salvar!
   Os condutores dos automveis, que faziam longas filas em ambas as direces, comearam a buzinar. Isaiah agarrou o brao de Laura.
   - Temos de voltar para o jipe. Estamos a empatar o trnsito.
   Laura apertou os braos em volta do cozinho. Uma segunda olhadela ao focinho do bicho confirmou a primeira impresso de Isaiah: era o cachorrinho mais feio que 
alguma vez vira. Avantajado no o descrevia a metade. A coisa tinha patas do tamanho de panquecas, e a cabea em forma de tijolo prometia ser gigantesca na idade 
adulta. Contudo, pior do que o tamanho incrvel da cria, era a sua cor. Parecia ser parte dlmata, com orelhas de rottweiler plantadas no topo da cabea e a pele 
solta e enrugada de um shar-pei, o suficiente para a sua classificao passar defeio a horrvel. A pobre criatura era branca com manchas e pintas negras, s que 
essas manchas e pintas quase que se tocavam, criando um efeito geral azulado.
   - Vamos - disse Isaiah, levando Laura de volta ao Hummer. Uma vez chegados, disse - Os carros esto agora parados. J o pode soltar.
   Os olhos dela ficaram redondos como pires.
   - No posso fazer isso!
   Isaiah estava a comear a ter um pssimo pressentimento. Cruzou o olhar dela por cima do capot do veculo.
   - Porqu? - perguntou ele, cautelosamente.
   - Bem, porque no\
   Ele detestava quando as mulheres diziam isso. Porque no. Que raio queria isso dizer? Por experincia prpria, Isaiah sabia que aquilo geralmente prenunciava 
problemas. A sua me usava esta tctica. Assim como a sua irm, Bethany, e todas as suas cunhadas. Quando elas no tinham qualquer explicao racional para um problema, 
diziam sempre: "Bem, porque no", ou"porque sim", dando a entender que nenhum macho da espcie poderia alguma vez compreender os meandros do raciocnio delas, porque, 
na sua opinio, todos os homens eram um pouco atrasados mentais.
   - Laura - disse ele num tom que pretendia cham-la  razo - o co provavelmente pertence a algum.
   - No, senhor. No tem coleira.
   Oh, no. Atravs dos flocos de neve que flutuavam no ar, Isaiah olhou longamente para o co, ignorando o facto de os condutores estarem agora a recomear a buzinar. 
Ambos os olhos do animal pareciam ter levado um murro, metidos em duas grandes manchas negras. E as orelhas eram estranhamente assimtricas, uma parcialmente negra 
e cada para a frente, por cima do olho direito, e a outra cinzenta e a pender correctamente para o lado.
   - A ausncia de coleira no quer dizer nada num cachorrinho - tentou ele convenc-la. - H pessoas que s pem uma coleira num co quando ele  mais crescido.
   - Ele tem as costelas todas sadas. No o vou abandonar. Quase que foi morto - disse ela, olhando para Isaiah como se de repente ele se tivesse transformado num 
monstro, num desalmado assassino de cachorrinhos. - Como  que me pode pedir uma coisa dessas?
   Oh, no. Isaiah olhou para os carros. Os da faixa contrria estavam agora a recomear a andar, e a rua era estreita. Ele teria de fechar a porta do Hummer para 
eles poderem passar. Suspirou, resignado com a ideia de que aquela discusso teria de ser continuada mais tarde.
   - Ento entre no carro - ordenou ele. - Estamos a empatar o trnsito.
   - Com o cozinho?
   - Sim - respondeu ele, resignado - com o cozinho.
   Quando os trs ficaram instalados em segurana dentro do Hummer, Isaiah seguiu lentamente rua acima. Laura repetia uma lengalenga em voz baixa para o bicho, dizendo 
qualquer coisa como "pobre beb tristinho". As escovas do limpa-vidros faziam suich-uac, suich-uac, empurrando a neve que caa para pequenos montculos em ambos 
os lados do pra-brisas.
   - No pode ficar com ele, querida.
   - Claro que no posso. Mas posso encontrar um lar para o pobrezinho - disse ela, fazendo mais ruidozinhos de beijos e roando a face pela parte de cima da cabea 
do animal. - No  to querido?
   Isaiah estava justamente a pensar que ningum no seu juzo perfeito iria adoptar aquele desgraado. Ele seria a ltima pessoa a ter preconceitos baseados na linhagem 
de um co, mas aquela cria era mesmo um caso grave de fealdade. Laura segurava-o como faria a um beb, deitando-o de costas na cova do brao, colocando as suas partes 
baixas  vista. Um macho, sem sombra de dvida. E ia ser um animal enorme. Geralmente, Isaiah conseguia olhar para um rafeiro e fazer uma boa avaliao das suas 
origens; mas esta cria era uma mixrdia com uma pelagem de retalhos. Parte mastim, possivelmente. Aquelas orelhas eram contudo decerto de rottweiler, e a pele solta 
e enrugada em redor do pescoo ainda apregoavam shar-pei. Um idiota qualquer esquecera-se de deixar a cancela fechada. Se calhar vrios idiotas. Era tambm certo 
que havia uma generosa dose de sangue dlmata vertida na mixrdia.
   - Bem - disse ele alegremente -, vamos deix-lo na Sociedade Protectora antes de irmos almoar. Que tal?
   - No! - gritou ela. - E se ningum o quiser adoptar?
   Portanto, Isaiah pensou bem, ele no era o nico a achar que o bicho no era muito dotado de atractivos.
   - Um Adnis desses? Em dois dias pula fora da jaula...
   Laura empinou o queixo.
   - Ele no vai para o depsito.
   - Depsito? Minha querida, esse termo  arcaico - disse Isaiah, tentando recordar-se vagamente quando passara a chamar querida a Laura.
Pior ainda, parecia realmente apropriado. - Hoje em dia, os ces vadios so mantidos no bem-bom at serem adoptados. Tm cama e roupa lavada, tal como na clnica, 
e todos os voluntrios que adoram mesmo os animais tomam conta deles. A Sociedade Protectora dos Animais at tem um site na Net. Tem fotografias e descries de 
cada animal. Tambm anuncia na rdio. L, ele tem as melhores hipteses de encontrar um bom lar. Eles filtram os candidatos a donos com muito cuidado.
   - Acho que lhe devemos chamar Tristinho - disse ela. - No  um nome giro? Foi quase a primeira coisa que eu disse quando o vi, que ele era um pobre beb tristinho.
   Isaiah rosnou para dentro. Sabia bem que se o expressasse abertamente teria sarilho.
   - Querid...- comeou por dizer, mas refreou-se e voltou atrs. - Laura - disse ele, com uma pacincia exagerada. - Vamospensar um pouco, est bem? - Quando olhou 
para ela, o brilho intenso de inteligncia nos olhos de Laura fora substitudo por perturbada confuso. Era bvio que ela no estava na disposio para ser racional. 
- Onde  que o vai manter at lhe conseguir encontrar um lar?
   Ela limitou-se a continuar a olhar para ele. Para ele. Isaiah voltou a dirigir o olhar para a estrada, viu que o semforo acabava de cair vermelho e travou com 
tanta violncia que o cachorro quase que foi catapultado dos braos de Laura contra o pra-brisas.
   - Deus do Cu! - exclamou ele.
   - No O deve invocar para isto - disse ela com ardor. - S porque voc est irritado no o desculpa de invocar o Santo Nome de Deus em vo!
   - Desculpe - disse ele. Mas desde quando  que ela se transformou na me dele? -E s que...- S o qu? Que ele quase os ia matando a todos, incluindo o aparentemente 
satisfeito-consigo-mesmo Tristinho, por passar um sinal vermelho? - No posso ter um co, se  isso que est a pensar.
   - Ele no  um co.
   Verdade. Aquilo era uma verso pintalgada de tila, o Huno.
   - Se no  um co, ento o que ?
   - Um cachorrinho pequenino...
   Pequenino no era uma palavra apropriada para descrever aquele co. Isaiah olhou de soslaio para uma das patorras do bicho, que pendia do brao de Laura.
   - Bem, cachorrinho, co, o que quer que seja, no posso ficar com ele. Tire isso j da cabea.
   Quarenta minutos depois, Isaiah estava a fazer uma cama para o Tristinho, na arrecadao metlica que lhe servia de oficina, por detrs da sua casa. Enquanto 
ajeitava uma almofada velha sobre um monte de toalhas e cobertores, deu por si a compreender o seu pai, pela primeira vez na vida. Por mais do que uma vez, vira 
o pai a travar uma guerra verbal com a sua me, e sempre a sair vencido. Considerando que a sua me no era muito maior do que uma minorca e que Harv Coulter era 
um homem possante e bem musculado com mais de um metro e oitenta de altura, Isaiah nunca compreendera a dinmica que ocorria entre os seus pais durante uma discusso. 
Como  que um homem grande que nunca admitira o menor enxovalho da parte de quem quer que fosse, acabava sempre vencido num desentendimento com a sua mulher?
   Agora Isaiah tinha uma pista. No se conseguia lembrar de se oferecer para ter o Tristinho em sua casa, mas, de uma forma ou de outra, Laura levara-o a isso. 
Era qualquer coisa com os olhos dela. Ela olhara-o de certa forma, que em retrospectiva Isaiah poderia apenas descrever como pattica, e a nica coisa de que recordava 
depois era de estar a dizer "Bem, OK, mas s por um dia ou dois". E agora ali estava ele, a fazer a cama a um cachorro que no devia muito  beleza.
   - Oh, doura, vais gostar de estar aqui - estava Laura a dizer, naquela forma lenta e suave dela. - Vais ver. O Isaiah  veterinrio. Vai tomar muito bem conta 
de ti.
   O Tristinho emitiu um som lamentoso, meio ganido e meio rosnado. Quando Isaiah olhou por cima do ombro, viu que Laura estava agachada a fazer festas ao co, que 
agora encontrava-se enrolado em cobertores, apoiado sobre o joelho dobrado dela.
   - No se v j embora - disse Laura, erguendo os olhos. - Tenho medo que ele apanhe frio aqui.
   Estava fora de questo para Isaiah meter um cachorrinho a largar cocs e chichis dentro de casa.
   - N. Ele vai ficar ptimo. Os ces tm uma resistncia espantosa.
   - Mas ele no  um co!  ainda um beb!
   Tambm era um vigarista diplomado, pensou Isaiah. Mas isso no interessava para o caso. Laura mordera o isco, o anzol, a linha e a cana do malandrete, e Isaiah 
no conseguia arranjar coragem para lhe dizer que no. Mas o que era aquilo? Nunca tivera qualquer problema em dizer no a uma mulher. Era uma palavra simples, o 
no, e podia ser expressa de vrias formas criativas, dizendo simplesmente "No" ou dizendo "Nem pensar, querida". Em situaes prementes, ele chegara a dizer a 
uma mulher "No e NO". Mas por qualquer razo, com Laura nem sequer a verso curta e directa conseguia tomar expresso nos seus lbios.
   - Tem um cobertor elctrico?
   Deus do Cu. Se continuasse assim, daqui a pouco aquele maldito rafeiro estaria metido na sua cama, pensou Isaiah.
   - No. No  necessrio nenhum cobertor elctrico. Ele andava a vaguear pelas ruas, Laura. Esta arrecadao  suficientemente quente. Para ele,  como se fosse 
um palcio.
   - Oh, meu queridinho - sussurrou ela, num tom de dolorosa compaixo. - Quem me dera poder levar-te comigo para casa.
   - Ele vai ficar bem, Laura. Tem imensa comida - disse Isaiah, apontando para o saco de granulado para ces bebs Science Diet8 que eles trouxeram da clnica. 
- Essa coisa no  barata, sabe. E a verso canina de um bife do lombo. E tem gua e ossos para roer. Para j no falar de uma boa cama. Ele vai ficar muito bem 
aqui durante um par de dias. - Por mera precauo, Isaiah acrescentou - Ele s vai ficar aqui at voc encontrar algum que o adopte, no  verdade?
   Laura acenou afirmativamente e beijou o topo da cabea do cachorrinho.
   - Vais ficar bem, Tristinho. Vais ficar, sim...
   O Tristinho ganiu, esticando o pescoo o mais que podia para lamber a cara de Laura. Isaiah endireitou-se e ps as mos nas ancas - umapose tpica de um macho 
do cl Coulter quando se sentia ultrapassado pelas circunstncias. Ele vira o pai e todos os seus irmos casados assumirem a mesma postura quando tentavam argumentar 
com as respectivas esposas.
   - Eu no sei se consigo se passa o mesmo, mas eu estou cheio de fome. Deixemos o Tristinho a comer o almoo dele enquanto vamos comer o nosso.
   Ronco, ganido, ronco. Isaiah poderia jurar que o cachorro avantajado e pintalgado tinha o QI de um membro da Mensa International9 e estava a ficar rapidamente 
convencido de que aquele candeo em particular encarnara Romeu Montecchio numa vida anterior.
   - Vamos, querida. Acordei em recolh-lo por alguns dias. Aqui ele tem acomodaes excelentes. Que mais  que voc quer?
   Ela lanou-lhe um olhar que o fez arrepender-se de ter perguntado.
   - Eu sentir-me-ia melhor se ele ficasse dentro de casa, onde est mais quente. Ele  to pequenino e indefeso. Que tipo de pessoa abandona um cachorrinho numa 
rua movimentada do centro?
   Isaiah passou uma mo pelo cabelo.
   - No sei por que razo as pessoas abandonam animais, ponto final. Ainda mais se for uma cria, um cachorrinho - respondeu ele por fim.
   A anuncia forou Isaiah a dar mentalmente um passo atrs e tentar analisar a sua reaco irracional relativamente quele cachorrinho. Era um veterinrio. Passava 
cada hora de cada dia a dedicar-se ao bem-estar de todo o tipo de animais. Ento por que razo aquele co beb, que nunca fizera nada que merecesse aquele tipo de 
barbaridade, o fazia sentir-se to irritado?
   Em geral, Isaiah gostava de todos os animais  primeira vista, mas sentira uma antipatia imediata pelo Tristinho, decerto por Laura se ter posto estupidamente 
em perigo para o socorrer. Sempre que Isaiah se lembrava de como ela sara disparada para o meio do trnsito, forando inmeros condutores a travar a fundo para 
evitarem bater-lhe, comeava a fumegar. Pior ainda, sempre que se lembrava de como os carros faziam pies e derrapavam no gelo, sentia os testculos mirrarem at 
ficarem do tamanho de amendoins.
   Muito bem, pensou ele, isto no tem a ver com o co. Mas, se no tinha a ver com o co, com que raio teria a ver? Com a Laura, supunha. E ao admitir isso, mesmo 
que para si prprio, deixava-se arrastar para locais onde tinha relutncia em ir. Parecia-lhe muito mais seguro, em todos os sentidos, atribuir as culpas de todo 
aquele incidente ao co. Pelo menos era muito menos complicado.
   - Ele aqui vai ficar muito bem por um bocado -prontificou-se ele a dizer. - Eu tirei o dia para folga. Depois de almoarmos, venho a casa para ver como est.
   Laura suspirou. Ento, depois de ter olhado profundamente nos olhos do cachorrinho, a expresso dela tornou-se suave e luminosa.
   - Ele  to querido, no acha?
   Isaiah andou em volta do co para o avaliar. Teria algo de giro, se calhar. Por vezes, os bebs e as crias de animais eram to feios que se tornavam paradoxalmente 
atraentes.
   Depois de deixar Laura no parque de estacionamento da clnica, aps o almoo, Isaiah dirigiu-se para casa para ver como estava o Tristinho, tal como prometera. 
Acabava de virar na Old MillRoad, onde ficava a sua casa, quando o seu pager apitou. Quando telefonou para ouvir a mensagem, fez inverso de marcha e voltou a toda 
a velocidade para a clnica. Um co fizera uma incurso ao caixote do lixo dos donos e comeu os restos da carcaa de um peru embrulhada em papel de alumnio. Infelizmente, 
os donos suspeitavam que o animal engolira mais papel de alumnio do que peru.
   Belinda veio at  clnica para assistir Isaiah na operao. As radiografias preliminares mostravam um bloqueio no intestino grosso, e por isso a operao foi 
mais complicada do que Isaiah esperava. Quando ele finalmente suturou o animal, Belinda lanou-lhe um sorriso convidativo.
   - Que tal um hambrguer? Est na hora de comermos, e estou esfomeada.
   O ambiente no MacDonald's era bastante seguro e, por Belinda ter sacrificado toda uma tarde para o ajudar, Isaiah teria gostado de lhe pagar o jantar para lhe 
mostrar o seu agradecimento.
   - Desculpe, Belinda, mas tenho um jovem hspede em casa e preciso de ir ver como  que ele est.
   - Um hspede? -espantou-se Belinda, com os olhos a brilharem de curiosidade. - Conta l.
   Isaiah descreveu o atormentado resgate do Tristinho. Era uma das poucas histrias que ele contava que no precisavam de floreados para serem interessantes.
   - Oh, ele parece ser to querido! - exclamou Belinda. - Tristinho. Que nome giro!
   -  a nica coisa que ele tem de giro - disse Isaiah, passando depois a descrever o cachorrinho. - Parece que lutou com um monstrengo qualquer e perdeu. Pobrezito. 
A Laura est convencida de que consegue arranjar quem fique com ele, mas no tenho bem a certeza.
   Belinda sorriu.
   - Ora, o bicho no pode ser assim to horroroso. E, se no se arranjar outra coisa, a Laura pode ficar com ele.
   - Nem pensar. Mesmo que o senhorio dela aceitasse que tivesse um co, a casa da Laura no  de forma alguma adequada.
   - J l estiveste?
   - Sim, umas duas vezes - Isaiah visualizou as pequenas divises atulhadas de quinquilharias frgeis, e um Tristinho j crescido a atir-las para o cho com a 
cauda. - No tem jardim murado, e quase que no h espao dentro de casa para nos virarmos. Nunca iria resultar.
   O sorriso de Belinda desvaneceu-se.
   -  pena. Deus queira que uma alma caridosa o recolha. Pobre bichinho.
   Uma hora depois, Isaiah descobria que o "pobre bichinho" tinha andado a fazer uma razia na arrecadao, roendo tudo o que podia. Todo um pacote novo de toalhas 
de oficina, feitas de papel particularmente resistente e absorvente para limpar gorduras e leo, no resistira aos dentes do candeo.
   O interior da construo parecia ter sido fortemente polvilhado de papelinhos de Carnaval. Isaiah poderia limitar-se a encolher os ombros e a ir buscar o aspirador 
industrial para limpar a confuso, mas, quando pegou no aspirador cilndrico, verificou que a mangueira tinha agora uma srie de buracos. Pior ainda, o seu saco 
de esqui em nylonfora rasgado, e todos os fechos de velcro das suas botas de esqui de trezentos dlares tinham sido arrancados.
   - No! - gritou ele. - As minhas botas no!
   O Tristinho estava deitado na sua almofada, parecendo ao mesmo tempo demasiado inocente e despreocupado. Isaiah avanou pesadamente na direco dele.
   - Seu sacaninha miservel e malandro! O que mais destruste enquanto eu estive fora? Deixei-te ossos para roeres. Porque  que no afiaste os dentes neles?
   A resposta do cachorro foi um rosnido fundo e alegre. Saltou da cama dele para atacar as calas de Isaiah. Logo que conseguiu ferrar os dentes afiados na ganga, 
apoiou-se nas quatro patas e recuou, arrastando o p de Isaiah com ele.
   - Larga! Estou zangado contigo! Larga, j disse!
   Por fim, Isaiah teve de pegar no co para salvar as calas. Rosnando de novo, o Tristinho comeou de imediato a lamber a cara de Isaiah.
   - Ela devia ter-te chamado Resmungo. Melhor ainda, que tal Bafo de Velcro? Assenta-te melhor. - Isaiah voltou-se para ver se os restantes objectos guardados 
na oficina estavam intactos, e ficou satisfeito por constatar que a sua grande tenda de campismo escapara  ateno do co.
   - Bem, isto arruma a questo. Vais ter de dormir na lavandaria at que a Laura te arranje casa.


Captulo Onze










   Isaiah acordou com uivos lgubres, seguidos por uma rpida sucesso de ganidos agudos. Resmungou, voltou-se na cama para espreitar atravs da escurido do quarto 
para os dgitos vermelhos luminosos do seu despertador e meteu a almofada por cima da cabea. Duas da manh? Era fim-de-semana, uma das suas poucas oportunidades 
para ter uma boa noite de sono, e aquele estuporzinho ingrato queria levantar-se s duas da manh? Nem pensar.
   Como se pressentisse que Isaiah tapara os ouvidos, Tristinho aumentou o volume um ponto. Iip, iip, iip, uivo. Os sons reverberavam pela casa vezes sem conta, 
tornando-se cada vez mais altos. Isaiah tentou ignor-los. Tentou usar duas almofadas para bloquear o barulho, mas tudo o que conseguiu foi quase sufocar. Tentou 
at contar os ganidos como se estes fossem carneiros, numa tentativa de reconciliar o sono.
   Por fim, afastou os cobertores com um puxo, saltou da cama e avanou furioso pela casa fora.
   - Est bem, raios parta, ganhaste! - gritou ele ao abrir a porta da lavandaria. - Mas  s por um ou dois dias, ests a perceber? Logo que a Laura encontre uma 
casa para ti, sais daqui para fora!
   No preciso momento em que Isaiah dizia isso, pisou em qualquer coisa fria e viscosa com o p descalo.
   - Filho da-da-da me!
   J estava demasiadamente afastado da porta para acender a luz. A avaliar pelo cheiro, estava de p no meio de um campo de minas de coc de co. Foi a comida de 
co, pensou ele, desalentado. Era frequente as crias terem diarreia quando mudavam bruscamente de dieta alimentar.
   - Raios partam o bicho! - exclamou ele quando a porcaria se lhe meteu por entre os dedos dos ps.
   Uma hora mais tarde, depois de a lavandaria ter sido lavada e de Isaiah e de o Tristinho terem tomado um duche, os dois aconchegaram-se na cama de Isaiah para 
um longo sono invernal. Como Isaiah esperava, esta era a nica forma de ele conseguir dormir um bocado. Com um pouco de sorte, o Tristinho no iria ganir se se pudesse 
enroscar contra um corpo quente, e desta forma Isaiah acordaria se o co quisesse ir l fora fazer as suas necessidades. Enquanto os olhos de Isaiah se fechavam 
lentamente, murmurou com mau modo:
   - No te habitues a isto, parvo!
   O Tristinho emitiu uma rosnadela de alegria e enfiou o focinho hmido no sovaco de Isaiah.
   Durante o resto da semana seguinte, Isaiah repetiu o mesmo refro, ou fac-smiles dele.
   - Isto  apenas temporrio. Um co  a ltima coisa de que preciso ou que quero, percebeste?
   Estas proclamaes vinham geralmente na esteira de um acontecimento notvel, tal como o da compra da primeira cama para o Tristinho, uma coisa enorme e curva, 
feita de almofadas de espuma forradas a pele de ovelha, ou aps uma visita  loja de animais de estimao, onde Isaiah e o Tristinho podiam comprar brinquedos para 
cachorrinhos, passatempo esse que eles praticavam amide, depois de sarem da clnica ao fim da tarde. Ah, sim, o Tristinho acompanhava Isaiah ao trabalho. Era a 
nica soluo prtica possvel, disse Isaiah a si prprio. De outra forma, o Tristinho morderia tudo  excepo dos seus brinquedos, enquanto Isaiah estava ausente. 
Na clnica, o Tristinho podia andar de roda das pessoas, e no tinha muita coisa que pudesse estragar. Era tambm o lugar ideal para habituar um cachorrinho a estar 
dentro de casa, com soalhos indestrutveis e montes de adultos atentos, prontos a levar o Tristinho ao exterior anles que ele se descuidasse.
   - No vou ficar com esse co - dizia muitas vezes Isaiah a quem quisesse ouvir e, de incio, estava a falar muito a srio.
   Contudo, passada uma semana, comeou a forjar-se uma ligao entre o homem e o co. Na clnica, o Tristinho seguia os passos de Isaiah para onde quer que ele 
fosse, apenas deixando a companhia do seu relutante dono quando uma porta lhe era fechada no focinho. Em casa, Isaiah des cobriu que ter um co por companhia fazia 
com que as grandes divises vazias parecessem menos solitrias. O Tristinho apreciava particularmente os regressos a casa. A caminho da porta de entrada, ele retouava 
por todo o jardim da frente, ainda to curto de patas que por vezes desaparecia por completo nos montculos de neve. Depois, no momento em que Isaiah abria a porta, 
o cozinho corria excitado pela casa fora, a rosnar e a ladrar enquanto descobria os seus brinquedos pelo cheiro.
   Na segunda semana, Isaiah procurava Laura uma vez por dia para lhe perguntar:
   - Ento, j algum respondeu ao anncio?
   O anncio a que Isaiah se referia era uma descrio do Tristinho em trs linhas, na seco de perdidos-e-achados do Central Oregon Bargain Shopper, um pequeno 
semanrio com espao barato para anncios e que praticamente toda a gente lia.
   - No - respondia invariavelmente Laura. - Eu pergunto todos os dias  Val se algum telefonou, e at agora nada. No creio que algum o venha reclamar.
   Pelo final da semana, Isaiah chegou a uma deciso que no surpreendeu ningum a no ser a ele.
   - Cancele o anncio - disse ele a Laura. - Ningum vai reclamar o co, e no me parece que lhe v conseguir arranjar um lar. Fico eu com ele.
   - A srio? - perguntou Laura, debatendo-se para no se rir, pois era claro para todos na clnica que Isaiah se apaixonara por aquele cachorro grande e desajeitado. 
- Tem a certeza, Isaiah? Os meus amigos, os Kesslers, ainda esto a pensar em ficarem com ele.
   Isaiah franziu o sobrolho e depois abanou a cabea.
   - H montes de outros ces por a abandonados a precisarem de um lar que os acolha. O Tristinho assentou comigo. Seria uma crueldade desen- raiz-lo outra vez.
   Laura sabia que era uma maldade, mas no conseguiu resistir a dizer:
   - Contudo, voc acha que ele  feissimo. No seria prefervel arranjar um co de que gostasse?
   Isaiah franziu-lhe o sobrolho.
   - Est-se a divertir com isto, no est? Eu no gostava dele de incio, e agora voc est a gozar-me. Um tipo pode mudar de ideias, ou no pode?
   - Claro que sim - disse Laura.
   Nesse preciso momento, o Tristinho entrou nos canis. Quando viu Isaiah, desatou a correr pela coxia central, a latir e a rosnar de alegria e a abanar a cauda 
com tanta fora que todo o seu corpo se bamboleava de um lado para o outro. Laura agachou-se para receber o cachorrinho.
   - Ora bem, parece que vieste para ficar - disse ela, enquanto afagava a cabea do animal. Depois, acrescentou para Isaiah: - Um co mascote da clnica, em vez 
de um gato. Estou contente por ter resultado entre vocs. Ele precisava de um lar, e o Isaiah precisava de um co para amar. Foi com certeza o destino.
   - Talvez - disse Isaiah, agachando-se tambm.
   Ficaram em silncio por um momento, fazendo festas ao cachorrinho que se contorcia de satisfao entre os dois.
   - Eu no sabia que precisava de um co, mas se calhar precisava mesmo. Gosto sinceramente de o ter por perto. E estranho, na verdade, como  que as melhores coisas 
da minha vida so sempre as que acontecem quando eu menos as espero.
   Laura recebeu naboca um beijo hmido do cozinho. Riu-se e cuspilhou.
   - Yuck!
   O divertimento dela desvaneceu-se quando se deparou com o olhar de Isaiah.
   - O que foi? - perguntou ela.
   - Nada. Estava s a pensar.
   - Em qu?
   Um brilho matreiro bailou-lhe nos olhos.
   - Isso  para eu saber e a Laura descobrir, creio eu.
   O que Isaiah no podia dizer a Laura, o que ele mal conseguia admitir para si mesmo,  que ela era uma das coisas maravilhosas da sua vida que aconteceu quando 
ele menos esperava. Se no fosse a Laura, a clnica no estaria esplendorosa como estava, cheia de luzes e grinaldas de Natal. Se no fosse a Laura, no estaria 
planeada uma festa de Natal do pessoal. Se no fosse a Laura, o frigorfico e os armrios ainda estariam vazios sempre que ele fosse  procura de comida. Se no 
fosse a Laura, ele poderia nunca ter arranjado um co, por se considerar sempre demasiado ocupado para cuidar de um animal de estimao.
   Se no fosse a Laura. Desde que a contratara nesse fim de tarde de Outubro que ela tinha vindo sistematicamente a alterar o mundo dele. Toda a gente na clnica 
parecia rir-se agora muito mais, desde que ela andava por l. As pausas para o caf j no eram breves e desagradveis, onde as pessoas bebericavam uma mistela amarga, 
desejando terem natas ou acar. Graas a Laura, estavam bem providos de condimentos e, para acompanhar o caf, havia sempre bolachas, donuts e bolinhos de canela, 
todos eles com sabor a receita caseira. Isaiah j no se sentia to exausto quando saa da clnica  noite, porque agora comia merendas durante o dia de trabalho 
e j no exauria os seus nveis de energia a nveis to criticamente baixos.
   Laura. Quando Isaiah se tentava lembrar de como era a clnica antes da chegada dela, tinha dificuldade em recordar-se. A coisa mais estranha era aquela sensao 
de que ela sempre fizera parte da sua vida. Por esse mesmo motivo, sentia-se grandemente aliviado por no ter ocorrido mais nenhuma coisa desagradvel na clnica 
enquanto ela estava de turno. Se algum estivera a planear para que Laura fosse despedida - e Isaiah continuava a acreditar que seria esse o caso - ento os procedimentos 
de segurana melhorados que adoptara, assim como os comentrios francos que tanto ele como Tucker proferiram na reunio com o pessoal, devem ter desencorajado o 
perpetrante.
   Pelo final de uma tarde de meados de Dezembro, Isaiah estava pronto a terminar o trabalho do dia quando uma cadela rottweiler grvida deu entrada de urgncia 
na clnica. A cadela estivera em casa sozinha enquanto os donos estavam a trabalhar, e entrara em trabalho de parto. Como por vezes acontecia com as primeiras ninhadas, 
a rottweiler teve complicaes e comeou com uma hemorragia. Quando os donos chegaram a casa, a cadela estava s portas da morte. Logo que Isaiah a viu, soube que 
seria preciso um milagre para a salvar - gengivas descoradas, lbios frios, olhos baos.
   - Cesariana! - berrou ele. - Belinda, Angela, preciso de vocs, rpido!
   Todos se apressaram a preparar a marquesa e, com uma velocidade eficiente, Susan preparou a cadela. Contudo, no final, todo o trabalho foi em vo. O animal perdera 
demasiado sangue e morreu durante a operao.
   Isaiah sentiu-se muito mal com isso. Era uma cadela muito bonita, uma puro-sangue com um pedigree fabuloso. Deixou as suas tcnicas a tratarem das crias e dirigiu-se 
 sala de espera para falar com os donos da cadela, um casal que estava sentado a um canto, muito juntos. Isaiah presumiu que andassem pelos trinta e cinco anos, 
profissionais liberais, a julgar pela roupa que traziam, o homem com um sobretudo manchado de sangue, vestido sobre um fato cinzento de bom corte, a mulher com uma 
saia escura e um blazer. Estava a chorar sobre o ombro do marido, a dizer:
   - Oh, meu Deus, espero que ela esteja bem. Minha pobrezinha, pobrezinha Phoebe!
   - Boas noites - disse Isaiah, estendendo ao homem a mo direita. - Sou o Dr. Coulter.
   O sujeito bateu ao de leve no ombro da mulher e afastou-a com carinho para se levantar e apertar a mo a Isaiah.
   - Como  que ela est, doutor?
   Antes que Isaiah pudesse responder, a mulher gritou:
   - Ela entrou em trabalho de parto enquanto estvamos no emprego!
   - Ah - disse Isaiah. Ele podia ter dito que deixar a cadela sozinha perto do seu termo fora uma irresponsabilidade, mas isso ainda iria piorar mais a situao. 
Aquelas pessoas aprenderam a lio da forma mais dura e fariam melhor da prxima vez. - Isso por vezes acontece.
   A mulher aquiesceu e fungou.
   - Quando chegmos a casa, havia sangue por todo o lado. Tnhamos-lhe feito a caminha para ela ter os filhos no nosso closet- disse ela, numa voz que se tornava 
aguda e dbil. - Ela estava para ali cada como se estivesse morta.
   A experincia ensinara a Isaiah que era melhor dar as ms notcias de forma rpida e simples. Mas isso no lhe facilitava a tarefa de lhes dizer o que tinha de 
ser dito.
   - Tenho muita pena, mas a Phoebe no conseguiu sobreviver.
   A mulher tapou a cara com as mos. O homem emitiu um som estrangulado e curvou a cabea.
   - Fizemos todos os possveis para a salvar - disse Isaiah. Sentia-se sempre desamparado em momentos como aquele. - Mas chegmos tarde demais. Perdemo-la na mesa 
de operaes.
   - Eu nunca deveria t-la deixado sozinha! - gritou a mulher, por entre soluos. - Oh, meu Deus, minha pobre Phoebe!
   - Complicaes como estas no so uma coisa que qualquer pessoa possa prever - disse Isaiah com gentileza. -E sempre fcil recriminarmo-nos depois de a coisa 
acontecer, mas isso s nos faz sentir pior. Aquilo em que agora se devem concentrar  no facto de a terem amado e feito os possveis por lhe darem um bom lar. Nem 
todos os ces tm essa sorte.
   O marido atalhou:
   - E isso, querida. No comeces a culpar-te. No tnhamos forma de saber que ela iria ter problemas. - Depois, olhando para Isaiah. - Fizemos tudo para que ela 
se sentisse bem. No fazamos a menor ideia...
   Isaiah anuiu com a cabea.
   - Da prxima vez, j sabem por experincia que podem surgir complicaes. Mas no sabiam isso hoje de manh - disse ele, esperando depois que os soluos da mulher 
acalmassem um pouco. Depois, continuou: - No sei se isto servir de consolao, mas conseguimos salvar os filhotes da Phoebe.
   - Salvaram-nos? - perguntou a mulher, com os olhos iluminados de esperana.
   Isaiah sorriu.
   - Ela deixou-vos treze lindos bebs. S os vi de relance, antes de sair para vir falar convosco, mas pareciam todos saudveis.
   A mulher lanou ao marido um sorriso trmulo e lacrimoso.
   - Oh, Stanley, ouviste? Os bebs dela sobreviveram.
   Stanley abanou a cabea.
   - A me deles morreu, Nan. No podemos ficar com treze crias a trabalharmos os dois como trabalhamos.
   Isaiah levantou uma mo.
   - H  venda frmulas de leite para crias. Os ces recm-nascidos que ficam rfos do-se geralmente muito bem com elas. S tm de lhas dar no bibero de duas 
em duas horas.
   - De duas em duas horas? - repetiu Nan. - Todo o dia e toda a noite?
   Isaiah confirmou.
   - Em casos como este, a maior parte das pessoas consegue o desmame das crias em quatro semanas. Vai ser um ms bastante duro. No vos vou mentir acerca disso. 
Mas a Phoebe era uma cadela linda. Em minha opinio, as crias dela podero ser vendidas por muito dinheiro. Se calhar, considerando o retorno financeiro desse esforo, 
um de vs pode permitir-se a tirar um ms de folga.
   Stanley abanou de novo a cabea.
   - Eu posso tirar uns dias em caso de emergncia familiar, mas a morte de uma cadela no cai nessa categoria - disse ele. Depois, olhou para a mulher. - E tens 
uma exposio daqui a quinze dias. No podes largar tudo agora.
   Nan limpou a cara.
   - Tenho uma galeriailearte.
   - Ah - disse Isaiah outra vez. Era a sua expresso favorita em ocasies como aquela, descomprometida, isenta de sentido. As pessoas podiam dar-lhe o significado 
que entendessem.
   - Sabe como  - continuou Stanley, esfregando o sobrolho como se lhe doesse a cabea. - A Nan est a dar agora tudo por tudo, vinte-e-quatro horas por dia, todos 
os dias, e eu sou um director de projecto, e estou a tentar cumprir um prazo. - Olhou ento tristemente para a mulher. - Temos de ser prticos, querida. No h forma 
alguma de o podermos fazer.
   - O que esto a dizer? Que os devemos abater?
   Stanley olhou para Isaiah.
   - Haver aqui algum interessado em alimentar a bibero uma ninhada de cachorrinhos? Tem razo quando diz que a Phoebe era uma cadela linda. Tinha linhagem de 
campees alemes, e o co tambm tinha uma genealogia igualmente notvel. Dependendo da sua qualidade, as crias podero vender-se, cada uma, a um preo que varia 
entre os mil e oitocentos e os dois mil e quinhentos dlares.
   Isaiah no podia prometer nada.
   - Posso perguntar s minhas tcnicas. Talvez uma delas esteja interessada.
   - Em troca do melhor co da ninhada, estamos dispostos a desistir de todas as outras crias - disse ele, olhando depois para a mulher. - No , Nan? Algum poderia 
fazer imenso dinheiro, e ns ficaramos com um dos cachorrinhos da Phoebe.
   A boca de Nan tremia, ao tentar sorrir.
   - Oh, sim, isso seria maravilhoso.
   Isaiah assentiu.
   - Vou passar a palavra. Talvez uma das minhas tcnicas queira ficar com eles. Seno, o que querem que eu faa?
   A expresso de Stan tornou-se sombria.
   - Se ningum tiver interesse em os alimentar a bibero, no teremos outra opo seno abat-los.
   Nenhuma das tcnicas ou dos tcnicos tinha possibilidade de alimentar as crias a bibero durante o ms seguinte. Isaiah no fazia ideia do que se passava na ala 
de Tucker, mas na sua toda a gente tinha uma razo para tornar tal empresa impossvel. Trish chorou ao recusar a oferta, mas entre o seu emprego, um marido, dois 
midos e um par de airdales turbulentos, ela j mal chegava para as encomendas. Susan vivia com a me e no tinha espao para treze cachorrinhos numa casa to pequena. 
Belinda vivia num apartamento que no admitia animais de estimao, assim como Angela, James e Mike.
   Isaiah pensou em criar ele prprio os cezinhos, mas, quando analisou os aspectos prticos, constatou ser uma ideia louca. Nas primeiras duas semanas, as crias 
teriam de ser alimentadas a cada duas ou trs horas, impossibilitando que fossem deixadas na clnica durante a noite. Havia um lapso de quatro horas entre o fim 
do turno da noite e as seis horas da manh, quando a clnica abria, e passaria ainda outra hora, seno mesmo mais, antes que algum se pudesse dedicar s crias. 
Ces to pequenos tinham de ser alimentados com frequncia e regularidade. Isaiah teria de levar os cachorrinhos para casa todas as noites de modo a que no lhes 
faltasse uma mamada. O que aconteceria se ele fosse chamado de volta  clnica numa emergncia? No podia carregar treze cachorrinhos para onde quer que fosse.
   Com o corao pesado, Isaiah preparou-se para anestesiar a ninhada. Acabara de encher uma seringa com anestsico, que seria injectado no corao de cada cria, 
quando Laura entrou na cirurgia. Isaiah ficou surpreendido por a ver. Eram quase seis da tarde. O turno da tarde dela terminara duas horas antes.
   - Ol - saudou ela, ao atravessar a sala para fazer um inventrio das provises de comida, antes de sair.
   - O que  que est a fazer aqui? - perguntou Isaiah, num tom um pouco mais spero do que tencionava.
   - Estive sentada ao p do Rambo. A perna ainda lhe di.
   O Rambo, um co arraado de pit buli, saltara de um terrao para o passeio de cimento e fracturara uma perna da frente. No era indito que Laura ficasse ainda 
um bocado por ali quando um dos seus pacientes necessitava de um pouco mais de carinho mas, nesse dia, Isaiah desejava realmente que ela no o tivesse feito. No 
iria ficar satisfeita se soubesse que treze cachorrinhos estavam prestes a ser abatidos. Ele j se sentia suficientemente mal com isso. Se ela desatasse a chorar 
- e era mais que certo que o faria - ele no estava seguro de ser capaz de fazer o que tinha de ser feito.
   Seguiu-a com o olhar quando ela entrou num vestirio anexo. Quando ela saiu um momento depois, balanando a carteira enquanto vestia um casaco, descobriu os ces.
   - Oh, que queridos!
   Isaiah no se incomodara a perguntar a Laura se ela estaria interessada em alimentar as crias a bibero, pois sabia que o senhorio dela era muito rgido quanto 
a proibir animais no apartamento.
   - No olhes para eles - disse Trish a Laura, fungando audivelmente. - S te vai partir o corao. O Isaiah vai ter de os pr todos a dormir...
   - Porqu? - perguntou Laura, com os olhos muito abertos de consternao. Enquanto avanava pela sala na direco de Isaiah, o olhar dela mantinha-se fixo nas 
crias negras que se contorciam sobre uma toalha. -O que  que eles tm?
   - Nada - respondeu ele. - A me deles morreu. Os donos no os podem alimentar a bibero porque ambos trabalham. Durante os prximos quinze dias tero de ser alimentados 
de duas em duas horas, ou no sobrevivem. Depois disso, ter de ser de trs em trs horas, pelo menos, at serem desmamados.
   Laura pousou uma mo esbelta sobre um dos cachorrinhos. Isaiah sabia, pela sua expresso, que ela estava a tentar pensar desesperadamente numa forma de resolver 
o problema.
   - Esquea, querida. Saltava a tampa ao seu senhorio - disse ele, pressionando o mbolo da seringa com o polegar para fazer sair umas gotas de anestsico. -E mais 
uma dessas coisas. Todos as detestamos, mas  o lado negativo da medicina veterinria. Por vezes, dano nas nuvens quando saio daqui. Hoje, vou-me sentir capaz de 
morrer.
   -No - sussurrou Laura. O olhar dela cruzou-se com o dele, e ela repetiu a palavra, desta vez mais alto. - No. - A laringe dela oscilou quando ela engoliu. - 
No os pode matar, Isaiah. Dentro de trs ou quatro semanas, eles estaro suficiente-mente crescidos para comerem comida normal.
   Isaiah viu o corao dela a reluzir naqueles grandes olhos cor de avel.
   - Minha querida, mas que mais posso eu fazer? - Minha querida? Mas de onde  que isso veio? - No os pode ter em sua casa. Ningum mais o pode fazer, tambm. 
Treze cachorrinhos? Pense bem!
   - Deixe-me telefonar  av - disse ela, com voz trmula. - Talvez ela me deixe t-los l.
   Isaiah suspirou e colocou a proteco na agulha da seringa.
   - Okay. Avance. Realmente no me apetece nada fazer isto.
   Laura voltou ao vestirio para fazer a chamada. Momentos depois, quando ela voltou, Isaiah soube, sem ter de lhe perguntar, que a av dela dissera que no. Os 
olhos de Laura estavam marejados de lgrimas. O queixo tremia-lhe. Veio at  mesa e pegou numa das crias minsculas, de focinhito enrugado. Depois de roar a face 
ao longo do pequeno corpito negro, ela voltou a pousar a cria sobre a toalha.
   - Alcatifa nova - explicou ela, suavemente. - Interior/exterior na cozinha e nas casas de banho. Se eles sarem da caixa, estragam-lhe os tapetes.
   Ela deu-lhe um ltimo olhar agonizante, e depois saiu a correr da cirurgia. A porta fechou-se atrs dela com tal fora que oscilou nas dobradias. Isaiah seguiu-a 
pensativamente com o olhar, e depois voltou os olhos para as crias. Bolas! Detestava aquela parte do seu trabalho.
   - Talvez algum da Sociedade Protectora queira ficar com eles - sugeriu Trish com alegria forada.
   - Podamos telefonar-lhes a perguntar - concordou Belinda.
   Angela atalhou com:
   - Se isso se revelar um beco sem sada, porque no telefonarmos a outros veterinrios? Tem de haver algum por a que queira ganhar dinheiro extra a fazer uma 
boa aco.
   Isaiah foi at ao caixote de resduos de risco biolgico e meteu a seringa tapada pela abertura.
   - Tenho uma ideia melhor. Trish, tira-me um cobertor do aquecedor e tapa-me as crias, se fazes favor? No quero que elas gelem enquanto estou fora.
   - Aonde vais? - perguntou ela.
   Isaiah sorriu misteriosamente.
   - J volto.
   Laura estava prestes a entrar no seu carro quando um grito a fez parar. Reconhecendo a voz de Isaiah, ela voltou-se para olhar para trs. A vestir apressadamente 
um casaco, ele avanava na direco dela atravs do lusco-fusco, com a respirao a formar baforadas de vapor. Ela esperou enquanto ele percorria o parque de estacionamento 
coberto de gelo. Quando chegou ao p dela, Isaiah parou e olhou durante um momento para o cu que escurecia.
   - Tenho uma proposta a fazer-lhe - disse ele por fim.
   Laura atirou com a carteira para dentro do carro. Sentia-se desesperadamente furiosa e estava a reter as lgrimas.
   - Como ?
   Um sorriso indolente atravessou lentamente a boca dele, aprofundando as covas nas suas faces magras.
   - Est pronta para uma ideia realmente louca? - Os olhos dele brilhavam como prata derretida na luz que se desvanecia, em surpreendente contraste com o seu cabelo 
e a sua pele, ambos morenos. - Que tal ficar em minha casa para tomar conta dos cachorrinhos at eles estarem desmamados?
   Laura apreendeu as palavras, mas por um momento o seu significado pareceu danar dentro do seu crebro como pingos de gua numa chapa em brasa.
   - O qu?
   O sorriso dele alargou-se.
   - Eu disse-lhe que era uma ideia louca. Mas no o ser assim tanto se pensarmos um pouco nisso. Os meus soalhos so todos em madeira ou tijoleira. Uma ninhada 
de cachorrinhos no lhes pode fazer grande estrago.
   - Voc quer que eu fique em sua casa? - perguntou ela, incrdula.
   - Sim. Quando a mandei construir, dei tudo por tudo e fiz cinco quartos. Um dia, que no ser em breve, com certeza, espero casar-me e ter uma famlia, portanto 
espao no me falta. O meu irmo Jake tem uma pequena piscina de plstico para midos no celeiro. So ptimas para meter uma ninhada de ces recm-nascidos. S temos 
de lhe colocar dentro algumas toalhas a servirem de cama, e os bordos escorregadios impedem-nos de sarem. Quando eles crescerem, podemos comprar-lhes um desses 
canis portteis de grade metlica e cobrir o cho com jornais.
   Laura no sabia o que dizer.
   - Ter de os trazer consigo quando vier trabalhar - continuou ele. - Ser uma grande chatice, mas, logo que aqui chegar, pode met-los num dos canis at  hora 
de sair. Pode at ser que consiga recrutar voluntrios para os alimentar enquanto a Laura est a trabalhar.
   Quase desde o incio que Laura andava a lutar com os seus sentimentos em relao a este homem. Agora perdera a guerra. Ele tinha to bom corao! Como podia ela 
no deixar de o amar? Ele era, sem sombra de dvida, o homem mais bonito que alguma vez conhecera, e agora, ao fazer-lhe aquela proposta, convencera-a de que tambm 
era o mais caridoso. Ela queria lanar-lhe os braos  volta do pescoo e dar-lhe um grande, grande beijo.
   Mas no era uma boa situao. Ficar em casa dele era receita quase certa para uma dor de alma. Por isso, ela debatia-se para controlar os seus sentimentos para 
com Isaiah. Como  que ela esperava alguma vez conseguir isso se o via constantemente, no s no trabalho como agora tambm em casa? Iriam provavelmente partilhar 
a mesma mesa. Poderia mesmo haver ocasies em que passariam um sero juntos a ver televiso. Ela seria como um amante de chocolate a viver numa fbrica de chocolate, 
permanentemente sujeita  tentao mas impossibilitada de satisfazer os seus desejos.
   Se no fosse pelos cachorrinhos, Laura teria recusado a proposta. Mas como  que poderia alguma vez fazer isso quando havia treze vidinhas em jogo? Sim,  claro 
que ela tinha de proteger o seu corao, mas a que custo? Se olhar por ela significava que aquelas criaturinhas tinham de morrer, o preo era demasiado elevado.
   - V l -incitou-a ele, com uma risadinha - No sou propriamente um estranho... E no h segundas intenes, prometo.
   - No estou preocupada com isso - respondeu Laura, respirando fundo. Se ao menos... Borboletas de medo atacaram-lhe o estmago. -  uma proposta encantadora, 
Isaiah. Como poderei dizer que no?
   - Assim  que  - disse ele, batendo com o taco da bota numa placa de gelo que se formara no cho, lanando lascas em todas as direces. - Temos frmula de 
leite para ces recm-nascidos aqui na clnica. Um de ns pode passar hoje  noite por um centro comercial e comprar biberes de bonecas. At l, podemos aliment-los 
com uma seringa.
   Os pensamentos de Laura andavam em crculos.
   - Terei de emalar algumas roupas. E o meu frigorfico! No posso l deixar a comida a estragar-se.
   - No h problema. V para casa. Faa o que tem a fazer. Vou passar por casa do Jake para trazer a piscina e depois levo as crias para minha casa. Arranjamo-nos 
bem at voc chegar. Vou instal-las e aliment-las. Depois de fazer tudo o que tem a fazer no seu apartamento, pode passar por um centro comercial e trazer alguns 
biberes de bonecas? - prosseguiu ento a descrever o tipo de biberes de que eles precisavam. - Para facilitar o trabalho das refeies, traga treze biberes, se 
puder. Pago-lhos depois. Traga-me  o recibo.
   - No sei se consigo dar com a sua casa. No dia em que samos com o Tristinho, no reparei no percurso.
   Ele apontou para a clnica com um movimento de cabea.
   - Eu desenho-lhe um mapa.
   Aquele sero foi dos mais atarefados de que Laura se recordava. Depois de passar pelo seu apartamento para retirar comida do frigorfico e emalar objectos pessoais 
para a sua estadia em casa de Isaiah, dirigiu-se  cidade para comprar os biberes. S que encontrar biberes de bonecas com tetinas maleveis, adequadas  boca 
de um cozinho recm-nascido, no era fcil. Por fim, ela encontrou algumas numa "loja dos trezentos", com a vantagem de serem baratos, e a desvantagem de ela ter 
tido de parar em cinco lojas antes de os encontrar.
   Quando chegou  casa de Isaiah, j eram quase oito da noite. Ao estacionar no terreiro circular de acesso, ela olhou com assombro para a grande casa de toros 
de madeira,  noite to diferente do que parecera durante o dia. Havia luz amarelo-manteiga a filtrar-se atravs das grandes janelas da frente, que se estendiam 
desde o cho at ao alto vrtice da empena central. Havia empenas mais pequenas a flanque-la de cada um dos lados, ostentando janelas at ao cho que davam para 
varandas do segundo piso. Havia projectores de jardim colocados entre os arbustos que bordejavam a sapata de cimento da casa. A luz espalhava-se para cima a partir 
das plantas carregadas de neve, para banhar os troncos com uma luz cor de mbar.
   Laura acabava de sair do seu carro e empurrar o banco do condutor para a frente, de modo a tirar as coisas que trazia no assento traseiro, quando Isaiah e o Tristinho 
saram da casa. O cachorrinho latiu de alegria e veio a rebolar pelos degraus abaixo para a saudar. O sorriso de Isaiah era igualmente hospitaleiro.
   - Estava preocupado, no fosse voc ter-se perdido! - disse ele, enquanto descia os degraus com bastante mais graciosidade do que o cozinho.
   - No, o mapa era ptimo - disse Laura, pousando uma caixa de papelo no tejadilho do carro e curvando-se de novo para o interior do veculo, para pegar numa 
enorme sacola cheia de roupa. - Levei foi mais tempo do que aquele com que contava. Tive dificuldade em encontrar os biberes. A maior parte das lojas j no os 
vende.
   - As meninas j no brincam com bonecas bebs como antigamente. Encontrou alguns, espero.
   Laura ergueu um saco.
   - Treze! O empregado certificou-se de que eu os contei bem. Penso que do.
   Ele pegou no saco e abriu-o na direco da luz.
   - Mesmo em cheio. Estes do lindamente.
   Com os braos carregados de pertences, Laura fechou a porta do carro com um empurro da anca.
   - Fui a cinco lojas antes de os encontrar.
      Cinco? Meu Deus - disse ele, avanando at ao carro para pegar na caixa e na mala que estavam sobre o tejadilho do Mazda. - Deve estar estoirada!
   - Um pouco.
   Trabalhando em tandem, comearam a transportar as coisas para casa, e a deposit-las no interior logo  entrada. Enquanto andavam de c para l, falavam entrecortadamente. 
Ele disse-lhe que alimentara as crias com uma seringa e as pusera na piscina de plstico a dormirem um pouco.
   - Liguei para os donos da me. Quando os cachorrinhos estiverem desmamados, eles querem escolher o melhor da ninhada. Voc pode vender os outros e ficar com o 
dinheiro.
   Quando Laura ouviu quanto poderia render cada cachorrinho, nem queria acreditar,
   - Quanto  que disse?
   - Voc ouviu-me - disse ele, com um sorriso. - Se eles sobreviverem todos, e no vejo razo para que isso no acontea, este esforo pode ser muito rentvel.
   Laura nem sequer pensara na recompensa monetria.
   - Eu no sabia que um co pudesse custar assim tanto.
   - Ah, sim. Certas raas, pelo menos. Evidentemente, os pais tinham ambos qualidade para exposio canina. Linhagem alem, segundo disseram. Algumas das crias 
iro atingir um preo muito alto.
   Quando acabaram de transportar tudo para dentro de casa, Isaiah fechou a porta da frente e fez um gesto com a mo, abrangendo toda a casa.
   - Bem-vinda  minha humilde morada.
   Laura entrou na espaosa sala de estar, que parecia ainda maior por estar quase vazia. Um lustre de ferro forjado pendia da trave central do tecto de pinho nodoso. 
A sua luz suave combinava-se com a de um bom fogo a crepitar alegremente numa grande lareira de pedra rstica no extremo oposto da sala, para dar s paredes nuas 
um tom de mbar. Havia dois pufes vermelho-vinho em frente da lareira. Uma grande televiso de plasma completava toda a moblia da enorme sala.
   - E uma esplndida casa - disse Laura. Vazia, mas bonita.
   Ela interrogou-se por que razo no teria ele nenhum sof ou cadeiras normais, mas, antes que pudesse pensar numa forma simptica de perguntar, ele disse:
   - Estou sempre a pensar fazer alguma coisa quanto  moblia, mas parece que nunca arranjo tempo para isso.
   - Oh - exclamou Laura, retendo um sorriso. Aquilo era mesmo  Isaiah, sempre a correr de uma tarefa para outra, sem nunca o seu dia ter horas suficientes. - Encontrar 
as coisas certas requer muito tempo, e no  coisa em que nos devamos apressar. Quando compramos um sof e cadeiras, vamos ter de ficar com eles durante uns tempos.
   - Exacto - disse ele, dando-lhe um olhar apreciativo. - A Laura seria boa nisso.
   - Boa em qu?
   - A escolher a moblia. Pensei em contratar um decorador, mas, sempre que comeo a ligar, fico com receio e desligo o telefone.
   - Porqu?
   Ele suspirou e esfregou a nuca.
   - No sei. A decoradora do Tucker fez um ptimo trabalho na casa dele. S que... - fez um gesto com a mo. - Receio que ela aboneque isto como fez  casa dele, 
e eu detesto isso. Quero que a minha casa reflicta a minha personalidade, e no a de outra pessoa qualquer. Sabe o que quero dizer...
   Laura compreendia perfeitamente o que ele queria dizer. No era caso para um qualquer decorador entrar por ali dentro e criar um ambiente espectacular de revista 
de decorao, com bugigangas delicadas a atravancarem cada superfcie. Isaiah era um homem de trabalho, com um estilo de vida de ar livre. Precisava de moblia e 
de decoraes que se adequassem  sua personalidade. Laura visualizou um sof de couro e grandes poltronas, flanqueadas por mesas de madeira envelhecida - mobilirio 
rstico, confortvel, em harmonia com o estilo da casa e do homem que nela habitava.
   Ao avanar mais para o interior da sala, ela olhou para omezzanino por cima dela. Adorou a balaustrada, feita de mais troncos, nenhum deles aplainado, de modo 
que cada pilar tinha curvaturas e ns naturais que lhe davam originalidade. Umas escadas  sua esquerda faziam ngulo contra a paredec davam aiesso ao piso superior.
   - H trs quartos l em cima e mais dois c em baixo - explicou ele.
- Eu gostaria muito de lhe poder oferecer qualquer quarto, mas s o quarto de hspedes no rs-do-cho  que tem uma cama.
   Laura no conseguiu conter uma risada. Estava feliz por saber que no iria dormir no cho.
   - Aqui em baixo est ptimo.
   - E se calhar tambm  melhor - disse ele indicando com um gesto a balaustrada por cima deles. - Se algum dos cachorrinhos se escapar da piscina de plstico ali 
em cima, daria um senhor tombo.
   Laura estremeceu com a ideia.
   - Foi voc que projectou a casa? - perguntou ela, voltando-se para ver tudo.
   - Porque  que pergunta?
   - Porque  parecida consigo, de certa forma.
   Laura no tinha palavras melhores para o explicar, mas a casa lembrava-lhe Isaiah: grande, atraente, slida e honesta, no deixando de ser tambm imaginativa. 
Ela gostava dos assentos nos vos das janelas,  direita da porta de entrada. Eram mais largos do que a maioria, e eram bastante fundos, dando espao suficiente 
para uma pessoa se reclinar. Com algumas almofadas fofas e de cores vivas, providenciariam aconchegantes reas de leitura, com toda a luz natural que entraria pelas 
janelas durante o dia.
   - Deixe-me pendurar-lhe o casaco -prontificou-se ele. - Depois vou-lhe mostrar a casa.
   Quando Laura despiu o casaco para lho entregar, o Tristinho trepou-lhe pela perna a pedir festas.
   - Ol, Tristinho! Oh, sim, tambm gosto muito de ti - disse Laura, coando a cabea do animal por detrs das orelhas. - s um querido. s, s.
   - Ele  uma peste! -corrigiu-a Isaiah, enquanto fechava o roupeiro.
- Se ficar farta dele, d-lhe para trs.
   - Eu nunca me farto de ces.
   Com uma ltima festa na cabea do co, Laura seguiu o seu empregador para a sua primeira visita ao interior da casa. Por detrs da lareira de duas faces, havia 
uma espaosa sala de jantar, desprovida de moblia. Para alm dela, estava uma igualmente grande cozinha, separada da zona de estar por um comprido bar, onde se 
alinhava uma fila de bancos altos.
   - Que cozinha to bonita! - exclamou ela. - At tem bancos de bar. Que simptico. Assim podemo-nos sentar enquanto comemos.
   Ele franziu-lhe o sobrolho.
   - Continue a gozar e ainda a ponho a comprar a moblia e a decorar a casa.
   Laura quase que desejou que ele levasse avante a ameaa. Ela nunca decorara uma casa acabada de estrear. Seria divertido - e um desafio.
   - Eu queria uma cozinha gourmet-explicou-lhe ele, enquanto lhe mostrava a placa de fogo Viking a gs, os fornos duplos, um gigantesco frigorfico embutido Sub-Zero 
side-by-side e uma ilha de trabalho com montes de espaos de arrumao por baixo do balco. - Topo de gama - disse ele com orgulho, ao mesmo tempo que lhe lanava 
um sorriso envergonhado - Pena eu no saber cozinhar...
   Laura riu-se de novo. Perto de Isaiah, ela parecia fazer muito isso.
   - Talvez se possa inscrever num curso de culinria...
   Ele encolheu os ombros.
   - Pois, claro. Talvez nos meus tempos livres, no?
   - Talvez a sua futura mulher goste de cozinhar - aventou ela.
   Ele sorriu ao de leve.
   - Talvez...
   Ele conduziu-a a uma lavandaria de boas dimenses.
   - Mquina de lavar roupa, de secar...- disse ele, a sorrir, e pestanejou. - Aqui temos o detergente. - Depois, abriu uma porta para lhe mostrar a garagem para 
trs carros anexa  casa. - Enquanto se instala no seu quarto, eu meto-lhe o seu Mazda aqui na garagem -informou-a ele. - As previses apontam para queda de neve 
hoje e amanh.
   - Verdade? - a expresso de Laura iluminou-se.
   - Pois...- confirmou ele, mostrando-se bem menos entusiasmado do que ela. - Amanh vou ter de limpar a neve da entrada, certo e sabido. No faz sentido ter tambm 
de raspar a neve dos pra-brisas.
   Laura seguiu-o de novo pela cozinha, fixando o olhar em Isaiah, que se mantinha de costas voltadas. Raramente o via sem uma bata. Observou o seu cinto  moda 
do Oeste, onde o seu primeiro nome fora gravado no couro. Depois, admirou o movimento puramente masculino das ancas estreitas dele, enquanto andava. Tinha o andar 
de um homem que passara a maior parte da vida sobre uma sela.
   - Tem cavalos? - perguntou ela.
   - Ainda no. Na Primavera que vem, conto arranjar um casal - respondeu ele, olhando por cima do ombro. - Monta?
   Laura abanou a cabea.
   - H anos que no, e nem sequer montei muito.
   - Ora essa, no pode ser! Tenho de lhe dar lies de equitao. H uns percursos excelentes por aqui. Este terreno confina com terras do BLH10.
   Antes do seu acidente, Laura efectuara ocasionalmente estudos ecolgicos para esse departamento e para outras agncias governamentais.
   - Milhares de hectares, sem casas. Vai adorar.
   Laura suspeitava de que ele tinha razo; ela iria mesmo adorar. Mas era a que residia todo o problema: ela adorava tudo o que dizia respeito a Isaiah Coulter, 
adorava estar com ele. Logo que os cachorrinhos fossem desmamados, ela teria de o evitar. Teria de deixar de aceitar convites de improviso para jantar fora com ele. 
Deixar de entregar gatinhos a velhotas tristes e solitrias. Deixar de ir  cirurgia durante as pausas para caf, onde era certo cruzar-se com ele.
   Ao passarem pelo fogo, ela viu uma panela com qualquer coisa sobre um dos bicos a gs. O cheiro a sopa de tomate escapava-se por debaixo da tampa de ao inoxidvel, 
lembrando-lhe de que no jantara ainda. Isaiah conduziu-a de volta  parte da frente da casa, a uma porta posicionada por baixo da escada. Abriu os dois batentes 
e acendeu o candeeiro de tecto para iluminar um grande quarto. Quando Laura avanou para ficar ao lado dele na porta, ficou vivamente consciente da presena fsica 
de Isaiah - da sua altura e amplitude, do calor que ele irradiava do corpo e do odor fortemente masculino que exalava. Foi preciso apelar a toda a sua concentrao 
para fixar a ateno no mobilirio do quarto, uma linda cama dita "de tren", uma cmoda com espelho a condizer e um grande armrio com gavetas onde ela podia guardar 
a sua roupa.
   - Desculpe - disse ele. - Sei que est habituada a ter imensas coisas penduradas nas paredes.
   - Est ptimo -assegurou-lhe ela. E estava. A cama tinha sido feita de lavado. No tinha colcha, mas a manta de retalhos coloridos tinha um encanto muito prprio 
que ia lindamente com as paredes rsticas de troncos. Ela foi at  cama para experimentar o colcho. Quando se sentou na beira e deu um salto, as molas rangeram. 
- Confortvel. Vou dormir como um beb.
   Nesse preciso momento, os seus olhares encontraram-se. Para Laura, o ar entre eles os dois pareceu ficar de repente carregado de electricidade. Homem, mulher, 
cama a ranger. Ela ps-se de p to depressa que ficou tonta.
   Ele pigarreou, desviando o olhar.
   - Ali  a casa de banho - disse ele, apontando para uma porta. - Tem uma banheira de hidromassagem e uma cabina de duche. Creio que estar  altura das suas necessidades..- 
Voltou a pigarrear. - De qualquer modo, no teremos necessidade de disputarmos o mesmo chuveiro.
   Sentindo-se aparvalhada, Laura foi at  porta para ver a casa de banho.
   - Oh! - exclamou ela com deliciada surpresa, que contribuiu para dissipar a tenso. - Que bonita! - A banheira estava rodeada do que parecia ser um campo de ladrilhos 
verde-floresta. Por cima dela, o tecto apresentava uma clarabia em cpula de vidro, com alguns painis de vitral vermelho-rubi e verde, e outros transparentes.
   - Oh, Isaiah! - exclamou ela, imaginando plantas suspensas em redor da funda banheira, e como elas iriam medrar na luz tricolor que se derramaria pela clarabia 
durante todo o dia. Com alguns toques decorativos, aquela poderia ser uma casa de banho digna da realeza. - Foi voc quem projectou isto?
   - Mais ou menos. Fiz um esquema do que queria e contratei um tipo para desenhar os planos.
   -  linda! - Laura gostaria de poder dizer fabulosa sem ficar com a lngua presa.
   - Muito obrigado. A sute principal  ainda mais agradvel. Mas no  visitvel enquanto eu no lhe der um jeito. Sou um grande bodego.
   - A casa parece-me limpa.
   - Mulher a dias...
   -Ah.
   Quando Laura saiu da casa de banho, reparou numa pequena piscina infantil de plstico turquesa no cho, entre a cama e a parede.
   - Oh, os bebs! - exclamou ela em voz baixa.
   Ele veio para o lado dela.
   - O que eu no daria para poder dormir assim - disse ele, com uma risadinha.
   Laura agachou-se para admirar os seus protegidos adormecidos, todos os treze. Adorava os seus corpitos gordinhos, as cabecinhas macias e os focinhitos achatados.
   - Tm coraes nas caudas!
   Ele riu-se de novo e agachou-se ao lado dela.
   - Costumam ter, nessas idades. Amanh temos de os levar  clnica para lhes amputar as caudas.
   Laura no pensara nisso.
   - Oh, ui! Temos de fazer isso j? Eles ainda so to pequeninos...
   - E melhor faz-lo j. Se esperarmos at eles serem mais crescidos, doer-lhes- muito mais.
   Laura no suportava pensar no assunto.
   - Parece to cruel. Porque  que no os podemos deixar com as caudas com que nasceram?
   - Poderamos, creio eu...- respondeu Isaiah. Nesse preciso momento, o Tristinho entrou de rompante no quarto. Isaiah apanhou o turbulento cachorrinho no momento 
em que este ia saltar para dentro da piscina de plstico. - Zona interdita, pazinho! Ainda so muito pequenos para brincarem contigo. - Isaiah afagou a cabea do 
Tristinho. -O problema de no lhes cortarmos as caudas  que os rottweilers so ces enormes, e as suas caudas so muito fortes. Em adultos, deitam coisas ao cho 
e batem nas pernas das pessoas todas as vezes que abanam as caudas.
   Laura no estava em crer que aquilo fosse assim to terrvel.
   - Tambm no nos podemos esquecer que eles so puros-sangues muito caros. Os rottweilers normalmente tm as caudas amputadas. Parecero esquisitos se no as tiverem.
   Laura achava que nisso ele tinha razo. Ces com aparncia estranha poderiam ter dificuldade em encontrar lugar num bom lar.
   - Vai-lhes doer?
   Ele ponderou a questo.
   - Obviamente que nenhum cachorrinho me contou o que sentiu, mas no creio que seja assim to mau. Uma picada rpida, talvez. Aplicamos-Ihes quase de imediato 
uma pomada analgsica, e a maior parte das vezes eles adormecem logo de seguida.
   Laura suspirou.
   - Eu no quero assistir - declarou ela, inclinando-se para a frente para pegar num dos cezinhos. A viso do focinhito franzido de desagrado f-la rir-se. - No 
 to querido?
   - No  um "ele",  uma "ela"...- disse Isaiah, observando o focinhito enrugado que Laura virava para ele. - Mas  mesmo muito gira. E difcil olharmos para uma 
expresso dessas sem sorrirmos.
   Com carinho, Laura devolveu a cadelita  companhia dos seus irmos e irms.
   - Obrigada por me deixar t-los aqui, Isaiah. E muita bondade sua.
   Ele encolheu os ombros.
   - Estou to contente por os salvar quanto a Laura, e a bondade  sua. No vai ser fcil dedicar-se ao projecto em que se meteu. Vai perder muitas horas de sono 
durante as prximas quatro semanas...
   - No me importo.
   - Eu sei que no - disse ele, passeando o olhar pela cara dela, como que a querer memorizar cada linha e ngulo. - E  isso que a torna to especial.
   Depois de Laura ter desfeito as malas e arrumado as roupas e demais pertences, regressou  parte principal da casa. Isaiah estava atarefado na cozinha, a preparar 
qualquer coisa que enchia as salas com aromas de fazer crescer gua na boca. Quando a viu sair do quarto, perguntou:
   - Est com fome?
   Laura esfregou as mos nas calas de ganga. Toda aquela situao punha-a nervosa. Uma coisa era ver Isaiah na clnica e outra, completamente diferente, era ficar 
em casa dele.
   - Esfomeada - confessou ela.
   - No  nada de sofisticado, s tostas de queijo e sopa de lata.
   Laura iou uma anca para se sentar num dos bancos do bar.
   - Parece-me bom. Ainda no comi nada.
   - Tambm calculei que no. No caminho para c parei numa loja. Temos todos os ingredientes bsicos: ovos, bacon, po, alguma fruta e carne. Amanh vou fazer mais 
umas compras. Quer cozinhar enquanto estiver c, no ?
   Laura no conseguia conceber comer fora durante um ms.
   - Sim, se no se importar.
   - Se no me importar? -riu-se ele. - Vou adorar. Importa-se de cozinhar para os dois?
   - Fao-o sempre, e s vezes para quatro. O que preciso  de um livro de receitas para uma pessoa - respondeu Laura, pousando um cotovelo no balco do bar e apoiando 
o queixo na cova da mo. - Posso fazer as compras, se quiser.
   - No quero que faa despesa com a comida.
   - Porque no? Pelo menos, deixe-me pagar metade.
   Ele abanou a cabea.
   - Nem pense. Dar-lhe cama e mesa poder ser a minha contribuio por salvar os cachorrinhos. Eu podia-lhe dar dinheiro para cobrir a mercearia, mas sei que pagar 
assim  complicado para si. Se tiver receio que eu no saiba escolher os produtos, pode vir comigo quando eu for s compras. Desse modo, pode arranjar o que precisa 
para cozinhar, e eu estarei l para pagar a conta.
   - Okay- concordou Laura, esperando que ele no falasse muito enquanto percorressem o supermercado. Ela j tinha dificuldades suficientes em se recordar de tudo 
o que precisava sem distraces adicionais. - Claro.
   Com uma concha, Isaiah verteu a sopa para duas tigelas e depois voltou as tostas na grelha embutida. Enquanto ele trabalhava, Laura permitiu-se a efectuar outro
estudo sub-reptcio dele. As suas jeans Wrangler estavam largas do uso, e a fazerem balo no traseiro, mas a ganga abraava-lhe as pernas compridas o suficiente 
para mostrar o contorno poderoso das suas coxas. Ele vestia uma camisa axadrezada verde, muito amarrotada mas elegantemente metida para dentro das calas, na sua 
cintura fina. O padro geomtrico e colorido da camisa atraa a vista para o seu peito, ombros e braos, os quais estavam igualmente bem recheados de msculos, que 
ondulavam por baixo do tecido sempre que ele se movia.
   Ele levantou os olhos e apanhou-a a observ-lo. Por um momento des- confortavelmente longo, ele parou o que estava a fazer para fixar o seu olhar no dela. Depois, 
a sua boca firme fez um trejeito nos cantos, e ele voltou a sua ateno para a comida.
   Momentos depois, Laura estava a molhar bocados da sua tosta de queijo na sopa. Fazia rudos apreciativos enquanto comia.
   - Desculpe. Sei que no  boa educao molhar o po na sopa.
   - Fora. Eu tambm gosto de molhar o meu - disse ele, com as bochechas cheias, lanando-lhe um olhar provocador. - Mas no conte  minha me, est bem? Ela  
picuinhas com as maneiras  mesa.
   Laura riu-se.
   - Aha! Agora apanhei-lhe um ponto fraco!
   Caram ambos num silncio agradvel, enquanto apreciavam a refeio. Ele fazia barulho ao sorver a sopa da colher, o que ajudou Laura a descontrair e tambm a 
fazer um pouco de rudo. Quando ela deixou acidentalmente a sopa escorrer-lhe pelo queixo, ele sorriu e piscou-lhe o olho.
   Arrumaram juntos a cozinha, uma tarefa que fez o corao de Laura saltar-lhe para a garganta quando ela se virou e esbarrou violentamente com a cara contra o 
peito dele.
   - Eh l! Voc est bem? - disse ele, segurando-a pelos ombros e dobrando ligeiramente os joelhos para lhe olhar para a cara. - Isso deve ter dodo!
   Laura no sabia o que era pior, se a dor no nariz ou o formigueiro que sentia na pele onde as mos grandes dele assentavam.
   - Estou bem.
   - Quer gelo?
   - No, no - disse ela, abanando a cabea e cedendo ao impulso de esfregar o nariz. - No nos chocmos assim com tanta fora.
   Quando os pratos estavam na mquina de lavar e os balces limpos, eles lavaram os biberes de brinquedo e encheram-nos com a frmula morna. A operao de alimentar 
os ces bebs teve lugar na sala de estar, frente  lareira, com Isaiah sentado num dos pufes e Laura no outro. Sentaram-se de pernas cruzadas, cada um deles com 
uma das crias aninhada num dos braos.
   - Nunca fiz isto -confessou-lhe ela.
   Ele riu-se.
   - Com treze bocas esfomeadas para alimentar, vai-se tornar perita num abrir e fechar de olhos.
   Quando os dois primeiros cachorrinhos ficaram saciados, eles voltaram para o quarto para a segunda vaga. Mas mal colocaram os primeiros cachorrinhos na banheira 
de plstico, Laura deu-se conta de que tinham um potencial problema.
   - Oh-oh. Como  que vamos saber quais os que j alimentmos e quais os que ainda no? Eles so todos iguais!
   Isaiah pareceu perplexo por um instante, mas depois a sua expresso desanuviou-se.
   - A Laura est a falar com um gmeo idntico. Eu e o Tucker parecemos iguais, mas qualquer pessoa que nos conhea sabe distinguir-nos, por nos comportarmos de 
forma to diferente.
   - E o que  que isso me ajuda com as crias?
   Ele sorriu.
   - Diferenas de comportamento, Sherlock. As crias que acabmos de alimentar esto com sono. Est a ver? - disse ele, apontando para o par de bebs saciados. - 
Se se mexerem, esto com fome.
   Laura riu-se e pegou num "mexilho". Quando voltaram para junto da lareira, Isaiah disse:
   - A novidade disto vai-se esfumar para mim por volta das trs da manh.
   - No se preocupe; eu trouxe o meu despertador de corda. Posso lidar com as mamadas nocturnas sem ajuda.
   - Estamos no fim-de-semana. No me importo de me levantar.
   Laura no conseguia visualizar-se sentada ao lado dele num dos pufes
vestida apenas com uma camisa de noite.
   - No, no. Eu queria fazer isto. No vai ser assim to custoso.
   Sucedeu que a primeira mamada do meio da noite viesse a ocorrer s duas da manh e no s trs. Isaiah acordou em sobressalto com o som dbil de uma voz feminina. 
J tinha saltado da cama quando se lembrou dos cachorrinhos e da sua bonita hspede. Pegou nas suas jeans que estavam  beira da cama e vestiu-as apressadamente. 
O Tristinho ergueu a cabea da almofada e pestanejou, sonolento.
   - Volta a dormir, pazinho. No vale a pena levantares-te.
   O cozito voltou-se a ajeitar na cama e fechou os olhos. Isaiah vestiu uma camisa ao entrar na sala de estar. No se incomodando a aboto-la, seguiu o som doce 
da voz de Laura at ao quarto de hspedes. A porta estava aberta de par em par, e a luz que vinha do interior espalhava-se pelo cho de madeira-de-lei envernizada, 
formando um trapzio dourado. Esticando o pescoo, Isaiah espreitou pela ombreira da porta. De costas para esta, Laura estava debruada sobre a piscina de plstico, 
arrulhando e falando para os cachorrinhos. Envergava uma camisa de noite de flanela que lhe daria decentemente pelos joelhos se ela estivesse direita.
   S que no estava.
   Isaiah recuou to bruscamente que bateu com um dos lados da cabea contra a porta. Infelizmente, aquela viso fugidia das pernas nuas e esbeltas e do tringulo
sombrio no seu vrtice ficara marcada a fogo no seu crebro. Uma parte recalcitrante da sua anatomia ficou dura como uma rocha.
   Laura voltou-se, segurando um dos cachorrinhos numa das mos. Com a vista desfocada pelo sono e o cabelo em desalinho devido  almofada, ela poderia passar por
uma adolescente de doze anos se no fossem as curvas marcadamente femininas do seu corpo as quais, para consternao de Isaiah, se apresentavam em detalhe revelador
sob a flanela macia e gasta. Com o fogo da lareira apagado, a temperatura ambiente da casa tornara-se glida, e os bicos dos seios dela reagiram ao frio, tornando-se
duros e erectos.
   - Isaiah! - exclamou elasem flego. -Assustou-me! O que foi essa pancada?
   Fora a cabea dele, a bater na madeira. Mas funcionara.
- Bati  porta, para que soubesse que estou aqui. 
- Oh.
   - Ouvi a sua voz. Pensei que poderia vir dar uma ajuda.
   - No estou vestida - fez ela notar.
   Isaiah j reparara nisso, e de que maneira. Desde o primeiro momento que pusera os olhos em Laura que andava a lutar para no se sentir fisicamente atrado por 
ela. Agora estava com dificuldade em se recordar porqu. Ela era linda, doce e fcil de lidar. Ele apreciava a sua companhia e gostava dela como pessoa. Que mais 
poderia um homem desejar?
   Nada, constatou ele. Ela eia tudo o que ele alguma vez ambicionara, e mais ainda. Deus do Cu. s duas da manh era uma altura desgraada para ter esta espcie 
de epifania. Precisava de uma chvena de caf. Ou talvez precisasse que lhe examinassem a cabea. Era um solteiro empedernido. Tinha a sua vida toda planeada, e 
nenhum dos seus planos para um futuro prximo incluam uma mulher, por mais doce e maravilhosa que fosse.
   - Voc est bem? - perguntou ela.
   Raios, no, no estava nada bem. Acabara de ser atingido pela constatao de que estava apaixonado por ela. Tinha vontade de apertar o pescoo  me dele. Isto 
era tudo culpa dela. Se no fossem os mexericos dela, ele nunca teria conhecido a Laura Townsend.
   - Isaiah?
   Ele pestanejou e apurou o olhar. A imagem no mudara. A flanela nunca lhe parecera to atraente.
   - Estou ptimo - disse ele.
   - De certeza? Se calhar, devia voltar para a cama.
   Sozinho? Esfregou a cara com uma das mos. Intervalo. Precisava de pensar no assunto a fundo. Um chvena de caf poderia aclarar-lhe as ideias. Sim, era isso. 
Estava entontecido pelo sono. Logo que acordasse, iria rir-se dele prprio. Isaiah Coulter apaixonado? Nem pensar, pelo menos durante os prximos cinco anos.
   - Estou ptimo - voltou ele a dizer. Fazendo um gesto vago para trs dele, acrescentou: - Vou reacender a lareira enquanto voc prepara a frmula, est bem?
   Dirigiu-se primeiro  cozinha para fazer um muito necessrio bule de caf. Depois preparou o fogo. Enquanto estava a soprar e a abanar, tentando fazer pegar os 
gravetos, Laura foi descala at  cozinha. Ele ficou aliviado por ver que ela vestira um par de calas de treino cor-de-rosa, que iam lindamente com as rosas pequeninas 
da sua camisa de noite.
   Ao menos, o bom-senso dela no tirara frias. Uma imagem torturante da parte de trs dela refulgiu de novo nos bastidores dos seus olhos, e todos os pensamentos 
foram curto-circuitados no crebro. Eledesejava-a.O seu lado masculino no estava propriamente agradado por ela ter decidido ocultar aquelas pernas soberbas.
   Caf. Iria pensar com maior clareza - para no dizer com maior racionalidade - logo que metesse uma boa dose de cafena nas veias. Apressou-se a ir  cozinha. 
Laura estava de p junto ao lava-loias, franzindo a testa de ateno enquanto preparava a frmula. Ele encheu uma chvena de caf e bebeu um grande trago, depois 
outro. O lquido estava to quente que lhe queimou a lngua.
   Laura voltou-se para ele erguendo um bibero na mo. Ele sabia que estava perdido quando deu por si a estudar os ngulos e planos delicados da face dela, em vez
de dar uma espreitadela furtiva aos seus seios soltos por baixo da flanela.
   - Esta quantidade de gua est bem? - perguntou ela.
   Isaiah forou-se a verificar o nvel da gua.
   - Perfeita -assegurou-lhe ele; s que no estava a pensar nas propores da frmula. Ela era perfeita. E ele estava apanhado quase desde o incio. Todas aquelas
vezes que ele pensara em arranjar formas de estar com ela. O seu pnico quando ela quase que fora despedida. A sua fria para com Tucker por o irmo dar a entender 
que ela era uma mentirosa. Amara-a desde que a conhecera e s no tivera o bom senso de se aperceber disso.
   Muito bem. ptimo. Estar apaixonado no era uma sentena de morte. Recentemente, no Dia de Aco de Graas, brincara com a ideia de assentar dentro de dois ou 
trs anos. Aquilo estava apenas a acontecer mais cedo do que ele esperava. No havia problema. Sendo certo que andava bastante ocupado e que, por isso, arranjar 
tempo para passar com Laura no seria fcil. Mas isso no era um problema inultrapassvel. Andava h meses a debater com o Tucker a ideia de arranjarem um par de 
scios, de modo a que ambos pudessem dispor de mais tempo livre. Se avanassem com isso, cada um deles disporia de muito mais tempo para uma vida pessoal. Para alm 
do facto de a sua me se ir vangloriar, ele no conseguia encontrar outro bom motivo para se abster de agir segundo os seus sentimentos. No era como se ele se apaixonasse 
todos os dias da semana.
   Problema. Esta era a primeira noite que Laura passava em sua casa. Se ele se atirasse a ela - bolas, se ele sequer se atrevesse a olhar para ela de forma imprpria 
- ela iria provavelmente pensar que ele era um crpula libidinoso que a conduzira quela situao, esperando t-la no papo.
   - Tem a certeza de que est bem? - perguntou ela.
   Ele voltou bruscamente  realidade.
   - Estou ptimo. O caf ajudou.
   E ajudara mesmo. Agora conseguia pensar com maior clareza, e o facto de estar apaixonado por ela no parecia j to alarmante. A sua principal preocupao, agora 
que o seu crebro estava a trabalhar com todos os cilindros, era como proceder com ela. Devagar, decidiu ele. Se ele deixasse escapar de repente que estava apaixonado 
por ela, arriscava-se a afugent-la.
   E ele no podia permitir que isso acontecesse.


Captulo Doze










   Ocorreram mais duas mamadas durante a noite e, pelas seis da manh seguinte, quando Isaiah encarou a piscina de plstico, os devaneios romnticos eram a ltima
coisa que lhe passava pela cabea. Treze cachorrinhos, por mais pequenos que fossem, conseguiam fazer muita porcaria quando eram alimentados de duas em duas horas.
Depois de examinar as toalhas sujas atravs de olhos semicerrados de sono, achou que uma chvena de caf deveria preceder a desagradvel realidade da limpeza que
teria de efectuar.
   Isaiah ajudou Laura a dar de mamar aos cachorrinhos enquanto a mquina de caf aquecia. O Tristinho contorceu-se e avanou a bambolear-se pelo meio dos pufes,
cheirou o cachorrinho aninhado no brao de Isaiah e depois soltou uma rosnadela tristonha.
   - Acho que ele est com cimes - disse Laura.
   Isaiah riu-se e segurou o bibero com o queixo enquanto fazia uma festa ao Tristinho.
   - Gosto muito de ti, palerma! Nenhum outro co te ir tirar o lugar no meu afecto.
   O Tristinho emitiu um novo queixume, o que fez Laura dar uma gargalhada.
   - Ele j ouviu essa conversa mole antes...
   Isaiah sorriu, pensativo, e continuou a dar de mamar ao cozinho. Conversa mole? Ele no imaginava que experincia Laura tivera com homens antes do acidente que
sofrera, mas era claramente bem versada nos seus estratagemas traioeiros. Tomara uma deciso sensata na noite anterior. A situao precisava mesmo de algum tempo.
   Quando a ltima cria foi colocada de novo na sua cama, Isaiah traou uma rota directa para a cozinha, pensando que Laura o iria seguir. Estava bem a meio da sua 
primeira caneca de caf quando se apercebeu de que ela no tencionava ir ter com ele, e foi  sua procura. Encontrou-a na lavandaria, a cantarolar a msica do Frosty 
the Snowman, enquanto passava por gua as toalhas sujas de coc de cachorrinho antes de as meter na mquina de lavar roupa. Ao contrrio dele, ela no cedeu  tentao 
de beber uma chvena de caf. Nem sequer se vestira. Tal como um soldadinho em misso, ela estava a cumprir o seu dever antes de dar ateno s suas necessidades 
pessoais.
   - O que  que est a fazer?
   Com olhos ainda baos de sono, o cabelo espetado em todas as direces com uma cauda de galo a erguer-se no topo, Laura estava demasiado bonita para ser real 
quando se voltou para cruzar o olhar com o dele.
   - Estou a cuidar dos cachorrinhos - respondeu ela, com a voz ainda rouca de sonolncia. - E o que  que est a fazer?
   Isaiah teve vontade de esconder a sua caneca por detrs das costas. Em vez disso, pousou-a no balco e disse:
   - A revez-la. V, beba um caf e tome um duche.
   - Mas isto  o meu trabalho.
   - O nosso trabalho -corrigiu-a ele. - Nunca foi minha inteno que a Laura fizesse tudo.
   - Mas...
   - No h mas - disse ele, erguendo uma mo - Eu queria salvar os cachorrinhos tanto quanto a Laura. S que no tinha forma de o conseguir fazer sozinho. Se trabalharmos 
juntos, nenhum de ns ficar sobrecarregado.
   Ela sacudiu uma toalha uma ltima vez por baixo da torneira aberta.
   - Se me vai ajudar, ento insisto para que partilhemos os lucros quando os cezinhos forem vendidos.
   Isaiah estava-se nas tintas para os lucros. Mas sabia que a Laura tambm no estava muito preocupada com o lado financeiro da questo.
   - Negcio fechado - disse ele. - Voc j lavou metade das toalhas. Deixe-me lavar a outra metade.
   Ela aquiesceu, lavou as mos e limpou-as a uma toalha limpa que pendia de um gancho por cima do lavatrio.
   - Eu voltei a forrar a piscina com toalhas limpas. Os cachorrinhos esto todos a dormir pro-fundamente.
   - Boa. Isso d-nos tempo de tomarmos um duche e de arranjarmos um pequeno-almoo.
   Trinta minutos depois, Isaiah estava a sair da cabina de duche quando um aroma delicioso lhe chegou s narinas. Apressou-se a vestir-se e a fazer a barba. Depois, 
seguiu o aroma atravs da casa e encontrou Laura de p junto  sua placa de fogo Viking novinha em folha. Envergava um avental improvisado feito de um pano para 
loua, por cima de um par de jeans lavadas e de um casaco de malha verde. Isaiah no sabia se era dos aromas apetitosos que enchiam a cozinha ou da prpria mulher, 
mas deu-lhe vontade de a comer. O Tristinho jazia aos ps dela, olhando-a em adorao.
   - No lhe est a dar de comer, pois no?
   Ela lanou-lhe um olhar inocente.
   - Credo, no! - disse ela. Mas, apesar de negar a acusao, deitou um bocado de salsicha ao cozito de plo sarapintado e pele enrugada. - Ele era capaz de se 
tornar um pedinchas...
   E Isaiah no o censuraria. A comida nunca lhe cheirara to bem.
   - Mmh! - disse ele, levantando as tampas que cobriam duas das frigideiras, e viu bolinhos de batata numa delas e salsichas na outra. -O que  que est no forno?
   - Biscoitos.
   - Caseiros? - Pergunta estpida. Ele no tinha massa de biscoito no frigorfico. - Morri e estou no Cu.
   - So s biscoitos simples, tipo bolinhos - disse ela, pegando numa batedeira para bater uns ovos com leite. - Nada de especial.
   Este era o primeiro verdadeiro pequeno-almoo - a primeira refeio a srio, com efeito - a ser cozinhado na sua cozinha topo de gama.
   - Para mim, qualquer tipo de biscoitos  especial. O que  que posso fazer para ajudar?
   Segundos depois, Isaiah estava a colocar toalhetes de papel a servirem de toalhas individuais sobre o balco do bar e a retirar condimentos dos armrios e do 
frigorfico. Crescia-lhe gua na boca quando Laura serviu a refeio, biscoitos caseiros salpicados com manteiga e mel, bolinhos de batata, salsichas fritas no ponto 
e ovos mexidos bem fofos, tudo acompanhado de sumo de laranja.
   Isaiah comeu como um cavalo. Depois, ele e o Tristinho ajudaram a limpar a cozinha. A tarefa do Tristinho consistia em ficar sobre as patas traseiras, com as 
patas da frente apoiadas na porta aberta da mquina de lavar loua, para lamber os pingos de gema de ovo e de gordura de salsicha no momento em que estes atingiam 
a superfcie de ao inoxidvel.
   - Aquilo  nojento...-queixou-se Isaiah.
   - Ele no est a fazer mal nenhum - contraps Laura. - A lavagem vai matar todos os micrbios.
   O Tristinho lanou a Isaiah um olhar presunoso e comeou a lamber os dentes de um garfo. Quando a mquina de lavar loua comeou a zumbir laboriosamente, era 
hora de dar novamente de mamar aos cachorrinhos. Laura soltou uma risadinha ao pegar num dos minsculos rottweilers e meter-lhe a tetina de um bibero na boca.
   - Ele  to querido!
   Isaiah ficou satisfeito por ela ter acertado desta vez no gnero do co.
   - So muito queridos - concordou ele.
   Na verdade, Isaiah achava que Laura  que era a querida ali. Levantara-se de duas em duas horas, durante toda a noite, num horrio que faria qualquer pessoa ficar 
rabugenta. Em vez disso, ela sentou-se num pufe, de pernas cruzadas, parecendo fresca como uma alface, bem desperta e pronta para tudo. Ningum iria adivinhar que 
ela dormira aos bocados, num total de seis horas.
   - Precisamos de ir comprar coisas a uma mercearia - disse ele, quando devolveram o ltimo cachorrinho  sua cama feita de lavado.
   - Isaiah, no tem de ir  clnica hoje?
   - Este fim-de-semana  a vez do Tucker trabalhar no sbado. Eu estou de folga, a no ser que haja uma emergncia fora de horas. Partilhamos tudo o que d entrada 
aos domingos.
   - Vamos ao Safeway?- perguntou ela alegremente.
   Isaiah no tinha preferncia por qualquer loja em particular.
   - Claro, o Safeway est ptimo.
   - Perfeito. Conheo todos os corredores. Isso  impor-tante para uma pessoa como eu.
   Quarenta minutos depois, Isaiah estava a bater o p. Laura fazia as compras com uma lentido exasperante, retirando coisas das prateleiras para ficar a olhar 
para elas, mas raramente colocando um artigo no carrinho. Por fim, apercebeu-se de que ela tinha dificuldade em ler as etiquetas, e apressou as coisas ajudando-a 
a encontrar aquilo que ela precisava. Pouco depois, estavam a mover-se pelo supermercado a um ritmo mais rpido, com o carrinho cheio de comestveis.
   Ao passarem pela caixa, Isaiah deu por ela a olhar para a capa de um novo romance de mistrio. Quando lhe perguntou se ela o queria comprar, Laura abanou a cabea.
   - Tenho de esperar at que eles saiam em cassete - disse ela, com ar tristonho.
   Isaiah esperou que ela desviasse o olhar e meteu vrios romances no carrinho. Enquanto Laura estivesse em sua casa, no havia razo para ele no lhos ler  noite.
   Ao sarem do supermercado, Laura ficou a olhar saudosamente para as rvores de Natal que estavam alinhadas ao longo da fachada do edifcio. Isaiah no tinha hbito 
de decorar a casa para o Natal. Quando queria ver iluminaes natalcias, ia visitar os seus pais ou um dos seus irmos casados. Sem confuses, sem maadas. Quando 
terminava a quadra festiva, no tinha a trabalheira de desmontar uma rvore ou de arrumar montes de decoraes.
   Problema. Agora, ele tinha mais algum na sua vida - algum muito querido que suspirava por uma rvore de Natal. Depois de carregarem as compras na traseira do 
Hummer, Isaiah levou Laura de volta ao supermercado. Os olhos dela abriram-se de alegria quando ela se apercebeu de que ele queria comprar uma rvore.
- Escolhe...-disse-lhe ele. Curiosamente, comeava a trat-la por tu.
   Cinco minutos depois, estavam num viveiro de rvores do outro lado da cidade. Escolher uma rvore de Natal era para Laura um assunto srio. Ela andava em volta 
delas. Observava cada ramo com olhar crtico. Aquela rvore tinha um aspecto frgil. Outra tinha uma copa espigada demais. Isaiah comeava a recear que nunca fossem 
encontrar uma rvore que agradasse a Laura, quando ela deu finalmente com um abeto que lhe agradava.
   - O que achas? -perguntou-lhe ela.
   - E uma bela rvore - concordou ele, to contente por ela ter encontrado algo que lhe agradasse que teve ensejo de lhe beijar os ramos. - Vamos lev-la.
   Ela franziu o sobrolho, indecisa.
   - Se calhar, devamos ver mais algumas.
   Isaiah olhou para o relgio.
   - Temos de dar a mamada aos cezinhos, lembra-te.
   Pressionada pelo tempo, Laura decidiu-se pelo abeto. Quando prendiao abeto ao tejadilho do Hummer, Isaiah lembrou-se de que no tinha nada para pendurar nele. 
Depois de correrem para casa para guardarem a comida e darem de mamar aos cachorrinhos, voltaram  cidade para comprar luzes e enfeites. Isaiah detestara sempre 
fazer compras e tencionava pegar em algumas coisas - alguns fios de luzes, vrias caixas de bolas e talvez uma ou outra grinalda. Mas, mais uma vez, Laura elevou 
a tarefa de comprar enfeites de Natal a um nvel completamente diferente. Por Isaiah ter uma casa de troncos, nada mais serviria que no fosse rural.
   Ela levou-o a uma loja especializada em decoraes de Natal. Em vez de luzes vulgares, Isaiah comprou lmpadas de balo  antiga. Em vez das habituais bolas de 
vidro espelhado, levou ornamentos feitos  mo - pais natais, ratinhos girssimos vestidos como gente, ces, gatos, cavalos, vacas, anjos de todas as formas e tamanhos, 
e sabe Deus o que mais, com grinaldas que se pareciam com as fiadas de pipocas que ele e os irmos penduravam na rvore h tantos e tantos anos.
   Para sua surpresa, Isaiah estava a gostar de fazer aquilo. Havia cerca de vinte rvores de Natal j decoradas na loja, e todos os enfeites estavam para venda. 
Passou quase vinte minutos de volta de uma rvore enfeitada s com ces,  procura de um Tristinho em miniatura. Infelizmente, o cachorrinho rafeiro era nico no 
gnero. Assim, decidiu-se por um dlmata, um shar-pei e um rottweiler, para representar a ascendncia confusa do Tristinho.
   A despesa final ultrapassava os trezentos dlares.
   - Oh, isso  muito! - exclamou Laura, quando o empregado lhes fez a conta. - Vamos devolver algumas coisas.
   - No, no vamos nada - disse Isaiah, entregando o seu carto de crdito. - Gosto disto tudo. E so coisas que vo durar anos, no  verdade?
   - Sim, mas...
   - Levamos tudo - disse Isaiah ao empregado.
   Quando regressaram a casa, voltaram a dar de mamar aos cachorrinhos e depois levaram para dentro as compras. Isaiah montou a rvore em frente das janelas da sala 
de estar, enquanto Laura foi  cozinha.
   - No podemos enfeitar uma rvore sem um pouco do vinho generoso do meu av Jim- disse ela por cima do ombro.
   Quando Isaiah foi ter com ela alguns minutos depois, Laura j se tinha apoderado de uma garrafa demerlot de setenta dlares da garrafeira dele e tinha o contedo 
a aquecer numa panela. Ele no teve coragem de lhe dizer que ela acabara de abrir um vinho premiado do famoso Vale Willamette, do Oregon, que ele estava a guardar 
para uma ocasio especial. S de a ver na sua cozinha j tornava a ocasio suficientemente especial para ele. Ela acrescentou ao vinho um pouco de sumo de laranja, 
paus de canela e outras especiarias. A mistela cheirava divinamente.
   - Quando  que eu posso provar? - perguntou ele.
   - Precisa ainda de apurar mais um bocado -informou-o ela.
   Enquanto o vinho apurava, eles penduraram as luzes na rvore. Depois, voltaram  cozinha para beberem canecas do vinho quente e especioso.
   - Mmh - exclamou Isaiah quando provou o vinho. -Isto  fabuloso, Laura!
   Ela fez uma covinha na cara e aquiesceu.
   - Agora estamos prontos para enfeitar a rvore.
   Isaiah aprendia depressa. No era permitida nenhuma colocao aleatria dos ornamentos. Cada enfeite tinha de ser pendurado no lugar preciso.
   Mais tarde nessa noite, quando eles recuaram um pouco para admirarem o projecto terminado, estavam j ambos um pouco tocados. Isaiah sentia-se satisfeito e feliz 
como h muito no acontecia. As luzes de Natal conjugavam-se com o rubor da lareira para encherem a sala de estar com uma calorosa alegria, fazendo-a assemelhar-se 
a um lar mais do que alguma vez parecera desde que ele se mudara para l.
   -  a rvore mais bo-nita que j vi...- murmurou Laura.
   - Linda - concordou ele, s que j no estava a admirar a rvore. Na luz trmula, Laura parecia to bela, com o cabelo a brilhar como ouro derretido, os olhos 
luminosos e a pele imaculada a irradiar luz. Ele nunca desejara tanto na vida beijar algum. Infelizmente, no achava que fosse sensato por enquanto deixar-se levar 
pelo impulso. Com uma mulher - neste caso, a mulher - a escolha do momento era tudo. Por isso, limitou-se a dizer:
   - Agora s preciso de alguma moblia.
   Ela olhou em redor, para a sala vazia.
   - Vais arranj-la, a seu tempo.
   - Eu quero alguma agora - afirmou ele, forando o pensamento a seguir canais mais seguros, voltando-se para observar a sala. - Ajudas-me a escolh-la, Laura?
   - Eu?
   Ele no podia deixar de achar piada ao tom de incredulidade dela.
   - Sim, tu. Gosto deveras do teu apartamento. Faz-me lembrar a casa dos meus pais. Pegaste num pequeno rectngulo de espao habitvel e transformaste-o num lar.
   - Obrigada.
   O olhar dele foi ao encontro do dela.
   - Ajudas-me a tornar esta casa num lar, tambm.
   A expresso dela era de incredulidade; abanou a cabea.
   - Por favor?
   - Eu no saberia por onde comear. Esta casa  tua. Deveria reflectir quem tu s.
   - Conheces-me bastante bem - respondeu ele, fazendo um gesto que abrangia o vazio em volta deles. - Agora que a rvore est montada, isto parece to despido, 
to vazio - disse ele. - capaz de ser divertido. Diz que sim.
   Ela esfregou os braos e rodou meia volta.
   - Quanto  que queres gastar?
   - O que for preciso. Eu ganho bastante dinheiro e, como podes constatar, no gasto muito dele. Ajuda-me a estoirar alguns milhares.
   Ela riu-se e rodou mais uma vez para observar a sala.
   - Couro - disse ela com suavidade. - Precisas de um ambiente rstico de rancho nesta casa. Gostas do ar livre. Os a-nimais so uma grande parte da tua vida. No 
te sentirs em casa se a decorao for muito elaborada.
   Isaiah concordou inteiramente. S esperava que ela tambm satisfizesse o seu prprio gosto, para alm do dele, j que, num dia futuro, se ele conseguisse o que 
almejava, a casa que ela iria criar seria para eles os dois.
   Na semana seguinte, Laura estava de novo escalonada para o turno da noite, a comear segunda-feira. Isaiah prontificou-se a tratar dos cachorrinhos, de modo a 
que ela no tivesse de os levar consigo para a clnica, mas Laura declinou a oferta. Ele trabalhava muitas mais horas do que ela, e precisava de pelo menos oito 
horas de sono ininterrupto, enquanto que ela podia passar pelas brasas se necessrio fosse. Laura comprou um grande cesto de vime para poder transportar os cachorrinhos 
e, uma vez no trabalho, dividia o seu tempo entre os seus afazeres habituais e dar de mamar aos cachorrinhos. Isso tornou o seu turno no s mais desgastante como 
tambm mais longo. Com os cachorrinhos para cuidar, ela verificou ser-lhe impossvel completar todas as suas tarefas habituais no mesmo espao de tempo.
   Nessa semana, quando ela regressava a casa, geralmente pelas quatro da manh, Isaiah j estava a dormir. Por vezes, o Tristinho saltava do quarto para a receber, 
mas, aparte isso, Laura passava uma meia hora sozinha a tentar descomprimir antes de se ir deitar. Quando se levantava, por volta do meio-dia, j Isaiah sara h 
muito para o trabalho, e ela no o via at ele regressar ao fim da tarde, alguns dias mais cedo do que outros, de modo a poderem ir juntos comprar moblias.
   Com as idas s compras a complicarem as horas do sero, Laura fez bom uso da panela elctrica de Isaiah, preparando de antemo o jantar para ambos e deixando-o 
a apurar at eles regressarem. Isaiah parecia no se importar. Louvou-lhe a carne assada e a salada de legumes e serviu-se por trs vezes de galinha com pezinhos 
assados que ela fez.
   O ritmo febril deveria ajudar Laura a evitar andar de cabea no ar, mas aconteceu precisamente o inverso. Quando as moblias comearam a chegar, ela deu por si 
a sentir-se proprietria dos aposentos,  medida que estes comeavam a tomar forma. Laura, s uma parva, a teceres sonhos impossveis. Aquela casa no era sua, e 
nunca viria a ser, assim como Isaiah no era o seu homem e nunca viria a ser. Mas ela no conseguia deixar de sonhar.
   Ao tentar escolher a parede perfeita para pendurar uma paisagem de montanha, pintada por um artista local, ela sonhava. Ao preparar as refeies para meter na 
panela elctrica, ela sonhava. Ao dar as boas-vindas a Isaiah, quando este regressava  noite a casa, ela sonhava. E desejava.
   Convenceu-se de que aquilo era tambm por culpa dele. Ele tinha uma certa forma de lhe sorrir que a fazia sentir-se a pessoa mais especial do mundo, e por vezes 
poderia jurar que via desejo nos olhos de Isaiah quando ele olhava para ela. E como  que ela iria controlar os seus sentimentos quando ele se estava a exceder em 
cortesia? Uma noite, depois do jantar, deu-lhe para lhe ler um livro em voz alta, at que fossem horas de ela ir para o trabalho. Mesmo depois de terem chegado um 
lindo sof em couro e poltronas a condizer, eles continuavam a sentar-se junto  lareira, nos pufes.
   Era agradvel e um pouco ntimo demais para a paz de esprito de Laura, com o fogo a crepitar por detrs deles e as luzes da rvore de Natal a pulsarem cores 
quentes pela sala. A voz funda e sedosa de Isaiah envolvia-a numa carcia, trabalhando sobre os seus sentidos como um txico. Por vezes, ela esquecia-se de ouvir 
as palavras dele e perdia-se a imaginar como seria se ele de repente se voltasse e a beijasse.
   Estava a apaixonar-se por ele. Correco: estava h semanas apaixonada por ele. Laura estava sempre a dizer a si mesma para nunca deixar que ele se apercebesse. 
Isaiah era um patro maravilhoso e um amigo ainda melhor. Se no fosse ele, os cachorrinhos que ela veio a amar seriam postos a dormir para sempre. No podia de 
forma alguma abusar da bondade dele fazendo-o sentir-se culpado por no retribuir o afecto dela.
   No, disse a si prpria com firmeza. A amizade era uma coisa belssima, e ela tinha de se contentar com isso. O Natal estava  porta. Ela sempre adorara aquela 
poca festiva e tentou focar-se nisso e apreciar cada momento. Durante a tarde, quando no estava a receber os homens das entregas das moblias e a tentar decidir 
onde as colocar, entretinha-se muitas vezes na cozinha. Foi at ao seu apartamento buscar latas de bolachas de Natal vazias e encheu-as de guloseimas para colocar 
por baixo da rvore, bolachas e doces, bolos e barras de chocolate. Isaiah ainda estava demasiado magro. Ela gostava de o ver devorar os doces. Descobriu que ele 
adorava chocolate e fez-lhe uma fornada de quadradinhos defudge cremoso. Noutras tardes, ela ia at  cidade, entre as mamadas dos cachorrinhos, comprar coisas para 
a casa, tais como vasos, almofadas de sof e tapetes bem coloridos para alegrarem os soalhos de madeira polida.
   Pela quinta-feira, dezasseis de Dezembro, a casa de Isaiah comeara a parecer-se com um lar. Laura estava a dar os toques finais a um arranjo de flores de seda 
quando o telefone tocou. Deu um ltimo retoque s flores e pegou no telefone porttil que repousava sobre o balco da cozinha.
   - Est?
   - Ol, minha querida. Fala a Mary, a me do Isaiah.
   Laura estivera em contacto com a sua av desde que viera para casa de Isaiah, mas ainda no falara com Mary.
   - Mary - disse ela, com alegria genuna. - Que bom ouvi-la.
   - Como esto os cachorrinhos?
   - A crescer - respondeu Laura, com uma gargalhada. - Agora s tenho de lhes dar de mamar de trs em trs horas. O que facilita as coisas.
   - Ah, bom - suspirou Mary. - Estive a pensar, querida. O Isaiah falou-lhe no aniversrio dele?
   Laura empoleirou-se num dos bancos de bar para admirar, do outro lado do aposento, o arranjo floral que estava sobre a mesa da cozinha. O toque perfeito, pensou.
   - No - respondeu distraidamente ela - ele no me disse nada. Quando  que ele faz anos?
   - Hoje.
   Laura deu um pulo no banco.
   - O qu?
   Mary riu-se.
   - Isso mesmo. Liguei esta manh ao Tucker e surpreendi-o dando-lhe os parabns, mas o Isaiah estava fora em visitas domicilirias, portanto ainda no consegui 
falar com ele. D-me a impresso de que ambos se esqueceram.
   Laura no podia imaginar que algum se pudesse esquecer do seu prprio aniversrio.
   - Est a brincar.
   - Isso queria eu. O Isaiah foi sempre o meu cabea-no-ar, perdido nos seus pensamentos e quase que alheado do que se passa  sua volta. No me admiro de que ele 
se esquea. Mas o Tucker? - disse ela, suspirando de novo. - Ah, bem, decerto  por estarem ambos to ocupados.
   Laura trouxera apenas um livro de receitas do seu apartamento. A sua av passara o livro a pente fino, desenhando pequenos esquemas  margem de todas as receitas. 
Uma chvena meia cheia representava precisamente meia chvena, etc. Laura utilizava muito esse livro de receitas porque era menos provvel que ela se enganasse na 
quantidade de um ingrediente com os esquemas ao lado a clarificarem as medidas. S que ela no se conseguia recordar se a coleco inclua receitas de bolos. Regra 
geral, os bolos no eram o que mais gostava de fazer, porque se estragavam rapidamente e no se congelavam to bem quanto outros alimentos. Mas ela tinha necessariamente 
de fazer um para os anos de Isaiah.
   - De qualquer modo - dizia Mary -, que tal uma festa surpresa aqui em casa, hoje  noite? Jantar, seguido de bolo e de gelado. S a famlia; e a Laura tambm, 
 claro. Acha que consegue convencer o meu filho a vir sem que ele se aperceba do que ?
   Laura sorriu.
   - Sim, creio que o consigo fazer. Importa-se que eu leve os cachorrinhos?
   Quando Laura informou Isaiah de que iam jantar nessa noite a casa dos pais dele, ele quase que gemeu. Ela estava a viver em sua casa h quase uma semana, e ele 
no fizera um nico gesto que sugerisse que se estava a atirar a ela. Nessa noite, queria rectificar isso. Decerto que ela j estava ali agora h tempo suficiente 
para saber que ele no estaria simplesmente a tentar tirar partido de uma situao conveniente. Queria dizer-lhe o que sentia por ela, possivelmente at pedi-la 
em casamento, e deixar que a Me Natureza conduzisse as coisas da para a frente.
   - Estou estoirado - disse ele, quando ela lhe disse que iam jantar a casa dos pais dele. - No podemos deixar isso para outro dia?
   - No, desculpa. Eu e a tua me vamos fazer bolinhos de Natal.
   Isaiah pensou em todas as guloseimas que estavam debaixo da rvore eno seu congelador. Dada a quantidade, ficaria a pesar mais de cento e trinta quilos se as 
comesse todas. Mas, quando olhou para os olhos implorantes de Laura, teve dificuldade em lhe negar o que quer que fosse. Suspirou. Se calhar, essa noite no seria 
a melhor altura para lhe declarar que a amava. Ela tinha de fazer o turno da noite. Se ele esperasse at  noite de sbado, teriam os dois todo o sero e toda a 
noite para estarem juntos.
   - Okay- assentiu ele, com relutncia. -Deixa-me s tomar um duche.
   - Despacha-te. No quero chegar atrasada.

   Sem que o soubesse, Isaiah levou o presente de aniversrio que Laura lhe comprara para dentro da casa dos seus pais. Quando ele pegou na caixa de carto para 
a tirar do assento traseiro do Hummer, pensou erradamente que ela contivesse coisas para decorar bolos e bolachas. Quase que teve um ataque cardaco quando entrou 
na sala de estar dos seus pais, mergulhada na escurido. Todas as luzes se acenderam de repente, e toda a sua famlia irrompeu da cozinha, a gritar: "Surpresa!"
   Isaiah ficou boquiaberto a olhar para eles. Surpresa? Foi ento que se lembrou. Era o dia dezasseis de Dezembro, o aniversrio dele e do Tucker. No podia acreditar 
que se tivessem esquecido. O seu irmo gmeo, que chegara antes dele, sorriu timidamente e encolheu os ombros.
   - Tinha muito em que pensar; que mais posso eu dizer?
   Jake deu uma palmada amigvel no ombro de Isaiah.
   - Feliz aniversrio, maninho. Tens sido um chato desde que te conheo, h trinta e quatro anos.
   Molly, a mulher de Jake, ps-se em bicos de ps para abraar Isaiah.
   - Palerma -segredou-lhe ela. Nunca ouvi dizer que a senilidade podia aparecer em pessoas to novas...
   Aquilo foi s o comeo. A excepo de Tucker, todos na sua famlia se sentiram compelidos a meter-se com Isaiah por ele se ter esquecido do seu prprio aniversrio. 
Ele levou aquilo de bom humor. Tal como o seu irmo Tucker, tivera a cabea ocupada com outros assuntos, nomeadamente com uma bonita loirinha de grandes olhos cor 
de avel que o fazia ficar aparvalhado sempre que olhava para ela.
   O jantar foi estupendo. A sua me preparara dois pratos principais, fettuccini com marisco para Tucker e costeleta de borrego desossada para Isaiah.
   - Tive de preparar para cada um de vocs o vosso prato favorito - explicou ela.
   - s uma maravilha, me - disse Isaiah.
   Tucker derrotou-o, dizendo:
   - s a melhor me do mundo.
   Quando Mary voltou costas, Tucker lanou a Isaiah um sorriso presunoso e disse em voz baixa:
   -Ento, e agora quem  o gmeo nmero um, quem ?
   - Est bem, pronto - retorquiu Isaiah -, tu ficaste com o encanto e eu com os miolos.
   Depois de o bolo e o gelado serem servidos, os cachorrinhos tinham de ser alimentados, e toda a famlia participou no processo. O Sly e o Garrett entraram numa 
disputa acerca de quem ia dar o bibero ao dcimo terceiro cachorrinho. Laura resolveu a questo deixando cada um deles dar de mamar  vez at o bibero ficar vazio. 
Ao v-la lidar com as crianas, Isaiah soube, sem sombra de dvida, que ela seria uma me fabulosa. Tudo o que lhe restava fazer era convenc-la a ter os seus bebs.
   Quando os cachorrinhos foram todos devolvidos ao cesto de vime, Isaiah e Tucker sentaram-se no cho da sala, rodeados pelos seus entes queridos enquanto abriam 
os presentes. Isaiah recebeu uma agenda da sua me, um novo chapu Stetson do seu pai, uma coleco de camisas e gravatas dos seus irmos e duas embalagens de uma 
dzia de pegas de l cinzentas para botas de montar da sua irm.
   - Assim, as tuas pegas nunca ficaro desirmanadas -disse-lhe Be- thany, com um sorriso maroto.
   Agora era Laura quem fazia a lavagem da roupa de Isaiah, e as suas pegas estavam todas cuidadosamente dobradas aos pares. Ele olhou de soslaio para a pessoa 
em questo antes de abrir o presente que ela lhe trouxera. Era uma caixa pesada, embrulhada num papel alegre, e cbica, com cerca de vinte centmetros de lado. O 
carto desdobrvel que trazia era da Hall- mark, com uma linda paisagem que inclua um cavalo e o seu cavaleiro  distncia. Dentro, ela escrevera com esforo: Obirgado 
por serse tu. Amo-te smepre, Laura.
   As lgrimas arderam nos olhos de Isaiah quando ele voltou a colocar o carto no envelope. Em vez de o mostrar aos presentes, meteu-o por baixo da sua perna. Sete 
palavras simples, mas que significavam tudo para ele. Ele quase que a conseguia ver, sentada  mesa da cozinha, debruada sobre o carto, a esforar-se para escrever 
cada letra.
   Quando ele desembrulhou o presente, toda a sala ficou em silncio. Isaiah ergueu lentamente da caixa a estatueta atarracada, de modo a que todos a pudessem ver. 
Esculpida  mo em lava do Monte de Santa Helena11, era uma cadela rottweiler, rodeada por uma ninhada de filhotes.
   - Um pisa-papis - disse Isaiah, com a voz embargada. S que era muito mais do que isso, uma coisa para lhe recordar nos anos vindouros aquele tempo que tiveram 
juntos.
   Quando Isaiah ergueu o olhar, viu o amor de Laura por ele a cintilar nos olhos, acompanhado pelo brilho de lgrimas. Sentiu-se como se uma mula lhe tivesse dado 
um coice em cheio no peito. Ela estava apaixonada por ele? Os seus pulmes contraram-se. Apertou-se-lhe o estmago. O corao batia-lhe como um martelo pneumtico 
contra os tmpanos. Ela amava-o. Toda a semana anterior ele andara a engendrar e a planear formas de a atrair aos seus braos e, afinal, ela fora sempre sua, pronta 
para ele a tomar. Como  que lhe escapara uma coisa dessas?
   A resposta apareceu na mente de Isaiah quase antes de ele acabar de colocar a pergunta a si prprio. Laura acreditava piamente que a sua afasia a tornava indesejvel. 
Sentiu um aperto na garganta enquanto reunia num monte os amachucados papis de embrulho de todos os presentes. Laura. Ela escondera cuidadosamente os sentimentos 
que nutria por ele, sem dvida convencida de que nunca seriam correspondidos. Ela considerava-se mercadoria defeituosa. A sua capacidade em ser uma esposa e uma 
me estava diminuda. Que homem no seu perfeito juzo iria querer uma mulher que no conseguia passar um cheque, que no conseguia escrever bem as palavras mais 
simples e que tinha dificuldades na fala?
   Isaiah apertou a mo sobre um bocado de papel. Devia-se sentir exultante. A mulher que ele adorava de todo o corao amava-o tanto quanto ele a amava. Mas, em 
vez disso, sentia-se deprimido. No era apenas o facto de ter reprimido a sua sexualidade, nunca a beijando ou sequer tocando nela para lhe dar a entender que a 
desejava. Tambm no conseguira faz-la saber quo maravilhosa ele achava que ela era.
   Depois de arrumarem toda a tralha, Isaiah saiu por um momento para o exterior para fazer um telefonema. Quando voltou a entrar em casa, no perdeu tempo e pegou 
logo nos seus presentes de aniversrio, na sua linda convidada e nos cachorrinhos.
   - Estou estoirado, me - disse ele, abraando a me pelas costas, en- contrando-a a passar por gua os pratos de sobremesa. -Importas-te que saiamos j? Quero 
ir para casa e atirar-me para a cama...
   Mary voltou-se, ainda abraada, para se pr em bicos dos ps e beijar o filho na cara.
   - De modo nenhum, querido - respondeu ela, afagando-lhe a cara. - Talvez em breve possas arranjar alguns scios e deixares de estar sempre a trabalhar tanto.
   Isaiah planeava fazer isso mais cedo do que a sua me imaginava. No tencionava casar-se e deixar a esposa sozinha doze ou catorze horas por dia.
   - Estou a tratar disso com o Tucker - disse ele, osculando-lhe gentilmente a testa. - Obrigado pela esta-surpresa. Foi maravilhosa. E a costeleta estava divinal.
   Quando Isaiah se voltou para ir embora, Mary tocou-lhe no brao.
   - Estou to satisfeita por a Laura ter conseguido trazer-te c sem estragar a surpresa...
   A sua festa de aniversrio no fora a nica surpresa que Laura lhe fizera. Ela amava-o. A constatao andava em crculos interminveis na sua cabea, to inacreditvel 
uma hora depois quanto o fora quando se revelara.
   Estava decidido a esclarecer algumas coisas quando chegassem a casa. Pelo menos, Laura no se iria deitar nessa noite sem saber que ela era a mulher mais maravilhosa 
do mundo.
   Depois de fazer o giro das despedidas, Isaiah carregou as suas prendas para o Hummer, e depois voltou para levar Laura e os cachorrinhos. Quando ficaram todos 
instalados no veculo, ele olhou para ela na obscuridade, tentando discernir a sua expresso  luz do candeeiro pblico que se filtrava obliquamente atravs do pra-brisas. 
Ela estava a sorrir, como sempre, s que agora ele reparou que ela evitava olh-lo directamente nos olhos.
Segundo o pai de Isaiah, os olhos eram as janelas da alma. Agora Isaiah constatava que tambm eram janelas do corao.
   Isaiah seguiu em silncio durante todo o percurso at casa, fazendo com que Laura se interrogasse se ele estaria zangado com ela por qualquer motivo. Quando entraram 
em casa, o Tristinho saltou pela perna de Isaiah acima, e depois fez o mesmo com Laura. Depois, comeou a correr em redor deles, descrevendo oitos frenticos, fazendo 
rudos fundos com a garganta e abanando a cauda.
   - Ol, Tristinho! - disse Laura, pousando no cho o cesto com os cachorrinhos, de modo a poder dar um pouco de ateno ao co mais velho. O Tristinho tremeu de 
satisfao quando ela se agachou para o afagar. - Acho que ele sentiu a nossa falta - disse ela a Isaiah.
   Isaiah colocou os presentes sobre o sof e despiu o casaco. Depois de uma ida rpida ao armrio da entrada, para o pendurar, ele voltou  sala para pr mais lenha 
no fogo que morria na lareira. Com o Tristinho a seguir-lhe todos os passos, Laura levou os cachorrinhos para o quarto. Por ter de sair para o trabalho dentro de 
menos de uma hora, decidiu deixar os seus protegidos no seu cesto de vime. Lavara todos os biberes em casa da me de Isaiah. Deixou o saco com a frmula e os utenslios 
para as mamadas no cho, junto ao cesto.
   Sobressaltou-se quando se levantou e viu Isaiah de p, junto  porta. Parecia pensativo, absorto, e to belo que Laura sentiu a respirao pren- der-se-lhe no 
peito.
   - Podes met-los na piscina - disse-lhe ele. - No vais trabalhar esta noite.
   Laura lanou-lhe um olhar perplexo.
   - Mas eu...
   - Liguei  Ellie Kingston. Ela fica com o teu turno desta noite e com o de amanh.
   - Mas...
   -  o meu aniversrio -lembrou-lhe ele. - Ter-te aqui durante as prximas duas noites  o presente que ofereo a mim mesmo. Pago-te o salrio habitual, se ests 
preocupada com o dinheiro.
   - No sejas pateta. No preciso do dinheiro.
   - ptimo. A Ellie precisa dessas horas. Para o Natal e essas coisas. Ests, ao mesmo tempo, a fazer-lhe um favor e a tornares-me feliz.
   Laura desejava poder passar o resto da vida dela a faz-lo feliz. Mas teria de se contentar apenas com mais trs semanas. No dia seguinte, os cachorrinhos teriam 
sete dias de vida. O tempo dela ali estava a passar a correr. Sem que viesse a dar por isso, em breve estaria a ir para casa, para o seu minsculo apartamento.
   - Vamos ler um bocado - sugeriu ele. - Vou ligar as luzes da rvore. Ser um remate bonito para um sero maravilhoso.
   Qualquer coisa nos olhos dele - uma intensidade na profundidade do azul que ela nunca vira antes - p-la nervosa. Interrogou-se de novo se fizera ou dissera alguma 
coisa na festa que o tivesse melindrado. Antes que lhe pudesse perguntar, ele afastou-se da porta. Ela colocou os cachorrinhos na sua piscina de plstico e voltou 
 sala.
   Isaiah j estava reclinado num dos pufes, com as costas apoiadas num dos pilares da lareira, as pernas longas estendidas e ligeiramente dobradas. Tinha no colo 
o romance policial que lhe andava a ler. A camisa de xadrez azul que vestia fazia-lhe sobressair a cor dos olhos.
   Laura sentou-se cautelosamente no pufe ao lado dele. O Tristinho ati- rou-se de imediato para o seu colo. Ela aconchegou o cachorrinho avantajado contra o peito, 
afagando-lhe as orelhas enquanto observava Isaiah.
   - Pronta? -perguntou-lhe ele, com voz rouca.
   Laura anuiu com a cabea e recostou-se, tentando recordar-se do captulo que ele lhe lera na noite anterior. Um ladro andara a vasculhar a casa do protagonista, 
 procura de uma pistola. A sugesto era a de que o assaltante tinha a inteno de matar. Era um romance estranho, na opinio de Laura. Ainda no fora cometido qualquer 
crime. Ela no sabia quem  que iria ser morto. S sabia que o assaltante tencionava praticar o crime e culpar o heri.
   Isaiah comeou a ler, com voz profunda e sedosa, pronunciando perfeitamente cada palavra. Embalada pela histria, Laura sentiu-se em breve totalmente descontrada. 
O Tristinho adormeceu com a cabea aninhada entre os seios dela, a respirao dele a acrescentar mais uma camada de aconchego  noite invernosa.
   Isaiah parou repentinamente de ler e pegou noutro livro que estava sobre a soleira da lareira. Quando ele o abriu na primeira pgina, Laura lanou-lhe um olhar 
interrogativo.
   - Esta noite apetece-me ler-te uma coisa mais ligeira - explicou ele.
- Importas-te?
   Laura abanou a cabea. Na verdade, estava a ficar impaciente com o mistrio,  espera de que acontecesse qualquer coisa. At ento, fora s avolumar de tenso 
sem qualquer desfecho.
   Isaiah pigarreou e comeou a ler.
   - Ao relembrar essa tarde, no posso deixar de me questionar por que razo eu no soube, no momento em que pousei os olhos nela, que ela era o amor da minha vida. 
- Voltou a pigarrear e enterrou-se mais no pufe. - Quando abri a porta do gabinete e a vi pela primeira vez, senti-me de imediato atrado por ela. Mas lancei as 
culpas a uma mera atraco fsica. Ela no passava de mais uma mulher bonita, disse para mim prprio. Mas depois, pouco a pouco,  medida que a fui conhecendo como 
pessoa, apercebi-me de que ela era muito, muito mais do que isso. Ela mudou literalmente a minha vida; primeiro apenas em pequenas coisas mas, com o tempo, essas 
pequenas coisas acumularam-se e tornaram-se imensas. Agora, amo-a tanto que entro em pnico com a simples ideia de a perder. Pior ainda, no sei bem como lhe dizer 
isto.
   Isaiah fez uma pausa para olhar para ela. Laura enroscou-se no pufe macio.
   - Um romance? - perguntou ela, lanando-lhe um sorriso de agrado.
- Que simptico!
   Ele lanou-lhe um olhar longo e penetrante. Depois, voltou a pigarrear e continuou a ler.
   - Pensei que poderia contentar-me em sermos simplesmente amigos. Os melhores amigos, dir-se-ia. S que agora quero e preciso de mais do que isso. Rezo para que 
ela tambm queira mais.
   Ele parou de ler para virar a pgina. Laura reacomodou o Tristinho nos braos.
   - No est escrito na terceira pessoa - observou ela.
   Ele lanou-lhe outro olhar estranho, e depois voltou a ateno para a pgina.
   - No sei quando aconteceu. Quando me apaixonei por ela, quero eu dizer. Pergunto agora a mim prprio se foi da primeira vez que vi a linda cara dela. Ou talvez 
fosse mais tarde, quando me comecei a aperceber da pessoa maravilhosa que ela . Ela tem os olhos cor de avel mais incrveis. Quando o meu olhar mergulha neles, 
sinto como se tivesse andado perdido toda a minha vida e tivesse finalmente encontrado o caminho de regresso a casa.
   O corao de Laura teve um sobressalto. Olhos cor de avel? Perscrutou o perfil moreno de Isaiah. Depois pensou, Volta  realidade, Laura. Ests a sonhar alto.
   - No importa como comeou - continuou ele a ler. - S sei que aconteceu. Ela enche a minha vida de risos, faz-me feliz de uma forma como ningum mais o conseguiu, 
e por vezes penso que ela me compreende melhor do que eu a mim prprio. Ela sabia como eu estava dilacerado quando morreu o gato de uma velhota. Ela ouve-me quando 
eu preciso de desabafar e falar nos casos dos meus pacientes. Ela faz-mefudge porque sabe que eu adoro chocolate.
   As lgrimas assomaram aos olhos de Laura. Ela no estava a imaginar aquilo. Ele estava mesmo a falar dela.
   - Oh, Isaiah...
   Ele fechou lentamente o livro e os olhos deles encontraram-se.
   - Uma pieguice pegada, no ? Nunca pensei que teria dificuldade em dizer a uma mulher que a amo. Mas sempre que tento dizer-te isso, bloqueio e as palavras no 
me ocorrem.
   Ela mal o conseguia ver atravs das lgrimas que lhe marejavam os olhos.
   - Amas-me? - perguntou ela, num fio de voz.
   Ele limpou-lhe, carinhosamente, uma lgrima que lhe escorria pela cara.
   - Eu adoro-te, Laura. s a pessoa mais maravilhosa que alguma vez conheci. Quero passar o resto da minha vida contigo - respondeu ele, fazendo depois um gesto 
a abarcar a sala onde estavam. - Eu gosto imenso desta casa. Agora, quero que vivas aqui comigo, no apenas durante umas semanas, mas sempre.
   Ela abanou a cabea.
   - Mas...
   - Por favor, no digas essa palavra. Sempre que dizes essa palavra, ests prestes a acrescentar qualquer coisa muito pateta. Amo-te. A minha me encontrou-me 
finalmente a mulher perfeita, que Deus a abenoe. s linda, s inteligente, s espirituosa, e s a minha melhor amiga. Melhor ainda, como cozinheira, ningum te 
bate.
   Laura quase que se engasgou a rir.
   - Amas-me por eu cozinhar bem?
   Ele limpou-lhe outra lgrima da face.
   - Quando ests na cozinha, no ests s a cozinhar. Ests a preparar oferendas.
   Era verdade, constatou ela. Quando cozinhava, ela pensava nas pessoas que iriam saborear os seus pratos. Ela gostava especialmente de cozinhar para Isaiah, no 
s por ele precisar de alimento, mas tambm por ele apreciar tanto os pratos que ela lhe confeccionava.
   Ele aflorou-lhe a ma do rosto com a ponta dos dedos, e depois embrenhou-os no cabelo dela.
   - Ento? -perguntou-lhe ele, com a voz rouca. - At agora, tive um estupendo dia de anos. Vais torn-lo no mais memorvel da minha vida dizendo-me que tambm 
me amas?
   Laura teve de apelar a todo o seu autodomnio para no se lhe lanar nos braos.
   - Eu tenho leses cerebrais, Isaiah. H uma centena de pequenas coisas que eu j no consigo fazer, coisas que se podem tornar muito irri-irri...
   - Muito irresistveis? - props ele.
   Ela riu-se de novo. Ele tinha um jeito de a fazer rir.
   - Sabes a palavra que eu quero dizer.
   - Irritantes - disse ele. - Mas, quanto a isso, ests enganada. Con- trabalanamo-nos um ao outro, Laura.  verdade que h muitas coisas que j no consegues 
fazer, mas tambm h uma quantidade de coisas para as quais sou um desastre com patas. Juntos, somos dinamite.
   - Precisas de uma pessoa que te possa ajudar na carreira.
   - Se calhar uma assistente de cirurgia?
   Ela sentiu o rosto a escaldar.
   - Ou se calhar algum que  espantosa com animais? - disse ele, inclinando-se mais para ela; to perto que ela podia sentir o calor hmido da respirao dele 
nos lbios. - Amas-me, Laura?
   Ela sentiu o corao apertar-se-lhe com um desejo to intenso que lhe fez doer os ossos.
   - No quero ser um estorvo para ti...
   Ele pegou-lhe no queixo.
   - Amas-me?  uma pergunta muito simples...
   - Sim - disse ela por fim, num sopro de voz.
   Antes que a palavra tivesse sado completamente dos lbios dela, ele inclinou a sua cabea morena e colocou a boca sobre a dela. Seda hmida. De incio, o beijo 
foi to suave quanto um suspiro, mas depois ele aprofundou-o, fazendo incurses exploratrias com a ponta da lngua. Laura sentiu a cabea a andar  roda. No conseguia 
respirar. Fechando-lhe os punhos sobre a camisa, ela agarrou-se a ele enquanto lhe entregava a boca, entreabrindo os lbios num convite.
   O Tristinho, apertado entre os dois, acordou de repente e meteu o nariz frio e hmido entre os queixos de ambos. Isaiah praguejou e apartou-se. Laura deixou-se 
cair no pufe, com a cabea a andar  roda.
   - Est na hora de ires um bocado l para fora - disse Isaiah ao cachorrinho.
   Levantou-se e dirigiu-se  porta da frente. Logo que o Tristinho foi corrido, ele regressou lentamente em direco  lareira. Laura olhava-o, deslumbrada, consciente 
como nunca esteve da forte masculinidade dele - o rudo decidido das suas botas sobre a madeira a cada passo lento que ele dava, a forma como os seus ombros largos 
trabalhavam em harmonia com cada movimento das suas ancas estreitas e o jogo dos msculos das suas coxas sob a ganga desbotada. Os olhos dele ardiam de desejo, tornando-os 
azul cobalto escuro. Um tendo ao longo do maxilar inferior avolumava-se a cada cerrar de dentes.
   Parou a meio metro dos pufes e comeou a desabotoar a camisa.
   - Eu quero-te - disse ele, numa voz rouca de desejo. -Quero-te como nunca quis outra pessoa.
   Aquilo era bom. Aquilo era ptimo. S que ela precisava ainda de um pouco mais de tempo para se preparar.
   - Isaiah - disse ela, com voz trmula. - H s esta coisinha...
   Ele desabotoou mais um boto da camisa.
   - O que ? Diz, minha querida.
   Laura encolheu-se interiormente. Aos trinta e um anos de idade, era uma coisa embaraosa de admitir, especialmente considerando que ele obviamente j deveria 
ter estado com inmeras mulheres.
   - Eu nunca... fiz isto.
   A mo dele parou sobre um boto. O seu olhar saltou para o dela.
   - Nunca fizeste o qu?
   Laura endireitou-se no pufe e acenou com a mo.
   - Isto.
   Ela ouviu-o expirar, com um som semelhante ao de ar a sair de um balo parcialmente esvaziado.
   - Nunca fizeste amor,  isso? - o tom da voz dele era de incredulidade. Quando ela confirmou com a cabea, ele deixou-se cair sobre o pufe ao lado dela. De pernas 
dobradas, braos inertes apoiados sobre os joelhos levantados, Isaiah olhou-a sem querer acreditar. - Nem sequer uma nica vez?
   A cara de Laura tornou-se escarlate.
   - Bem, hum, creio que se pode dizer que no calhou. Eu andava muito ocupada, primeiro com a faculdade, depois com o meu trabalho. - Aquilo soava to mal, mesmo 
aos ouvidos dela. - Nunca tive tempo para isso...
   Ele arqueou uma sobrancelha escura.
   - Estou a ver...
   S que ele no estava a ver nada, porque ela estava a mentir com todos os dentes da boca. Laura respirou fundo para ganhar coragem e desfechou:
   - No, no  verdade. Eu no estava ocupada. Quero dizer... bem, eu andava ocupada, sim. Mas no era essa a razo. -O calor abrasador da atrapalhao dela espalhou-se 
at lhe cobrir a cara e infiltrou-se-lhe por sobre o couro cabeludo. - Eu estava  espera de algum muito especial. De ti, Isaiah. Sei-o agora. S que nunca apareceste. 
E depois tive o acidente e ningum mais me convidou para sair, e eu...
   Ele tocou-lhe na boca com a ponta de um dedo.
   - Pra -ordenou-lhe ele com brandura. O olhar dele fixou-se no dela. - Ests a tentar dizer-me que te estavas a guardar para o teu futuro marido?
   Ela anuiu com a cabea, e desviou a cara para dizer:
- Eu sei que soa a anti-qua-do. Mas nunca pareceu certo com qualquer outra pessoa. - Ela interrompeu-se e encolheu os ombros. - Emminha defesa, devo dizer que no 
 assim to esquisito. A Miss Amr-ica do ano passado tambm est  espera. E ningum acha que ela  doida.
   Isaiah suspirou e esfregou a cara com uma das mos.
   - Minha querida, eu no acho que seja antiquado. Na verdade, penso que  maravilhoso - disse ele, fazendo uma curta pausa. - Quem me dera poder dizer que tambm 
esperei.
   Laura pensou nessa possibilidade por um momento. Por um lado, poderia ter sido bom se fosse a primeira vez para ambos, mas, por outro, havia que ter em conta 
os procedimentos.
   - De certo modo, estou satisfeita por um de ns saber o que fazer...
   Ele soltou uma gargalhada surpreendida. E depois, como se fosse umacoisa que estivesse habituado a fazer, passou os braos em volta dela e iou-a para o seu colo.
   - No te preocupes. Para o caso de eu me esquecer de qualquer dos passos, tenho um manual de instrues na minha mesinha-de-cabeceira.
   Laura teve a sensao de que ele sabia todos os passos de cor, e isso magoou-a. Quando fizessem amor, pensaria ele nas mulheres com quem estivera e compar-la-ia 
negativamente com elas? No se dava o caso de ela ter prtica em agradar aos homens. Toda a sua experincia no assunto provinha de livros, filmes e do pouco que 
a sua irm lhe contara.
   Ela perscrutou-lhe os olhos azuis brilhantes.
   - Estiveste com muitas mulheres? - no resistiu em lhe perguntar.
   - No  uma pergunta feliz - respondeu ele, torcendo a boca noscantos -O meu passado  apenas isso, passado. - Isaiah baixou a cabea para mordiscar sedutoramente 
a boca de Laura. - Desde o instante em que te vi, esqueci de imediato todas as outras mulheres que alguma vez conheci. No me consigo lembrar dos nomes delas, no 
me consigo lembrar de como elas eram. s tudo para mim, Laura, o meu passado, o meu presente e, se Deus quiser, o meu futuro. Casas comigo?
   No fundo dos fundos do seu corao, Laura sabia que ele s estava a dizer aquilo que ela precisava de ouvir. Mas significava muito para ela saber que ele se importava. 
Significava at mais o facto de ele a estar a pedir em casamento. Talvez ela no eclipsasse todas as outras mulheres na memria dele, mas a verdade  que, por algum 
motivo, ele a valorizava mais do que as outras. E isso bastava-lhe.
   Sentiu-se como se fosse rebentar de felicidade.
   - Oh, sim, eu caso contigo, Isaiah, caso mesmo, mesmo!
   Ele ento beijou-a, hesitante, a princpio, depois mais profundamente, os seus lbios a parecerem seda hmida e morna sobre os dela. Laura sentiu a cabea a andar 
 roda. Estrebuchou freneticamente para respirar. Os seus braos tremiam ao afagar o pescoo forte dele.
   - Eu no sei o que fazer...- sussurrou ela, por entre beijos.
   Ele roou os lbios pelo pescoo dela abaixo, pondo-lhe a pele em fogo.
   - No precisas de fazer nada -assegurou-lhe ele. - Nada mesmo, minha querida. Fica s comigo.
   Laura esperava que aquilo implicasse um pouco mais do que isso e estava tensa e nervosa. Para sua surpresa, ele virou-se de lado, de frente para a lareira, e 
tirou-a do colo para a sentar entre as suas coxas abertas. Com as mos cruzadas sobre a barriga dela, curvou-se para a frente, apoiando o queixo sobre a cabea dela, 
e ficou ali, a olhar as chamas que danavam na lareira. Fica s comigo. Ela pensara que aquele pedido fora um artifcio de linguagem, um preldio enganador para 
carnes nuas e exigncias ao seu corpo que ela se poderia sentir constrangida em conceder. Mas agora ele estava a recordar-lhe que nunca empregava artifcios de linguagem. 
Isaiah era to franco e directo quanto era maravilhoso.
   A slida presso dos seus braos mantinha-a firmemente encostada contra o peito dele. O calor que se desprendia de Isaiah esfumava as preocupaes de Laura e 
em breve dilua a tenso que lhe mantinha a espinha hirta. Ela descontraiu sob a fora robusta dele, com o olhar fixo nas chamas danarinas. Estava intensamente 
consciente dele nesses momentos, atenta a cada inspirao e expirao, a cada batida do corao dele contra as suas omoplatas, a cada mudana ligeira das pontas 
dos seus dedos sobre a sua cintura.
   A atmosfera que desceu sobre ambos era inconcebivelmente terna, uma unio de corpos e de coraes, mas no da forma de que ela estava  espera. Isaiah. Era to 
prpria dele aquela forma de adivinhar os sentimentos dela e de conseguir aliviar-lhe a tenso. Outro homem poderia t-la levado logo para o quarto e aproveitar-se 
do seu corpo, no se preocupando em lhe suavizar o procedimento.
   Passaram-se minutos. Laura no fazia ideia de quantos, mas apenas de que decorrera o tempo suficiente para que o seu pnico inicial de irem fazer amor se dissipasse. 
Quando Isaiah mudou de posio para voltar as costas  sala e a voltou a sentar de lado no colo, ela soube que ele a tencionava beijar. E, desta vez, estava preparada.
   Fica s comigo. As palavras vogaram suavemente pela mente dela enquanto ele inclinava a sua cabea morena na direco da sua. Os lbios dele roaram os dela com 
a suavidade de uma asa de borboleta. A respirao dela tornou-se ofegante. A antecipao levou-lhe as mos aos ombros dele. E, por fim, Isaiah tornou o beijo mais 
profundo, tomando-lhe a boca como um homem que acabava de encontrar alimento aps meses de inanio.
   Fogo da lareira e Isaiah Coulter. Na mente de Laura tornaram-se sinnimos, ambos geradores de calor, ambos brilhantes, mesmo quando ela fechava os olhos. Ele 
foi at ao quarto dele e voltou com um tapete de pele de ovelha, que estendeu no cho, em frente da lareira. Depois, fez amor com ela tal como costumava fazer todas 
as outras coisas, totalmente concentrado nos pormenores e dando completa ateno a cada um deles antes de prosseguir. Comeou com a palma da mo dela, percorrendo 
cada linha e reentrncia com os lbios e a ponta da lngua. Laura nunca pensara que a palma da sua mo pudesse ser uma zona ergena, mas, com Isaiah a beij-la to 
ao de leve, a sensao disparou-lhe pelo brao acima, deu meia-volta e correu como um relmpago para o mago do seu corpo.
   Quando ela estava a tremer com as rplicas, ele agarrou-lhe a bainha da camisola e despiu-lha pela cabea com a mesma facilidade com que descascaria uma banana. 
Por um momento, Laura sentiu-se envergonhada. J andara em pblico em biquni, mas por qualquer razo um soutien parecia-lhe menos decente. Mas Isaiah j lhe segurava 
de novo a mo, e os seus lbios estavam a percorrer-lhe a face inferior do pulso com um rasto de beijos. Era-lhe difcil lembrar-se de que tinha seios enquanto ele 
estava a fazer coisas to maravilhosas a outra parte do seu corpo. Em breve, Isaiah chegava  pele sensvel do interior do cotovelo. Logo a seguir, estava no ombro 
- na clavcula - e depois na sua garganta. E de algum modo, por entre beijos e dentadinhas, ele conseguiu-lhe desapertar o soutien. Este pareceu desprender-se-lhe 
do corpo como a cobertura de chocolate de uma barra de snack com recheio no calor de meados de Agosto.
   - Oh, meu Deus, s to linda! - suspirou ele.
   Laura gemeu e contorceu-se subitamente quando ele lhe passou a lngua sobre o bico do seio. No instante seguinte, ele deitava-a sobre o tapete macio e, num abrir 
e fechar de olhos, ela viu-se a imobilizada pelos mais de um metro e oitenta de msculos masculinos. Ele levou o bico do seio dela  boca. A sensao explodiu atravs 
dela, to intensa que Laura no conseguia respirar; contudo no queria que ele parasse. No preciso momento em que ela pensava no conseguir aguentar mais, ele passou 
para o outro seio e levou-a de novo a mergulhar na vertigem das sensaes.
   No fundo do seu crebro, Laura sabia que deveria fazer qualquer coisa. As mulheres dos filmes no se limitavam a ficar ali deitadas, gemebundas e frementes. S 
que - oh, meu Deus - aquilo era to delicioso. Ela no conseguia pensar com clareza. Agarrou-lhe os cabelos com firmeza, de modo a que ele no se pudesse afastar. 
Oh, sim.
   Numa espiral de delrio febril, Laura sentiu um puxar que lhe arrastava o corpo sobre a superfcie macia do tapete. Depois, sentiu nas pernas o atrito da ganga 
a ser despida. Com dois fortes puxes, Isaiah libertou das jeans que tinha enroladas em volta dos tornozelos, assim como das cuecas e pegas. Nua. Nunca estivera 
nua com um homem. S que, de algum modo, ela no se sentia nua, possivelmente porque Isaiah estava por todo o lado - a sua boca, as suas mos slidas, a presso 
de ao do seu corpo.
   A mo dele encrespou-se sobre o montculo que se situava no vrtice das coxas dela. Fez deslizar o seu dedo mdio por entre as dobras. A coluna de Laura arqueou-se. 
As suas ancas elevaram-se. Ela soltou um grito sufocado, de surpresa.
   - Calma -sussurrou-lhe ele. - Eu s quero... Est tudo bem, minha querida. Confia em mim.
   Laura deu-se conta, por entre os assomos incrveis de sensaes, que ele no acabara a frase. Mas isso no importava. Por vezes as aces falavam com mais clareza 
do que as palavras. Com presso gradual, ele acariciou-a at ela se sentir como um vulco prestes a entrar em erupo.
   - Isaiah! - gritou ela.
   - Chh... Est tudo bem... Deixa fluir... - sussurrou-lhe ele.
   Como se ela tivesse escolha. Com a ponta de um dedo, ele tomara contado seu corpo. Ela no podia recuar. As suas ancas erguiam-se para ele como se tivessem vontade 
prpria. As suas costas arqueavam-se. Ela sentia-se como um arco esticado ao mximo, prestes a disparar a sua flecha. S que no acontecia nada. Ela cerrava os punhos 
sobre o tapete de pele de ovelha, por baixo dela. O seu corpo estremecia, levado ao limite, mas ela parecia no conseguir lev-lo a transpor aquela ltima crista.
   Isaiah praguejou em voz baixa. No momento seguinte, a sua boca estava de novo no seio dela, e ele punha mais vigor nas carcias que lhe fazia no sexo. A combinao 
de sensaes abalou o mundo de Laura. E, por fim, ela vogou por cima da crista da onda e sentiu-se como um bocado de vidro, a estilhaar-se num milho de cacos brilhantes 
a flutuarem depois em cintilante abandono atravs do negrume do espao. Ela tinha muito vagamente a conscincia de estar a arquejar, tentando respirar. Tambm estava 
levemente ciente de Isaiah a mexer-se a seu lado. Mas os sentidos dela estavam to dispersos que no se conseguia concentrar nele com nitidez suficiente para ver 
o que ele estava a fazer.
   - Ests bem? - murmurou ele.
   Laura forou-se a abrir os olhos. Isaiah era um borro bronzeado por cima dela. Piscou os olhos para aclarar a viso. Olhos azuis, feies morenas, esculpidas 
a cinzel. Laura conseguiu esboar um sorriso esquivo e um pastoso "ptima, estou ptima".
   - Ah, querida. Esta  a parte desagradvel. Quase que desejo que tenhas deixado outra pessoa qualquer ter feito isto. No quero fazer-te sofrer.
   Laura abriu de novo muito os olhos. Sentiu algo a pressionar-lhe a sua abertura. Espera a. Decididamente era algo grande. No era um dedo. Antes que ela tivesse 
tempo para lhe pr uma mo no meio do peito e dizer Vamos pensar um pouco nisto; no creio que consigas caber, ele forou a entrada.
   Laura sentiu como se tivesse sido penetrada por um taco de baseball. Dor. Oh, meu Deus.Isto seguramente no estava certo. Uma abertura estreita, um intruso volumoso. 
Onde  que ela fora buscar a ideia de que os pnis no eram mais grossos do que tampes?
   - Ests bem?
   Laura estava a tremer com a dor e a reter a respirao. Como  que ela poderia dizer que estava a morrer se os seus dentes no se descerravam?
   - Laura?
   A dor diminuiu um pouco. Ela pde por fim respirar. Olhou para ele. Isaiah estava apoiado nos braos esticados, que evidenciavam os msculos tensos. Estava absolutamente 
imvel. Parecia to belo com a luz das chamas a tingirem-lhe o corpo de mbar. Laura recordava-se de andar a flutuar em delrio pelo espao, e desejou voltar a esse 
estado.
   - Di!- conseguiu por fim dizer.
   - S por um minuto.
   Como  que ele sabia? Laura sentiu-se trada. Ele sabia que aquilo lhe ia doer antes de o fazer. E quo longo era esse minuto? Ainda lhe doa, s que j no tanto. 
De qualquer modo, passara de insuportvel a quase tolervel.
   - Eu no gosto disto - disse ela. Estava no seu direito. Aquilo no tinha piada. - Quero parar.
   O corpo dele estremecia. Os msculos dos seus ombros e dos seus braos erguiam-se-lhe sob a pele. E, de sbito, a sua face morena contorceu-se.
   - Oh, merda! - disse ele.
   E, no instante seguinte, ele mexeu-se dentro dela - s um pouco, e a dor foi desta vez mnima. Melhor ainda, quando ele esbarrou no fundo, Laura teve uma sugesto 
das deliciosas possibilidades. O seu interior ilu- minou-se com tanto brilho quanto a rvore de Natal. Ela enterrou-lhe os dedos nas costas, desejando que ele voltasse 
a entrar nela at ao fundo. S que Isaiah estava erguido sobre ela como uma esttua, o seu corpo tenso e vibrante.
   Ento, ela ergueu as ancas para fazer ela prpria o movimento.
   - Oh, meu Deus!- exclamou ele entre dentes.
   Laura gemeu de prazer e ergueu de novo as ancas.
   - Oh, Isaiah querido. Isso!
   Ele soltou um gemido agonizante e deixou-se cair sobre ela. Laura pestanejou e contorceu-se para fazer sair o queixo por debaixo do ombro dele, de modo a poder 
respirar. Aquilo era tudo?
   - Desculpa-me...-murmurou-lhe ele junto ao ouvido.
   Ele pedia-lhe desculpa? Estava precisamente a comear a ser divertido.
   - Terminmos, foi? - perguntou ela.
   - Oh, meu Deus- disse ele de novo.

Captulo Treze










   Isaiah ergueu a cara directamente para o fluxo de gua quente, perguntando a si prprio se algum alguma vez se teria afogado no chuveiro. Parecia ser um final 
adequado para uma bronca total. Deus. Ele estragara tudo, no estragara? Agora sabia por que razo o seu pai o avisara para nunca se meter com virgens. Elas eram 
frgeis e complicadas, e, por mais que se tentasse, acabava-se sempre por as magoar.
   Ele fechou os olhos e cerrou os dentes. Sentira a carne dela a rasgar-se. Ele amava-a to desesperadamente, e sentira a carne dela a rasgar-se. Sempre que pensava 
nisso, sentia-se em agonia. Desde os seus anos de adolescncia que ouvia tipos a gabarem-se de terem "rebentado a pipoca" a esta ou quela rapariga, como se fosse 
o melhor sexo do mundo. Talvez fosse anormal, mas magoar algum, especialmente se fosse a mulher que amava, no era para ele uma experincia agradvel.
   Deixou-se ficar por um bocado sob o chuveiro, na esperana de que a gua quente lhe relaxasse os msculos tensos e lhe aclarasse as ideias. Quando finalmente 
saiu da cabina de duche, sentia-se ligeiramente melhor. Cada mulher  face da terra passava por aquilo uma vez. Ele conseguira quase no se mexer enquanto estava 
dentro dela. Da a uns dois dias, qualquer ferimento que ele lhe tivesse causado estaria curado. Talvez pudessem ento tentar de novo, eventualmente com mais sucesso. 
Da prxima vez, custasse o que custasse, ele estava decidido a tornar a coisa agradvel para ela.
   Alguns minutos depois, quando Isaiah entrou na sala de estar, encontrou Laura sentada num dos pufes, a dar de mamar aos cachorrinhos, como se nada tivesse acontecido. 
Olhou para ele, com um sorriso de arrependimento.
   - Desculpa-me...- disse ela. - No tinha inteno de estragar tudo.
   Isaiah acabou de abotoar a sua camisa vestida de lavado, de um azulslido, para estar de acordo com a sua disposio. Ao sentar-se ao lado dela, perguntou:
   - Como te sentes?
   - ptima - respondeu ela. Mudou o cachorrinho de posio nos braos e recomeou a dar-lhe de mamar. - S doeu muito durante um minuto. Depois melhorou. Estou 
a sangrar um pouco, mas nada de grave.
   Isaiah piscou os olhos. Sabia que era perfeitamente normal ocorrer algum sangramento. Tambm tinha conscincia de que o hmen de uma mulher tinha de ser rompido, 
mais tarde ou mais cedo. S que no queria de forma alguma ter sido o sujeito que teve a honra de o fazer.
   - Talvez possamos fazer outra investida daqui a uns dois dias...
   Isaiah teve vontade de morder a lngua no instante em que pronunciouaquelas palavras. Outra investida? Se ela no sasse da sala a chorar, seria um milagre.
   Em vez disso, ela sorriu, encolheu os ombros e disse:
   - Estava  espera que fosse mais cedo do que isso...
   Nem pensar.
   - Precisas de algum tempo para cicatrizares.
   - No sinto que esteja ferida.
   - Ests a sangrar, no ests?
   Na ideia de Isaiah, aquilo arrumava a questo.
   
   
 



   No dia seguinte, Laura foi deixada a deambular pela grande casa de troncos de madeira enquanto Isaiah estava no trabalho. Por mais de uma dzia de vezes, ela 
ficou de p junto aos pufes, a recordar o tempo que passaram juntos, e a imagem no melhorou com a repetio. Fora uma piegas, pedindo a Isaiah que parasse. Havia 
milhares de bebs a nascerem a cada ano e, a no ser que uma mulher recorresse a um banco de esperma, no tinha hiptese de engravidar sem fazer amor.
   A perda da virgindade no fizera essas outras mulheres renunciar ao sexo, e ela tambm no o iria fazer. Isaiah queria esperar alguns dias? Ah. Ele ia ver.
   Pelo final dessa tarde, Isaiah cancelou todas as marcaes que no fossem de emergncia e passou-as para segunda-feira, de modo a poder sair da clnica pelas 
cinco da tarde. Era a vez do Tucker assegurar de novo o turno de sbado. A no ser que entrasse uma chamada de emergncia fora de horas, Isaiah poderia esperar ter 
todo o fim-de-semana de folga.
   Quando chegou a casa trinta minutos depois, j havia escurecido por completo, e Laura no se encontrava em parte alguma. As luzes da rvore de Natal estavam ligadas, 
e na lareira crepitava um belo fogo a dar-lhe as boas-vindas. Com um sorriso, pendurou o casaco e seguiu o aroma que vinha da cozinha. A panela elctrica estava 
sobre o balco, com a tampa a erguer-se de quando em quando pela fora do vapor, a deixar escapar um cheiro maravilhoso. Espreitou para o interior e viu grandes 
almndegas a apurarem num molho vermelho. Esparguete. Caramba, ele adorava aquilo.
   Incapaz de resistir, tirou uma colher de uma gaveta e pescou uma almndega do molho fervente. Fazendo uma concha com a mo por baixo da colher para no deixar 
pingar molho, comeou a soprar a almndega para a arrefecer. Quando achou que ela j estava a uma temperatura comestvel, enterrou nela os dentes gulosos.
   - Ol, grandalho! - ronronou uma voz apaixonada algures por detrs dele.
   Com a boca cheia com a almndega, ele girou sobre os calcanhares. Laura estava de p  entrada da cozinha, com um brao esbelto apoiado ao extremo da parede que 
dividia a casa de jantar formal da cozinha. Ela vestia - oh, valha-lhe Deus, Isaiah nunca vira uma coisa assim - um dra- pejamento cor de pssego de um material 
transparente, com uma comprida franja na parte de baixo que lhe fazia saltar o olhar para as esbeltas coxas nuas de Laura. Por baixo, os seios dela estavam cobertos 
apenas por um pe- dacito de tecido cor de pssego, pouco mais largo do que fio dental. No vrtice entre as pernas dela, um T de renda negra servia-lhe de cuecas. 
Ela era a coisa mais deslumbrante que ele vira em dias da vida. Os olhos de Laura desprendiam um convite ardente, e ela ali estava, de p, com o corpo exposto de 
modo a fazer com que os olhos de um homem lhe saltassem da cabea.
   Apanhado completamente de surpresa, Isaiah respirou fundo. Asneira. Partculas da almndega desceram-lhe pela traqueia. Engasgou-se - e depois no conseguia respirar. 
De incio, no pensou que tivesse importncia. Mas, depois de tossir e de se engasgar, verificou que continuava sem conseguir respirar. Correu para o lava-loias 
e tossiu de novo.
   - Oh, meu Deus!- exclamou Laura.
   Isaiah deu por si com Laura a dar-lhe fortes palmadas nas costas. Durante vrios segundos de agonia, cada um dos quais parecia durar uma eternidade, Isaiah pensou 
que ia morrer. Nunca sufocara antes. Pnico. No conseguia respirar, no conseguia falar - e, para o fim, nem sequer conseguia tossir. Limitava-se a estar ali de 
p, apoiado no lava-loias, com o corpo agitado por espasmos convulsivos, a cabea a latejar-lhe com uma horrvel sensao de falta de ar, e pontos negros a danarem-lhe 
 frente dos olhos.
   Laura passou-lhe os braos em volta da cintura, com o seu pequeno punho fechado logo acima do diafragma.
   - Dobra os joelhos! - gritou ela. - s demasiado alto!
O qu?
   - Os teus joelhos, Isaiah! Dobra os joelhos!
   As palavras dela conseguiram por fim atravessar o nevoeiro de pnico que o dominava e penetrar-lhe no crebro abalado. Ele dobrou as pernas, permitindo que ela 
tivesse mais apoio e liberdade de movimentos e, com uma fora que ele no julgava possvel nela, Laura passou-lhe os braos em volta do corpo, empurrando o punho 
fechado para cima com tal mpeto que ele admirou-se por no lhe atingir a coluna vertebral a partir da frente. O ar foi forado a sair-lhe violentamente dos pulmes, 
e um pequeno pedao de almndega saiu-lhe disparado pela boca.
   O ar silvou a descer-lhe pela traqueia. Isaiah caiu sobre o lava-loias, a arfar. Deus do Cu. Laura adejava junto ao seu ombro.
   - Ests bem? Isaiah, responde-me, por favor! Ests bem?
   Ele s conseguiu confirmar acenando com a cabea. Depois de inspirar por mais algumas vezes, emitiu um fraco e rouco "Estou, estou bem".
   - Graas a Deus! Pensei que ias morrer.
   A tremer da experincia, Isaiah endireitou-se e afastou-se do lava-loias.
   - Eu tambm - disse ele, lanando um ltimo olhar  almndega, decidindo ali e naquele momento que nunca mais comeria uma almndega. - Bolas. Isto nunca me aconteceu!
   Ela deu-lhe uma palmadinha no brao. Ele pegou numa toalha e hu- medeceu-a para limpar a cara. Quando a sua viso se aclarou, Laura tinha desaparecido. Isaiah 
atirou a toalha para cima do balco. Lembrando-se do vu de nada que ela vestia, sorriu ligeiramente e foi  procura dela.
   Ela estava no quarto, a vestir uma camisola pela cabea. Teve um curto vislumbre dos seios nus dela, antes da l azul se tornar a nica paisagem. Ela j tinha 
descartado o fio dental de renda negra e substitudo por umas recatadas cuecas brancas.
   Isaiah teve vontade de chorar.
   Laura franziu o nariz e pegou num par de jeans estendidas aos ps da cama.
   - Desculpa. Foi uma m ideia. Eu no queria fazer-te sufocar.
   Isaiah queria o vu das franjas cor de pssego de volta.
   - Eu engasguei-me porque me apanhaste de surpresa. Eu no estava  espera... - Isaiah no tinha palavras. - Estavas to bonita!
   - E eu tirei-te o flego, no foi? - disse ela, rindo-se, enquanto enfiava um p delicado nasjeans.- A mulher da loja disse-me que aquilo te iria pr louco por 
mim. Era velha. Eu devia ter encontrado algum mais novo que soubesse do que os homens gostam.
   Isaiah esperou at que ela metesse o outro p nasjeans. Ento, atravessou pressuroso o quarto e agarrou-a pela cintura numa placagem em voo, com a cama como alvo. 
Ela deu um grito e tentou equilibrar-se, mas com os tornozelos presos nas calas e o seu peso a actuar contra ela, Laura tombou como um pino de bowling. Isaiah seguiu-a 
na queda at ao colcho, amparando o seu peso com os braos para no a esmagar.
   Ela pestanejou atrapalhada e olhou para ele atravs de madeixas soltas de cabelo louro.
   - Tens a certeza de que ests bem?
   Ele nunca se sentira melhor. E ela no precisava das franjas para ser uma brasa.
   - Esclarecimento: estavas ou no a tentar seduzir-me?
   Ela franziu de novo o nariz.
   - Eu estraguei tudo a noite passada. Por isso queria compensar.
   J o tinha feito. Deus, como ele a amava. Inclinou-se para lhe mordiscar a boca deliciosa.
   - Da prxima vez, presta ateno a duas coisas: no me apareas vestida daquela maneira quando eu estiver de boca cheia; e tambm podes pensar em soltares um 
alerta. Um "Isaiah, segura-te!"poderia servir. Qualquer coisa que me previna que ests prestes a fazer-me saltar os olhos das rbitas.
   - Gostaste daquilo?
   - Estavas uma viso de sonho. Se eu sair e voltar depois a entrar, ves- tes-te outra vez assim para mim?
   - A disposio est um pouco estragada...
   A disposio dele estava perfeita.
   - Por favor?...
   Laura naquela coisa transparente cor de pssego, de p junto  rvore de Natal... Em toda a sua vida, Isaiah nunca vira nada de to belo, nunca sonhara que tal 
beleza podia existir. As luzes coloridas da rvore banhavam-na numa luminosidade alegre que acentuava as curvas do corpo dela. Tudo o que lhe faltava era uma fita 
com lao para ser a fantasia de Natal de qualquer homem.
   - Amo-te - foi tudo o que ele conseguiu dizer.
   - Eu tambm te amo - respondeu ela, fazendo uma covinha na cara. - Pra de olhares assim para mim! Ests-me a fazer sentir esquisita.
   Ele no queria isso. Isaiah teve a impresso de caminhar um quilmetro para chegar at ela. A sua mo tremia ligeiramente quando lhe tocou no cabelo.
   - Ah, Laura, s linda. Quase que tenho medo de te tocar.
   Ela soltou uma risadinha.
   - No  essa a ideia. Isto deveria pr-te louco por mim.
   Misso cumprida. Isaiah puxou-a para os seus braos. Jurou que, desta vez, iria fazer com que fosse perfeito para ela.
   Depois, Laura sentiu-se como se fosse uma poa de cera derretida. Jazia esparramada sobre um dos pufes, com um dos braos estendido para fora, o outro debruado 
sobre o pescoo de Isaiah. Ele estava sobre ela, com a cara enterrada entre os seios dela. Laura no fazia ideia para onde fora parar a sua vestimenta sexy. No fundo, 
achava que fora um completo desperdcio de dinheiro. Ele apenas a deixara com aquilo vestido por cerca de trs segundos.
   Mas, oh, fora uma maravilha. Levou a mo ao cabelo dele. As madeixas deslizavam-lhe por entre os dedos como frescos fios de seda. O corao dele ainda batia com 
fora. Ela conseguia sentir cada batida violenta a vibrar junto ao seu umbigo.
   - Estou muito, mesmo muito satisfeita que no tenhas sufocado...
   Ele soltou uma risadinha fraca e lambeu-lhe a curva do seio.
   - Tambm eu, Laura. Ah, s fabulosa! Amo-te tanto!
   Ela meteu o queixo para dentro. A luz das chamas, era-lhe estranhamente excitante ver a cara morena dele pressionada contra a sua pele muito branca. Laura passou-lhe 
a mo pelas costas.
   - Desta vez no doeu nada, nada mesmo...
   - Hum... - foi a nica resposta dele.
   Aquilo no era exactamente o que ela esperara. Olhou pensativa para o tecto com as traves expostas.
   - Isaiah?
   - Hum?
    Ela fez danar as pontas dos dedos sobre as ancas nuas dele.
    - Se eu vestir outra vez aquilo, podemos repetir?
    Ele resmungou.
    - Deus do Cu, criei um monstro!
    Laura ergueu a cabea, tentando ver-lhe a cara com maior clareza.
    - No me desejas?
    Ele riu-se e ergueu-se num cotovelo.
    - Convence-me.
    Laura no sabia muito bem como o fazer. Mas estava decidida a dar o seu melhor. No final, descobriu que Isaiah no precisava de muito encorajamento. Quase nenhum, 
com efeito.
    Nessa noite, eles no dormiram entre as mamadas dos cachorrinhos. Pareciam duas crianas que tivessem sido largadas numa loja de doces, insaciveis no seu desejo 
um pelo outro. Quando raiou a aurora e a primeira luz plida da manh brilhou atravs das frestas dos cortinados do quarto, Isaiah estava to exausto que mal se 
conseguia mexer. Laura estava por cima dele, como um cobertor demasiado curto, os dedinhos dos ps dela a pressionarem-lhe os tornozelos, o seu cabelo sedoso a brincar-lhe 
no queixo.
    Apesar de estar esgotado, Isaiah desejava-a de novo. Ela sentia-se maravilhosamente bem, fofa, nua e quentinha, com todo o corpo pressionado contra o dele. Mas 
Isaiah estava exausto. Mal conseguia mexer os dedos dos ps.
    Com um suspiro, ele pegou num cobertor para se cobrirem. Laura me- xeu-se e contorceu-se para sair de cima dele, e depois enroscou o corpo ao abrigo do dele, 
para se aquecer. Ele espalmou uma mo sobre o ventre dela, chegou-a ainda mais para si e adormeceu de exausto.
    Quando Isaiah voltou a abrir os olhos, Laura no estava ali, e o lenol a seu lado estava frio. Lanou os cobertores para trs, ps-se de p e pegou nas suas 
jeans. Enquanto saltitava para as puxar para cima, avanou para a porta.
    - Laura?
   Ela no estava frente  lareira, a dar de mamar aos cachorrinhos. Isaiah pegou em algumas achas que estavam no cesto e lanou-as para o fogo que esmorecia. Depois, 
foi  procura dela. Encontrou-a na lavandaria, a lavar toalhas. Vestia uma das camisas dele, em vez de uma camisa de noite. A bainha chegava-lhe quase  curva dos 
joelhos.
   - Bom dia - disse ele.
   Ela sorriu-lhe por cima do ombro e esticou o pescoo para receber um beijo, que ele lhe deu com gosto.
   - Como consegues estar to activa? -perguntou-lhe ele. - Mal dormimos...
   - Estou inebriada de paixo...
   - Eu tambm estou... Mas at o homem mais sexy do mundo precisa de um pouco de alimento. Deixa-me acabar isso enquanto preparas um pequeno-almoo...
   Ela lavou as mos, deu-lhe outro beijo e correu para a cozinha. Por entre o barulho da gua a correr, Isaiah poderia jurar que a ouvia cantar. Abanou a cabea 
e soltou uma risadinha abafada.
   - Graas a Deus que  de novo a vez do Tucker trabalhar ao sbado - disse ele, quando entrou na cozinha, alguns minutos depois. -Sinto-me como se me tivesse passado 
um tanque por cima.
   Ela bocejou enquanto virava o bacon na frigideira.
   - Os cachorrinhos esto alimentados. Depois de comermos, podamos voltar para a cama.
   - Parece-me uma boa ideia.
   Meia hora depois, anicharam-se na cama de Laura, to satisfeitos e sonolentos quanto os cachorrinhos na piscina de plstico. Isaiah pensou em fazer amor com ela 
antes de voltar a dormir mas, entre o pensamento e a aco, os seus olhos fecharam-se. No instante seguinte, estava em sono profundo.
   Acordaram ao som de treze cachorrinhos esfomeados, a latirem e a ganirem. Laura amornou a frmula enquanto Isaiah lavava os biberes.
   - Tens a certeza de que queres ter filhos? - perguntou ele.
   Ela sorriu.
   - Sim, mas talvez no treze...
   Ficaram em casa nesse dia, satisfeitos com a companhia um do outro. Fizeram amor continuamente, e nos intervalos viram dois filmes, jogaram s damas e prepararam 
refeies rpidas para manterem a energia. Isaiah nunca esperara uma felicidade daquelas. E Laura mal conseguia acreditar que todos os seus sonhos, os quais ela 
pensava nunca se virem a concretizar para uma mulher com afasia como ela, se estavam agora a tornar realidade.
   De quando em quando, olhavam um para o outro e sorriam estupidamente.
   - Mal posso acreditar que me amas - dizia ela.
   - Creio que sou o homem mais felizardo do mundo - retorquia ele.
   E muito em breve estavam de novo na cama, to sequiosos um do outro quanto estiveram da primeira vez.
   Pouco depois da meia-noite, o telefone de Isaiah tocou. Tinha havido um acidente de viao  sada norte de Crystal Falls. Um pastor alemo, que seguia na caixa 
de carga de uma carrinha pickup, fora projectado para fora do veculo.
   - Queres que eu v contigo? -ofereceu-se Laura.
   Isaiah adoraria que ela o assistisse, mas sabia que os ferimentos do co podiam ser graves, necessitando de uma longa interveno cirrgica.
   - Precisas de estar aqui com os cachorrinhos. Isto pode levar horas. Vou telefonar  Belinda.
   Minutos depois, enquanto se afastava da casa, Isaiah viu pelo retrovisor as silhuetas de Laura e do Tristinho no rectngulo de luz da porta. Como se pressentisse 
que ele olhava para trs, ela lanou-lhe um beijo.
   - Oh, meu Deus - murmurou Isaiah quando viu os primeiros raios-X. - Haver algum osso no corpo deste co que no esteja partido?
   Belinda estava de p junto  marquesa. O pastor alemo encontrava-se j sob o efeito da anestesia, com um tubo metido na traqueia, a lngua pendente.
   - Ele est em muito mau estado - disse ela, com tristeza. - Achas que o conseguimos salvar?
   Isaiah arregaou as mangas e vestiu uma bata. Gostava de ter dormido mais nas ltimas vinte e quatro horas. Normalmente, as agendas de fim-de-semana dele e do 
Tucker funcionavam bastante bem, prevendo que cada um deles cobrisse dois sbados por ms, de modo a que o outro pudesse ter dois fins-de-semana livres. O lado negativo 
disto era que aquele que no trabalhasse ao sbado tinha de assegurar quaisquer emergncias que surgissem nessa noite.
   - No sei se o consigo salvar - respondeu Isaiah por fim. - Mas quero tentar. - Ao aproximar-se da marquesa, perguntou: - Mas que raio estava um co-guia a fazer 
na traseira de uma carrinha?
   Belinda encolheu os ombros.
   - No fiquei a saber muitos pormenores. Pensei que tivesses obtido mais informao quando falaste com a polcia.
   - S soube que uma mulherzinha invisual veio de Chicago de avio para ver a famlia. No devia haver espao dentro da cabina para o co.
   - Imbecis - disse Belinda com ardor. - Com todas as leis sobre cintos de segurana no Oregon e todas as mensagens de sensibilizao na televiso, seria de crer 
que as pessoas compreendessem que at os ces precisam de um sistema de reteno.
   Por um bom bocado, aquilo foi o fim de toda a conversa desnecessria. Isaiah concentrou-se intensamente no seu trabalho. Se o co morresse, no se sabia quanto 
tempo decorreria at que a mulher cega pudesse arranjar outro co-guia.
   Pelas quatro da manh, Isaiah estava to cansado que a sua vista desfocava-se constantemente. Belinda fizera-lhe caf suficientemente forte para pintar paredes, 
mas isso no ajudara.
   - Fala comigo -disse-lhe ele. -Ajuda-me a manter-me acordado.
   Belinda aquiesceu, tagarelando sem parar acerca dos seus dias na universidade enquanto ambos operavam o paciente. Quando Isaiah pestanejou e voltou a bocejar, 
ela inclinou a cabea interrogativamente.
   - Parece-me que nunca te vi to derreado - observou ela. - Est tudo bem em casa?
   Isaiah reprimiu outro grande bocejo.
   - Eu e a Laura no dormimos muito a noite passada...
   - Oh, oh. Problemas com os cachorrinhos?
   Ele tentou reprimir um sorriso, mas no conseguiu.
   - No, outra coisa...
   Belinda ocupou-se a endireitar os instrumentos. Passado um longo momento, disse:
   - Ests apaixonado por ela, no ests?
   Isaiah comeou por neg-lo, mas depois achou que no valia a pena. Tinha uma vida para alm da clnica, e a partir de agora Laura ia ser uma grande parte dela. 
No seria capaz de esconder esse facto, e tambm no estava disposto a faz-lo.
   - Sim - admitiu ele. - Estou muito apaixonado por ela.
   Belinda sorriu.
   - Estou to contente por ti, Isaiah. Se h algum que merea ser feliz, s tu.
   - Obrigado.
   - E eu adoro a Laura - acrescentou ela. - Mas tambm todos ns a adoramos, no ? Ela  to querida. - Belinda sorriu e lanou-lhe um olhar pleno de curiosidade. 
- Estarei enganada em suspeitar que h casrio a caminho?
   - Falmos acerca disso. Mas no est ainda nada decidido.
   Duas horas depois, Isaiah suturou finalmente a ltima inciso. Os sinais vitais do animal ainda se mantinham fortes. Era um bom sinal.
   - Toca as trombetas - disse Isaiah a Belinda. - Este rapaz tem de ser mantido sob observao durante as prximas horas, e estamos ambos demasiado cansados para 
ficarmos aqui com ele. V se consegues apanhar um tcnico que venha c e fique com ele.
   J era de dia quando Isaiah chegou a casa. Quando entrou, viu Laura adormecida numa poltrona. Um xaile que a sua me fizera cobria-lhe os ombros. Tinha as pernas 
dobradas sob ela e a cabea tombada sobre o ombro.
   Ele atravessou a sala em bicos de ps para a acordar com um beijo.
   - Bons dias, sol da minha vida...
   Enquanto falava, Isaiah apercebeu-se de que ela era realmente o sol da sua vida. Ela iluminara todo o seu mundo.
- Isaiah - disse ela, esfregando os olhos e sentando-se. - Que horas so?
   - Quase sete.
   - Esperei por ti...
   Ela parecia estar to cansada quanto ele se sentia.
   - Quando  que deste de mamar aos cachorrinhos?
   - H cerca de uma hora.
   - Vamo-nos deitar no teu quarto. Assim poderemos ouvi-los quando eles estiverem com fome.
   A caminho do quarto de hspedes, Laura passou-lhe um brao pela cintura.
   - Deves estar exausto...
   - Completamente estoirado, podes diz-lo...
   - O co ficou bem?
   Isaiah abanou a cabea.
   - Fiz tudo o que podia. Agora Deus tem de fazer o resto.
   s nove horas, os cachorrinhos serviram de despertador para acordar Laura e tiraram momentaneamente Isaiah de um sono profundo.
   - No te levantes -murmurou-lhe Laura. - Eu trato deles.
   Isaiah quis opor-se, mas no conseguiu manter os olhos abertos o tempo suficiente para formar as palavras. Laura. Parecia terem passado apenas alguns minutos 
quando ela o abanou suavemente para o despertar por um momento e se debruou sobre ele a sorrir.
   - Telefonei para a clnica para saber do co. A Lena disse-me que ele se est a aguentar bem.
   - Qptimo, ptimo... - disse Isaiah, esforando-se por sorrir; mas at o curvar dos lbios lhe exigiu um esforo desmesurado.
   Quando Isaiah voltou finalmente  superfcie, eram quase trs da tarde. Laura ouviu-o a andar pelo quarto. Ela levara a piscina de plstico para a sala para no 
o incomodar durante as mamadas. Agora, estava ocupada a pr de novo os cachorrinhos na piscina.
   - O caf foi acabado de fazer - disse ela, quando ele saiu do quarto.
   Ele apertara o cinto das calas, mas a camisa pendia-lhe aberta, mostrando uma faixa de peito musculado e bronzeado, coberto de plo escuro. Pestanejou e olhou 
turvamente para um cachorrinho, no momento em que ele chegava  borda da piscina e caa de cabea no cho.
   - Mas que raio? Eles ainda no esto em idade de fazerem isto...
   Laura limitou-se a erguer as mos.
   - Diz-lhes isso. De repente, parece que ganharam asas nas patas...
   Isaiah bocejou e dirigiu-se  cozinha. Quando regressou, trazia umacaneca de caf fumegante numa das suas grandes mos e parecia estar um pouco mais acordado. 
Observou Laura a colocar de novo um cachorrinho na piscina, sorriu e abanou a cabea.
   - Est na hora de arranjarmos um canil porttil. No podes passar o dia todo a fazer malabarismos com os ces.
   Laura sabia que ele tinha razo. Mas isso no significava que ela no se estivesse a divertir.
   - O Tristinho acha isto o mximo. Eles tm quase o tamanho necessrio para poderem brincar com ele.
   Isaiah sentou-se numa poltrona. Enquanto ele bebericava lentamente o caf, Laura mordiscou o lbio inferior.
   - Isaiah?
   - Hum?
   - Posso ficar com um?
   Laura revirou os olhos para ele.
   - Com um cachorrinho...
   Ele franziu o sobrolho.
   - O Tristinho vai ser um co muito grande, Laura.
   - Eu sei. - Laura afagou o Tristinho, que estava deitado a dormir ao lado dela. - Mas ele  teu. Eu quero um co meu. - Laura pegou no pequeno macho que lhe conquistara 
o corao. No conseguia olhar para o focinhito enrugado dele sem sorrir. -Quero-lhe chamar Carquilhas...
   - Carquilhas? Mas que raio de nome  esse? - perguntou Isaiah, observando o cachorrinho. Depois, acabou por sorrir. - Ele tem realmente um focinhito encarquilhado. 
- Os olhos dele escureceram. - Laura, querida, os donos da me ficam com o melhor da ninhada. H toda a probabilidade de escolherem esse.  um cachorrinho com muito 
bom aspecto.
   O corao de Laura falhou uma batida.
   - No o posso esconder?
   - No ests a pensar que eles no saibam contar, pois no? J sabem que h treze cachorrinhos.
   Laura segurou o cachorrinho junto do corao. Ficou um momento pensativa. Depois, a expresso dela iluminou-se e disse:
   - E se dissssemos que um deles morreu?
   Isaiah lanou para trs a sua cabea morena e rebentou a rir.
   Tendo a manh de segunda-feira decorrido sem incidentes e o pastor alemo continuado a aguentar-se, Isaiah pde finalmente respirar de alvio. Ligou para a polcia 
para lhes dar notcias do estado do co, feliz por poder dizer que o co-guia ia provavelmente ficar bem.
   - Isso so ptimas notcias - disse do outro lado da linha uma mu- lher-polcia. - A dona tem estado inconsolvel. Para ela, ele no  s um co, mas o melhor 
amigo que ela tem em todo o mundo.
   - Se ele era o seu melhor amigo, por que razo ela o deixou seguir na caixa aberta de uma carrinha em estradas cobertas de gelo? No Vero, em viagens curtas, 
ainda se compreende, mas no Inverno  completa loucura, quando o asfalto est escorregadio.
   - Eu sei - concordou a mulher. -Acredite-me quando digo que ela nunca mais vai permitir que isso acontea. Foi apenas uma dessas coisas, creio eu, uma carrinha 
de trs lugares, e duas pessoas para a irem buscar ao aeroporto. Com trs pessoas na cabina, no havia espao para o co. Ela achava que no havia mal em o deixar 
seguir atrs. Iam apenas percorrer uma curta distncia.
   - As estradas com gelo so perigosas mesmo em distncias curtas - disse Isaiah, apercebendo-se nesse momento de que se estava a queixar  pessoa errada. -Desculpe-me. 
Isto por vezes  difcil. Vejo mais idiotas a entrarem-me pela porta dentro do que me apetece contar. No  preciso ser-se um cientista aeroespacial para se cuidar 
devidamente de um animal de estimao. Tudo o que precisamos  de um pouco de bom senso.
   A mulher emitiu um som de comiserao.
   - Nem me fale. O senhor v os ces que foram projectados dos veculos. Ns vemos os midos.
   Isaiah sentiu o estmago apertar-se-lhe s com a ideia. Manteve-se ao telefone apenas o tempo suficiente para comunicar a factura da clnica  polcia.
   Nessa tera-feira,Isaiah apercebeu-se de que s restavam trs dias teis antes do Natal. Estava a passar uma receita numa das salas de exame. Ao escrever a data, 
ocorreu-lhe de repente que aquele no era o dia vinte e um de um qualquer ms do ano, mas o dia vinte e um de Dezembro.
   Laura j cumprira o seu turno da manh e sara com o resto do dia livre. Depois de voltar ao bloco operatrio, Isaiah tirou o telemvel do cinto, marcou o nmero 
de casa e andou de um lado para o outro at ela atender.
   - Podes trazer os cachorrinhos para a clnica por volta das quatro? - perguntou ele, depois de ela atender a chamada.
   - Porqu?
   - Porque vou contratar algum para ficar aqui a tomar conta deles enquanto formos fazer compras de Natal.
   - Ainda no acabaste de fazer as compras?
   Isaiah esfregou o ponto entre as sobrancelhas que lhe latejava sempre que tinha os nervos em franja.
   - Acabar? Querida, eu ainda nem comecei!
   Longo silncio.
   - Mas, Isaiah, estamos quase no Natal...
   - Eu sei. No sei  onde tinha a cabea. Pensei que ainda tinha muito tempo. Importas-te de me ajudares?
   - Tens de comprar prendas para quantas pessoas?
   - Por alto, para cerca de trinta, no contando com todos os empregados antigos do Lazy J. Cresci com a maior parte deles, e eles so quase famlia. E tu,  claro. 
Suponho que deverei tambm arranjar qualquer coisa para os teus pais e para a tua av. E ainda para a tua irm e para a famlia dela, creio. Provavelmente, contando 
tudo, dever rondar as quarenta, talvez quarenta e cinco pessoas.
   -  muito.
   - Eu sei - concordou ele, desconsolado. - Tenho uma famlia enorme, e que cresce de ano para ano. - Suspirou. - Estava a pensar em levarmos o Hummer e deixarmos 
o teu carro aqui at amanh.
   - Mas no vamos ter de voltar para buscar os cachorrinhos?
   - Sim. Mas regressaremos ao trabalho amanh de manh por volta da mesma hora. Para qu levares o teu carro de volta a casa e gastares gasolina? Ficar muito bem 
estacionado por detrs da clnica.
   - Okay. Vemo-nos ento s quatro.
   - Agradeo-te, querida. Vamos jantar fora. Achas bem?
   Quando Isaiah desligou o telefone, Belinda estava-se a rir e a abanar a cabea.
   - Esqueceste-te outra vez de ir s compras!
   No era uma pergunta.
   - Na verdade no me esqueci. Pensava que poderia ir algum dia para a semana.
   - Para a semana? - perguntou Belinda, erguendo as sobrancelhas escuras. - Em que planeta vives tu?
   Laura estava atrasada. Isaiah transferira todas as marcaes que no podia cancelar para a ala de Tucker e estivera  espera dela durante quase quinze minutos, 
espreitando por uma das janelas do canil. Quando por fim viu o carro dela entrar no parque de estacionamento, saiu pela porta do armazm e apressou-se a ir ao encontro 
dela.
   - Desculpa - disse ela ao sair do carro. - Tive problemas com os cachorrinhos.
   - Que tipo de problemas?
   Ela parecia um pequeno esquim feliz e contente, no seu anorak cor-de-rosa com capuz. A cara dela estava emoldurada em pelia artificial, de longos e fofos plos 
brancos, com madeixas de cabelo louro espetadas para fora.
   - Eles no se mantinham no cesto. Fiz-me  estrada e, mal dei por mim, tinha um cachorrinho por baixo do pedal do travo.
   Isaiah sentiu um baque no corao.
   - Podias ter tido um acidente.
   - Nem me fales. No conseguia usar o travo. Tive de desligar o motor na chave e deixar o carro rolar at parar.
   - Deus do Cu - disse Isaiah, curvando-se para espreitar atravs de uma das janelas de trs. - Onde  que eles esto?
   - Na mala - disse ela, abrindo a tampa. Isaiah contornou a traseira do carro. Havia cachorrinhos a saltar dentro do porta-bagagens como bonecos de caixas de surpresas.
   - Ajuda-me! - gritou Laura, tentando agarrar os cachorrinhos antes que eles tombassem para fora do porta-bagagens e cassem ao cho. - No tenho mos que cheguem 
para isto!
   Isaiah no se conseguiu conter; desatou a rir. Mas o seu divertimento em breve se esvaiu quando lanou a mo a um cachorrinho que estava a cair do porta-bagagens 
para fora e quase que falhou. Antes que conseguisse meter o co no cesto, outro tombou para fora.
   - Meu Deus! Eles ainda so muito pequenos para fazerem isto. O que  que lhes ests a meter na frmula?
   Havia cachorrinhos a saltar para fora do cesto mais depressa do que eles os conseguiam meter dentro. Isaiah despiu o casaco e lanou-o sobre o cesto para formar 
uma tampa. Depois, ajudou a enfiar cachorrinhos para dentro do cesto e manteve o casaco esticado enquanto Laura apanhava os que faltavam. Quando colocaram todas 
as treze crias dentro do cesto, trabalharam os dois em tandem para os levar para o interior da clnica, com Laura a danar em volta de Isaiah enquanto ele caminhava, 
para apanhar as pequenas bolas de pelo que tentavam escapar.
   - Nunca me aconteceu uma destas! - desabafou Isaiah, sem flego, ao pousar o cesto no interior de uma jaula do canil. - E queres tu um destes monstrinhos? - Uma 
bola preta com patas tombou do cesto e bamboleou-se s cegas at bater na ponta da bota de Isaiah. Este estava com medo de se mexer, com receio de lhe pisar uma 
patinha. Baixou-se para pegar no animalzinho e viu o seu esforo recompensado com uma rosnadela. -O sacaninha! Acaba de me rosnar!
   - No lhe chames sacaninha. Esse  o Carquilhas.
   Isaiah voltou o cachorrinho para lhe olhar nos olhos leitosos.
   - Logo que me consigas ver bem, malandreco, vais perceber.
   Isaiah detestava fazer compras de Natal. O seu modo de operao habitual era ir a um hipermercado e tirar coisas das prateleiras  medida que avanava atravs 
de uma seco: artigos domsticos para mulheres e seco de ferramentas para homens. No seu ltimo giro, passava pela seco de brinquedos, para as crianas.
   O primeiro problema surgiu quando ele se apercebeu de que no partilhava com Laura a mesma forma de escolher presentes. Ela olhou para ele em consternado desalento 
ao v-lo pegar numa torradeira para a me dele.
   - Isaiah, a tua me j tem uma torradeira.
   - Mas esta d para fazer quatro torradas ao mesmo tempo...
   - Isso no tem nada a ver. Deves comprar para as pessoas coisas que elas queiram... Ela no precisa de uma torradeira, e tambm no  um presente engra-ado.
   - Ela adora torradeiras.
   Laura lanou-lhe um olhar de incredulidade e comeou a bater o p.
   - No me digas que j lhe deste torradeiras...
   Isaiah no conseguia compreender o que havia de to mau em comprar uma torradeira a algum. As pessoas comiam torradas, no era verdade? Se a sua me j tinha 
uma torradeira, esta ia de certeza avariar-se mais tarde ou mais cedo. Nessa altura, ela ficaria verdadeiramente satisfeita por ele ter pensado em lhe comprar uma 
nova.
   - A questo  esta - disse ele. - Tenho quarenta e cinco pessoas a quem comprar presentes. Se ficar a esmifrar os miolos de cada vez que pegar num presente, vou 
passar aqui uma semana!
   Laura voltou a colocar a torradeira na prateleira.
   - Se no encontrarmos nada melhor, voltaremos aqui para a vir buscar.
   Isaiah esteve quase para resmungar, mas limitou-se a segui-la diligentemente pela loja. Quando ela pegava numa coisa e a examinava por todos os lados, incluindo 
a parte de baixo, ele limitava-se a sorrir. Porque no? Raios, eles ainda tinham mais trs dias para fazer as compras. Era canja.
   Para sua surpresa, a forma de Laura fazer compras revelou-se divertida. Talvez fosse por a cabea dele ter parado de doer, mas dar um pouco de ateno  escolha 
de um presente era recompensador. Encontraram um banco de cozinha para a me dele - uma coisa jeitosa desdobrvel com um assento regulvel de modo a que ela se pudesse 
sentar enquanto preparava refeies. Isaiah vira por mais do que uma vez, quando havia jantares em famlia, a sua me com os tornozelos inchados e a esfregar as 
costas por estar tanto tempo de p. O banco era uma coisa que ela iria mesmo usar.
   Depois disso, Laura conduziu Isaiah atravs do centro comercial, parando em lojas especializadas para passar os olhos e encontrar presentes adequados para todas 
as pessoas de que eles gostavam. Entre uma loja e outra, faziam corridas loucas atravs da noite invernosa para guardarem as compras no Hummer. Estava a nevar, o 
que tornava tudo perfeito.
   No trio do centro comercial, ela fez questo de darem a volta  gigantesca exposio natalcia, cheia de figuras animadas. Nesse ano, representava a oficina 
do Pai Natal no Plo Norte. As renas baixavam as cabeas para comerem. Atravs de janelas com os vidros cobertos de neve artificial, podiam-se ver elfos do Pai Natal 
a trabalharem laboriosamente sob uma luz dourada para completarem os seus projectos antes da Vspera de Natal.
   - Oh, Isaiah, olha para a Me Natal! - gritou Laura. - No  querida?
   Isaiah inclinou-se para espreitar atravs do vidro embaciado pelo geloe pela neve artificiais e observar uma pequenina e engraada Me Natal,apetrechada de culos 
 avozinha, bochechas coradas, um vestido azul, um avental e sapatos pesades. Com um sorriso rasgado no rosto, ela oferecia uma travessa a um Pai Natal muito feliz 
e satisfeito, que estava continuamente a pegar em bolachas e a dizer: "Ho, ho, ho! Muito obrigado, Me Natal!"
   - No seria ptimo que houvesse mesmo um Pai Natal, e que todos ns pudssemos expressar um desejo e que ele o tornasse realidade? - perguntou Laura.
   Ela olhou para Isaiah com os olhos a brilhar, e nesse momento ele apercebeu-se de que j recebera um fornecimento para toda a vida de desejos de Natal realizados. 
Ela era tudo o que ele alguma vez desejara, tudo o que ele alguma vez precisara e mais do que alguma vez sonhara; era todos os seus desejos condensados num nico. 
Havia cnticos de Natal a serem tocados atravs do sistema sonoro do centro comercial - nesse instante eram o Sil- ver Bells- recordando-lhe que no possua nenhuma 
aparelhagem estereofnica, e muito menos um CD de canes de Natal. Pior ainda, estivera to concentrado no trabalho que ainda no arranjara uma prenda para Laura, 
ou sequer pensara no que ela poderia gostar.
   No gostou da imagem dele prprio que se lhe estava a formar na mente. Tornara-se num Scrooge dos tempos modernos, quase mecnico na forma como vivia a sua vida. 
Decerto que o seu trabalho era importante, e era ptimo ser-se-lhe dedicado, mas no  custa da excluso de tudo o resto. Havia magia de Natal no ar. Em breve iriam 
celebrar o nascimento de Cristo. Era uma ocasio esplendorosa, uma poca do ano que ele no queria mais voltar a ignorar.
   - H mesmo um Pai Natal - assegurou ele a Laura. - Se acreditares nele,  to real quanto ns o somos. Basta que continues a repetir para ti mesma que h um Pai 
Natal.
   Ela riu-se, fechou os olhos com fora e disse:
   - Estou a formular o meu desejo de Natal...
   - O que  que pediste? -perguntou-lhe ele, quando ela abriu as plpebras pestanudas.
   - No te posso dizer. Se o fizer, no se realiza...
   
   No extremo oposto da cena do Plo Norte, depararam com uma rvore de Natal para os pobres, decorada com envelopes. No topo da rvore, uma estrela de papel ostentava 
a mensagem ESCOLHA UMA FAMLIA. Normalmente, Isaiah passava por essas coisas sem lhes ligar minimamente. J tinha famlia que chegasse para comprar presentes de 
Natal. Mas nessa noite no conseguiu passar sem parar. Ele tinha tanto, enquanto outros tinham to pouco ou mesmo nada.
   - Vamos dar um bom Natal a uma famlia pobre - sugeriu ele.
   Laura pareceu hesitante.
   - No sei se tenho dinheiro suficiente. Quando pago com o meu carto de crdito, a senhora do banco diz-me quanto  que ainda me resta. Mas estamos quase no fim 
do ms, e portanto h algum tempo que ela no me diz nada.
   Isaiah no conseguia imaginar como seria nunca saber ao certo quanto dinheiro gastara ou quanto lhe restava na conta.
   - Eu pago tudo - garantiu-lhe ele. - Sou abenoado com os recursos suficientes para poder faz-lo e nem sequer dar pela despesa. - Isaiah pegou nela pelos ombros 
e voltou-a para a rvore. - V, fecha os olhos e tira um envelope.
   A mo tacteante de Laura pousou sobre um envelope vermelho que continha a descrio fsica de cinco pessoas, uma me e quatro crianas de diversas idades. Havia 
trs raparigas, com seis, nove e onze anos, e um rapaz de catorze. Cada uma das crianas escrevera uma lista com o que desejavam para o Natal, todas compostas de 
pedidos bastante modestos e alguns de ndole tristemente prtica, tais como botas para neve e luvas com isolamento trmico. Embora fossem fornecidas as medidas para 
o vesturio da me, ela apenas pedia cinco refeies prontas de peru, congeladas, uma lata de molho de arando, um pacote de po e uma tarte de abbora congelada.
   - Oh, Isaiah - murmurou Laura com voz trmula, ao ler as listas em voz alta. - Eles no vo ter uma ceia de Natal...
   - Oh, vo ter, vais ver - disse Isaiah, inclinando-se para a beijar, ali mesmo,  frente de Deus e de toda a gente. A boca dela encontrou-se com a dele, fremente. 
O sabor dela era to quente e doce quanto o vinho generoso que ela preparara para a pequena cerimnia do enfeite da rvore de Natal, fazendo-o suspirar pelo lar 
e pela privacidade, de modo a poder fazer um trabalho de degustao mais completo. No era possvel. Afastou relutantemente a cara da dela, sorrindo ao observar 
o ar deslumbrado e sonhador a desvanecer-se-lhe lentamente do olhar. - E essas crianas tero tudo o que pediram nas suas listas, e mais ainda. Vamos fazer de Pai 
Natal.
   Isaiah pegou-lhe na mo.
   - Vamos, menina. Faz como um elfo. Estamos quase no Natal.
   A temida expedio para as compras de Natal veio a transformar-se num dos seres mais maravilhosos da vida de Isaiah. Ele e Laura erraram pelas veredas de uma 
generosidade absurda ao fazerem compras para a sua famlia pobre, comprando um vestido, uma camisa de noite e um par de pantufas para a me, e tudo o que constava 
na lista das crianas, incluindo outras coisas - brinquedos, livros, material de belas-artes, equipamento desportivo e vesturio. Para assegurar a ceia, decidiram 
incluir um che- que-prenda de cem dlares de um supermercado local, de modo a que a me pudesse cozinhar uma verdadeira ceia de Natal com todos os acompanhamentos, 
ficando ainda a sobrar um pouco para comprarem guloseimas.
   Para a sua irm paraplgica, Bethany, encontraram um par de pantufas aquecidas a pilhas, para que ela pudesse manter os ps quentes nas frias noites de Inverno. 
Compraram uma lupa com uma luz acoplada, suspensa de um brao metlico articulado e ajustvel que se fixava em quase todas as superfcies, para a mulher de Hank, 
Carly. Isaiah sabia que a sua cunhada passava todos os momentos livres a tentar treinar o seu crtex visual. Ser-lhe-ia muito mais fcil ler e folhear revistas com 
o auxlio de uma lupa.
   A meio da sua ronda de compras, tanto Isaiah como Laura ficaram com fome. Entraram num restaurante de vinhos e queijos. Quando estavam sentados  mesa, Isaiah 
olhou por cima da chama da vela para a cara oval de Laura, pensando que ela era o melhor presente de Natal de todos. Contudo, ainda no fazia ideia do que lhe havia 
de comprar. S sabia que lhe queria dar o mundo.
   
   - Fazes ideia de quanto s maravilhosa? -perguntou-lhe ele.
   Ela meteu uma azeitona verde na boca e sorriu-lhe por entre o volume da azeitona.
   - No, mas s livre de mo dizeres.
   - s a coisa mais fabulosa que alguma vez me aconteceu na vida.
   Os olhos dela brilharam com lgrimas de alegria.
   - E tu s a melhor coisa que alguma vez aconteceu na minha...
   - Amo-te tanto. Eu sempre detestei fazer compras de Natal, mas tu torna-las divertidas.
   Ela serviu-se de outra azeitona do prato de couvert que estava entreeles.
   - Fico feliz. Fazer compras  como a maior parte das outras coisas. Podemos achar isso uma estopada... ou transform-lo numa arte.
   Isaiah nunca pensara nisso dessa forma, mas agora que ela o mencionava, apercebeu-se de que ela abordava a maior parte das coisas dessa forma, entregando-se de 
corao a tudo o que fazia.
   - s incrvel, sabes? No tens nenhuma lista de nomes, mas at agora ainda no te esqueceste de ningum. Como  que consegues fazer isso?
   - Posso ter problemas a ler e a escrever, Isaiah, mas a minha memria est ptima.
   - Eu tambm tenho uma memria excelente, mas no sou organizado como tu. Por mais bolas que tenhas de equilibrar, pareces que nunca deixas cair uma. Trabalhas, 
tomas conta dos cachorrinhos, decoras e limpas a casa, lavas a roupa e ainda consegues ter um excelente jantar pronto todas as noites. No sei como o consegues fazer. 
Acreditas que uma vez um cliente me tirou uma folha de amaciador de roupa que estava colada  parte de trs da minha camisa?
   Ela riu-se com tanta vontade que teve de agarrar a barriga, fazendo-o pensar em como  que ela reagiria se ele lhe contasse da pega que encontrara pendurada 
na bainha das calas quando fora numa tarde ao banco. Quando o ataque de riso dela esmoreceu, ele estendeu o brao por sobre a mesa para lhe tocar na mo.
   - Tu salvas vidas, Isaiah, no andas a fazer malabarismos com bolas. Esqueces-te de todas as coisas pequenas porque ests sempre preocupado com as grandes.
   Ele suspirou.
   -  possvel. Mas por vezes  frustrante. Farto-me de trabalhar, mas parece que no consigo fazer mais nada como deve ser. Ir s compras, por exemplo - disse 
ele, voltando a mo para lhe apertar os dedos. - Obrigado por me ajudares a faz-lo. Sinceramente no sei o que faria sem ti.
   - No te preocupes. No tenciono deixar-te descobrir.


Captulo Catorze










   Ainda nevava quando Laura e Isaiah terminaram as compras de Natal e saram do centro comercial.
   - Salvaste-me a vida -disse-lhe Isaiah, ao sarem para o ar da noite. - Cheques-prenda de lojas especializadas. J ofereci cheques destes, mas nunca de seces 
especficas de uma loja ou de lugares que s senhoras ou homens gostariam.
   - Com tantas pessoas a presentear e to pouco tempo,  um caso de "eles que escolham" - respondeu Laura, com uma gargalhada. - Seria mais simptico se pudssemos 
escolher uma bonita prenda para cada pessoa, mas, no sendo possvel, acho bem que deixemos que sejam eles a escolher, creio eu.
   - Estou deliciado  por isto estarfeito.
   Depois de arrumarem o resto das compras na traseira do Hummer, Laura ergueu os braos e voltou a cara para o cu para apanhar flocos de neve na lngua.
   - Experimenta! - disse ela, com uma risada. - Nunca fizeste isto quando eras pequeno?
   Isaiah sentiu-se idiota, mas achou que o decoro estava a ser demasiadamente empolado e abriu a boca.
   - No h dois flocos iguais, sabes? - perguntou ela, pestanejando quando os pequenos msseis brancos flutuantes lhe entravam nos olhos.
   Isaiah baixou a cabea para olhar para ela. Na luz suave de um candeeiro pblico prximo, ela parecia um anjo. Era decididamente nica. Se ele tivesse de procurar 
durante todo um sculo, nunca encontraria outra pessoa exactamente como ela.
   De regresso  clnica, Isaiah vasculhou um dos armazns  procura de um canil metlico porttil. Isso consumiu-lhe quase uma hora, porque o objecto em causa estava 
atrs de uma pilha de caixas. Depois, tiveram de ir buscar os cachorrinhos e apresent-los  sua nova cela.
   - Eles da no se escapam - disse Isaiah com uma gargalhada, quando viu um cachorrinho bater com o focinho contra a grade de arame. - Os teus dias de Houdini 
chegaram ao fim, Carquilhas.
   - Quando eles crescerem, vo ter espao suficiente ali dentro? - perguntou Laura.
   - No, mas por agora serve - disse Isaiah, passando-lhe um brao em volta do pescoo e plantando-lhe um profundo beijo na boca macia. - Estou contente por ires 
para casa comigo. Tenho andado toda a noite a desejar meter as mos por baixo desse anorak.
   Os olhos dela quase que se fecharam.
   - Prometes?
   Quando chegaram a casa, o Tristinho saiu disparado, passando por eles como um p-de-vento, na nsia de ir para o exterior, quase fazendo com que Isaiah deixasse 
cair os pacotes que levava nos braos. Laura pousou no cho o canil de arame cheio de cachorrinhos e apressou-se a regressar ao Hummer, antecipando-se a Isaiah, 
para trazer outra braada de presentes.
   Quando todas as coisas foram trazidas para dentro de casa, ela surpreendeu Isaiah ao correr para o exterior para brincar na neve com o Tristinho. Isaiah ficou 
a olhar para o monte de presentes que ainda tinham de ser embrulhados e pensou seriamente em comear a fazer isso de imediato. Mas o som do riso de Laura atraiu-o 
como um man para o alpendre no exterior.
   - Laura, j passa das nove. No achas que j  tarde para andares a disparatar aqui fora?
   Whop. Uma bola de neve atingiu-o em cheio na cara. Isaiah sacudiu a matria branca da face e semicerrou os olhos.
   - J te disse que fui lanador dos Crystal Falls Comets durante quatro anos seguidos? - disse ele.
   Ela afastou-se a danar, desaparecendo na escurido, e um momento depois uma outra bola de neve acertava no peito dele. Isaiah apercebeu-se de que estava em sria 
desvantagem, se continuasse de p na luz. Saltou do alpendre, apanhou uma mo-cheia de neve e saltou no encalo dela.
   - Se queres guerra, menina, vais ter guerra!
   Ela riu-se e deitou-lhe a lngua de fora. Isaiah atirou a bola num lance perfeito, atingindo-a na cara com uma bola de neve mal compactada. Ela cuspilhou, e lanou-se 
num mergulho em direco a um montculo de neve para arranjar mais munies.
   Meia hora depois, estavam ambos encharcados com neve derretida, e o Tristinho estava exausto de correr de um lado para o outro, tentando apanhar bolas que se 
lhe derretiam na boca. Isaiah sentou-se pesadamente nos degraus do alpendre, e Laura veio-se sentar ao lado dele. Ficaram juntos a olhar para a escurido da noite 
e para os flocos de neve que tombavam lentamente.
   - Isto  lindo - murmurou ele.
   - Sim - concordou ela, desviando o olhar por um momento. E depois ps-se de p num salto. - Ainda no fizemos gelados de neve!
   - Ests a brincar! So quase dez horas.
   - Qual  o problema? Transformas-te numa abbora  meia-noite?
   Ele ps-se de p e seguiu-a para dentro de casa. Ela j estava a tirar uma tigela de uma prateleira.
   - Queres ir buscar a neve enquanto eu preparo as outras coisas?
   O que ele queria era fazer amor apaixonadamente com ela em cima da mesa da cozinha. Mas uma olhadela aos olhos cor de avel dela, que bailavam  luz fluorescente 
da cozinha, disse-lhe que o gelado de neve teria de vir primeiro. Assim, ele regressou  sala para ir buscar a aparelhagem porttil e os CD que comprara. Se iam 
fazer gelado, iriam ouvir canes de Natal enquanto trabalhavam.
   Isaiah e Laura chegaram  clnica pouco antes das seis da manh seguinte. Ao virar para o parque de estacionamento, o corao de Isaiah su-biu-lhe  garganta. 
Parecia haver luzes da polcia a voltear por todo o lado, criando um efeito espiralado de azul e vermelho sobre a neve cada de fresco. Na escurido que antecede 
a aurora, era uma viso assustadora.
   - Oh, meu Deus! Aconteceu qualquer coisa! - exclamou Laura.
   Isaiah meteu o Hummer  bruta num lugar de estacionamento, colocou a alavanca da caixa automtica na posio de parqueamento e desligou a ignio. Ele e Laura 
saltaram do veculo quase em simultneo. Quando chegaram  porta das traseiras, encontraram um agente da polcia a guard-la.
   - Desculpe, o senhor no pode entrar.
   Isaiah agarrou no brao de Laura. Mesmo atravs da manga do anorak, ele conseguia senti-la a tremer.
   - O senhor sabe se os ces e os gatos esto bem? - perguntou ela com voz sumida.
   - Os animais esto ptimos -assegurou-lhe o agente. - Estavam  procura de drogas.
   - Drogas? - repetiu Isaiah, incrdulo. Era verdade que a clnica possua uma grande reserva de narcticos. Praticamente todas as clnicas os tinham. Tambm sabia 
que no era raro as clnicas veterinrias serem assaltadas por toxicodependentes. Mas estavam em Crystal Falls, no meio do estado de Oregon, e no numa grande cidade. 
- Assaltaram a clnica  procura de drogas?
   - Sim senhor. O senhor  um dos proprietrios?
   - Isaiah Coulter. Eu e o meu irmo Tucker somos os proprietrios da clnica. Se algum entrou nela por arrombamento, porque  que no fomos notificados pela empresa 
de segurana?
   - O alarme no disparou - respondeu o polcia, tirando um bloco de notas da algibeira. - Coulter, no ? Diga-me outra vez o seu primeiro nome.
   Isaiah deu a informao.
   - Como  que algum pde entrar no edifcio sem fazer disparar o alarme? - perguntou ele ao polcia.
   - Parece trabalho de algum da clnica. O perpetrante utilizou um cdigo de segurana para desligar o sistema. Um dos seus empregados - respondeu o polcia, olhando 
para as suas notas -, uma senhora chamada Susan Strong, ligou para ns quando chegou aqui para abrir a clnica h uns minutos.
   A polcia estava no interior  procura de impresses digitais, e passaram mais de trinta minutos at Isaiah e Laura poderem entrar no edifcio. Quando Isaiah 
viu o armrio dos estupefacientes, quase no conseguiu acreditar nos seus olhos. As fechaduras haviam sido rebentadas e as prateleiras estavam quase vazias.
   - Raios! - murmurou ele para Laura. - H algum que vai ficar pe- drado por seis meses...
   Laura estava a tremer, mesmo com o casaco vestido. Isaiah passou-lhe um brao pelos ombros e chegou-a para si.
   - No te preocupes, minha querida. O armrio pode ser arranjado, e os medicamentos podem ser substitudos.
   - A primeira coisa em que pensei foi nos ces - murmurou ela. - Que eles pudessem estar feridos.
   - Eu sei, mas eles esto bem.
   Por cima da cabea de Laura, Isaiah viu um agente da polcia aparecer  porta do laboratrio da farmcia. O homem olhou para Laura, tirou o bon e meteu-o debaixo 
do brao.
   - Desculpe-me, Dr. Coulter?
   Isaiah afastou gentilmente Laura.
   - Sim?
   O homem olhou para o bloco que tinha na mo.
   - Tem uma mulher de nome Laura Townsend a trabalhar para si?
   Pela segunda vez, em menos de uma hora, o corao de Isaiah deu um pulo.
   - Porque pergunta?
    - Acabmos de encontrar o automvel dela no parque de estacionamento. As drogas roubadas esto no porta-bagagens.
    Isaiah olhou para Laura. A cara dela ficara plida como o leite.
    - Eu sou Laura Townsend - disse ela, com voz trmula.
    O agente olhou para ela espantado. Depois, semicerrou os olhos.
    - Pode-me ento explicar como  que as substncias de uso regulamentado foram parar  mala do seu carro, Menina Townsend?
    - No.
    Isaiah deu um passo em frente para colocar Laura ligeiramente por detrs dele.
    - Espere um pouco, com a breca! A Laura no esteve metida nisto. Sei que no esteve. Ela esteve comigo toda a noite! - disse Isaiah, passando a relatar rapidamente 
os acontecimentos da tarde anterior. - Deixmos aqui o carro dela. Ela nem sequer tinha meio de transporte para regressar.
    O polcia olhou para Laura. Depois, lanou um olhar penetrante a Isaiah.
    - Seria possvel falarmos a ss, doutor?
    A irritao subiu dentro de Isaiah.
    - No, raios, no  possvel! No tenho segredos para ela.
    - Deixa estar, Isaiah - disse Laura, tocando-lhe na mo. - Vou para os canis.
    Laura estava assustada. Por um lado, sabia que era um disparate. As pessoas no so presas por aquilo que no fizeram. Mas outra parte dela no tinha tanta certeza. 
As drogas foram encontradas na mala do seu carro. No fazia a menor ideia de como tero l ido parar. Mas no era essa a questo. A polcia lidava com factos, e 
naquele preciso momento todos os indcios apontavam directamente para ela.
    Ela ocupou-se a trabalhar - a mudar cobertores, a encher malgas de comida e de gua. Mesmo assim, era como se tivesse passado uma eternidade at que Isaiah aparecesse 
na coxia central. Bastou que Laura olhasse para ele para saber que estava metida em grandes sarilhos. Os olhos azuis dele estavam repletos de angstia. A sua boca 
firme cerrava-se numa linha soturna.
   - Ento? - disse ela, saindo de um canil para ir ao encontro dele. - No me faas esperar; morro de angstia.
   Ele pousou-lhe as mos grandes sobre os ombros.
   - Antes de mais, Laura, quero que saibas que j contratei um advogado.
   - Um qu?
   - Um advogado - respondeu ele, inclinando a sua cabea morena para encostar a fronte  dela. -O roubo de estupefacientes  um crime grave.
   O corao de Laura estava a bater com tanta fora que parecia poder partir-lhe uma costela.
   - Mas eu no fiz nada de mal!
   - Eu sei. E a polcia vai-se aperceber disso em breve - disse ele, aper-tando-lhe os braos. - Ah, Laura... O cdigo de segurana que usaram para entrar no edifcio 
foi o teu.
   Laura sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias.
   - Mas eu nem sequer o cheguei a escrever! E no disse a nin-gum os meus nmeros.
   - Mesmo assim, houve algum que lhe deitou a mo. - Isaiah beijou-a na fronte. - Eu tenho uma cpia dos cdigos de toda a gente nos meus ficheiros. Assim como 
o Tucker. Ambos mantemos os nossos armrios de arquivo fechados  chave. Mas  bem possvel que um de ns no tenha sido suficientemente cuidadoso com as nossas 
chaves.
   Laura cerrou os punhos sobre as mangas da camisa dele.
   - O... o que  que isto quer dizer, Isaiah? No vais deixar que eles me prendam, pois no? Sabes que no fui eu...
   -  claro que sei que no foste tu, querida. Mas um delito que envolva substncias de uso regulamentado, especialmente em grandes quantidades como estas,  considerado 
crime. De que tipo, no sei. No me interesso muito por esse tipo de coisas. S sei que est fora das minhas mos. A coisa foi encontrada no teu porta-bagagens, 
pelo amor de Deus! Tresanda a armadilha, mas como  que algum conseguiu abrir a mala do teu carro sem as chaves? No h indcios de arrombamento.
   Laura s conseguia abanar a cabea.
   - Eu vou deslindar isto at ao fim, juro-te -prometeu-lhe ele. - E j telefonei para o melhor advogado da cidade. O Zeke contratou-o h algum tempo. Ele parece 
um cadver ressuscitado, mas  fino como um coral. Eles no te vo reter na priso, prometo-te.
   - Reter-me? - exclamou Laura, incrdula. O seu crebro estava em curto-circuito. Mal conseguia apreender o sentido do que ele estava a dizer. - Oh, Isaiah... 
No deixes que eles me prendam! Eu estava contigo; no tinha o carro. Tu sabes que no fui eu!
   - Eu sei, Laura, mas eles no sabem. Eu disse-lhes que estiveste comigo, e eles perguntaram-me se eu estive acordado a noite toda e se podia jurar que nunca saste 
de casa. Eu disse-lhes que estavas sem carro, e eles perguntaram-me se eu tinha a certeza absoluta de que no usaste o meu.
   - Mas por que razo iria usar o teu e deixar as drogas no meu? No faz sentido!
   - No, no faz, e, logo que os chuis tiverem oportunidade de passar isto a pente fino, estou certo de que se iro aperceber disso.
   Um agente da polcia apareceu por detrs de Isaiah. Pigarreou.
   - Menina Townsend? - disse ele, com delicadeza. - Desculpe, mas vai ter de vir comigo.
   Isaiah beijou-a de novo na fronte. Depois, afastou-se. Laura lanou-lhe um olhar aflito.
   - Confia em mim - disse ele.
   E depois o polcia tirou um par de algemas do cinto. Ao coloc-las nos pulsos de Laura, o homem leu-lhe os direitos.
   Ser detida no era to assustador quanto Laura esperava; no era nada parecido com o que ela via na televiso. Os agentes policiais foram correctos. No lhe deram 
encontres para que ela andasse, ou lhe puxaram os braos violentamente para cima, atrs das costas, para lhe causar dor. Embora estivesse algemada e sentada nos 
bancos traseiros de um carro-patrulha, por detrs de uma rede de arame forte, sentia-se quase como que a dar um passeio de domingo.
   Uma vez na esquadra, a coisa tornou-se um pouco mais feia. Ela foi levada at junto de uma secretria e obrigada a sentar-se numa cadeira. O homem que a interrogou 
gostava de empregar acrnimos, e Laura no conseguia compreender metade do que ele dizia. Pior do que isso, ele perguntava basicamente as mesmas coisas vezes sem 
conta, o que constitua um sinal claro para Laura de que o homem no acreditava em nenhuma das suas respostas. Numa hora, Laura ficou entorpecida. Em duas, mal conseguia 
dizer o seu prprio nome.
   - No que  que andas? - perguntou o homem.
   Laura no fazia a mnima ideia do que  que ele queria dizer.
   - Des-desculpe?
   - O que  que ests a tomar?
   Laura apercebeu-se de que ele pensava que ela estava sob a influncia de uma droga qualquer e desatou a rir. O sujeito no achou graa nenhuma. Quanto mais ele 
se irritava, mais engraado aquilo parecia a Laura. Em breve, no conseguia parar de rir.
   O advogado que Isaiah contratara chegou a tempo de salvar o dia. Era esqueltico e velho, com um nome que no entrava na cabea de Laura, mas sabia mexer os cordelinhos. 
Em poucas palavras, explicou a razo do falar sincopado de Laura, e o chui ultrapassou a irritao. Cerca de uma hora depois, Laura foi informada de que se podia 
ir embora. Ajudaram-na a levantar-se, as algemas foram-lhe retiradas dos pulsos e o advogado acompanhou-a at  sada.
   Isaiah andava de um lado para o outro no trio da esquadra, junto s portas de entrada. Quando viu Laura, veio a correr ao encontro dela. Ela estava demasiadamente 
entorpecida para fazer o que quer que fosse para alm de se encostar a ele quando Isaiah lhe passou um brao em redor.
   Os dois homens entabularam uma conversa por cima da cabea dela ao sarem do edifcio. Laura ouvia as palavras, mas o seu significado escapava- lhe.Fiana, acusaes, 
crime, substncias regulamentadas. Tudo o que ela desejava naquele momento era meter-se na cama, puxar os cobertores para cima da cabea e no ouvir nada durante 
um bocado.
   No passeio, Isaiah parou para apertar a mo do advogado.
    - Agradeo-lhe a sua resposta pronta.
    O advogado deu uma palmadinha no ombro de Laura.
    - A irm do Sr. Coulter est casada com o Ryan Kendrick. Qualquer amigo do cl Kendrick  meu amigo. No se preocupe, Menina Townsend. Vamos resolver isto num 
instante.
    Laura deixou Isaiah conduzi-la at ao Hummer. Ficou satisfeita quando ele a agarrou pela cintura e a iou para o assento. Sentia as pernas como se fossem esparguete 
cozido. Alguns minutos depois, ao conduzir atravs da cidade, ele estendeu o brao para lhe apertar a mo.
    - J reorganizmos o horrio, querida. Os teus turnos esto cobertos at ver. No tens de te preocupar com nada at isto ficar resolvido.
    Laura pensou nos ces do canil. Iria sentir saudades por no estar com eles todos os dias.
    - Ainda estou em sarilhos? - perguntou ela. Sabia que devia fazer perguntas mais especficas. Teria ele percebido como  que algum lhe abrira a mala sem as 
chaves? Teria ele descoberto como  que algum obtivera o seu cdigo de segurana? Teria a polcia outros suspeitos? A sada dela teria sido sob fiana? E se fosse 
esse o caso, o que  que isso significava? Mas o seu crebro ficara em sobrecarga. - Achas que  provvel que eles ainda me venham buscar e meter na priso?
    - Espero bem que no - respondeu ele, olhando por um momento para ela. - Transferimos todas as emergncias para outro colega veterinrio, cancelmos todas as 
consultas e fechmos a clnica pelo resto do dia. - Isaiah olhou para o relgio e depois para o espelho retrovisor lateral. -O Tucker vai ter a minha casa dentro 
de uma hora. Vamos at ao fundo desta questo, Laura. Dou-te a minha palavra de honra.
    Laura confiava em Isaiah Coulter mais do que em qualquer outra pessoa. Mas tambm compreendia que ele no conseguia tirar respostas de um chapu, por artes mgicas. 
Em resumo, ela ainda estava em srios apuros e, a no ser que algo acontecesse para lanar suspeitas sobre outra pessoa, havia toda a possibilidade de ela ir para 
a cadeia.
    Curiosamente, a perspectiva no a aterrorizava por completo. Talvez no conseguisse falar muito bem sob tenso, mas isso no significava que ela fosse uma absoluta 
ignorante das leis. Um procurador tinha de provar a culpa. Quando este caso fosse a tribunal, qualquer advogado digno desse nome veria logo que havia nele buracos 
suficientemente grandes para acomodar um camio TIR. Ela estivera com Isaiah. No dispunha do carro. No tinha antecedentes criminais. As anlises de sangue demonstrariam 
que ela nunca tomara drogas. Pelo final do dia, Laura sentiu-se confiante de que iria triunfar.
   S rezava para que no fosse forada a triunfar a partir de uma cela de priso.
   Quando chegaram a casa, Laura deixou que Isaiah a mimasse. Estava bem fisicamente, mas o seu crebro danificado precisava de descanso. Ele sentou-a na borda da 
cama e descalou-lhe os sapatos. Depois, afastou os cobertores de modo a que ela se pudesse deitar. Alguns minutos depois, trouxe a aparelhagem porttil para junto 
dela, meteu um CD de Natal, regulou o aparelho para um volume baixo e calmante e serviu-lhe uma chvena de tisana de ervas a escaldar.
   - Obrigada, Isaiah. Desculpa-me por ficar aparvalhada... Daqui a pouco j fico melhor.
   Ele debruou-se sobre ela para a beijar na face.
   - V, nada de pedidos de desculpa... Ser-se preso assusta como o raio.
   Ela lanou-lhe um olhar interrogativo.
   - J foste preso?
   - Uma vez, na faculdade. As acusaes no pegaram.
   Enquanto dava de mamar aos cachorrinhos, Isaiah fez-lhe o que ela suspeitou ser um relato ligeiramente ficcionado do incidente.
   - Havia aquela espcie de grade a dividir a sala. De qualquer modo, dois sujeitos que eu e o Tucker sabamos que estavam bastante pedrados, sabe Deus porqu, 
decidiram destruir a trelia.
   Laura sorveu um pouco da tisana.
   - No estavas metido nisso?
   - Claro que no - respondeu ele, dirigindo-se  pequena jaula para pegar noutro cachorrinho. Ao sentar-se aos ps da cama, acrescentou - Nem o Tucker estava. 
O problema era o seguinte: quando temos mais de um metro e noventa, destacamo-nos na multido. Estvamos perto dos gajos que armaram a barraca. Um de ns - no me 
lembro agora se fui eu ou o Tucker - tentou faz-los parar. Do outro lado da sala, o grandalho do barman pensou que tivssemos sido ns a destruir aquilo. - Isaiah 
acabou de dar de mamar ao ltimo cachorrinho. - Foi a nica experincia que tive de ser acusado injustamente e algemado. No  coisa que deseje repetir.
   Laura estava a comear a sentir-se um pouco melhor e conseguiu esboar um sorriso.
   - Nem eu.
   - E no vais -garantiu-lhe ele. A campainha da porta tocou nesse preciso momento. Ele estava agachado junto da jaula dos cachorrinhos e ps-se de p. - A est 
o Tucker. - Isaiah apontou um dedo a Laura. - Tu descansa. Percebido? Pelo menos uma hora. Deixa que o teu crebro se desfragmente.
   - s suas ordens!
   Laura acabava de resvalar para o sono quando ouviu vozes exaltadas. O seu primeiro pensamento foi o de que a polcia viera busc-la. Isaiah praguejava. Por sobre 
a suave msica natalcia, ele parecia estar muito transtornado. Por muito que agradasse a Laura o esforo que ele fazia para a defender, no queria que ele arranjasse 
problemas com a polcia.
   Saltou da cama e atravessou o quarto descala. Para sua surpresa, no estava ningum na sala. Seguindo o som das vozes, ela avanou hesitante na direco da cozinha. 
Ao contornar a grande lareira de pedra rstica que dividia a sala da casa de jantar, apercebeu-se de que afinal no era Isaiah quem estava a falar to alto mas sim 
Tucker. Laura estacou. Um momento depois, constatou em primeira mo que o velho ditado era verdadeiro: os bisbilhoteiros nunca ouviam nada de bom acerca de si prprios.
   - Ests doido, Isaiah? - perguntava Tucker num grito contido, cia ramente controlado para no ser ouvido para alm do aposento. - No me digas que pretendes mesmo 
casar com a sujeita. S esperto. D uma volta com ela, espera que a novidade se dissipe e depois d-lhe com os ps.
   - Tucker, fazes-me o favor de ao menos desta vez no te meteres nisto? Trata-se da minha vida. O que eu escolher fazer com ela  uma coisa que s a mim diz respeito.
   - No quando ests prestes a deitar fora o teu futuro. A Laura  querida. Serei a primeira pessoa a admili-lo. E  inegvel que  bonita. Mas, pelo amor de Deus, 
Isaiah, usa a cabea! Ela  uma desadaptada com leses cerebrais que no consegue pronunciar palavras de trs slabas ou distribuir comida de co sem fazer merda.
   - Ela no fez merda com a comida de co.
   - Ser que te ouves? - perguntou Tucker, num tom mais calmo. - Eu no quero mal  Laura. Sabes isso. Gosto mesmo muito dela. Mas ela no  mulher para ti.
   - Desculpa, mas no  a mim que compete decidir isso?
   Laura levou uma mo  cintura, sentindo-se nauseada.
   - Agora tudo parece uma maravilha - retorquiu Tucker -, mas, se casares com a sujeita, vir o dia em que te arrependers at de a teres conhecido. Ela  incapaz 
de te estimular intelectualmente, Isaiah. E de certeza que no est  altura de ser a tua ajudante na clnica.
   Isaiah tentou atalhar com qualquer coisa, mas Tucker cortou-lhe a palavra.
   - Deixas-me acabar?
   Isaiah resmungou qualquer coisa, que Laura no conseguiu perceber. Mas no tinha dificuldade em ouvir Tucker.
   - Se casares com ela e fores suficientemente estpido para terem filhos - despejou ele -, quem  que os ir ajudar na leitura, ou nos trabalhos de casa, de matemtica, 
por exemplo? Vais ser tu, no tenhas dvidas. A Laura nem sequer consegue escrever o raio de uma lista de mercearia. Vais ter de ganhar o po e ainda coz-lo.
   - A Laura  uma cozinheira maravilhosa.
   - Bolas, sabes que no me estou a referir a isso! Se casares com algum como ela, ters de estar sempre a compensar todas as suas deficincias.
   - Ns vamos limando as arestas - disse Isaiah.
   - Arestas? Isaiah, tens um futuro brilhante como veterinrio. Com a mulher certa a teu lado, o cu  o limite. A Laura no  essa mulher. Quando o encanto se 
desvanecer, do que  que vais falar com ela?  mais que certo que no vais poder ter uma conversa intelectual com ela. Quando houver actos oficiais em que tenhas 
de estar presente, o que vais fazer? Vesti-la como uma bonequinha de porcelana e dizer-lhe para manter a boca fechada durante toda a noite?
   Laura estremeceu.
   - No estou propriamente a tentar subir numa carreira executiva... - contraps Isaiah.
   - Pois, isso dizes tu, e por enquanto  verdade. Mas se decidires mais tarde enveredar pelo campo da investigao ou dar aulas na universidade? Queres ter uma 
amostra das teias negras da poltica, mano? Visita qualquer universidade ou centro de investigao cientfica do pas. Uma esposa linda, inteligente, bem-sucedida 
e que saiba comportar-se socialmente  um trunfo valioso nesse universo e,acredita-me, a Laura nunca o ser.
   Laura sentiu como se o seu corao estivesse a partir-se.Oh, Deus. Quando era mais nova, diria que "as palavras insultuosas escorregam sobre a carapaa da minha 
indiferena", ou qualquer outra coisa do gnero. Mas no era verdade. As palavras podem infligir feridas mais profundas do que as da carne. O pior  que ela no 
podia rebater nada do que Tucker dissera. Ela era na verdade uma desadaptada com leses cerebrais, uma mulher que estava condenada a limpar retretes e a passear 
ces para sobreviver, at ter encontrado Isaiah.
   E o resto era tambm verdade. Isaiah tinha um futuro brilhante  sua frente, e precisava de uma mulher inteligente e encantadora que o pudesse complementar e 
ajud-lo a atingir todos os seus objectivos. Laura recordava-se da noite em que ele falara com ela acerca do chesapeake com uma doena auto-imune, e da forma respeitosa 
como se referira ao seu colega que devotara a sua carreira  investigao. Isaiah no lhe dissera que desejava seguir os passos desse colega mas, em retrospectiva, 
quando se recordou do olhar dele, Laura soube que a aspirao estava l. Ela simplesmente no a vira, talvez porque no a quisesse ver.
   Receosa de que Isaiah ou Tucker se virassem e a vissem na sala de jantar, Laura retirou-se para o seu quarto e fechou silenciosamente a porta. Sem lgrimas para 
verter, sentou-se na beira da cama e ficou de olhos fixos no cho com olhar vazio. Antes do seu acidente, ela poderia ter sido a mulher de que Isaiah precisava. 
Mas, com toda a honestidade, sabia que agora j no era capaz disso. Ela amava-o, sim, e desejava de todo o corao poder ter mais para lhe oferecer. Mas no tinha.
   Isaiah casaria com ela. Laura sabia isso. Ele era um homem meigo, atencioso e maravilhoso, e no seu ntimo achava que ambos poderiam fazer com que um casamento 
desse certo. Mas a que custo para ele? Ela no queria ser uma ncora que o retivesse e impedisse de realizar os seus sonhos.
   Por vezes, uma mulher tinha de amar suficientemente um homem para se afastar.
   Isaiah recusava-se a deixar-se irritar por Tucker. Sabia que o seu irmo estava bem-intencionado. Do ponto de vista de Tucker, Isaiah estaria a cometer um erro 
desastroso se se casasse com Laura. Sem o vu da paixo a toldar-lhe a mente, ele estava a tentar fazer com que Isaiah visse isso.
   - Muito bem - disse Isaiah num tom calmo. - J te deixei dizer o que tinhas a dizer. Deixas-me agora falar?
   Tucker fez um gesto largo com a mo e encostou a anca contra o balco.
   - Claro.
   Isaiah colocou-se frente ao irmo, com as ancas encostadas  ilha da cozinha.
   - Eu amo a Laura Townsend.
   - Isso  a tua pila a falar.
   - Porque  que no te calas e ouves? Durante toda a minha vida, toda a gente me incitou a parar e a cheirar as malditas rosas. "No leves a vida to a srio, 
Isaiah!" "Tira o nariz desse livro, Isaiah." "Precisas de arranjar uma esposa, Isaiah." Patati, patata... S que tanto eu como a minha pila nunca encontrmos uma 
mulher com quem ambos quisssemos estar.
   Tucker puxou a orelha.
   - Muito bem, estou-te a ouvir.
   - No, no me ouves. Nunca estiveste apaixonado.  como se eu estivesse a falar em grego - ripostou Isaiah, acenando com a mo na direco da sala. - Aquela rapariga 
ali mudou toda a minha vida. O sexo  ptimo. No o nego. Mas s descobri isso h bem pouco tempo e, por mais maravilhosos que sejam os aspectos fsicos, no  isso 
que eu adoro nela. Nunca se tratou disso.
   - Ento do que  que se trata?
   - Trata-se de ver os flocos de neve a cair, raios! Trata-se de me sentar junto  lareira  noite com ela, a ler-lhe um romance, em vez de me debruar sobre um 
calhamao de medicina. Trata-se de ter algum que me ouve. Dizes que a Laura no consegue ter uma conversa intelectual comigo? Enganas-te. A inteligncia dela no 
foi afectada pela afasia. Ela  provavelmente mais inteligente do que tu. E isso sem mencionar o facto de que o grau acadmico dela  igual ao teu. No me interessa 
se ela fala comigo empregando palavras de duas slabas.  o que ela tem a dizer que conta.
   Tucker aquiesceu com a cabea, a fronte franzida e pensativa.
   - Trata-se de eu arranjar um cachorrinho meu, e t-lo a receber-me  porta com alegria todas as noites, como se eu fosse o sol e a lua. Trata-se de me rir at 
que me doam as costas. Trata-se de ter uma vida, Tucker, uma vida separada da do meu trabalho, que seja realmente importante para mim e que me faa sentir realizado. 
Trata-se de ter algum aqui que faa com que vir para casa valha a pena. Quando aquela rapariga que ali est sorri, sinto-me como se o sol tivesse irrompido das 
nuvens num dia encoberto.
   Tucker vagueou em redor da mesa e deixou-se cair numa cadeira.
   - Merda.
   -  isso mesmo, merda. Pensei que tivesses vindo aqui para me ajudares a destrinar um pouco a confuso da clnica. Em vez disso, disparas-me com as minhas opes 
de vida. Como se as tuas fossem estupendas. S s trs minutos mais velho do que eu. Creio conhecer bem a minha prpria mente. - Isaiah fez um gesto na direco 
da sala. - Se ela te ouviu; se tu a fizeste chorar; arranco-te cada uma das lgrimas que ela verter do teu maldito couro!
   - Desculpa - disse Tucker, de nau humor. - No fazia ideia de que a amavas assim tanto, ou que ela te faria to feliz. - Passou uma mo sobre a cara. - Talvez 
ela seja tudo quanto precisas numa mulher, afinal.
   - men - concluiu Isaiah, laiando ao irmo um olhar gneo. - Agora, a no ser que queiras que a tua futura cunhada passe um tempo na prisa,  melhor que dediques 
a tua cabea a outras preocupaes. A Laura esteve comigo a noite passada, na minha cama, nos meus braos. Dormi um bocado,  verdade, mas sei que elanunca saiu 
do p de mim. H algum na clnica a tentar tram-la. Precisamos de descobrir quem  esse estupor e como  que conseguiu fazer aquilo.
   Uma hora e meia depois, Isaiah encontrava-se sentado  mesa da cozinha, debruado sobre uma lista. Possibilidades. Tanto ele como Tucker deram voltas  cabea, 
tentando des:obrir suspeitos, qualquer pessoa da clnica que pudesse querer ver-se livn de Laura, por qualquer motivo. At ali, o James era o candidato mais provvel 
que tinham. Mas os instintos de Isaiah diziam-lhe para procurar noutro lado. Segundo Laura, o rapaz era inofensivo. E Isaiah precisava de conar nos seus instintos.
   Isaiah estava outra vez a rever alista de empregados quando algum tocou  campainha da porta. Ele no estava  espera de ningum. Perguntou a si mesmo se o Tucker 
teria voltado itrs. Quando passou pela sala, Laura saiu do quarto. Ele pensara que ela es:ava a dormir, e portanto grande foi a sua surpresa quando viu que ela 
estava com o anorak vestido.
   - Vais a algum lado? - perguntou-lhe ele, a rir.
   - Sim - respondeu ela, com voz abafada. -  a minha av. Liguei-lhe para que me viesse buscar.
   Foi ento que Isaiah reparou nasacola dela colocada junto  porta do quarto. Sentiu um aperto no estmago. Os olhos dela. Nunca vira tal dor. O Tucker. Isaiah 
compreendeu nesse momento que Laura ouvira a conversa deles.
   - Laura, por favor no ligues ao meu irmo. Ele disse o que tinha a dizer. Eu esclareci-o. Agora est tudo resolvido.
   Evitando o olhar dele, ela passoi por Isaiah para atender  porta. Etta estava no alpendre. Parecia muito bela para uma mulher da sua idade, elegantemente vestida 
com um casaco castanho de camura sobre um fato caqui, o cabelo prateado enrolado numa pilha de caracis no cimo da cabea. Lanou a Isaiah um olhar triste e depois 
sorriu para a sua neta.
   - Ol, querida - disse ela, enquanto dava um abrao a Laura. - Vim o mais depressa que pude...
   Isaiah avanou at junto das duas mulheres.
   - Etta, isto  tudo um grande mal-entendido - disse ele, dando a Laura um olhar significativo. - S precisamos de esclarecer o assunto... Como dois adultos.
   Laura no mordeu o isco. Com efeito, Isaiah teve a terrvel sensao de que ela nem sequer o ouvira.
   - Deixa-me s ir buscar as minhas coisas, av.  um minuto.
   Fiel  sua palavra, Laura regressou passados alguns segundos, com a ala da carteira passada por cima do ombro, uma trouxa de roupa debaixo de um dos braos e 
a sacola na outra mo. Antes de sair para o alpendre com a sua av, ela virou-se para Isaiah.
   - Liguei  Trish. Ela diz que vem c buscar os cachorrinhos. Dentro de duas semanas, estaro prontos para seguir, e agora j no precisam de ser alimentados com 
tanta frequncia. E ela pode ficar com o dinheiro que eles renderem.
   A boca de Isaiah ficara to seca como o p da estrada. Ela queria mesmo deix-lo.
   - E o Carquilhas?
   O Tristinho saltou para o alpendre, soltando um latido de satisfao. Laura nem sequer olhou para o cachorrinho.
   - As coisas mudaram. Afinal, j no posso ficar com o Carquilhas. Tenho a certeza de que a Trish encontrar um bom lar para ele.
   - Laura - chamou Isaiah, seguindo-a at ao alpendre. Lanou um olhar implorativo a Etta, o que fez com que a senhora se apressasse a descer os degraus em direco 
ao carro, que ela deixara com o motor a trabalhar no acesso circular. - No me faas isto, por favor, Laura. Eu amo-te.
   Ela encolheu os ombros e tentou sorrir.
   - Isso passa...
   - No, raios, no passa nada! O Tucker  uma besta. No deixes que o que ele disse arruine tudo entre ns.
   Um brilho nos olhos dela revelou a Isaiah que Laura estava a conter as lgrimas. Queria tom-la nos braos, mas tinha um tremendo pressentimento de que ela o 
repeliria se ele o tentasse. Se o seu pai lhe ensinara alguma coisa foi a de nunca utilizar a fora contra uma mulher. A nica soluo para aquele problema era sentarem-se 
os dois e conversarem.
   - Isto nunca iria resultar - disse ela, com voz trmula. - Estou contente por ter acabado assim. Ainda podemos ser amigos. Nenhum de ns est zangado com o outro. 
 uma boa altura para eu me ir embora.
   - E eu devo deixar-te ir, assim, sem mais nem menos? No me parece.
   - A deciso  minha - respondeu ela, pestanejando para sacudir as lgrimas que lhe turvavam a vista, olhando-o depois nos olhos com uma firmeza que lhe revelou 
que ela o dizia com toda a convico. - No telefones. No apareas. Acabou.
   - E eu no tenho uma palavra a dizer no assunto?
   - No.
   Ela voltou-se e desceu apressadamente os degraus. Na adolescncia, Isaiah tivera alguns desgostos de amor. Na altura, pensava que era o fim do mundo, pelo menos 
do dele. Agora apercebia-se de que no sabia o que era uma dor a srio.
   Vieram-lhe lgrimas aos olhos. Isso enfureceu-o. Nunca iria rastejar atrs de uma mulher. Se ela estava disposta a deitar tudo a perder por causa de alguns comentrios 
tresloucados feitos pelo seu irmo, no seria certamente ele que lhe iria implorar para ficar.
   - Ento, ptimo! - gritou ele. - Queres-te ir embora? Vai! Mas no te iludas, querida. No vou ficar aqui a remoer o passado,  espera que a tua cabea assente! 
No s a nica mulher  face da Terra!
   Ela nunca olhou para trs. Limitou-se a atirar as coisas dela para dentro do carro da av, entrou nele e fechou a porta com fora. O Chrysler rolou sobre a neve 
gelada at  estrada. Isaiah ficou a ver os farolins traseiros a afastarem-se, com os olhos a arder. Quando o carro branco desapareceu da sua vista, sentou-se pesadamente, 
atordoado, nos degraus. O Tristinho rastejou at ficar com metade do corpo sobre o colo dele e choramingou, quase como se pressentisse que havia algo de horrivelmente 
errado.
   Isaiah pegou no Tristinho, enterrou a cara no plo do cozinho e chorou como uma criana.


Captulo Quinze










   - Fica esta noite em minha casa - disse Etta, em tom persuasivo, ao entrarem na cidade.
   Laura s queria ir para casa para poder chorar  vontade sem audincia.
   - No, obrigada, av. Preciso de estar sozinha por um bocado.
   - Tretas! - disse Etta, no virando para a rua do apartamento de Laura. - No tens comida em casa.
   - Tenho coisas no congelador - replicou Laura, no conseguindo imaginar-se a comer o que quer que fosse. - Vou s compras logo de manh, para trazer leite e ovos.
   - Sim, talvez vs. Mas esta noite vais fazer a vontade  velhota. Quero falar contigo.
   Laura pressentiu o que a vinha.
   - Se ests  espera de me convenceres de que isto  um erro, poupa as palavras.
   Quando chegaram a casa da av, Etta fez com que Laura se sentasse numa cadeira,  mesa da cozinha, fez um bule de ch e colocou bolachas num prato.
   - Sentir-te-s melhor com um pouco de comida no estmago - insistiu ela.
   Laura mordiscou obedientemente uma bolacha. Normalmente, ela adorava as bolachas e os biscoitos caseiros da av, mas naquele momento as suas papilas gustativas 
pareciam estar anestesiadas.
   - Ora bem - disse Etta, agarrando a sua requintada chvena com friso de rosas nas mos nodosas -, fala comigo. Estavas feliz como tudo, e agora sentes-te desfeita. 
Tem de haver uma razo.
   O telemvel de Laura tocou nesse preciso momento. Ela procurou na carteira, encontrou o aparelho e olhou com ar sombrio para o balo que estava no ecr.
   - Isaiah? -perguntou-lhe a av quando Laura deixou cair o telefone para dentro da carteira sem atender.
   - No quero falar com ele - respondeu Laura. Receava poder perder a sua determinao se o fizesse. - melhor assim. Rpido e limpo.
   Etta suspirou e bebeu um gole de ch.
   - Deves ter razo. Homens. No fim, so todos uns canalhas.
   Laura no conseguia acreditar que a sua av tivesse dito uma coisa daquelas.
   - O Isaiah no  um canalha.
   Etta pousou a chvena no pires.
   - Bem - admitiu ela -, h algumas excepes. O meu Jim era uma delas. - Olhou para Laura de soslaio. - E talvez o teu Isaiah tambm seja. Se assim , porque  
que o ests a deixar?
   Laura contou-lhe a conversa que ouvira entre Isaiah e o irmo.
   - O Tucker tinha montes de razo nalguns aspectos.
   - Tais como?
   Laura sentiu um aperto na garganta.
   - No posso estar  vontade em jantares de cerimnia ou de recolha de fundos, av. O Isaiah pode querer um dia dar aulas na universidade, ou fazer investigao. 
Vai precisar de subsdios para isso.  tudo um jogo poli-tico, e s os melhores jogadores conseguem o que querem. Tem de se falar e actuar.
   Etta aquiesceu.
   - Imagino que sim. Mas quem diz que no podes? s uma pessoa adorvel, Laura.
   - No consigo falar muito bem.
   - Neste momento ests a falar lindamente. Devagar,  certo, com uma pequena hesitao entre cada palavra, mas que mal se nota.
   Laura recordou-se da pergunta inocente de Rosie: Tens um problema na fala? Os familiares de Laura gostavam dela. Ela sentia-se feliz por isso, e agradecida. Mas 
eles desculpavam-lhe muita coisa que as outras pessoas no estariam dispostas ou no podiam deixar passar.
   - Eu no quero ser um estorvo para o Isaiah - disse Laura, indo ao encontro do olhar da av. - Diz-me que no o vou ser, av. Diz-me que vou conseguir ombrear 
com as mulheres de professores em grandes uni-ver-sidades im-portantes onde a po-ltica  a chave de tudo. Diz-me isso, e telefono logo ao Isaiah a dizer-lhe que 
me enganei.
   Etta ficou sentada durante um longo momento, a olhar para Laura. Depois, os seus olhos hmidos encheram-se de lgrimas e ela abanou a cabea.
   Era essa a resposta de que Laura precisava.
   Laura telefonou aos pais. Foi o seu pai quem atendeu. Debatendo-se para manter a voz estvel, Laura disse:
   - Ol, pap...
   - Laurinha? Como  que est a minha menina?
   Laura sorriu por entre lgrimas, contente por ouvir a voz funda do pai.
   - J estive melhor.
   - Oh, oh. Isso no me soa bem. Correu alguma coisa mal com o emprego?
   To brevemente quanto possvel, Laura contou ao pai tudo o que acontecera. Mike Townsend ficou calado por um momento quando Laura parou de falar.
   - Se ele te ama, Laura, no vai dar importncia a nenhuma dessas tricas da universidade ou da investigao.
   Mas aquilo tinha importncia para Laura, e ela receava que um dia tambm viesse a ter grande importncia para Isaiah.
   - No foi bem por isso que eu telefonei. Estou com um problema, como lhe disse. Podias mandar-me algum dinheiro para eu pagar a um advogado? Eu devolvo-to. S 
que no posso neste preciso momento.
   - De quanto  que precisas? - perguntou Mike.
   Laura suspirou.
   - No sei. Uns dois mil dlares devem chegar por enquanto.
   - Fao-te a transferncia amanh.
   Laura fechou os olhos com fora.
   - Quando esta trapalhada se esclarecer, gostaria de me mudar para a, pap.
   - Para a Florida, queres tu dizer?
   - Devem precisar a de imensas mulheres-a-dias - disse ela com um riso trmulo. - Com todas essas mulheres reformadas que s pensam em boa vida e ir a festas.
   - Precisam e muito - concordou o pai. - E tambm h imensos ces para passear.
   - Estou farta de toda esta neve - mentiu Laura. - A em baixo, poderei aquecer-me um bocado ao sol. Talvez at tente voltar a nadar.
   Laura no disse ao pai que havia outro motivo ponderoso pelo qual ela queria ir para a Florida. Estava a quase seis mil e quinhentos quilmetros de Isaiah Coulter. 
Ela no conseguia suportar a ideia de se cruzar com ele na cidade. S o ver  distncia partir-lhe-ia o corao. Era melhor efectuar uma ruptura completa e nunca 
mais olhar para trs.
   - Sabes que gostaramos muito de te ter connosco, queridinha.
   Laura pensou em todos os suplementos alimentares para o crebro que a sua me a iria obrigar a tomar e quase que se encolheu. Ela adorava os pais. Mas uma distnciazinha 
como zona tampo era sempre muito agradvel.
   Isaiah mal conseguiu dormir nessa noite. Apesar de Trish ter vindo a sua casa para recolher os cachorrinhos, ele continuava a acordar de trs em trs horas, em 
ponto, e ali ficava deitado, a ouvir o silncio. Tentara telefonar a Laura por diversas vezes antes de se deitar. Ela no lhe estava a atender as chamadas.
   Na manh seguinte, estava com os olhos inchados e exausto quando chegou  clnica, s seis da manh. Susan j a abrira, o que era normal num dia de semana. Isaiah 
grunhiu-lhe um "bom-dia" ao passar por ela nos canis. Quando entrou no bloco operatrio, espantou-se por ver Belinda.
   - Chegou aqui muito cedo - disse ele, enquanto pendurava o casaco num cabide e tirava o seu novo chapu Stetson.
   - Pensei em vir mais cedo para me certificar de que estava tudo em ordem para arrancar - disse ela. - Afinal, os roubos no acontecem todos os dias.
   Isaiah foi at ao lavatrio para lavar as mos. Depois, consultou as marcaes na sua agenda. O mundo no parara de girar. Tinha trs operaes marcadas para 
o final da manh, uma tarde que estava cheia de marcaes de consultas e outras duas operaes para o fim da tarde. Foi ver o co-guia. O pastor alemo parecia desperto 
e alegre por o ver.
   - Viva, compincha! - disse Isaiah, ao agachar-se para examinar as gengivas do co. - Est com bom aspecto - comentou ele, tentando mostrar-se alegre, como era 
seu hbito, mas de algum modo no conseguiu esboar um sorriso convincente. Sentia tanto a falta de Laura! Tinham passado pouco mais de doze horas desde que ele 
a vira, mas sentia como se no a visse h um ano. - Vais ter alta em breve, rapazola.
   O pastor alemo ganiu e tocou com o focinho na mo de Isaiah, a pedir festas. Isaiah acedeu por um momento e depois ps-se de p. Independentemente do que acontecera 
na sua vida pessoal, ele tinha um trabalho a executar. A primeira coisa que fazia todas as manhs na clnica era dar um giro pelos canis para ver os seus pacientes. 
No podia negligenciar as suas responsabilidades s porque as coisas no lhe estavam a correr bem na sua vida privada. Aqueles animais dependiam dele.
   - Quais so as novidades da Laura? - perguntou Belinda.
   - Ainda no tenho notcias.
   Belinda encostou o ombro s jaulas, to prxima dele que as costas do pulso de Isaiah roaram-lhe o seio quando ele estendeu o brao para examinar um gato que 
fora castrado e ao qual tinham sido tiradas as garras dois dias antes.
   - Este bichano deveria ter ido para casa ontem - observou Isaiah.
   Belinda agarrou-lhe o pulso e levou-o de novo contra o peito.
   - Mmm... Isso soube bem.
   Isaiah j fora apanhado de surpresa algumas vezes, mas o comportamento dela atingiu-o como se tivesse levado um encontro. Ao fechar a jaula, Isaiah tentou retirar 
o brao. Belinda tombou sobre ele como se Isaiah a tivesse puxado para si. Os seios dela esmagaram-se contra o peito dele. Ela girou as ancas sedutoramente contra 
a plvis dele. Isaiah ficou a olhar estupidamente para os olhos castanhos dela a perguntar a si mesmo que raio fizera ele para ter desencadeado aquilo.
   - A Laura no est c. Eu estou - disse ela, com voz rouca. - Com toda a probabilidade, ela vai parar  cadeia. Por roubo e posse de droga. - Belinda fez estalar 
a lngua. - Coisa grave, essa. E crime, no ? Se tencionas casar com ela, vais ter de esperar muito tempo - continuou ela, pressionando de novo as ancas contra 
ele. - Um homem tem necessidades. Adorava cuidar das tuas.
   O corpo de Isaiah no estava ligado ao crebro. Quando ela se esfregou por ele, aconteceram coisas. No se tratava de desejo. No se tratava de emoo. Raios, 
ele acordou com uma ereco quando precisava de urinar.
   - Belinda, eu...
   - Falas demais -sussurrou-lhe ela.
   Antes que Isaiah adivinhasse o que ela tencionava fazer, Belinda lanou-lhe os braos em volta do pescoo. No instante seguinte, a lngua dela estava na sua boca. 
Tentou afast-la dele. Ela agarrava-se como uma sanguessuga. Por fim, Isaiah conseguiu virar a cara para um dos lados.
   - Isto no est a acontecer - resmungou ele.
   Ela esfregou os seios contra ele.
   - Tu desejas-me. Sinto-o! Ests duro como uma rocha e a pulsar de desejo por mim.
   Ele estava com uma semi-ereco, uma reaco puramente anatmica a um estmulo no solicitado.
   - No, Belinda, desculpa... -disse-lhe ele. Desprendeu-lhe os braos e afastou-a dele com firmeza. - s uma mulher bonita, mas...
   Ela vestia uma camisola de malha justa, com fecho clair. Levou a mo lingueta. Com um puxo sbito para baixo, ps os seios  mostra. No trazia soutien. A 
brincar com os mamilos para os endurecer, sorriu e disse:
   - Imagina a tua boca sobre eles, Isaiah. Imagina enterrares-te em mim. J estou excitada... e molhada. Podamos faz-lo em cima da marquesa, ou sobre uma das 
caixas num dos armazns.
   Ele no conseguia acreditar que aquilo estava a acontecer.
   - Veste-te. A Susan pode entrar.
   - Pensas que ela nunca viu duas pessoas a fazer amor? - disse ela, revirando os olhos. - Hum, se calhar no. Ela  um autntico calhau.
   Isaiah afastou-se.
   - Fecha a camisola. No estou interessado.
   Silncio. Isaiah dirigiu-se ao balco. Tinha as mos a tremer quando passou revista s fichas dos pacientes para actualizar as suas notas. Mas no conseguia perceber 
o sentido do que nelas estava escrito.
   - Seu filho da puta! - gritou ela. - s um impotente, uma merda de homem!
   A pulsar de desejo por ela num segundo e impotente no seguinte? Aquilo era interessante. Isaiah atirou com a caneta e voltou-se para a encarar.
   De faces rubras e a tremer de raiva, ela apontou o queixo para ele.
   - Eu amo-te!- gritou ela, e a declarao desapaixonada agitou-lhe os seios. - Eu  que sou a pessoa certa para ti! No percebes? Mas ignoras-me e vais a correr 
de lngua de fora atrs dessa zeladora de canil estpida e atrasada mental!
   A mente de Isaiah gelou quando compreendeu.
   - Oh, meu Deus - murmurou ele. - Afinal foste tu.
   Belinda atravessou furiosa a sala, cerrou o punho e ergueu-o. Isaiah apanhou-lhe ambos os pulsos um momento antes de ela lhe dar com o punho na boca.
   - Foste sempre tu - disse ele, ainda incrdulo. - Imaginaste que pudssemos ficar juntos. Quando a Laura apareceu, ficaste com cimes e comeaste a tentar livrar-te 
dela.
   Belinda lanou a cabea para trs e cuspiu-lhe na cara. Isaiah pestanejou. Nunca na vida se sentira to tentado a bater numa mulher. Mas esse no era a forma 
de agir dos Coulter, e ele no estava disposto a comprometer os seus princpios com sujeitas daquela laia.
   - Roubaste as drogas e colocaste-as no carro da Laura -acusou-a ele. - Conseguiste deitar a mo ao cdigo de segurana dela. Tudo o que te interessava era correr 
com ela daqui.
   - Prova-o, cretino!
   Ela libertou com um safano os pulsos e correu para sair da sala, com os seios nus a oscilarem. Isaiah foi-lhe na peugada.
   - Mais devagar, menina! Tens de responder a algumas perguntas e esclarecer uma questozinha com a polcia.
   - Vai-te foder!
   Isaiah seguiu-a pelo corredor. Estava tentado em a agarrar pelo brao mas, se o fizesse, ela iria decerto debater-se. Era uma mulher bem constituda. Sendo homem, 
ele estava em desvantagem porque no podia ripostar. Pensou que provavelmente a poderia dominar, mas havia o risco de a magoar. O melhor seria deixar a polcia lidar 
com ela.
   Chegaram ao trio de entrada. Val, a nica empregada de escritrio que chegava cedo, estava de p junto do fax. Voltou-se quando Belinda contornou o balco da 
recepo e entrou no espao das recepcionistas. Belinda rompeu prontamente em lgrimas, o que tomou Isaiah totalmente de surpresa.
   - Ajuda-me! - gritou ela, agachando-se atrs de Val como que a procurar proteco. - Oh, meu Deus, Val! No o deixes chegar ao p de mim! Ele ten-tentou vio-violar-me! 
Estvamos no bloco ope-operatrio, e, de re-repente, ele saltou-me em ci-cima! Olha, olha para ele! Ainda se lhe v a ereco!
   Isaiah quase que levou uma mo  virilha para a tapar. Oh, merda! Seria a sua palavra contra a dela. Quem  que iria acreditar nele?
   Val olhou longamente para Isaiah. Depois, passou o olhar pelos seios nus de Belinda.
   - Tretas! - disse a gestora de recursos. - Estou c desde que esta clnica abriu. J passaram por aqui muitas raparigas bem bonitas, querida. E nenhuma delas 
teve qualquer problema.
   - Mas aconteceu! - gritou Belinda.
   - S se tivesse sido em sonhos...
   Belinda emitiu um som gutural e animalesco com a garganta, e, no instante seguinte, a mquina defaxfoi-se espatifar no cho.
   - Ei! - gritou Isaiah quando a mulher enlouquecida se dirigiu para os ficheiros da clnica. - Pra com isso, Belinda! Que raio ests tu a fazer? Isso  informao 
vital de centenas de animais!
   Quando ele lhe agarrou o brao para a impedir de arrancar as pastas de arquivo das prateleiras e as atirar ao cho, ela voltou-se num pice e atacou-o com punhos, 
unhas e dentes. Isaiah no lhe queria bater mas, bolas, estava tentado.
   - Belinda, pra! -gritou-lhe ele.
   Ela continuava a debater-se. Isaiah apanhou com o punho direito dela num olho, com o esquerdo no nariz. Os murros no o magoaram verdadeiramente mas, mesmo assim, 
Isaiah cruzou os braos sobre a cabea e dobrou-se pela cintura para proteger a cara.
   A mulher perdera a cabea por completo. Isaiah nunca vira ningum assim.
   - Val, chama a polcia! - pediu ele.
   Mas, em vez de correr para o telefone, Val aproximou-se e disse:
   - Belinda?
   Quando Belinda parou de bater em Isaiah o tempo suficiente para olhar por cima do ombro, a longilnea gestora de recursos sorriu docemente e, de sbito, atingiu 
Belinda em cheio na cara com um punho fechado. A tcnica caiu de joelhos como uma saca de cimento molhado.
   - O meu nariz! O meu nariz! - gritava Belinda.
   Val estava pronta a bater-lhe de novo.
   - Ele no pode ripostar, sua vadiazeca traioeira, mas eu estou mais do que disposta a faz-lo! Queres bater-te num combate ou dois comigo, querida? V l, alegra-me 
o dia!
   Belinda debateu-se para se libertar. Isaiah j estava a lanar a mo ao telefone quando a tcnica se conseguiu pr de p e saiu a correr do edifcio. Val arrancou 
atrs dela, mas Isaiah agarrou-a pelo brao.
   - Deixa-a ir - disse ele. - A polcia trata dela.
   Val suspirou e sacudiu o p das mos nas calas.
   - Que pena. Precisamente quando eu lhe estava a tomar o gosto!
   Uma hora depois, Isaiah estava sentado no seu gabinete com um agente da polcia com ares de av que lhe fizera dzias de perguntas e tomara copiosas notas. Isaiah 
gostou do sujeito. Tinha cabelo grisalho, uma tez afogueada e inteligentes olhos azuis.
   - Isto no  uma mera fixao - rematou Isaiah -, mas sim uma obsesso doentia. Nunca encorajei a Belinda. Ela  que meteu, sei l como, na cabea que ns tnhamos 
um futuro juntos.
   - Acontece - disse o agente Keenan. - As pessoas pensam que so sempre os homens. Esto muito enganadas. - Fechou o bloco e meteu a caneta na algibeira. - As 
suas teorias acerca do roubo das drogas fazem sentido. Se o senhor e a Menina Townsend se esqueceram de trancar o carro dela na tarde de anteontem, quando estavam 
a tentar lidar com os cachorrinhos, ter sido fcil para a Menina Baxter entrar no veculo, accionar a alavanca para abrir a bagageira, colocar nela as drogas e 
depois trancar todas as portas. Quanto ao cdigo de segurana da Menina Townsend, se o senhor ou o seu irmo tiverem o hbito de deixar as chaves da clnica no bolso 
de um casaco ou na gaveta de uma secretria, qualquer pessoa poderia ter pegado nelas e passado em revista os vossos ficheiros.
   - A Laura est ento ilibada?
   Keenan sorriu.
   - Pressinto que gosta dessa senhora...
   Isaiah anuiu.
   - Pode dizer-se que sim.
   O agente ps-se de p.
   - Ela ainda no est totalmente ilibada, mas estou-me a inclinar fortemente nessa direco. Deixe-me fazer uma verificao dos eventuais antecedentes da Menina 
Baxter. Os homens e as mulheres que se tornam obsessivos em relao a membros do sexo oposto geralmente tm um historial de tal comportamento.
   - Quanto tempo acha que isso possa levar?
   - Com a informao que o senhor me deu, creio que possa ter alguma coisa para amanh. A verificao completa de antecedentes dever levar muito mais tempo.
   - Vai telefonar para a universidade que ela frequentou?
   - E a todos os empregadores que ela listou na candidatura para o emprego - disse Keenan, ajeitando o bon na cabea. - Da prxima vez, tenha o cuidado de confirmar 
pessoalmente as referncias que lhe do antes de contratar algum, Dr. Coulter. Nestes dias que correm, nunca se sabe que tipo de gente nos aparece.
   Isaiah no podia discordar. Estava com falta de pessoal quando Belinda se candidatou para um lugar na clnica. Tinha boas qualificaes. Ele passara por cima 
de todas os procedimentos preliminares e contratara-a de imediato.
   - Daqui para a frente terei mais cuidado, posso-lhe garantir!
   Depois de o agente Keenan sair, Isaiah tentou novamente telefonar a
Laura. O telefone tocou e tocou. Por fim, arrancou a gravao com a voz dela, to sincopada e doce que quase que lhe fez vir as lgrimas aos olhos. Desejava ter 
ao menos falado com ela. Era evidente que ela lhe estava a barrar todas as chamadas, e quando um balo lhe aparecia no visor, ela sabia que no devia atender.
   Ele pensou em ir at ao apartamento dela, mas uma espreitadela ao relgio f-lo pr-se de p num salto. Tinha uma operao marcada para da a dez minutos. O amor 
teria de esperar.
   Por volta das quatro e meia dessa tarde, Isaiah acabava de castrar um jovem labrador quando Val apareceu no bloco operatrio.
   - O agente Keenan est ao telefone - disse ela.
   Isaiah levou os braos dobrados atrs para aliviar uma tenso que tinha entre as omoplatas.
   - J acabei por aqui. Atendo no meu gabinete - disse ele, olhando para Susan, que estivera toda a tarde a substituir Belinda. - Podes continuar a partir daqui, 
sem mim?
   A robusta loura aquiesceu. Isaiah tirou as luvas cirrgicas, deitou-as num receptculo e despiu a bata, atirando-a para um cesto de roupa suja ao abrir a porta 
para sair.
   Keenan foi direito ao assunto quando Isaiah pegou no telefone.
   - Bingo - disse ele. - A Belinda Baxter tem uma histria feia.
   Tirando o estetoscpio do pescoo e atirando-o para cima da secretria, Isaiah disse:
   - Depois do que vi esta manh, no estou surpreendido. O que  que h com ela?
   - Universidade do Colorado, 1993. A Menina Baxter acusou um atleta de a ter violado quando saram juntos. Na audincia preliminar, a verso dela foi contradita 
por vrias testemunhas oculares fidedigna, tanto homens como mulheres. Alegaram que ela tinha uma fixao pelo tipo e que retaliou quando ele lhe disse que no estava 
interessado.
   - Merda.
   - No ano seguinte, ela achava que estava apaixonada por um professor. Quando ele rejeitou os avanos dela, a sujeita ficou furiosa e acusou-o de a ter forado 
a fazer sexo com ele em troca da passagem na cadeira. Mais uma vez, a histria dela no se aguentou.
   - No posso acreditar nisto - disse Isaiah, com ar abatido.
   - Em resumo - continuou Keenan -, a senhora tem um parafuso a menos. Estamos a tentar localiz-la para a interrogarmos. Infelizmente, parece ter deixado o apartamento 
dela. Pensamos que tenha sado da cidade.
   Isaiah tinha esperanas de que ela se tivesse efectivamente ido embora e nunca mais voltasse. Se nunca mais visse Belinda, melhor seria.
   - Quer isso dizer que a Laura j no  suspeita?
   - Com base no pouco que descobri, estou convencido de que a Menina Townsend foi vtima de uma cilada. Vou ligar para ela logo que acabe de falar consigo, para 
lhe dar as notcias.
   - Se no for contra os procedimentos, pode protelar um pouco essa chamada? - perguntou Isaiah. - Eu gostaria de lhe dar pessoalmente as notcias, se achar bem.
   Keenan riu-se.
   - Dou-lhe duas horas...
   - Agradeo - disse Isaiah. - E uma coisa mais, agente Keenan... Obrigado por tudo o que fez.
   - Estou apenas a fazer o meu trabalho, rapaz.
   Por o Mazda Laura estar apreendido, a av dela levou-a de carro a uma mercearia, e Laura estava a reaprovisionar o seu frigorfico com comida quando algum bateu 
 porta. Ela estacou, com uma jarra de leite na mo. Desde manh cedo que esperava que Isaiah aparecesse. Mas era mesmo dele esperar at acabar o trabalho desse 
dia na clnica.
   A ideia fez-lhe doer o corao. Algumas mulheres podem sentir-se ofendidas ao serem preteridas a favor de um molhe de ces e de gatos, mas ela no era uma delas. 
Uma das primeiras coisas de que gostou em Isaiah foi a sua devoo aos animais que estavam ao seu cuidado.
   Laura meteu apressadamente o leite no frigorfico e dirigiu-se para a porta da frente. No o podia andar a evitar para sempre. Isaiah telefonara-lhe pelo menos 
umas dez vezes. Conhecendo-o como ela o conhecia, ele no era pessoa para parar at que ela falasse com ele. Laura sentia-se mais forte nessa manh, menos propensa 
a ceder a presses. Por mais que ele dissesse que a amava, ela estava disposta a manter-se fiel  sua palavra, no porque isso lhe fosse fcil, mas porque a sua 
deciso em terminar a relao se revelaria melhor para ele no futuro.
   Antes de abrir a porta, respirou fundo para ganhar coragem. Ficou espantada por ver Belinda no patamar. Laura estava prestes a cumpriment-la e a convid-la a 
entrar quando reparou no olhar tresloucado de Belinda e no sangue seco por baixo do nariz. Uma fraco de segundo depois, viu a grande faca de talho que a tcnica 
segurava com fora numa das mos.
   Laura reagiu rapidamente, lanando todo o seu peso contra a porta para a fechar, mas Belinda foi mais rpida e tinha a vantagem do seu maior peso. Laura foi atirada 
para trs e desequilibrada quando Belinda forou violentamente a entrada. Antes de Laura se conseguir reequilibrar, a morena estava sobre ela.
   Durante a reabilitao, Laura praticara tai chi para a ajudar a manter-se calma, melhorar o seu equilbrio e fortalecer o lado direito do seu corpo, que ficara 
fragilizado. Uma tcnica particular, denominada tui shou, ensi-nara-lhe a defender-se de forma no agressiva, utilizando o peso e a inrcia para derrubar um opositor.
   Quando Belinda brandiu a faca de talhante num movimento descendente, aquele treino de tui shou salvou a vida a Laura. Ela apanhou o pulso de Belinda, deslocou 
o seu peso e lanou a outra mulher em desequilbrio. Belinda tombou no soalho. Laura tentou correr para o exterior para gritar por socorro mas, para seu horror, 
Belinda ps-se de p num salto, interceptou-lhe o percurso e atirou-se de novo a ela.
   - Cabra! - rosnou Belinda. - No te vais achar to bonita quando eu tiver acabado contigo!
   Laura dobrou os joelhos e saltou sobre os dedos dos ps, executando uma dana macabra com a lmina da faca que Belinda brandia na mo, atirando-se para o lado, 
saltando para trs, por vezes evitando uma facada letal por poucos centmetros.
   - No... faas... isso - conseguiu ela articular. - Por favor... no.
   Belinda soltou uma gargalhada demente e atirou-se de novo a Laura. Laura desviou-se, mas desta vez no foi suficientemente rpida. Belinda grunhiu e tentou apunhal-la 
num movimento descendente. Laura aparou o golpe com um forte encontro dirigido para cima, que desviou a facada da outra mulher. Antes que Belinda se recompusesse 
e pudesse voltar a tentar esfaquear Laura, esta projectou-se contra a tcnica, atingindo-a no diafragma com o ombro.
   Belinda bufou aflita e espantada, cambaleando para trs e perdendo o equilbrio. O tombo para trs lanou-a atravs da porta aberta. Laura no esperou para ver 
onde ou como a mulher cara. Atirou-se contra a porta para a fechar bruscamente, correu os trincos de segurana e disparou em busca da carteira para pegar no seu 
telemvel.
   Durante um terrvel momento, no se conseguia recordar do smbolo que a av lhe programara para a polcia. Em pnico,  espera que Belinda rebentasse a qualquer 
momento com uma das janelas e lhe voltasse a entrar em casa, percorreu freneticamente a lista de endereos. Balo, cavalo, bolo, co, gato. Oh, Deus. E foi ento 
que a viu. Uma estrela, para representar um distintivo.
   Com as mos a tremer to violentamente que mal podia controlar os dedos, Laura carregou no boto com o telefonezinho verde para fazer a chamada.
   Isaiah parou o Hummer num pio de neve e gelo quando viu os carros da polcia estacionados em cima do passeio, em frente ao apartamento de garagem de Laura. As 
luzes rotativas azuis e vermelhas giravam sobre os tejadilhos. Havia homens fardados a correrem de um lado para o outro do jardim da frente. Por um terrvel momento, 
ele pensou que a forma amarfanhada de uma mulher que jazia na neve fosse a de Laura.
   - Me do Cu! - exclamou Isaiah, deixando o Hummer no meio da rua. - Laura?
   Saltou por cima da berma e da faixa de relva coberta de neve para ir aterrar no passeio gelado. Ainda corria quando viu que a mulher tinha cabelo escuro. Abrandou 
o passo, com o olhar incrdulo fixo no corpo inerte. Belinda? Olhou para cima e viu a balustrada partida.
   - O que  que aconteceu? - perguntou ele a um agente da polcia que vestia um pesado casaco azul acolchoado e um bon com orelheiras. - A senhora que aqui mora 
est bem?
   - Est ptima. Creio que est l em cima.
   Isaiah subiu as escadas exteriores trs degraus  vez. Quando chegou ao patamar, viu Laura de p na soleira da porta, a falar com um polcia. Parecia estar um 
pouco abalada, mas de resto em bom estado, somente tiritava de frio.
   - Vem uma ambulncia a caminho - estava o polcia a dizer.
   - Eu... no... queria... mago-la - disse Laura. Olhou para trs do polcia e viu Isaiah ali de p. Os olhos dela disseram-lhe tudo o que ele precisava de saber. 
- Isaiah? - exclamou ela.
   Ele empurrou o polcia para passar e tom-la nos braos.
   - Mas que diabo se passou?
   Laura pendurou-se-lhe ao pescoo. Estava a tremer to violentamente que os tremores se transmitiram a ele. Aos soluos, ela relatou-lhe o incidente. O polcia 
forneceu os pormenores que lhe faltavam. Isaiah espreitou pela borda do patamar. Tudo o que agora conseguia ver de Belinda era o seu cabelo escuro espalhado sobre 
a neve, pois fora tapada com um cobertor. Ele sabia que era maldoso da sua parte, mas achou que ela mereceu o castigo.
   - Ela est morta? - perguntou ao polcia?
   - No. Pensamos que tenha uma leso no pescoo. Os paramdicos j vm a.
   Isaiah cingiu Laura pela cintura com mais firmeza e levou-a para dentro do apartamento. Todos os discursos que ensaiara teriam de esperar.
   Uma hora mais tarde, Laura estava enroscada num canto do canap, a beber uma segunda chvena de ch a pequenos goles. Isaiah estava sentado  frente dela, num 
cadeiro de braos. H muito que Belinda fora levada para o hospital de ambulncia, e, poucos minutos antes, a polcia telefonara a informar que as leses dela eram 
mnimas. A neve amortecera-lhe a queda. Ela apenas perdera os sentidos. Logo que os mdicos lhe dessem alta, ela seria levada para a esquadra e confrontada com uma 
srie de acusaes, das quais a menor no era decerto a de tentativa de homicdio.
   Agora Laura teve tempo para pr a cabea em ordem. As suas mos j no tremiam. Os seus pensamentos clarificaram-se. Era altura de Isaiah se ir embora, mas ele 
estava ali, sentado na sua cadeira como se tivesse criado razes, to belo que at doa.
   Laura sabia que lhe devia dizer para se ir embora. S que isso era-lhe muito mais difcil de fazer do que alguma vez pensara que seria.
   - Eu agora estou bem, Isaiah.
   Ele sorriu ligeiramente, abanando a cabea.
   - Isso  bom.
   Laura ps a chvena de lado e desdobrou as pernas para se sentar mais para a frente.
   - Eu gostaria que te fosses embora agora...
   - No me mintas, Laura. s pssima nisso. - disse Isaiah, inclinando-se tambm para a frente, o que deu a Laura vontade de recuar. - Amas-me. Sou o tipo de quem 
estavas  espera, lembras-te? Tens trinta e um anos e nunca dormiste com nenhum outro homem. Isso , s por si, bastante revelador. Como  que podes esperar que 
eu vire as costas a isso?
   Laura passou uma mo sobre os olhos. Iria faz-lo, disse para si prpria. Por ele, iria dizer as palavras que o afastariam para sempre da sua vida.
   - J estava na altura de eu ter um pouco de sexo, no achas? - disse ela, pondo-se de p. Por um horrvel instante, sentiu-se um pouco tonta. Mas a sua cabea 
em breve se desanuviou. Dirigiu-se  cozinha para continuar a arrumar as compras da mercearia. - Tenho coisas a fazer, Isaiah. Acabou. Precisamos ambos de seguir 
os nossos caminhos.
   - Tens toda a razo - disse ele, pondo-se de p e dirigindo-se lentamente para ela. - Precisamos de seguir os nossos caminhos... juntos. A festa de Natal  hoje 
 noite. No vou sem ti. E a vspera e o dia de Natal? Sem os partilhar contigo, no tero qualquer significado para mim.
   Laura sentia como se o seu peito estivesse a ser apertado por um torniquete.
   - Vai-te embora, por favor. No te quero aqui.
   - No posso fazer isso. Amo-te, Laura.
   Ela arriscou olhar para ele. Erro crasso. Ele era to belo - alto e moreno, com o cabelo despenteado pelo vento. Vestia uma camisa verde com colarinho de abotoar. 
As mangas estavam arregaadas para revelarem os seus antebraos fortes e bronzeados. A larga fivela do seu cinto  cowboy brilhava-lhe na cintura magra, anunciando 
as suas longas pernas de msculos poderosos e uma postura masculina de fazer o corao de qualquer mulher bater descompassadamente.
   - Eu sei que ouviste a diatribe do Tucker ontem  noite -disse-lhe ele com suavidade. - Mas  bvio que no ouviste o tempo suficiente para saberes o que eu tive 
a dizer. Amo-te tanto, Laura. Sinceramente, no creio que consiga enfrentar a vida sem ti. O Tucker saiu de l a perceber isso, satisfeito por saber que em breve 
serias a sua cunhada.
   Laura abanou a cabea.
   - Ele tinha razo desde o incio. Precisas de uma pessoa inteligente, cativante e bem-sucedida. Uma pessoa que te possa ajudar a rea-lizares todo o teu poten-cial. 
Se enveredares pela investigao, precisars de uma mulher que possa cativar certas pessoas de modo a que elas te subsi-diem. - A caixa dos ovos caiu-lhe das mos. 
A esferovite atingiu o ladrilho com um estampido. Laura soube, sem olhar, que acabara de partir todos os ovos e fechou os olhos de frustrao. Quando se baixou para 
pegar na caixa, gemas e claras escorriam para o cho, formando poas viscosas. - Eu j no sou nenhuma dessas coisas.
   - Esquece a investigao. Estou interessado nessa rea da medicina veterinria, confesso. Mas o que realmente me d nimo, o que faz com que tudo valha a pena, 
 trabalhar directamente com os animais e p-los bem. Nunca seria feliz num laboratrio e nunca quereria ensinar numa universidade precisamente pela mesma razo.
   O corao de Laura encheu-se de esperana.
   - Quanto ao meu potencial, sou perfeitamente capaz de o realizar por mim mesmo, sem a ajuda de uma esposa. No quer isto dizer que rejeitarei alguma eventual 
ajuda. S que isso ter de vir da mulher certa, de algum que goste tanto de animais quanto eu, de algum que ainda consiga sorrir enquanto est a sujar as mos, 
de algum que compreenda quando chego a casa preocupado com um paciente e que partilhe comigo essa preocupao.
   Laura engoliu em seco e debateu-se para respirar, tentando limpar s cegas os ovos partidos com papel de cozinha. Por fim, desistiu e lanou a bola de papel viscosa 
no caixote do lixo.
   - Receio que, mais tarde ou mais cedo, te estrague a vida...
   - Mas que vida? Laura, tu s a mulher que eu acabo de descrever. Gostas tanto desses malditos cachorrinhos que tenho medo que queiras ficar com todos os treze, 
e que eu te ame tanto que o permita.
   Aquilo fez-lhe voltar a cabea.
   - Recordas-te de mim, daquele tipo que nunca se lembrava de comer? Tu ds-me estabilidade, concentrao - disse Isaiah, dando um passo na direco dela. - Fazes 
ideia de h quanto tempo eu no lia um romance ou via um filme, antes de tu apareceres? Anos!
   - Ento tens de alterar isso.
   - Estou a tentar, mas preciso da tua ajuda.
   A sinceridade que emanava da voz dele f-la perscrutar-lhe o olhar.
   - Contigo - continuou ele - reparo em coisas que nunca repararia: o cheiro que paira no ar depois de nevar, que no h dois flocos de neve iguais, quo doce  
o hlito de um cachorrinho. - As lgrimas brilharam-lhe nos olhos. - Queres mesmo que eu volte aos meus velhos hbitos? Esqueo-me de comer. As minhas pegas nunca 
iro condizer. Vou para o trabalho com uma folha de amaciador de roupa colada  parte de trs do meu colarinho e visto uma camisa s riscas vermelhas com uma gravata 
roxa s pintas para ir receber o prmio do Veterinrio do Ano...
   As lgrimas tambm assomaram aos olhos de Laura, apesar de um sorriso lhe aflorar aos lbios. Ela sabia que aquilo iria acontecer. Isaiah era o cmulo da preocupao 
e da distraco.
   Isaiah reparou no ligeiro sorriso que emergiu na boca dela. Era tudo o que ele precisava de ver. Antes que ela pudesse protestar, ele atravessara a cozinha e 
tomava-a nos braos.
   - Eu amo-te. Preciso de ti na minha vida. Que mais tenho eu de dizer, que mais tenho eu de fazer para que tu compreendas isso?
   Laura inclinou a cabea para trs para lhe perscrutar a face morena, e naquele momento no precisou de mais para se convencer. Viu o amor dele por ela reflectido 
nos seus olhos.
   - Disseste que casarias comigo - disse ele com ardor. - Estou a contar que mantenhas o que disseste. Quero que sejas a me dos meus bebs. Quero envelhecer a 
teu lado. Falas no meu potencial e na realizao dos meus sonhos? Mas o que  isso se tudo o que fao  trabalhar e nunca aprecio o milagre quotidiano de estar simplesmente 
vivo?
   - Oh, Isaiah - disse ela, com voz embargada. - Eu tambm te amo.
   - Eu sei que sim -murmurou-lhe ele.
   E ento beijou-a. Um beijo doce e hesitante, que em breve se tornava profundo e sedento. Laura era incapaz de resistir  atraco deliciosa da boca dele. Ela 
lanou-lhe os braos em redor do pescoo e ps-se em bicos dos ps, aceitando o que deveria ter sempre sabido - que o lugar dela era exactamente aquele, nos braos 
dele.


   
Eplogo










8 de Janeiro de 2005


   A rolha saltou da garrafa e o champanhe francs jorrou como um gi- ser, encharcando a manga do casaco do fato escuro de Jake. Ele riu-se e debruou-se por cima 
da mesa da casa de jantar de Isaiah para encher os copos de cristal dos noivos.
   Laura e Isaiah entrelaaram os braos, olharam profundamente nos olhos um do outro e beberam juntos o seu primeiro golo de champanhe como marido e mulher. Laura 
estava quase tonta de felicidade. Tudo no seu mundo estava precisamente no devido lugar. Depois do seu acidente, acreditara que a sua vida ficara destruda. Agora, 
perdida nos olhos azuis rutilantes do seu marido, compreendia que tivera de perder a sua vida para a encontrar de verdade. E, talvez, de uma forma muito diversa, 
o mesmo tenha acontecido com ele.
   No decorrer das duas semanas anteriores, ambos chegaram  compreenso de tantas coisas, nomeadamente de que a felicidade no residia em ter sucesso ou dinheiro, 
ou um futuro brilhante. Estava presente no agora, hoje, e em como eles viviam cada momento.
   Tendo isso em vista, escolheram no desperdiar nenhum dos momentos que passavam juntos e planearam um rpido casamento numa pequena igreja, convidando apenas 
as pessoas de quem eles gostavam para testemunharem os seus votos. Devido ao facto de os pais de Laura estarem reformados e viverem de um rendimento fixo, ela tratara 
pessoalmente de todos os pormenores - fazendo o seu prprio vestido de noiva, fazendo os seus prprios arranjos de flores e telefonando simplesmente s pessoas para 
as convidar. Natalie, a mulher de Zeke, providenciara a msica e, melhor do que tudo, compusera especialmente uma cano para Isaiah e Laura, de que eles se iriam 
recordar com carinho durante toda a vida. Para o copo-de-gua toda a gente trouxe os seus pratos preferidos, de modo que houve imensa comida, servida como em famlia, 
com muito pouca confuso.
   - Sade! - gritou Hank.
   O pai de Laura ergueu o copo e voltou-se para ela e para Isaiah. Laura estava  espera que ele entoasse a estafada lengalenga de ter perdido a sua filhinha e 
de ter ganho um filho. Em vez disso, ele piscou-lhe o olho e disse:
   - Para a noiva e para o noivo. Que vivam felizes em pacfica harmonia at que a morte os separe. Se contudo, por mero acaso, nem tudo correr bem, tenho um pedido 
importante a fazer-te, Laura. Se vieres a correr para casa da tua me, por favor no tragas os catorze ces!
   Como se aproveitasse a deixa, o Tristinho entrou aos saltos na sala e latiu alegremente. Todos os treze cachorrinhos rottweiler entraram a bambolear-se atrs 
dele. Toda a gente rebentou a rir.  claro que Laura no tencionava ficar com todos os ces, s com o Carquilhas, mas mesmo assim estava feliz por ter cachorrinhos 
a correrem de um lado para o outro na sua festa de casamento. O Carquilhas agarrou-se  perna da cala do pai dela, deu uma rosnadela brincalhona e firmou as suas 
rijas pernitas no cho para puxar com toda a sua fora. Porque no comearem o primeiro dia da sua vida juntos da forma como que tencionavam continuar, com animais 
a terem um papel importante?
   - Quem  que os soltou? - perguntou Isaiah.
   O filho de Jake, Garrett, deslizou sobre o soalho de madeira envernizada at parar, olhou culpadamente para a me, Molly, e acusou:
   - Foi o Sly!
   Isaiah deu uma risadinha e passou um brao em redor da cintura de Laura.
   - Eis um rebento tpico da velha cepa dos Coulter: deitar as culpas ao outro.
   Molly e Carly comearam a tentar apanhar os cachorrinhos. Bethany seguia-as na cadeira de rodas, pronta a segurar os pequenos cativos felpudos no seu regao enquanto 
as cunhadas capturavam os restantes. Tucker e Ryan foram ajud-las.
   - Agora sabes porque  que eles fizeram o copo-de-gua na casa deles, me - disse Tucker, olhando por cima do ombro para piscar o olho a Mary. - Cachorrinhos 
mijes e a tua alcatifa no se do bem juntos. Podes agradecer  tua boa estrela.
   Mary olhou para a av de Laura, Etta, e sorriu. Estava na verdade a agradecer  sua boa estrela, mas por uma razo completamente diferente da que Tucker pensava. 
Ver a felicidade nos olhos de Laura e de Isaiah quando olhavam um para o outro era suficiente para aquecer o corao de qualquer me, especialmente por saber que 
fora em parte o seu plano de casamenteira que os reunira. Isaiah estava descontrado. Laura irradiava felicidade. Eram perfeitos um para o outro.
   Mas, afinal, Mary no soubera sempre isso?
   Sorrindo de presunosa satisfao, Mary voltou o olhar para Tucker. Ocorreu-lhe nesse momento que ele era o seu nico filho ainda solteiro. Suspirou. Ele fora 
sempre o seu filho mais difcil, a fazer sempre o oposto do que ela queria ou esperava que ele fizesse.
   Mary Coulter franziu ligeiramente o sobrolho. A atitude cavalheiresca de Tucker para com as mulheres fazia com que fosse difcil encontrar-lhe uma consorte, mas 
ela sentia-se  altura do desafio. Ele precisava de uma rapariga plena de genica - isso seria um atributo imprescindvel -, uma pessoa to bela quanto ele era formoso, 
com fibra suficiente para emparelhar com ele e lhe ripostar  altura.
   Por sorte, Mary at conhecia uma jovem com quatro irmos mais velhos que poderia ser um partido ideal para o seu filho voluntarioso e teimoso.
   Ah, sim, pensou ela enquanto bebia um pequeno golo de champanhe. Podia ali haver algumas possibilidades muito interessantes.

     
    FIM
    
1Po redondo de origem judaica, semelhante a um donut, mas sem ser doce e de interior denso e meio-cru. Muito popular nos Estados Unidos e no Canad. (N. do T.)

2Formas encurtadas das palavras "medications" e "temperatures" em ingls, intraduzveis para portugus. (N. do T.)

3 Raa de co pastor, originria dos EUA; apesar do nome, tambm conhecida como aussie (australiano). (N. do T.)

4 Tipo de casas de baixo custo muito em voga nos EUA para classes sociais de menos recursos, pr-fabricadas e transportadas inteiras para o terreno da pessoa, como 
se fossem caravanas. As de duplo corpo ou "dupla largura" (double-wide) so basicamente duas casas mveis transportadas em separado e unidas no local. (N. do T.)
5Possvel referncia  linha divisria disputada pelos Estados Unidos e pela Gr-Bretanhana primeira metade do sculo XIX, referente ao domnio das terras do Noroeste, 
junto ao rio Columba, e que ficou conhecida como "a Questo do Oregon". Actualmente, essa regio compreende, a sul da linha divisria, os estados americanos de 
Washington, Oregon, Idaho e parte de Montana, e a norte, as provncias canadianas da Columbia Britnica e de Alberta. (N. do T.)
6. Variante norte-americana do besigue, que  jogado com dois baralhos de 48 cartas. (N. do T.)
7. 
8. Jogo de cartas de ritmo acelerado, originrio da penitenciria americana de Leavenworth, em 1972.  jogado com um baralho de 52 cartas e, tal como o nome indica, 
um nmero de colheres (spoons) inferior em um ao nmero de jogadores. (N. do T.)
9. 
8"Dieta Cientfica". (N. do T.)

9Clube internacional exclusivo para indivduos com um quociente de inteligncia prximo do mximo mensurvel. (N. do T.)
10        Bureau ofLand Management: agncia norte-americana que administra os terrenos pblicos. (N. do T.)
11        Vulco situado no estado americano de Washington, que teve uma violenta erupo a 18 de Maio de 1980, matando mais de 50 pessoas e milhares de animais, 
deixando um rasto de destruio de vrias centenas de quilmetros quadrados. A ltima erupo foi a 10 de Julho de 2008. (N. do T.)
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